A partir da observação das ocorrências históricas relacionadas à representação de interesses, pode-se afirmar sua recorrência desde os primeiros sinais de alargamento da sociedade política, ou seja, desde o momento em que a família perdeu a exclusividade do exercício do poder. Fustel de Coulanges relata a composição dos primeiros senados138, na antiguidade, como uma corporação
de representante de interesses das famílias, uma vez que elas
“conservavam, tanto quanto possível, as antigas formas do regime patriarcal (...) Também em Roma, cada uma das famílias patrícias vivia rodeada de seus clientes. Iam à cidade para as festas do culto público e para as assembléias (...) Só os patrícios podiam ser cônsules, e só eles compunham o Senado (...), administravam a justiça e conheciam as fórmulas da lei139”.
138 Os senados das federações hodiernas persistem com a idéia da representação de interesses, só
que não mais de famílias, mas de estados-membros, os quais seriam, simbolicamente, na lógica aristotélica da evolução dos entes políticos, uma etapa a mais. Veja-se, por exemplo HAMILTON, A., MADSON J. e JAY: El Federalista. México: Fondo de Cultura Económica, 2001, p. 262. Este autores consideram tão óbvio o direito de representação dos Estados, a partir de uma casa legislativa própria que introduzem o tema com as seguintes palavras: “Es igualmente superfluo explayarse sobre el nombramiento de los senadores por lãs legislaturas de los Estados”.
Na Idade Média a representação de interesses atinge seu ponto extremo e se expressa pelo fenômeno político conhecido como pluralismo de centros de poder140. Não obstante sobre um mesmo território houvesse uma unidade moral
exercida por um monarca, de fato não havia unidade normativa vez que diversos núcleos de interesses editavam e executavam as próprias normas141. No dizer de
Jorge Miranda
“a sociedade política medieval e estamental é, com efeito, como se sabe, uma sociedade complexa, feita de grupos, de ordens, de classes, de múltiplas unidades territoriais ou sociais. Os direitos aí são direitos das pessoas enquanto membros desses grupos ou estamentos, direitos de acentuado cunho institucional e concreto. E são também direitos funcionais de proteção e em concorrência uns com os outros142”.
Já nesta fase, um segmento social se destaca com autonomia na edição e execução de suas próprias regras; são as corporações143, as quais, como acontecia
140 EHRLICH, Eugen: Fundamentos da Sociologia do Direito. Brasília: UnB, 1986, p. 33: “Mas a
constituição feudal nunca conseguiu englobar todo o conteúdo da ordem social do Estado feudal. Dentro do Estado feudal sobreviviam as velhas associações da parentela, da família; somente a parentela encontrava-se debilitada; mas além destas surgiram novas associações locais que assumiam uma série de tarefas sociais. Entre as associações locais a cidade passa a ter grande importância e um alto grau de autonomia, subtraindo-se quase por completo da constituição feudal. A rigor, a constituição feudal nunca deixou de ser uma constituição da área rural. Dentro dos muros da cidade aparecia uma infinidade de associações sui generis e desconhecidas em outro lugar, desenvolvendo-se também uma vida jurídica bastante intensiva”.
141 KANTOROWICZ, Ernest H.:Os Dois Corpos do Rei: um Estudo sobre Teologia Política
Medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 17/18. Para constatar a dimensão essencialmente simbólica do Rei, Kantorowicz revela que “a partir de seu maravilhoso acervo de exemplos jurídicos, Maitland conseguiu ilustrar, caso a caso, dessa doutrina [dos dois corpos do rei]. Conta-nos a história do rei George III que teve que ir ao Parlamento pedir permissão para possuir terra como homem e não como rei, ‘já que direitos não negados a qualquer dos súditos de Sua Majestade eram a ele negados’”.
142 MIRANDA, Jorge: Manual de Direito Constitucional – Tomo IV – Direitos Fundamentais.
Coimbra: Coimbra Editora, 1998, p. 19.
143 SANDRONI, Paulo: Dicionário de Economia e Administração. São Paulo: Nova Cultural,
com os demais segmentos fortes da sociedade medieval, tinham poder de vida e morte sobre aqueles que estavam a elas afetados. Pode-se ter uma dimensão clara destas prerrogativas, a partir do relato que Robert Heilbroner oferece da decisão de uma Guilda francesa sobre uma simples alteração na quantidade de fios empregada na confecção de tecidos:
“se um tecelão de roupas pretende produzir uma peça de sua própria invenção, não deve obtê-la de seu tear; precisa antes obter permissão dos juízes da cidade para empregar o número e o cumprimento de fios de que irá necessitar, depois que o caso for considerado pelos quatro mercadores mais velhos e os quatro tecelões mais velhos da Guilda144”.
No mesmo sentido, o “revolucionário” emprego de botões nas roupas provocou “avalanches de protestos” e atos coibitórios por parte das Guildas que “demandaram o direito de dar buscas nas casas e guarda-roupas de quem quer
Conhecidas também como confrarias, grêmios, fraternidades ou guildas, as corporações situavam-se nas cidades e comunas medievais. Desenvolveram-se entre os séculos XII e XIV, acompanhando o processo do renascimento comercial. Foi na Itália que mais proliferaram; na França, perduraram até 1791, quando foram abolidas por lei. Eram organizações fechadas, cujos membros monopolizavam o exercício de determinada profissão ou atividade comercial. Numa comuna, só podia ser pedreiro quem pertencesse à corporação de pedreiros, ou só podia ser comerciante de lã quem fizesse parte da guilda correspondente. Até os mendigos tinham suas corporações. As atividades de cada membro da corporação eram regulamentadas por estatutos, cuja violação era punida severamente pelos próprios tribunais da entidade – um privilégio que era comparado ao senhor feudal. A corporação controlava a qualidade da produção artesanal de seus membros, determinava o preço das mercadorias, fiscalizava o aprendizado de ajudantes e jornaleiros (assim chamados os que recebiam por dia ou jornada de trabalho) e realizava exames de capacitação para o aprendiz tornar-se mestre artesão e poder ingressar na corporação. As corporações também tiveram importante papel político. Muitas cidades eram totalmente controladas pelas corporações de comerciantes, que impediam a participação político- administrativa das associações artesanais, que se sublevaram muitas vezes contra isso. Em troca de privilégios, muitas corporações apoiaram os reis na luta contra os senhores feudais, durante o processo de formação dos Estados Nacionais”.
144 HEILBRONER, Robert: A História do Pensamento Econômico. São Paulo: Nova Cultural,
que fosse, de multar e até mesmo prender nas ruas quem estivesse usando os tais renegados objetos subversivos145”.
A Revolução Francesa, instrumento de antagonismo ao modus vivendi medievo, rompeu com a idéia de representação de interesses, substituindo-a pela de mandato livre, supedaneada na convicção completamente inovadora de que os problemas de uma Nação não poderiam jamais ser pensados de forma setorizada, mas em seu conjunto, impondo-se observar as diversas conexões entre os diferentes interesses, atitude esta impossível de ocorrer pelo mero somatório dos mesmos. Este pensamento ganhou positivação em diversas constituições de Estados liberais, dentre as quais a do Ano III, pós derrocada da Bastilha, que reservou artigo especificamente para definir que “les membre de l’Assemblée Notionale sont les représentants, non du département que les nomme, mais de la France entière146”.
A seqüência da história humana, que não tem, necessariamente, curso retilíneo ou progressivo147, introduziu novos elementos que ensejaram uma
retomada da idéia de representação de interesses. Um fato decisivo concorreu para tanto: a Revolução Comunista da Rússia, influenciada pelos escritos de Karl Marx. Este evento clamava pela construção de um governo dos trabalhadores, camponeses e soldados e, efetivamente, uma vez conquistado o poder, mesmo observando que
“en la Ley Fundamental de URSS está escrito (articulo 59- 101) que las elecciones de diputados a todos los Soviets se efectúam por sufrágio universal, igual, directo y secreto”, faticamente se constata que “los candidatos a diputados son presentados por los
145 HEILBRONER, Robert, op. cit., p. 33.
146 Apud BONAVIDES, Paulo: Ciência Política. São Paulo: Malheiros, 1994, p.208. 147 FAUSTO, Boris: História do Brasil. São Paulo: São Paulo: USP, 2001, p.15.
mismos ciudadanos: por sus organizaciones sociales de masas, colectividades laborales y asambleas en las unidades militares148”.
A idéia comunista colocou o mundo em polvorosa, pois continha um convite irrecusável aos excluídos que habitavam este planeta: chamava-os à concretização da igualdade, difundida universalmente desde a Revolução Francesa, porém jamais implementada149. Com muitos adeptos mundo afora,
além de se espalhar na maior parte do território europeu, o movimento comunista tentou conquistar o poder nos países de capitalismo mais aguerrido. Por seu turno o sistema econômico baseado na livre iniciativa teve que realizar uma autocrítica, o que no plano jurídico se manifestou na forma de modificação das Constituições, que passaram, ao menos nominalmente, a valorizar o trabalho e outros aspectos sociais, marcando, assim, o advento da segunda geração de direitos fundamentais150.
O fato é que na tentativa de antagonizar o comunismo, mas aceitando em parte, uma das idéias por ele veiculadas, a da crítica ao individualismo
148 GRIGORIÁN, L. et alli: Conocimientos Básicos Acerca de la Constitucion Soviética. Moscou:
Editorial Progreso, 1980, pp. 176/177.
149 MARX e ENGELS: Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2000, p. 66:
“(...) O primeiro passo na revolução operária é a elevação do proletariado à classe dominante, a conquista da democracia. O proletariado utilizará seu domínio político para arrancar pouco a pouco todo o capital à burguesia para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, ou seja, do proletariado organizado como classe dominante (...)”.
150 BONAVIDES, Paulo: Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 1994, p. 518.
Trata-se da classificação dos direitos fundamentais quanto à cronologia de seu surgimento e inserção nas constituições dos diferentes Estados ocidentais: primeira a quarta gerações, representando, sucessivamente, cada uma delas, a liberdade, a igualdade, a solidariedade e a democracia. Especificamente sobre a segunda geração de direitos fundamentais, ora referenciada, o Autor a sintetiza com as seguintes palavras: “São direitos sociais, culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou das coletividades, introduzidos no constitucionalismo das distintas formas de Estado social, depois que germinaram por obra da ideologia e da reflexão antiliberal deste século. Nasceram abraçados ao princípio da igualdade, do qual não se podem separar, pois fazê-lo equivaleria a desmembra-los da razão de ser que os ampara e estimula”.
exacerbado, produto básico da Revolução Francesa151, os Estados capitalistas
ensaiaram fórmulas de valorização do trabalho operário, fazendo ressurgir uma representação de interesse específico: a representação laboral.
A construção ideológica recente e a implementação fática da representação de interesses (especificamente a classista) são obras atribuídas a Benito Mussolini, e serviram de modelo à configuração de considerável número de parlamentos do mundo ocidental152. Gilberto Amado descreve a formulação
representativa do “Duce”:
“Chegamos assim a bem especificar o caráter da reforma sindical e corporativa, inconciliável com as instituições parlamentares, levada a efeito na Itália. Aí a representação deslocou-se do plano político para o plano econômico, e os seus órgãos, em vez de obedecerem aos princípios do constitucionalismo e da separação e harmonia dos poderes, obedecem a um sistema especial de hierarquias, sobrepostas umas às outras e articuladas na estrutura totalitária do estado. Das Câmaras de representação italiana são banidas as minorias. Essas formam também um todo. Suas funções são meramente legislativas, non gubernativas. São laboratórios legislativos de que emanarão os textos gerais que
151 ORTEGA, Antonio César: Corporatismo e Novas Formas de Representação de Interesses na
Agricultura: Uma Abordagem Teórica, in Revista de Economia e Sociologia Rural, vol. 36, nº 4 Out./Dez., 1998, p. 10. São Paulo: SOBER. “A origem dos conceitos utilizados pelo atual enfoque corporatista pode ser localizada na segunda metade do século XIX, quando o corporativismo se apresentava, desde as filas do catolicismo, como uma espécie de terceira via entre o individualismo liberal e o coletivismo socialista”.
152 TAVARES, Ana Lúcia de Lyra: A Constituinte de 1934 e a Representação Profissional:
Estudo de Direito Comparado. Rio de Janeiro: Forense, 1988. Esta Autora reconhece a busca histórica dos vestígios iniciais da representação de interesses desde a antiguidade (p. 14); especificamente sobre a representação profissional fazendo parte da Constituição dos Estados, aponta como condensador da doutrina Mirkine-Guetzévitch (p. 27). Quando aos países influenciados pela prática de Mussolini, relaciona, apontando as especificidades, além da Itália (p.32), Espanha, Portugal (p. 33), Alemanha (p.34), França (p.35), dentre vários outros.
traçam as direções dos futuros contratos coletivos; são aparelhos técnicos de cujo funcionamento disciplinado sairão as leis, os regimentos, as ordenações necessárias ao equilíbrio do corpo social hierarquizado153”.
No Brasil, a representação de interesses atingiu seu apogeu com a Constituição de 1934, que é usualmente inserida no rol das democráticas154. Na
referida Constituição criaram-se vagas no Parlamento Brasileiro especificamente para os representantes dos diversos interesses laborais e empresariais do país, na quantidade e no perfil constantes nos Art. 22 e seguintes, alguns dos quais, por serem elucidativos, merecem transcrição literal:
“Art 22 - O Poder Legislativo é exercido pela Câmara dos Deputados com a colaboração do Senado Federal. (...) Art 23 - A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo, eleitos mediante sistema proporcional e sufrágio universal, igual e direto, e de representantes eleitos pelas organizações profissionais na forma que a lei indicar. § 1º - O número dos Deputados será fixado por lei: os do povo, proporcionalmente à população de cada Estado e do Distrito Federal, não podendo exceder de um por 150 mil habitantes até o máximo de vinte, e deste limite para cima, de um por 250 mil habitantes; os das profissões, em total equivalente a um quinto da representação popular. Os Territórios elegerão dois Deputados. (...) § 3º - Os Deputados das profissões serão eleitos na forma da lei ordinária por sufrágio indireto das associações profissionais compreendidas para esse efeito, e com os grupos afins respectivos, nas quatro divisões seguintes: lavoura e pecuária;
153 AMADO, Gilberto: Eleição e Representação. Brasília: Senado Federal, 1999, p.89. 154 FERREIRA, Pinto: Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 55.
indústria; comércio e transportes; profissões liberais e funcionários públicos155”.
Sucedeu ao experimento mundial da representação classista a Segunda Grande Guerra, que colocou exatamente em pólos antagônicos, no que concerne à liderança do conflito, de um lado, países adotantes, e do outro, não adotantes de tal formato representativo. Como se sabe, o Eixo formado pela Itália, Alemanha e Japão barbarizou a democracia e os valores humanitários básicos, e por via de conseqüência impregnou tudo o que a si estava associado de automática repulsa, pois representava (e ainda representa), simbolicamente, uma das raízes do “mal”.
Eis aqui o primeiro grande obstáculo ideológico enfrentado por uma reflexão sobre uma possível representação de interesses, definidora de políticas públicas, como seria o caso da cultura. Sepultado o fascismo e seus derivados, aberta a possibilidade de construção de uma sociedade irmanadora das nações, principiada a construção do conjunto dos direitos de terceira geração (os de fraternidade ou solidariedade), e tendo vencido de forma arrasadora, após todos estes fatos, a representação nacional, remanesce a questão: nos escombros do passado está enterrada, também, qualquer possibilidade de manifestação legítima da representação de interesses em um Estado Democrático de Direito, como se auto-intitula o Brasil? A resposta é, seguramente, não156, o que se
sustenta com base na argumentação a seguir desenvolvida.
155 POLETTI, Ronaldo: Constituições Brasileiras: 1934. Brasília, Senado Federal (et alli.), 1999, p.
51.
156 Paulo Bonavides, em sua Ciência Política (p. 219), pondera que “tendo passado já a época da
indiferença constitucional aos partidos, é de esperar que no futuro toda reforma da Constituição volva também suas vistas para a disciplina dos grupos de interesses. A ação política desses grupos incide de modo decisivo na feição dos governos e no comportamento dos governantes, sendo eles, sob o aspecto da importância de último granjeada, um dado sem dúvida fundamental ao bom entendimento do sistema representativo”.