5. DEMANDAS DE PARTICIPAÇÃO AMPLIADA NO NOVO CPC
5.6. OS PRECEDENTES
5.6.2. Os precedentes no Novo CPC
O art. 926 do novo Código estabelece a necessidade de observância das decisões anteriormente proferidas pelos Tribunais, a fim de manter a jurisprudência
“estável, íntegra e coerente”.
434 MARINONI, L. G. Uma nova realidade diante do projeto de CPC, p. 828.
435 NERY JUNIOR, N.; ABBOUD, G. Stare decisis vs direito jurisprudencial, 500.
436 DERZI, M. de A. M.; BUSTAMANTE, T. da R. O efeito vinculante e o princípio da motivação das decisões judiciais, p. 352.
437 MITIDIERO, D. Precedentes, jurisprudência e súmulas no Novo Código de Processo Civil Brasileiro, p. 8.
438 ABBOUD, G.; CAVALCANTI, M. de A. Interpretação e aplicação dos provimentos vinculantes do Novo Código de Processo Civil a partir do paradigma do pós-positivismo, p. 12.
O dispositivo subsequente estabelece um rol de decisões que devem ser observadas pelos juízes e tribunais: “I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II - os enunciados de súmula vinculante; III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos; IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados”.
O art. 927, contudo, não diz que essas decisões são precedentes, nem que apenas elas seriam precedentes no ordenamento brasileiro. Como o precedente é construído em casos posteriores, conforme mencionado acima, um enunciado normativo como as súmulas ou a decisão de casos repetitivos não pode ser considerado como precedente, ao menos não nos mesmos termos do sistema de common law.439 Além disso, as decisões que não se enquadrarem nas hipóteses desse dispositivo, podem ser consideradas como precedentes, a depender de sua aplicação posterior, embora apenas com caráter persuasivo, não vinculante.
Pelo novo Código, os próprios Tribunais devem determinar quais são seus precedentes e organizá-los de acordo com a questão jurídica decidida.440 Tal previsão dá a impressão de que ou os nossos precedentes são as decisões anteriores dos Tribunais, equiparando o termo à jurisprudência – sendo, nessa perspectiva, inócuo, a não ser pela previsão legislativa de organização de acordo com a questão jurídica decidida441 –, ou os Tribunais terão a possibilidade de selecionar as suas decisões que são e as que não são precedentes – sendo, então, um sistema que não é, efetivamente, de precedentes, pois as decisões e as matérias vinculantes são definidas de forma prévia.
A previsão contida no art. 927 do novo CPC, portanto, é uma opção legislativa pela vinculatividade de determinadas decisões, com a finalidade de resolver casos presentes e futuros, “independentemente da qualidade e da
439 NERY JUNIOR, N.; ABBOUD, G. Stare decisis vs direito jurisprudencial, 489-490.
440 Dispõe o Art. 927, §5º, do novo CPC: “Os tribunais darão publicidade a seus precedentes, organizando-os por questão jurídica decidida e divulgando-os, preferencialmente, na rede mundial de computadores”.
441 A organização dos precedentes de acordo com a “questão jurídica decidida” também afasta o sistema brasileiro de um sistema de precedentes, na medida em que, no common law, os elementos essenciais para a compreensão dos precedentes são os fatos. A organização pela
“questão jurídica decidida” já é razoavelmente feita pela ementa dos julgados.
consistência da conclusão de suas decisões”.442 Com isso, a fixação de entendimento sobre determinadas questões pelos Tribunais encerraria o debate e deveria ser aplicada para a solução de casos repetitivos posteriores, como ocorre com o julgamento de recursos repetitivos; todavia, a ideia de precedente do sistema da common law trata a decisão anterior como início do debate,443 não como a solução pronta a ser dada ao caso posterior. Assim, a forma de definição das decisões vinculantes adotada pela nova legislação acaba sendo mais “um instrumento para gestão de processos nos Tribunais Superiores do que um mecanismo apto a privilegiar a casuística, a igualdade e a coerência do ordenamento”.444
Sob um aspecto teórico, os precedentes norte-americanos possuem uma forte vinculação com a argumentação jurídica no momento de interpretação e aplicação do Direito, sendo a estrutura argumentativa tópica, relacionada a casos concretos.445 Sob um ponto de vista prático, as decisões anteriores tomadas pelos Tribunais estadunidenses são um instrumento de trabalho dos juristas,446 ainda que sem os efeitos vinculantes, pretendidos a partir do novo CPC.
Diante dessas considerações, é importante ter sempre em mente que a finalidade dos precedentes é conferir uniformidade à resposta estatal oferecida para casos semelhantes, não atribuir função legislativa aos Tribunais ou engessar a argumentação jurídica.
A vantagem do destaque que se dá a um sistema de precedentes é buscar um maior esforço argumentativo das partes e dos magistrados na justificação de seus entendimentos, ao mesmo tempo em que se pretende uma consideração maior da disputa argumentativa que já foi travada em âmbito judicial em ações anteriores.447 O grande problema da variação da jurisprudência e da existência de decisões diferentes para casos semelhantes é a ausência de critérios e de justificação da diferença ou da alteração de entendimento, o que viola a segurança jurídica. A ideia dos precedentes pode auxiliar desde que, para solucionar uma
442 ABBOUD, G.; CAVALCANTI, M. de A. Interpretação e aplicação dos provimentos vinculantes do Novo Código de Processo Civil a partir do paradigma do pós-positivismo, p. 15.
443 NUNES, D.; PATRUS, R. D. Uma breve notícia sobre o procedimento-modelo alemão e sobre as tendências brasileiras de padronização decisória, p. 473.
444 NERY JUNIOR, N.; ABBOUD, G. Stare decisis vs direito jurisprudencial, p. 505.
445 TARUFFO, M. Precedente e jurisprudência, p. 140.
446 TARUFFO, M. Precedente e jurisprudência, p. 141.
447 Sobre as dificuldades de deliberação em razão de normas internas e práticas das Cortes brasileiras, ver SILVA, V. A. da. Deciding without deliberating.
dificuldade prática de ausência de fundamentação suficiente, não acabe criando outro problema, de igual relevância – engessamento do entendimento dos Tribunais.