3.2 Os Appunti : temas e ideologias
3.2.1 Os Partigiani
Os partigiani constituem um núcleo essencial da narrativa, e a partir deste primeiro grande recorte encontraríamos muitos outros, como a tragicidade da narrativa, representada através da dureza da Guerra e das condições precárias a que os partigiani
estão submetidos. Mas por partigiani o texto entende também os seres humanos, dialetizando a problemática das escolhas por nomes de batalha, facções ou partidos políticos.
As duas principais facções constituídas na Resistência italiana são os Azzurri, também chamados de badogliani por serem principalmente patriotas, ou seja, não comunistas, não fascistas, mas a favor de que a Itália voltasse a mãos italianas e esse feito havia sido delegado ao rei e ao general Pietro Badoglio, que do sul da península tentava reorganizar as tropas italianas contra a República Social Italiana. A outra facção era chamada os Rossi, fazendo alusão à cor vermelha dos comunistas, eram também conhecidos por garibaldini, nome que evocava os feitos de unificação de Giuseppe Garibaldi. Os principais inimigos das tropas partigiane das montanhas do Cunese eram os soldados da RSI, chamados ―republicanos‖ ou ―fascistas‖, e os alemães.
O narrador-personagem Beppe é descrito desde o início do livro como partigiano, porque, convém lembrar, essa já é a segunda vez que ele sobe as montanhas para lutar na Resistência. Pelos Appunti, não sabemos, portanto, nada sobre os primeiros momentos de Beppe entre os partigiani, seus estranhamentos, seu ritual de transformação. Quando somos apresentados a ele, ele já fala, se veste e pensa como um
partigiano e como tal exprime suas sensações:
Mas vai ser um dia bonito, e os dias bonitos têm um sentido também para nós
partigiani138. (...)
Sentamos pra comer bistecas e pra roubar pão fresco uns aos outros. Quem não viu
partigiani comer, nunca viu nada139. (...)
Sei que falo como cafona, mas como partigiano se desaprende o melhor140.
Sobre a primeira noite entre os partigiani temos um único relato ao longo de todo o livro:
138 ―Ma va a essere una bella giornata, e le belle giornate hanno un senso anche per noi partigiani‖
(FENOGLIO, 1994, p. 11).
139―Sediamo a mangiar bistecche e a rubarci l‘un l‘altro il pane fresco. Chi non ha visto partigiani
mangiare, non ha mai visto niente‖ (FENOGLIO, 1994, p. 19).
No fundo, nem ganha nem perde nada, porque a primeira noite entre os partigiani
de fato não se fecha olho. Acreditem, fica-se acordado pensando que aquele mudar de lugar para dormir muda tantas coisas: se agora te pegam dormindo ali, te tiram a pele ali mesmo. E você escuta no escuro os outros roncarem, e pensa que devem ser todos veteranos do pargianato, pra poderem dormir assim. Mas na manhã seguinte você vem a saber que a maioria é de pouco mais velho que você. E isso te conforta para as próximas noites141.
O olhar de Beppe recai, porém com algum desprezo, sobre muitos partigiani, principalmente os que ocupam cargos de maior prestígio. No trecho a seguir vemos o total desprezo pelas hierarquias, que lembram o Exército Régio fascista, e a descrição dos partigiani que ocupam altos cargos como prepotentes e incompetentes, salvo raras excessões, pois eram os partigiani sem distintivos que faziam a verdadeira batalha.
Na porta estacionam oito ou dez partigiani bem vestidos, bem armados, bem pançudos e prepotentes. São os caras da Equipe Comando Divisão, os guarda- costas, nós os chamamos os armigeri. Estudo um por um, e se eu fosse o Comandante, as costas eu guardaria sozinho.
Quase todos calçam botas alemãs e usam o cinturão do Gott mit uns, mas não os conquistaram eles. Aquela é presa de pobres partigiani destacados na casa do diabo: os mandaram em homenagem ao Comandante de Divisão, e naturalmente acabaram pegando eles. E como provavam, já inventavam a história de como os tinham conquistado, pra contar às garotas e àqueles partigiani que não os conhecem. Porque os partigiani novatos ou que vêm de longe, como os veem, imediatamente os estimam padreterno em fato de coragem e de manejo das armas, mas fora o chefe deles Moretto e um ou dois outros, a verdade é que os armigeri
são todos incompetentes. De Moretto não falo, Moretto é de fato quase um
padreternonaquele campo‖142.
141 ―In fondo, né ci guadagna né ci perde, perché la prima notte tra i partigiani proprio non si chiude
occhio. Ve lo dico io, si sta svegli a pensare che quel cambiar di posto da dormire cambia tante cose: se ora ti beccano a dormir lí, ti fanno la pelle sul posto. E senti nel buio gli altri russare, e pensi che devono essere tutti veterani del partigianato, per poter dormire cosí. Ma alla mattina dopo vieni a sapere che i piú sono di poco piú anziani di te. E questo ti conforta per le prossime notti‖ (FENOGLIO, 1994, p. 21).
142―Sulla porta stazionano otto o dieci partigiani ben vestiti, ben armati, ben pasciuti e prepotenti. Son
quelli della Squadra Comando Divisione, la guardia del corpo, noi li chiamiamo gli armigeri. Li studio uno ad uno, e se fossi io il Comandante, il corpo me lo difenderei tutto da solo. Quasi tutti calzano gli
Há ainda outro componente no tom sarcástico com que Beppe narra toda a reunião do Comando de Divisão, em que estão também os personagens acima descritos: Beppe narrador parecia acreditar num sentido anárquico da Resistência e trata com desprezo e impaciência toda tentativa de sistematização da guerrilha.
Sobre o ambiente de precariedade e disputa até entre os partigiani de uma mesma formação, lemos a resposta de Beppe diante de uma chamada urgente, no meio de um almoço, numa pensão: ―Armados estamos já armados, todos tinham mantido a arma a tiracolo, porque é um lugar, este, que se não exatamente a arma, ao menos os carregadores te roubam fatalmente‖143.
Outro motivo de desprezo por parte do narrador para com alguns partigiani é a mediocridade de intuitos e intenções que movem o dia a dia da batalha. Aqui, Beppe narra que mesmo Moretto, o único dos partigiani descritos anteriormente como merecedor de respeito em campo de batalha, faz um pedido ao comandante para evitar problemas na hora dos fuzilamentos: ―Moretto implora ao Comandante para deixar aqui em cima Napoleone e Giulio, ou depois lá em baixo em Rocchetta acontece de novo a chatice do de quem é a vez‖144.
Numa das cenas mais fortes do livro, os partigiani Blister e Jack, antes companheiros de batalha, cometeram abusos a uma família de civis e devem ser fuzilados em pouco tempo. O narrador se mantém ainda mais imparcial e indiferente à dramaticidade da
stivaletti tedeschi e portano il cinturino del Gott mit uns, ma mica li han conquistati loro. Quella è preda di poveri partigiani distaccati a casa del diavolo: li han mandati in omaggio al Comandante di Divisione, e naturalmente han finito di beccarseli costoro. E come li provavano, già s‘inventavano la storia di come li han conquistati, da raccontarsi alle ragazze e a quei partigiani che non li conoscono. Perché i partigiani novelli o che vengono da lontano, come li vedono, súbito li stimano padreterni in fatto di coraggio e di maneggio delle armi, ma tolto il loro capo Moretto e uno o due altri, la verità è che gli armigeri son tutte schiappe. Di Moretto non dico, Moretto è davvero quasi un padreterno in quel campo‖ (FENOGLIO, 1994, pp. 33-34).
143―Armati siamo già armati, tutti avevan tenuta l‘arma a tracolla, perché è un posto, questo, che se non
proprio l‘arma, almeno i caricatori te li fregano fatalmente‖ (FENOGLIO, 1994, p. 29).
144 ―Intanto il Moretto prega il Comandante di tener quassù Napoleone e Giulio, o poi laggiù a Rocchetta
cena, descrita em detalhes que trazem à tona outras tantas problemáticas da guerrilha, a partir do ―que ele‖ (linha 2), usando o discurso indireto livre, numa forma de diálogo em que o narrador atribui a si próprio a função de reproduzir a fala dos personagens, podendo então se posicionar em relação a elas:
Perguntou se podia fumar, se enrolou um cigarro, depois explodiu gritando que ele era um partigiano dos primeiros, que lembrássemos de como ele tinha se comportado na batalha de Alba e que ele e Jack tinham roubado só porque há seis meses não tinham um centavo no bolso. Ele e Jack não eram como Beppe e Cervellino e Piccàrd que tinham papai que mandava dinheiro da cidade pra eles. E nem eram daquela zona como a maior parte dos outros que em um pulo estão em casa e se trocam por baixo e pegam dinheiro(...). Depois Cosmo lhe gritou cala a boca, ladrão, ladrão nojento, e Blister abaixou a cabeça e pediu baixinho se de vez em quando poderíamos dizer a hora145.
E no caminho feito com os dois partigiani traidores para o campo em que serão fuzilados, mais uma demonstração de excessos e violências desmedidas atestam a fragilidade da escolha pelo lado a que os sujeitos pertenceriam naquela guerra civil, em que nem só de mentes reunidas por uma boa causa eram compostas as facções de
partigani e mesmo os bem intencionados estavam sujeitos às provações que poderiam fazê-los transgredir as regras daquele grupo e ser friamente humilhados e fuzilados pelos seus, até ontem, companheiros:
Aqueles do Caramba agora querem cacetear a parte deles, mas Cosmo e Set se metem no meio, diz Cosmo que um pouco mais de murros os tomaria da
145 ―Chiese se poteva fumare, s‘arrotolò una sigaretta, poi scoppiò a urlare che lui era un partigiano dei
primi, che ci ricordassimo di come s‘era portato alla battaglia di Alba e che lui e Jack avevano rubato solo perché da sei mesi non avevano un soldo sulla pelle. Lui e Jack non erano come Beppe e Cervellino e Piccàrd che avevano papà che gli mandava soldi dalla città. E nemmeno erano dei posti come la maggior parte degli altri che in un salto sono a casa e si cambiano da sotto e prendono soldi. (...)Poi Cosmo gli gridò fa silenzio, ladro, ladro schifoso, e Blister chinò la testa e chiese piano se di tanto in tanto gli dicevamo l‘ora‖ (FENOGLIO, 1994, p. 56).
metralhadora do Set. E eles precisam se contentar em cuspir, em gritar criminosos e passar adiante146.
E, em seguida, a cena do fuzilamento, em que o narrador deixa entrever um carinho misturado com frieza incompreensível pelo companheiro-partigiano-traidor:
Set mira Blister e lhe diz: – Primeiro grita Viva Badoglio! E Blister ri e diz: – Mas sim, viva Badoglio! – e ri.
Set apertou, mas a arma se encrava, tic. Set fica branco, grita a Cosmo que é a primeira vez que a sua metralhadora o trai, e que não lhe substitua que ele conserta imediatamente. Blister começou a rir, ri altíssimo e Set o faz morrer enquanto ri e nós de Blister vamos lembrar sempre assim. Em seguida tem Jack que corre no meio porque alguém lhe deu um empurrão e Set atira nele correndo, porque é certo que Jack cairia no chão assim que parasse, e não é bonito fuzilar um homem caído no chão, não é fazer justiça‖147
.
A temática do erotismo, muitas vezes explícita nos Appunti, é aqui inserida na temática dos partigiani por não existir no livro nenhum outro ponto de vista que não seja o dos
partigiani homens sobre as mulheres. Esse ponto de vista é partilhado e não há vozes dissonantes: as mulheres que estão por qualquer motivo envolvidas na guerrilha são de ―uso comum‖ e ―desfrutadas‖ para fins sexuais (com excessão de Olga, mulher do comandante), as filhas de camponeses ou ajudantes nas chácaras são descritas como feias, fedidas e de dar ojeriza em quem as olha, e as meninas burguesas, filhas dos civis das cidades, são desejadas e por elas os partigiani se apaixonam.
146 ―Quelli di Caramba adesso vogliono cazzottare la loro parte, ma Cosmo e Set si mettono in mezzo,
dice Cosmo che un altro pò di pugni li toglierebbe al mitra di Set. E quelli devono contentarsi di sputare, di gridare ai delinquenti e passar via‖ (FENOGLIO, 1994, p. 57).
147 ―Set mira Blister e gli dice: – Prima grida Viva Badoglio! E Blister ride e dice: – Ma sí, viva
Badoglio! – e ride./ Set ha premuto, ma l‘arma s‘inceppa, cik. Set si sbianca, grida a Cosmo che è la prima volta che il suo mitra lo tradisce, e che non gli dia il cambio che lui lo ripara subito. Blister s‘è messo a ridere, ride fortissimo e Set lo fa morire che ride e noi Blister ce lo ricorderemo sempre cosí. Poi c‘è Jack che corre in mezzo perché qualcuno gli ha dato uno spintone e Set lo spara in corsa, perché è certo che Jack stramazzava come si fermava, e non è bello fucilare un uomo insaccato in terra, non è far giustizia‖ (FENOGLIO, 1994, p. 59).
Em nós começa a dar vontade, paramos nas estradas olhando em baixo as moças que estão pastando nos declives. Olhamos para elas longamente e perigosamente, rodando os punhos nos bolsos dos calções, mesmo sabendo que estas moças fedem de cabra e vestem por baixo como as freiras. Piccàrd diz saber que certas loiras hoje em dia vestem roupas íntimas pretas‖148
.
Nos dias mais duros da Resistência, os partigiani se encontram, todos em péssimo estado:
Cada um olha se o outro é ainda mais mal vestido, depois nos olhamos em face e esperamos quem é o primeiro a dizer que assim não se pode mais continuar. Tem dois deles que ainda vestem as bermudinhas de verão e batem joelho contra joelho com um barulho que nós ficamos todos calados pra melhor ouvir. Até que os dois colocam uma mão entre as pernas e ficam assim curvados. Cosmo lhe pergunta porque não se fazem dar um par de calças velhas de algum agricultor, mas eles dizem que não é coisa de partigiani, não seria mais um uniforme‖149.
Nesse encontro, Cosmo era o comandante admirado e respeitado por todos. O encontro tinha sido marcado para que os partigiani recebessem o comunicado do mensageiro, cujo recado falava de ordens superiores para dissolver os destacamentos, esconder as armas, trabalhar nas chácaras ou descer para se esconder nas cidades e esperar o inverno passar: ―Ali na hora, diante da pergunta de Cosmo, ninguém disse que desce. Mas depois, dia após dia, ficamos sempre em menor número‖150.
148―A noi comincia a venire la voglia, ci fermiamo sulle strade a guardar giù le ragazze che stanno a
pascolo sui pendii. Le guardiamo a lungo e pericolosamente, ruotando i pugni nelle tasche dei calzoni, anche se sappiamo che queste ragazze puzzano di capra e vestono da sotto come le suore. Piccàrd dice di sapere che certe bionde oggigiorno portano la biancheria nera‖ (FENOGLIO, 1994, p. 68).
149 ―Ognuno guarda se l‘altro è ancora più mal messo, poi ci guardiamo in faccia e aspettiamo chi fa il
primo a dire che cosí non si può più andare avanti.
(...) Ce n‘è due che portano ancora i calzoncini estivi e battono ginocchio contro ginocchio con un rumore che noi stiamo tutti zitti per meglio sentirlo. Finché i due si mettono una mano tra le gambe e stanno cosí piegati. Cosmo gli chiede perché non si fan dare un paio di calzoni vecchi da qualche contadino, ma loro dicono che non è roba da partigiani, non sarebbe piú una divisa‖ (FENOGLIO, 1994, p. 69).
150 ―Lí sul momento, a domanda di Cosmo, nessuno ha detto che scende. Ma poi, giorno per giorno, siamo
Entre aqueles que desceram para se esconder nas cidades, estava Cosmo, o comandante, oficial de aviação, responsável pela defesa de Alba, inspetor do triângulo Benevello- Neive-Castagnole, que os abandona covardemente. O narrador, porém, não o julga, deixando sutilmente no ar a covardia pelo modo como Cosmo avisa que vai descer, mas a reação de todos é fria e trata de deixar claro que diante de tamanha provação aquela decisão não pode ser julgada e Cosmo não pode ser tido como desertor:
Em seguida saímos do castanheiro, Cosmo vem por último e diz nas nossas costas que ele faz um outro caminho. Nos viramos, Cosmo diz que vai descansar por alguns dias em uma casa de Neive, onde ele tem o amor, e se não sabíamos agora sabemos. Tá bom, Cosmo, nós três você vai encontrar sempre na Langa. Tchau, Cosmo, um abraço pra namorada e quando puder fala também de nós pra ela151.
Depois, na última página do livro, quando Beppe fica sozinho, procura pelo seu comandante em Neive, onde ele disse que estaria, e não o encontra, mais uma vez reforçando o abandono sofrido, abandono este que retoma ainda o abandono sofrido pelo Exército Régio de seus superiores, no 8 de setembro de 1943.