2 EU, MÁRIO ZAN E O MATO GROSSO DO SUL: UMA RELAÇÃO MARCADA
2.3 OS PRIMÓRDIOS DA MÚSICA SERTANEJA/CAIPIRA
2.3 OS PRIMÓRDIOS DA MÚSICA SERTANEJA/CAIPIRA
Na ânsia de entender um pouco mais sobre a música sertaneja/caipira,
busquei apoio no livro Música Caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos,
de José Hamilton Ribeiro. O autor, na página 32 do livro, responde à seguinte
questão: qual a diferença entre sertanejo e caipira, conforme citação a seguir:
Zuza Homem de Mello, estudioso de música, diz que sertanejo é o “gênero”
e caipira a “espécie”, numa comparação com a botânica ou a zoologia. No
caso dos macacos, por exemplo, todos são primatas (gênero); só alguns
são chimpanzés (espécies).
O gênero sertanejo está em todo o “sertão” brasileiro, seja do Nordeste, do
Centro, do sul, do Sudeste. Já a espécie caipira é a música sertaneja do
Sudeste, com algum avanço para o Centro-Oeste e uma raspadinha no Sul
e no Norte. Assim, música caipira é uma gaveta dentro de um armário, com
outras gavetas... A gaveta cabe no armário, o armário não cabe na gaveta
(RIBEIRO, 2006, p. 32).
Também no prefácio do referido livro, o escritor e jornalista Romildo
Sant´Anna, na tentativa de entender, de descrever os sentimentos e as sensações
(e o gosto) pela música caipira, diz que “A moda caipira é branca nas formas e rimas
e, africana, indígena e europeia nos pensamentos e afetos”. (SANT’ANNA, In
RIBEIRO, 2006, p. 6). Na mesma página, Sant´Anna diz: “escreveu Darcy Ribeiro
que coube aos mestiços a travessia de costumes, normas e sentimentos pelos eitos
dos sertões”. E, vai além:
Nos campos e cidades, e com um contentamento nostálgico a espantar os
males, possui um fundo de tristeza e desolação. Explícito ou nas
entrelinhas, fala de um vazio, uma saudade, uma coisa que, lá no fundo,
nos foi arrancada. Pulsam três etnias e sabenças do mundo tingidas pela
agonia do desterro: o português degredado e saudoso; o indígena exilado
em sua terra; o afro-brasileiro usurpado pela indecência escravista. Chora,
viola! Essa moda é o dizer tristonho do sem-terra, no encantado da
existência ao rés do chão. Na moda caipira de raiz, quem fala é o caboclo
nativo e seus descendentes, desconfiados, intuitivos, místicos, sonhadores
e, mais do que isso, sabidos. São aqueles que, por instinto, lêem os sinais
da natureza e os interpretam. Quem diz são os brasileiros confessos, que
têm na sentimentalidade a bússola com que se orientam no mundo. São
artistas que, nas asas da tradição, cantam querências e saberes poetizados
que passaram pelo mais severo e ranzinza dos críticos sociais e da arte: o
tempo (RIBEIRO, 2006, p. 6 e 7).
O início das produções fonográficas do gênero sertanejo no Brasil se deu com
Cornélio Pires
10. Estudioso e profundo conhecedor dos costumes do povo, escreveu
10
Nasceu em 13 de julho de 1884, na chácara de seus tios no bairro Sapopemba, na cidade de Tietê, estado de
São Paulo. Faleceu na capital Paulista, no dia 17 de fevereiro de 1958, com 74 anos de idade. Poeta, ativista
cultural, etnógrafo da cultura e do dialeto caipira, tipografo, repórter, professor de educação física, compositor e
é considerado o primeiro “Show Men” brasileiro. Fonte: Quem conta um conto.../Cornélio Pires. Coleção
“Conversa Caipira”, Ottoni Editora, Itu (SP) - 2002.
vários livros com a temática caipira. A importância de todo seu trabalho, de sua
pesquisa, é reconhecido nos meios acadêmicos. Esse fato pode ser comprovado
nas citações existentes no livro Os Parceiros do Rio Bonito, de Antônio Cândido
(2010), professor na Universidade de São Paulo, um dos maiores estudiosos da
sociedade e da cultura caipira brasileira.
Vários autores citam Cornélio Pires como criador de personagens caipiras,
dentre eles destacamos Rosa Nepomuceno e Edvan Antunes. Tais personagens,
como por exemplo, Joaquim Bentinho (o Queima-Campo) contrapunha o
personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato, do conto Urupês, de 1918. Os
personagens caipiras de Cornélio Pires, não tinham nada de bobo, eram espertos,
enquanto o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, simbolizava o atraso cultural do caipira.
Sempre que podia Cornélio Pires ironizava Monteiro Lobato e seu personagem, que
denegria a imagem do homem do campo. À época, 80% da população brasileira
ainda moravam na roça.
Isso serviu de estilo para que, nos anos de 1920, outros autores também
retratassem o Brasil rural. Segundo Nepomuceno, “Intelectuais e músicos do interior
paulista, lançavam trabalhos sobre o homem rural” (NEPOMUCENO, 1999, p. 103).
FIGURA 8 – Cornélio Pires
Aproveitando seu vasto conhecimento na área, Cornélio Pires realizou com
enorme sucesso, no ano de 1910, no Colégio Mackenzie – hoje Universidade
Presbiteriana Mackenzie, no centro de São Paulo, na confluência das ruas da
Consolação e Maria Antônia –, um final de semana cultural, com espetáculos que
reuniram catireiros, cururueiros e duplas de cantadores do interior, em que o foco
era o rico universo dos caipiras, valorizando seu saber. O Colégio Mackenzie foi
fundado e sempre mantido pela Igreja Presbiteriana, à qual Cornélio Pires pertencia.
Cornélio Pires traça o seu caminho como divulgador e defensor do homem do
campo e de sua cultura, mostrando os vários tipos de caipiras: perspicaz, divertido,
cantador, debochado, esperto, amoroso, e contrapunha-se à elite paulistana que se
identificava com a cultura europeia, mais especificamente a francesa, que se
encontrava no auge com Belle Epóque Paulistana.
O trabalho de Cornélio Pires, por meio de palestras shows e exibições
públicas, na defesa da cultura caipira – além da Semana de Arte Moderna com o
Movimento Modernista, encabeçado pelo intelectual, músico e escritor Mário de
Andrade – ganha outro forte aliado em 1922 que é uma novidade tecnológica da
época: a chegada do rádio em Pernambuco e no Rio de Janeiro, em comemoração
ao Centenário da Independência no Brasil. E, fazendo parte das comemorações,
foram importados receptores de rádios, especialmente para o evento. Segundo
Rezende e Santiago
11(2005 apud MOREIRA, 2010, p.4), “A Rádio Clube de
Pernambuco e a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro são responsáveis pelas
primeiras experiências com a radiodifusão e a implantação do rádio como meio de
comunicação no Brasil, influenciando o formato e o conteúdo de dezenas de
emissoras por todo o país”. Já em Campo Grande, cidade da região sul do antigo
estado de Mato Grosso, no ano de 1924, foi fundado o Rádio Clube, com a
finalidade de reunir pessoas e amigos para ouvir Rádio. Esse sistema de
agremiações, associações, ou seja, de Rádio Clubes era o caminho para a
sustentação das emissoras de rádio, naquela época. Os equipamentos eram caros e
somente através de contribuições dos associados é que as emissoras se
mantinham, uma vez que a publicidade ainda não estava regulamentada e não era
autorizada pelo Governo.
11
REZENDE, André Luís; SANTIAGO, Gil. PRA-7: a primeira rádio do interior do Brasil. Ribeirão Preto. Edição
do Autor, 2005. 280 p.
No início o rádio só servia à elite, pois não havia os famosos reclames
(propagandas/comerciais) e somente recebia a transmissão quem pagava a
mensalidade da emissora, tendo direito ao receptor. Em 1932, as emissoras de rádio
são autorizadas a incluir comerciais em dez por cento de sua programação. Por
mais de quatro décadas o rádio foi o único meio de comunicação popular. A
distância era um problema na época.
Em 1929, Cornélio Pires – poeta, compositor, intérprete, homem de visão e de
ação –, na ânsia de divulgar a música caipira, sai com uma caravana da capital
paulista para o interior, vendendo não somente discos como também vitrolas. Ele
bancaria a edição de mil discos, quantidade arrojada para a época, e pagaria
adiantado. “As edições saíam com 300, 400 discos, mesmo porque poucas pessoas
tinham vitrola naquela época. E Cornélio passou a vender também vitrolas, numa
ação conjugada: a pessoa comprava a vitrola e ganhava dois ou três discos para
iniciar sua coleção” (RIBEIRO, 2006, p. 32). Segundo José Hamilton Ribeiro, a
história se deu assim...
... Beirando os anos 1930, a indústria do disco já rolava firme entre nós,
mas não se gravava música caipira. “Já pensou pôr no disco dois
camaradas cantando gritado uma canção cheia de erros de português?
Ninguém compra...”.
Como não havia energia elétrica nas fazendas, vilas, pequenas cidades e
zona rural, os discos eram tocados em vitrolas mecânicas, portáteis –
aquelas de “dar cordas”. A música caipira, então, começou assim: em disco
de 78 rotações, tocado na vitrola de manivela.
Cornélio Pires nunca foi homem de posses, mas sabia agitar uma ideia.
Para impulsionar a venda de seus produtos – os discos caipiras e a vitrola -,
saía em turnês pelo interior com uma caravana de artistas. Eram Os
Caipiras de Cornélio (grifo meu), entre os quais se incluíam Raul Torres,
Jararaca e Ratinho, Mandi e Sorocabinha, o palhaço Ferrinho e a dupla
Caçula e Mariano (estes respectivamente, pais e tio do sanfoneiro
Caçulinha e protagonistas do primeiro disco caipira gravado: Jorginho do
Sertão, música de Cornélio).
Com os shows e a venda de vitrolas conjugada aos discos de brinde, a
primeira edição da música caipira logo esgotou. Cornélio partiu para a
segunda impressão, e daí para a terceira. Pouco depois, era contratado
pela gravadora como produtor de discos caipiras, fato que foi acompanhado
por outras fábricas, também interessadas nesse novo filão. Com medo de
que o preço do disco ficasse muito alto e o povo não pudesse comprar,
adotou-se um estratagema: a capa do disco vinha com anúncios de lojas,
indústrias, empresas, farmácias, padarias. Com preço amigável, as vendas
de discos dispararam.
O aparecimento dos discos caipiras coincidiu com o crescimento do rádio, e
um ajudou o outro. As emissoras atraíam as duplas de sucesso e criavam
“programas caipiras”, de grande audiência. Graças ao rádio, os artistas viam
sua popularidade aumentar, recebiam mais convites para apresentações,
vendiam mais discos – uma coisa puxava a outra (RIBEIRO, 2006, p.32-33).
A inclusão de Cornélio Pires, além de seu pioneirismo na música caipira, é
proposital e esclarece a inserção de um importante personagem na história da
música sul-mato-grossense: Ariovaldo Pires, sobrinho de Cornélio Pires, conhecido
também pelo nome artístico de “Capitão Furtado”. Com apenas vinte e dois anos de
idade Ariovaldo Pires, que conseguia se comunicar na língua inglesa, acompanha
seu tio em negociações com os empresários da gravadora americana Columbia
Records
12. A partir daí, Cornélio Pires fecha uma série de discos com músicas e
causos caipiras que o ajudam a iniciar seus negócios com Os Caipiras de Cornélio
Pires, ou simplesmente A Turma do Cornélio, incursionando pra o interior do estado
de São Paulo.
Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado, soube aproveitar a boa escola que obteve
em companhia do tio e, juntando-se o talento que possuía, torna-se um dos maiores
produtores culturais no gênero sertanejo da capital paulista. Não gostava de ser
comparado ao tio, por admiração e respeito. Produtor cultural e descobridor de
talentos como Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Mário Zan, Nhô Pai e
muitos outros.
No documento
MÁRIO ZAN: UM ARAUTO DA MÚSICA DE FRONTEIRA DE MATO GROSSO DO SUL
(páginas 41-45)