Visando ao início da discussão acerca do quanto o núcleo incomunicável do self em Winnicott tensiona a teleologia integrativa apresentada acima, gostaríamos de colocar uma questão sobre a distinção entre a teorização acerca da função especular em Winnicott e outra influente reflexão psicanalítica que lança mão da mesma metáfora, qual seja, a de Jacques Lacan. Tal distinção serviu e continua servindo como um índice rigoroso da diferença entre os dois psicanalistas (Kellond, 2019). Em Winnicott, conforme vimos, costuma-se destacar o rosto do outro real e concreto refletindo precisamente, “se tudo correr bem”, o rosto do self emergente do bebê. Com efeito, a alienação, neste cenário, aparece como consequência de um espelhamento não-adaptativo que, conforme Figueiredo (2009), “não poderá efetivar a tarefa do reconhecimento, criando imagens falsas e alienantes do self”, compreendidas como prejuízos à “instalação da autoimagem e da autoestima (dimensões do self)” (p. 138).
Com efeito, como versa o raciocínio costumeiro e sintetizado em Distorção do ego em falso e verdadeiro self (Winnicott, 1960/1990c), o self do indivíduo incorrerá em uma cisão, na qual uma parte dita “verdadeira” se retrairá, afastando-se do contato com o outro real para uma esfera protegida (alienada, pode-se dizer) por uma outra parte da cisão, “falsa”, que se adaptará ao outro que se impõe às necessidades do self imaturo. Com efeito, este é um cenário exclusivista e patológico que arrasta a noção de cisão como uma ocorrência extraordinária e desafortunada do desenvolvimento, trazendo consigo também a possibilidade de uma interpretação em que o decentramento do sujeito seja equivalente a este prejuízo na tendência integrativa.
Por sua vez, o espelho de Lacan, resumido acima, é a operação paroxística da instalação do imaginário, do engodo de totalidade que recobre o corpo despedaçado originário e aliena o sujeito no desejo do Outro. Kupermann (2014) sintetiza com precisão a diferença entre as duas figurações do espelho:
Desde Freud, a psicanálise nos apresenta variadas espécies de espelho. Há o espelho da neutralidade descrito no contexto de seus artigos sobre a técnica, segundo o qual o psicanalista nada faria além de refletir para o analisando as suas próprias fantasias atualizadas na transferência; há o
48 estádio do espelho formulado por Jacques Lacan, signo da alienação do sujeito capturado permanentemente na quimera narcísica construída a partir do desejo do Outro; e há o espelho sustentado pelo rosto da mãe no qual, segundo Donald Woods Winnicott, a criança reconhece seu gesto espontâneo e a experiência legítima de onipotência, criadora de si e do mundo que a circunda. (p. 18)
Peter Sloterdijk (2004) é ainda mais enfático quanto à distinção entre a posição de ambos os psicanalistas quanto ao papel e função do espelho no desenvolvimento. Seu argumento é o de que Lacan incidiu em um erro grosseiro, sobrevalorizando exclusivamente a imagem escópica da superfície refletora em detrimento da coerência de seu corpo, adquirida pela sustentação de um outro em momentos muito mais precoces. “A imagem própria especular, como tal”, escreve o filósofo,
não pode acrescentar à “auto”-averiguação da criança nada que não estivesse plantado desde há muito no nível dos jogos de ressonância vocais, táteis, interfaciais e emocionais e dos seus sentimentos internos. Antes de todo e qualquer encontro com a própria imagem no espelho um infans não descuidado “sabe” muito bem e com precisão o que significa viver de maneira não traumatizada no interior de uma dualidade continente e sustentadora. (p. 119)
O uso dos vocábulos “jogos” e “dualidade continente e sustentadora” remetem imediatamente ao fundo winnicottiano de sua crítica. Mesmo que Sloterdijk não tribute especificamente a Winnicott a alternativa “correta” frente ao “erro” de Lacan, encontramos no psicanalista inglês, conforme já vimos, as bases para fundamentarmos o encontro da criança com o rosto de seu cuidador primordial enquanto derivado de uma ação prolongada de sustentação não-intrusiva e que lhe ofereça, antes do registro escópico do rosto-espelho, a oportunidade para que seu self assente morada em seu próprio corpo que se supõe, então, integrado. Em síntese, em Lacan, o espelho resume a alienação do sujeito frente ao desejo do Outro e, em Winnicott, o espelho do rosto do cuidador atento e vivo reflete o que vê sua criança no transcorrer de seu self verdadeiro, de seu gesto espontâneo. Mas isso seria tudo?
Para Roberto Graña (2011), Lacan e Winnicott se aproximam na medida em que ambos textos, embora extremamente influentes, ignorem dimensões fundamentais do que o psicanalista brasileiro chama de “paradoxo da subjetivação”. Dimensões que se fazem consideráveis enquanto ausências na medida em que figuram em outros momentos, igualmente anteriores, da obra dos dois autores. Acompanhemos por um momento o psicanalista em sua reflexão.
49 Graña (2011) sustenta a ideia de que, em Lacan, a integração ou constituição do sujeito humano individuado certamente se dá ao modo da alienação, mas seria limitante enxergar especificamente neste texto tudo o que o psicanalista já havia dito acerca da função do espelhamento na constituição do sujeito humano. Em uma pesquisa atenta pelas obras anteriores ao Estádio do espelho, daquilo que chama de “fase fenomenológica” de Lacan, Graña aponta para o fato de que nas margens deste texto encontra-se o que em seu corpo é apenas enunciado de maneira pálida: a relevância da perspectiva da intersubjetividade. No texto de 1938 intitulado Os complexos familiares na formação do indivíduo, Lacan (1938/1985) dará ênfase à imagem do rosto de seu cuidador entre os primeiros interesses afetivos do recém-nascido, preeminente frente às demais sensações da percepção externa que constituem suas primeiras unidades de percepção. Afastando- nos da impressão simplista de que no Estádio do espelho se circunscreve apenas ao objeto real especular, Lacan escreve que
é preciso, porém, mencionar à parte, como um fato de estrutura, a reação de interesse que a criança manifesta diante do rosto humano: ela é extremamente precoce, observando-se desde os primeiros dias e antes mesmo que as coordenações motoras dos olhos estejam concluídas. (p. 25) Antes do texto clássico de 1949, com efeito, Lacan destaca insistentemente “as impressões estruturantes da subjetividade num inconsciente ainda não recalcado que a relação primordial com o outro humano tem a força de fundamentalmente promulgar” (Graña, 2011, p. 23). Ademais, aproximando-se ainda mais do Winnicott com o qual acostumamo-nos a pensar a importância dos cuidados primordiais, Lacan (1938/1985) ainda enfatiza que as relações eletivas da primeira infância permitem conceber na criança “certo conhecimento muito precoce da presença que a função materna preenche, e o papel de traumatismo causal que, em algumas neuroses e certos distúrbios do caráter, pode desempenhar uma substituição dessa presença”. Com efeito, ainda segundo o psicanalista francês, esse conhecimento muito arcaico “pouco se distingue da adaptação afetiva” (p. 25, grifos nossos).
Deve causar certo espanto aos leitores acostumados à enorme distância entre os postulados lacanianos e winnicottianos acerca do movimento constitutivo do sujeito humano e sua relação com o outro primordial que, nestes trechos e reflexões supracitados, as ideias avançadas guardam grande intimidade entre um e outro. Ainda mais se considerarmos, junto ao texto A agressividade em psicanálise (Lacan, 1948/1998), que o psicanalista pense que “no que tange ao rosto humano”,
50 o que demonstra o fenômeno do reconhecimento que implica a subjetividade são os sinais de jubilação triunfante e o ludismo de discernimento que caracterizam, desde o sexto mês, o encontro com sua imagem no espelho pela criança (p. 115).
Ou seja, mesmo que a especularização que se vê ao se estudar o pensamento de Lacan no Estádio do espelho não inclua explicitamente o rosto humano e a dimensão criativa e lúdica da experiência, não se pode ignorar que tais ideias estejam implícitas em seu raciocínio, em um diálogo silencioso e eloquente com Winnicott. Em ambos, propomos, apesar das diferentes tônicas manifestadas ao longo de suas obras, está presente a dimensão paradoxal da subjetivação que rende, no processo intersubjetivo, um único ser total (Winnicott, 1945/1987a) e ao mesmo tempo uma “imagem que o aliena em si mesmo” (Lacan, 1948/1998, p. 116). Graña (2011) sintetiza desta maneira sua percepção do paradoxo da subjetivação:
Há neste movimento constitutivo do sujeito algo que se aliena, mas há também algo que se oculta, que se introverte no modo do extravio, e que será inacessível doravante, algo que não se comunicará, nem aos outros nem ao próprio sujeito, senão fugazmente na ocorrência do tropeço, da falha, da torpeza ou da despalavra. Algo que é definitivamente sem nome, mas é capaz de manifestar-se como poiesis, acontecimento, criação. (p. 27) O que pretendemos apontar aqui, através desta intertextualidade em torno da metáfora do espelho em Lacan e Winnicott em seus textos correspondentes, é o fato de que a omissão de Lacan da dimensão criativa do sujeito na operação do espelhamento se aproxima da omissão de Winnicott da recusa do sujeito a ser reconhecido pelo outro, mesmo no contexto em que se lhe tenha oferecido as condições ideais para sua manifestação. “A teorização lacaniana preserva”, escreve Graña (2011), “um campo de liberdade para o jorro do sujeito, para sua sobreposição ativa aos laços alienantes no movimento de realização, no advento a si” (p. 32), mas que no Estádio do espelho “corre o risco de enfatizar excessivamente uma perspectiva cognitiva ou desiderativa”, na qual “o amor, que não é o mesmo que conhecimento nem o mesmo que desejo, parece estar fora de questão” (p. 35). Da mesma maneira que o espelho, em Winnicott,
sofre a vertigem de uma formulação romântica onde a indiferença e o ódio não são compreendidos no gradiente das respostas especulares. Ora, a mãe que ama vitalmente seu filho é tão espelho ou tão pouco espelho quanto a que odeia ativamente seu filho ou a que lhe é indiferente. Não existe a menor possibilidade humana de apreensão pura, direta e imediata do ser do bebê. (p. 35)
51 Graña (2011) aqui lança um expediente um tanto perigoso: se a mãe que é indiferente ao filho (muito mais inclusive que a que odeia o filho) é tão espelho quanto aquela que não é indiferente, qual o lugar da recusa da relação? Podemos tentar compreender o autor como insinuando que o espelho indiferente também é um tipo de especularidade se aceitamos a ideia de que o espelho não reflete um ente pré-moldado da realidade, mas que produz a própria realidade daquilo que toma forma no. Isto, porém, valeria ao campo da representação (egoica, portanto) do self, mas é difícil pensar que a recusa estética seria capaz de oferecer algum tipo de espelhamento. Quanto ao campo da estética na formação do self, aquele que vimos ser destacado por Sloterdijk (2004) e Safra (1999), o espelhamento é muito mais pertinente à presença afetiva (Kupermann, 2008b) do outro. Sem esta presença e o reconhecimento dela oriundo, a própria recusa do reconhecimento (representacional) não pode ser realizado. O sujeito deve ter tido a possibilidade de produzir algum lugar para onde se retirar. Mas o que seria este lugar?
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