1. O DISPOSITIVO DA SEXUALIDADE E A ORDEM DO PARENTESCO
1.3. Os paradoxos da identidade
A primeira grande questão dos estudos feministas foi entender a subordinação feminina em relação ao homem. Os chamados estudos gays e lésbicos, herdeiros do feminismo, trabalharam a partir do dado da estigmatização das identidades LGBT. Ambos os campos de estudo tratam, portanto, de sujeitos oprimidos pelas normas de gênero e sexualidade que fazem do homem heterossexual19 o sujeito inteligível por excelência, possuidor de predicados que o identificam com a própria humanidade, não à toa uma das formas de designar esta última é simplesmente “os homens”.
O estigma não é uma categoria a priori presente em um indivíduo ou grupos. Certo predicado é estigmatizado numa relação de poder, o que supõe o monopólio de definição do que seja o “normal” pelo polo dominante da relação (BECKER 1963). O homem heterossexual, alinhado ainda à outras pertenças sociais, como classe social, “raça”, país de nascimento, por exemplo, se identifica com a própria noção do que seja o humano por excelência.
A primeira forma dos movimentos feministas e dos movimentos LGBT, cada um a seu tempo, de contestar a ordem estabelecida foi a de pensar, tanto as mulheres quanto os/as LGBT como sujeitos políticos coletivos. A diversidade do que significa em amplos contextos sociais ser “mulher” e/ou ser “homossexual”, “bissexual”, “travesti” ou “transexual”, que se dá a partir de inúmeras interseções, tais como raça, classe, geração, dentre outras, foi subsumida pela característica generalizante de sujeitos marcados pela dominação masculina. A vantagem dos sujeitos políticos “mulher” e “homossexual”, assim como dos outros contemplados na sigla LGBT, é a extensão de sujeitos que pretende representar e o destaque à situação de opressão que estes vivem pelo fato de sua posição de “gênero” e/ou de “sexualidade”:
“A urgência do feminismo no sentido de conferir um status universal ao patriarcado, com vistas a fortalecer a aparência de representatividade das reivindicações do feminismo, motivou ocasionalmente um atalho na direção de uma universalidade categórica ou fictícia da estrutura de dominação, tida como responsável pela produção da experiência comum de subjugação das mulheres” (BUTLER, 2008, p. 21)
A extensão universal e genérica do termo político “mulher” tem sido apontada cada vez de modo mais crítico como silenciadora de inúmeras outras opressões e
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Sem explicitar aqui ainda outras características que perfazem esse sujeito ideal, tais como etnia, classe, geração.
permeada por relações de poder que não são visíveis em tais abstrações coletivas. Butler (2008) afirma que não basta se questionar como as mulheres podem se fazer representar mais plenamente na política. A crítica feminista também deveria se perguntar como a categoria “mulher”, sujeito do feminismo, é simultaneamente produzida e reprimida pelas mesmas estruturas de poder através das quais se procura sua emancipação.
A necessidade de representação política, que se tem realizado através da construção de sujeitos políticos coletivos, faz calar em nome da uniformidade uma multiplicidade de posições de gênero e sexualidade. Além do mais, como o trabalho político depende de certa sensibilização da opinião pública, da formação de uma consciência sobre a importância dos temas que se põe em pauta, a forma como se tem representado, preferencialmente, as pessoas LGBTT constituiria uma tentativa de incluí- las no paradigma estabelecido. Paradigma esse heteronormativo, esvaziando qualquer possibilidade de contestação das normas, ao apenas estendê-las a sujeitos antes não contemplados pelas mesmas.
Desta forma, a dinâmica da luta política dos movimentos LGBT seria marcada por uma tentativa de empurrar para a “inteligibilidade social” os que se encontram do outro lado da linha demarcatória que separa este primeiro campo da ininteligibilidade, da abjeção. Ao preço, no entanto, segundo certas críticas, de que tais indivíduos se enquadrem nos imperativos sociais postos como condições sine qua non da inteligibilidade social, que seriam de caráter heteronormativo. Isto se expressaria, por exemplo, na obrigação de uma apresentação máscula para homens gays ou na reprodução do modelo de casamento heterossexual pelos pares homossexuais.
O mais fundamental desses imperativos é a pretendida coerência entre diferença sexual, binariedade de gênero e desejo heterossexual. No entanto, tal coerência é um arranjo político, interessado em manter e justificar assimetrias de poder e não uma ordem simbólica decorrente da natureza sexuada dos corpos humanos. A redução dos gêneros possíveis a dois, masculino e feminino, propostos de maneira oposta e complementar um ao outro, se apresenta, de acordo com certas críticas contemporâneas, como uma coerção normativa à uma multiplicidade de experiências possíveis, tornadas abjetas por tal obrigação de coerência entre as instâncias acima citadas: “A regulação binária da sexualidade suprime a multiplicidade subversiva de uma sexualidade que rompe com as hegemonias heterossexual, reprodutiva e médico-jurídica” (BUTLER, 2008, p. 41).
O gênero, enquanto possibilidade que se esgota no binarismo “masculino x feminino”, seria, assim, uma “ficção reguladora” (BUTLER, 2008, p. 201). Ele proporciona um “senso de si” às pessoas, uma “identidade de gênero” viável àqueles que se experimentam, e se propõem às relações, como “homem” ou “mulher”. A inteligibilidade social, a possibilidade de ser reconhecido enquanto sujeito, ter acesso às benesses todas da existência em sociedade é tanto maior quanto mais a coerência esperada entre sexo biológico, gênero e heterossexualidade perfaz o “senso de si” do indivíduo.
As existências abjetas, aquelas que pela ruptura na coerência pretendida entre sexo/gênero/heterossexualidade, estão excluídas da possibilidade de serem sujeitos viáveis de forma plena, constituem um lócus social importante que ajuda a delimitar as fronteiras dos gêneros inteligíveis. Para Butler (1993) é a dinâmica de exclusão, de repúdio às incoerências da norma heterossexual que produzem o sujeito enquanto inteligível. O abjeto constitui assim a fronteira necessária à delimitação do “normal”.