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2 O ABRIR DE DIFERENTES CAIXAS CONCEPÇÕES, CONCEITOS E

3.1 PASSOS METODOLÓGICOS

3.1.5 Os primeiros encontros com os campos de estágio

Sair do aconchego e da segurança da sala de aula e entrar pelos portões dos CEIs para observar as crianças, os espaços, as professoras, a realidade, é mais um passo à docência. “É necessário observar ações, reações, interações, proposições não só das crianças, mas também do próprio docente. É preciso ficar atento às dinâmicas do grupo, às implicações das relações pedagógicas, com um olhar aberto e sensível.” (OSTETTO, 2017, p. 27)

Nos encontros dos dias 02, 09 e 16 de abril os alunos percorreram os diferentes campos de estágio e trouxeram as primeiras impressões. O que impactou na chegada? Como foi a acolhida?

Para Estela, Adriana e Rosa, o CEI Cantinho da Alegria apresenta as mesmas características observadas há dez anos. Como podemos ver no relato de Estela:

Estudei lá há 10 anos, quando era pequenininha... continua tudo igual, nada mudou. A organização do espaço... fiquei assustada. Mas fomos bem acolhidas. Chegamos lá e conversamos com elas para ver qual sala pegar. Então ela deixou a gente na Creche II. Tivemos acesso ao PPP, foi bem interessante, a gente descobriu coisas da creche, muito antigas. A acolhida foi boa! Mas por um lado fiquei triste, pois está tudo igual... achei que por dentro talvez estivesse diferente, mas nada mudou. (Narrativa de Estela)

Jô e Bianca procuraram olhar para o contexto e observaram rotinas lineares. Encantaram-se com as crianças e perceberam o quanto é importante sentar e estar com elas:

Nós também fomos bem acolhidas... nós fomos à tarde e fomos atendidas pela diretora, nos atendeu bem, só que ela não teve tempo de explicar muita coisa para nós. A gente chegou, ela já viu a sala. A gente não conseguiu ver o PPP. Vamos procurar ir mais uma vez no dia 23. Acho que as nossas observações já ficaram boas pra gente fazer o planejamento. Fomos bem acolhidas pela professora. Na manhã é uma professora e à tarde é outra. Na observação procuramos não focar no trabalho da professora e sim nas

crianças. Mas é uma coisa que está intrínseca, não tem como a gente observar as crianças sem observar o que acontece na sala. Por exemplo, o controle de corpos. Ao longo das conversas uma coisa que me chocou foi que ela faz planejamento de dois em dois meses junto com outros CEIs. Gente, eu fiquei triste ao ver as crianças, uma agarrada atrás da blusa da outra para fazer fila... elas têm que pegar... têm umas que detestam... tem uma menininha que arruma as cadeirinhas e se esconde embaixo da cadeira, porque ela não gosta de ir para a fila. As crianças são maravilhosas, a gente senta e brinca com elas, e elas adoram... porque elas não têm essa interação. (Narrativa de Jô e Bianca)

A primeira ida a campo é sempre muito impactante, latente. Nati, João e Luci se encantaram com os bebês que, por consequência, se encantaram com a figura masculina que o João representa:

O João e a Luci foram primeiro bater as fotos da instituição. Depois eu fui, porque eu já trabalhei lá por dois anos e meio, e conheço o diretor, as professoras, aí foi mais fácil da gente conversar e pegar uma sala que eu visse que dava para fazer umas coisas mais legais. Uma sala maior... porque a sala que ela ofereceu pra gente foi uma sala bem pequenininha, e como nós somos em três, eu pensei que iria ficar bem complicado. Então ficamos com a turma de zero a um ano. É uma sala assim... a professora é bem legal... é a última sala do corredor, tem um solário que não é usado. Pegamos essa sala justamente por isso. A gente chegou à sala e a primeira coisa que eu percebi foi que as coisas ficam tudo no alto, e quase não tem coisas. A professora, a gente notou que tem ideias, tem interesse... Tem uma menina haitiana que adorou o João... não sei é porque eles estão acostumados à figura feminina, que todos eles adoraram o João... eles mexiam nas tranças dele... (Narrativa de Nati)

Viviane e Bia observaram e se integraram ao grupo de forma ativa. Obtiveram suas primeiras impressões referentes às interações das crianças:

A gente foi super bem-acolhidas, achamos a professora bem querida... eu já conhecia a diretora, porque fiz uma entrevista para ser auxiliar de um menino que tem lá... e foi supertranquilo, a gente chegou, já foi se entrosando com as crianças, já ajudamos as professoras no que era necessário... as crianças são muito carinhosas, interagem bastante conosco. Elas brincam bastante no individual, não são muito de brincar no coletivo. Foi uma experiência bem legal, eu gostei bastante. (Narrativa de Viviane)

Ane e Carla perceberam a dimensão dos espaços que algumas instituições oferecem. Para onde olhar? Onde ficar? O que fazer? A acolhida não foi suficiente para responder a tais questionamentos:

A gente foi ao São Judas, pegamos a creche II, assim, quando a gente chegou lá, a gente levou um susto. Achamos a fachada da creche muito estranha pelo espaço... a creche é uma casa, a sala é um cubículo, meu quarto é maior que ela. A professora não estava e ficamos com a estagiária

mesmo. As crianças eram trocadas no chão... quando eu entrei lá eu levei um choque... poucos brinquedos, poucas oportunidades para brincar. Nós ficamos super perdidas... (Narrativa de Carla)

Isa e Flor ficaram no mesmo GT que Carla e Ane, só que em períodos opostos. Com suas observações, viram outro espaço, tiveram outras impressões:

Nós também, é a mesma turminha, só que eles têm os materiais... têm uma salinha que ficam guardados nesse espaço. Tem um espaço para trocar fraldas, mas não é usado. As crianças assistiram sempre ao mesmo DVD. Eles querem sair, tem uma porta de vidro, uma cortina... e eles ficam batendo. A professora diz: ‘Sai daí!’ Eles ficam perdidos. [sic] (Narrativa de Flor)

A porta de vidro, a cortina e o visível e silencioso interesse das crianças por esse espaço. E, como se fosse para complementar esse olhar, Benjamin (2002, p. 107-108) narra:

Atrás do cortinado, a própria criança transforma-se em algo ondulado e branco, converte-se em fantasma. A mesa de jantar, debaixo da qual ela se pôs de cócoras, a faz transformar-se em ídolo de madeira em um templo onde as pernas talhadas são as quatro colunas. E atrás de uma porta, ela própria é porta... o que há de verdade nisso tudo, a criança sabe-o em seu esconderijo.

O que o cotidiano das creches oferece às crianças? Quais as possibilidades de transformar uma cortina em um esconderijo, a mesa de jantar em um ídolo de madeira? Na prática requer problematizar e analisar, sobretudo, a forma como as crianças são fechadas e isoladas nas instituições educativas, quase sempre condenadas a um imobilismo e a um sossego solitário diário.

Dani e Elena retratam em sua narrativa:

[...] Nós também... no primeiro dia ficamos perdidos, não conseguíamos achar... é... me assustei muito com o parque... A sala é uma readaptação de uma garagem e não é muito pequena. Tem brinquedos, mas é tudo encaixotado no armário... a televisão fica no alto... a sala é maior que as outras, mas, também, ela tem mais crianças que as outras. O parque é de contrapiso. Tinha uma criança com o rosto machucado e a professora disse que ele havia caído no parque, então aquilo me assustou muito. Eles não querem brincar no escorregador, eles querem brincar com os pequenos brinquedos que encontram no parque. O primeiro impacto maior foi o parque... as crianças não têm como brincar. É tudo muito cronometrado, uma rotina... todas as vezes que a gente foi era a mesma coisa... comer, descansar, escovar o dente, fazer alguma coisa para passar o tempo, parque... eles dormem das 11h até as 14h30min... eles acordam e comem e depois de uma hora comem de novo...

Há, entre a teoria e a prática, um distanciamento que aumenta o desafio da docência. Não é possível, em poucos dias, mudar uma realidade social, mas é necessário fazer o melhor possível.

O espaço oferecido nas instituições foi um dos maiores problemas observados, tanto o espaço físico em sua estrutura macro como micro. A precariedade de materialidades oferecidas às crianças é evidente.

O que as crianças estão querendo nos dizer quando preferem brincar com os pequenos brinquedos que encontram no parque? Elas precisam de outras oportunidades que não somente escorregador. Geralmente são objetos muito simples que podemos ofertar, mas que fazem a diferença no cotidiano. O que fazer diante dessa realidade? É necessário seguir, não há tempo de paralisar; diante de situações difíceis, é importante pensar e decidir o que propor.

Usamos a escuta como principal artifício para o trabalho de orientação e produção. Após ouvir os relatos que evidenciaram os direcionamentos dos olhares, foi possível construir em conjunto as breves narrativas.

3.1.6 Construção do Projeto de Prática de Ensino – as primeiras docências: o