O ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LE
2. OS PASSOS DE UM JOVEM PERCORRIDOS COM LIBERDADE
Livre agir é agir em público, e público é o espaço original do político.
(Hannah Arendt, 2007)
Em 2008, Ruam inicia o cumprimento da medida socioeducativa de liberdade assistida (LA) 7. Vem
encaminhado pela Vara Infracional do Juizado da Infância e da Juventude de Belo Horizonte8, por ter
cometido ato análogo ao roubo.
No ano de 2005, o adolescente havia sido convocado a esse cumprimento fruto de seu envolvi- mento com o tráfico. Naquela ocasião, por fazer uso contínuo e excessivo de maconha e outras substân- cias, é direcionado para tratamento no Centro Mineiro de Toxicomania – CMT9. Entre tratamento para o
uso de drogas e cumprimento de LA o jovem não se implica com sua responsabilidade jurídica e seu caso é retornado ao Juizado.
Após 60 dias no Centro de Internação Provisória/Dom Bosco10 – CEIP já em 2006 quando a situ-
ação do jovem se complica, pois ele se envolve em uma briga com um amigo que estava saindo com sua
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irmã, toma vários tiros e fica em coma por um mês.
Em 2007, retoma o cumprimento de LA. O advogado do programa emite um documento ao Jui- zado, pois, o adolescente não poderia cumprir a medida na regional 1 (2005) em função do risco de vida que permanecer nessa região envolvia, efeito de briga com o namorado da irmã e da situação do tráfico de drogas. Ele iniciaria tratamento no CRER-VIP11 sendo acompanhado posteriormente no CMT.
Em 2008 o jovem é encaminhado a regional 2, na qual a técnica pode acompanhá-lo a partir das orientações do Juizado: importância em dar continuidade ao tratamento no CMT e ênfase na situação de ameaça ao adolescente.
Ao chegar lá relata que não se encontrava mais em tratamento no CMT, pois, alguns adolescentes que representavam perigo para ele circulavam próximo dali. Quando interpelado acerca da ameaça que sofreu, Ruam diz ter roubado a “boca” de um traficante no bairro onde era ameaçado, que isso o havia colocado em risco de vida.
Ele conta um pouco da sua história: viveu com sua avó até os 10 anos. Seus pais haviam se sepa- rado e seu pai, algum tempo depois, fora preso por tráfico de drogas. Ademais pouco sabe sobre ele, a não ser que o pai deixou 6 filhos para sua mãe criar, nunca deu assistência, abandonou a família, bebia muito, batia em Ruam e em sua mãe.
A mãe do adolescente comparece após 2 meses de cumprimento de LA informando que Ruam estava no- vamente em risco de vida devido a uma acusação por assassinato. O irmão do jovem havia sido preso, acusado de ter matado o jovem que teria antes ameaçado matar Ruam. Embora seu irmão tivesse sido preso a culpa de tal situação estava localizada - na fala da mãe - sobre Ruam. Segundo ela, o filho que estava preso nunca havia se metido em confusão, era trabalhador, um filho perfeito. Ela passa a culpar Ruam, afirmando que era ele quem deveria estar preso e dizendo não suportar as confusões do primeiro, comparando-o ao seu ex-marido.
Assim, o adolescente não poderia mais residir na casa de sua mãe. Com a proposta de dar trata- mento à demanda da mesma, o caso é encaminhado ao Programa de Atenção aos Adolescentes Ameaçados de Morte/MG12 que decidiu pela sua “não inclusão” por avaliar ser a demanda uma questão particular da
mãe e não de uma ameaça real. Ruam passa a viver com a irmã em local também conturbado. Esta reafirma que ele é culpado de toda a situação, que continua usando drogas e que não irá mais aceitá-lo em casa. Ao que o jovem se posiciona: “minha irmã fala que sou um drogado, abaixo a cabeça para não bater nela. Tive mesmo uma recaída. Tenho medo que as coisas recomecem”.
Nesse contexto, apresentamos ao jovem a possibilidade do mesmo ter um orientador social vo- luntário13, uma pessoa da sociedade civil disposta a exercer o papel de “referência ética” para ele. Ele
aceita a proposta e passa a se encontrar semanalmente com seu orientador, presença fundamental para Ruam no cumprimento da LA em relação: ao trabalho, à construção de uma referência masculina, ao vín- culo afetivo.
Em 2008 a namorada de Ruam, M., engravida e ele começa, então, a ser perguntar sobre o que é um pai. Inicialmente o casal discute sobre o que fazer. M. quer tirar o filho. Ruam intervém dizendo que quer tê-lo e que o pastor anunciou que “se eu fizer tudo direitinho na minha vida o nenê nasce”. Acredita
em uma revelação da igreja: “meu filho vai ser o meu caminho”.
A mãe do jovem muda e este volta a morar com ela que em seguida vai a trabalho para o Espírito Santo e o filho fica residindo sozinho. Ruam irá se referir à ida da mãe como “situação de abandono”, então, retoma o envolvimento com o tráfico sob a alegação de que não é amado, que não vale nada. Sua casa é invadida e roubada pelos mesmos traficantes com os quais havia se envolvido. O proprietário cobra o aluguel, e por não ter como pagar, não pode mais morar ali.
Em 2009 Ruam é encaminhado para o abrigo14. O orientador social arruma um emprego no saco-
lão e o abrigo o aprova. O adolescente contribuía levando verduras e legumes para a instituição. Sentia-se valorizado.
Algum tempo depois, Ruam é pego fumando maconha com os colegas. O abrigo quer expulsá-lo. Sustentamos o oposto dizendo que o jovem tem demonstrado responsabilidade com o abrigo, que é o momento é delicado e que o trabalho e o retorno para a escola são fundamentais na sua vida. A psicóloga do abrigo15 diz não acreditar que o jovem tenha interesse em trabalhar e estudar. Perguntamos se ele tem
faltado ao serviço. Ela afirma que não. Dizemos a ela que de fato o jovem estava fumando maconha, mas que era possível relevar o caráter normativo da expulsão em relação a isso. Logo, o jovem é mantido ali.
Para Ruam o uso da maconha que antes o deixava calmo, começa a deixá-lo confuso. Conversou também com o orientador social a respeito. Após elaboração conclui: “homem que é homem tem res- ponsabilidade. Minha filha vai nascer. Quero ser um pai admirado, respeitado. Se eu continuar fumando maconha ela não vai me respeitar”. Para então de fumar maconha e se distancia do grupo.
Diz ter pensado muito na história de se sentir abandonado porque agora percebe que tem o re- conhecimento das pessoas, conseqüência de suas ações: “esse negócio de ser abandonado, não estou disposto a ficar nessa”.
Sai o ultrassom de sua filha, trata-se de uma menina. O jovem afirma que ainda precisa de uma orientação em relação ao pai que quer ser: “Não quero ser como meu pai, quero cuidar e dar carinho”. Começa a ser reconhecido pela qualidade de seu trabalho.
O jovem já estava a dois meses no abrigo e em setembro faria 18 anos. Passamos a discutir junto à monitora a situação e a saída do jovem do abrigo, ele arruma emprego em uma marcenaria.
O abrigo investiga a situação familiar do jovem de forma que pudesse trabalhar na perspectiva de seu retorno ao lar. A avó relata que Ruam é aquele que faz tudo errado e que a mãe do jovem cometeu um grande erro ao ter tirado ele dela. Para ela, a mãe do jovem havia se “intrujado” com gente envolvida no tráfico e toda a tragédia na família tinha surgido daí. Não aceita mais o neto em sua casa.
Ruam vinha dizendo de sua responsabilidade, de sua maturidade, da importância de ter sua pró- pria casa. Reforçamos, pois, a sua autonomia, demarcando a possibilidade de sua saída. No dia seguinte ocorre uma confusão no abrigo. Um dos colegas rasga a sua carteira de identidade, isso é tomado por Ruam como ameaça às suas pequenas travessias rumo à vida adulta. Ruam “pega seu colega de porrada” e quase o enforca. O abrigo o expulsa. Ruam chega à regional, após ter passado a noite na rua, desolado: “tava tudo indo bem, vai começar tudo de novo a confusão”.
Ele resta novamente sem moradia. A relação com seu patrão era muito boa e o mesmo estava a par
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do cumprimento da LA. Optamos por entrar em contato com aquele para verificar se Ruam poderia dormir na marcenaria, até que conseguíssemos organizar a situação, o que não foi possível. O jovem é encami- nhado para outro abrigo, continuou a trabalhar esse chefe, um homem de extrema importância em sua vida, que lhe servia de modelo de disciplina, paciência, esforço, comprometimento.
Ruam fica um mês no abrigo e diante da rigidez das normas da instituição (especialmente em re- lação aos horários que atrapalhavam as visitas a sua namorada) e de suas conquistas, anuncia sua saída. Vai morar com uma amiga da mãe, ajuda em casa financeiramente e as coisas voltam a caminhar.
Nasce sua filha. Sua relação com a família da namorada ganha novos contornos. Ele olha um bar- racão para morar. Compra algumas coisas, mas “toma um cano” do proprietário. Sua mãe propõe que ele more na casa dela com sua filha e seu outro neto, desde que o mesmo cumpra com sua responsabilidade. O trabalho na marcenaria caminhava bem, exceto pelo fato de que seu patrão atrasa seu pagamento, o que provoca o abandono do ofício. Intencionava juntar dinheiro para construir um barracão no lote da sogra. Ele havia sido dispensado do exército, mas precisaria regularizar a sua dispensa para assinatura de sua carteira de trabalho. Nesse ínterim Ruam faz alguns bicos na construção civil.
Conversamos com Ruam sobre o encerramento da sua medida: retomamos sua entrada no LA e as questões manifestas inicialmente. Localizamos com ele que a construção de um lugar no campo do tra- balho e o reconhecimento daí advindo, somados ao contorno dado a questão “o que é ser um pai”, foram fundamentais para ele que a princípio estava abandonado de referências. Ruam não era registrado com o nome do pai. Ainda hoje ele está às voltas com o abandono e o reconhecimento. Circula. O nascimento de sua filha foi também norteador. Ruam desloca de “menino problema”, “culpado”, “drogado” para “pai de família”, “homem da casa”, “provedor”.
Em 2010, não mais em cumprimento de LA, às vezes Ruam vai à regional para dizer como anda a vida, mostrar sua filha, pedir alguma orientação. O programa continua ali como um espaço político entre tantos outros pelos quais esse jovem transita, se enlaça, des-enlaça.
3. CONCLUSÕES
Iniciamos este texto dizendo que a política é cotidiano e com Garcia (1997: 27) podemos afirmar que “a prática política do dia-a-dia se faz no miúdo, no varejo, como se disse a propósito do sacolão”. O profissional há, pois, que ser inventivo e persistente, além de ter em mira a construção da política no in- terstício constituído entre as instituições, os atores sociais e os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa. A orientação pela politização do espaço público com margens de liberdade para o jovem e pelo singular do caso é a tônica da experiência desejável de socioeducação, tal e qual delineada pelo ECA.
A recusa à reprodução da lógica de segregação-punição do adolescente em conflito com a lei, porque geradora da criminalização da adolescência, fomenta nesse jovem o desejo de conquista de um espaço para chamar de seu na cidade, assim como o caso Ruam atesta. Um esforço dialético e poético de fabricação de uma efetiva política pública voltada para o adolescente em conflito com a lei deve susten- tar a experiência do psicólogo na operacionalização do sistema socioeducativo. “A principal função do
profissional técnico é, a partir da escuta do adolescente, trabalhar com ele as questões pertinentes à subjetividade, às dificuldades relacionadas à vida pessoal, familiar, comunitária, escolar e profissional. Quando necessário, ele deverá intervir com os parceiros da rede de atenção, com os aparatos da cidade, dos quais o adolescente pode se beneficiar, desde a escola, cursos profissionalizantes, serviços de saúde, esporte, lazer, para que se sinta respeitado, na sua liberdade e dignidade, como qualquer outro cidadão. Essa inserção promove, assim, a sustentação de uma comunidade socioeducativa para que o jovem não reincida na prática de atos infracionais” (Medidas Socioeducativas em Meio Aberto: a experiência de Belo Horizonte, 2010, vol. 1: 36).
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NOTAS EXPLICATIVAS
1 Uma das seis medidas socioeducativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente como forma
de responsabilização do adolescente pelo ato infracional cometido.
2 Esse adolescente foi acompanhado por Aline Bemfica, no período de 2008 a 2010, no Programa Liberda-
de Assistida, em Belo Horizonte.
3 A esse respeito ver “Metamorfoses do espaço”, Milton Santos, publicado pela EDUSP, São Paulo, em
2008.
4 Em “Fragmentos de um discurso amoroso” (1977), ao localizar o acontecimento como espaço da contin-
gência, Roland Barthes nos dá a seguinte conceituação: “contingência - pequeniníssimos acontecimentos incidentes, reveses, bagatelas, mesquinharias, futilidades.” (BARTHES, 1977: 87)
5 Definição de sujeito de acordo com o Dicionário de Psicanálise. ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. “Em psicanálise S. Freud empregou o termo, mas somente J. Lacan, entre 1950 e 1965, conceituou a noção lógica e filosófica do sujeito no âmbito de sua teoria do significante, transformando o sujeito da consciência num sujeito do inconsciente, da ciência e do dese- jo. Foi em 1960, em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, que Lacan, apoiando-se na teoria saussuriana do signo linguístico, enunciou sua concepção da relação do sujeito com o significante: “Um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante”. Esse sujei- to, segundo Lacan, está submetido ao processo freudiano da clivagem do eu”.
6 Conforme esclarece Badiou, em entrevista realizada por Fernanda Otoni e Kátia Botelho, em 1996: “A
questão da lei tem dois aspectos: há a questão da lei social e da lei estatal. Podemos mostrar que essa questão é contingente e antes de tudo uma ficção. Mas a psicanálise mostrou que há um outro sentido da lei, que há uma figura da lei que constitui o próprio desejo. É, pois, na função da lei oficial e da lei do desejo que se realiza nossa obediência, nossa tendência a obedecer. E para que essa tendência a obedecer se enfraqueça ou ceda é preciso que em um determinado momento algo separe a lei do nosso desejo da lei oficial. Ora, é exatamente o que eu chamo de acontecimento. Um acontecimento é esse movimento e que o desejo deixa de investir no universo da lei geral e exige sua própria lei. Mas para isso é preciso um corte, normalmente não é assim”.
7 O Programa Liberdade Assistida da Prefeitura de Belo Horizonte está inserido na política da Secretaria
Municipal Adjunta de Assistência Social/PBH. Criado em 1998, o serviço prioriza práticas de educação formal, de lazer, culturais, profissionais e esportivas através da inserção dos adolescentes em atividades na cidade. A proposta é fazer com que o adolescente passe a interagir de forma participativa na socie-
dade. O serviço é regionalizado, existindo, portanto, em cada um das nove regionais de Belo Horizonte, estando na regional centro-sul a sua gerência.
8 A Vara da Infância do Juizado da Infância e da Juventude de Belo Horizonte foi criada em 2004. Desde
a criação do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional – CIA-BH – esse centro passou a abrigar em um único espaço aquela vara, a Promotoria da Infância e da Juventude, a Defensoria Pública, a Subsecretaria de Atendimento às Medidas Socioeducativas (Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais) e as Polícias Civil e Militar. Nos dois momentos, a Vara Infracional situa-se no centro da cidade.
9 Centro Mineiro de Toxicomania, instituição da Rede FHEMIG (Fundação Hospitalar do Estado de Minas
Gerais) Foi um dos primeiros serviços públicos de saúde destinados ao tratamento de alcoolistas e toxicô- manos. A partir do referencial teórico da Psicanálise, o CMT desenvolve sua experiência clínica, contando também com outras áreas de saber, como a clínica médica, a psiquiatria e a saúde mental. O CMT está lo- calizado no centro de BH. A inclusão do adolescente para tratamento no CMT deu-se sob medida protetiva determinada pelo juiz, de acordo com o artigo 101, parágrafo VI do ECA, que versa sobre “a inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos”.
10 Centro de Internação Provisória/Dom Bosco – CEIP - principal instituição de acautelamento provisório
de Minas Gerais. A precariedade da estrutura e a superlotação da unidade são temas de ação civil pública promovida pela Promotoria da Infância e da Juventude de Minas Gerais desde 2007. Atualmente, o proces- so tramita no Tribunal de Justiça de Minas. O governo mineiro realizou reformas no espaço, o que signifi- cou melhoras nas condições de salubridade do espaço, de acordo com o Ministério Público. Mas o proble- ma da superlotação permanece. O CEIP/Dom Bosco está situado no grande complexo “prisional” que fica no bairro Horto/BH, ao lado da prisão feminina, do centro de encaminhamento para semi-liberdade e de centros de internação para adolescentes em conflito com a lei.
11 Centro de Recuperação e Reeducação das Vítimas do Álcool e das Drogas – CRER-VIP – organização não-
-governamental que conta com voluntários e tem cunho religioso. De acordo com informação do site da instituição: “É um Centro Escola Superior de Recuperação e Reeducação das Vítimas do Álcool e das Drogas, dedicado à reabilitação e reinserção social de vidas prisioneiras”. Essa comunidade terapêutica, CRER-VIP – Regional Grande Belo Horizonte está localizada na cidade de Vespasiano, há 27 km de BH. Neste caso, foi também a partir de medida protetiva determinada em audiência com o juiz que ocorreu o encaminhamento do jovem para tratamento.
12 Programa de Proteção às Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte é uma ação coordenada pela
Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República que visa à proteção de crianças e adolescentes comprovadamente em situação de ameaça de morte, ou seja, em casos extremos se constitui
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com última alternativa. Foi fundado sob a base legal do decreto 6.231/2007 e que está em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente.
13 O orientador social voluntário é peça fundamental na efetivação da medida socioeducativa de liberdade
assistida. A idéia é que a sociedade civil também atue na construção dessa política, em movimento de par- ceria com o poder público. Há dois objetivos básicos nessa parceria: 1) fazer com que a população se en- volva com a questão dos adolescentes infratores, lhe facilitando a construção de sua cidadania e também a ruptura com a prática infracional; 2) intermediar as relações desses adolescentes com a cidade, uma vez que o orientador se coloque como referência ética para aqueles. Essa experiência inédita do Liberdade Assistida já foi reconhecida nacionalmente, através do recebimento do Prêmio Socioeducando (ILANUD/ UNICEF), em 1999. Informações retiradas da publicação sobre a medida, PBH, 2010.
14 Segundo o ECA, a aplicação de medida protetiva se dá em contexto de ameaça ou violação de direitos
do adolescente e o artigo 101, parágrafo VII menciona a possibilidade de abrigamento do adolescente. É importante mencionar que o Estatuto afirma que as medidas protetivas poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente com as medidas socioeducativas, no caso de se tratar de adolescente. E ainda, o ECA destaca que o abrigamento só deverá ter lugar quando esgotarem as possibilidades de fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários em espaço aberto, o que traduzido é da seguinte maneira no parágrafo único do artigo 101: a medida de abrigamento deve ser provisória e excepcional, utilizável como forma de transição para colocação em família substituta, não implicando privação de liberdade. Nos dizeres de Martinez & Silva (2005): “Na prática quotidiana, entretanto, observa-se que a escolha pela colocação em abrigos acaba sendo uma das principais, quando não a única forma de atuação frente à problemática familiar reproduzindo, assim, modos tradicionais de institucionalizar esta população, tendo como uma das inúmeras conseqüências desta prática a descontinuidade, ou até mesmo o rompimento, dos vínculos familiares”.
15 Segundo Oliveira (2006) “Observando as práticas cotidianas das instituições de abrigo constata-se,
muitas vezes, que estes são ambientes regrados por um grande número de normas: horário para acordar, horário para realizar as refeições, horário para organizar os espaços, horário para sair, para chegar, ho- rário para banho, para falar ao telefone e até horário para se relacionar, já que situações que poderiam promover relacionamentos só ocorrem dentro de horários e lugares pré-determinados pelas normas. O