Figura 28 – Fim das palavras
O silêncio foi a primeira coisa que existiu um silêncio que ninguém ouviu astro pelo céu em movimento e o som do gelo derretendo o barulho do cabelo em crescimento e a música do vento e a matéria em decomposição a barriga digerindo o pão explosão de semente sob o chão diamante nascendo do carvão
Fonte: Acervo da pesquisadora, 2020.
Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown. 1996
É possível ouvir o som da caneta escrevendo no papel que tranquilamente já esteve disponível? Um silêncio que traduz o instante único da escrita que reverbera. Ruído, um movimento, marcas. Vestígios de um tempo que não volta sozinho, retorna com a reminiscência traduzida em narrativas capazes de ecoar o passado no possível som das palavras.
Cessa o silêncio deixado pelo término do trabalho e soam as vozes das cartas, registros, fotografias e marcas colhidas ao longo da pesquisa.
No início desta jornada, fui no fundo da caixa e resgatei algumas memórias da minha formação inicial. Buscar essas memórias foi doloroso, mas ao mesmo tempo valioso, pois proporcionou liberdade ao presente que teimava em causar desconforto ao lembrar da formação inicial, com o estágio efetivado em condições adversas.
Memórias que trouxeram questionamentos sobre a formação inicial. Que experiências de formação sustentam as práticas? Qual olhar se dirige às infâncias e crianças? É possível narrar essas experiências? Interrogações que direcionaram a pesquisa para o entrelaçamento da documentação pedagógica, que é uma narrativa tecida nos encontros entre crianças e adultos no contexto educativo, e a formação inicial de professores que possibilita os primeiros encontros com tais questões. A pesquisa abriga experiências pessoais documentadas e é tradutora de um itinerário formativo que, na relação com os sujeitos que a compuseram, faz ressoar suas vozes.
Após essas rememorações, não se houve mais ruídos e sim estrondos que vibram e apresentam novamente a principal pergunta deste percurso: quais as narrativas dos acadêmicos sobre o processo de documentação pedagógica no estágio orientado supervisionado em Educação Infantil I do Curso de Pedagogia da UNISUL? Os alunos/estagiários, no decorrer da pesquisa, revelaram segredos, entregaram-se ao novo e no percurso deixaram ser encontrados e encontraram o outro.
A pesquisa possibilitou acompanhar os estudantes/estagiários durante todo o percurso da disciplina, assim, as marcas de um primeiro encontro foram se intensificando. Como abrir as janelas e quebrar o incômodo silêncio? Cada dia era um primeiro encontro que foi se fortalecendo com a ajuda do tempo, das narrativas e das experiências vividas e compartilhadas.
Compartilhamentos que expuseram sentimentos presentes, muitas vezes resguardados nas bordas das caixas, prontos para serem vistos e escutados. Os pequenos gestos de empatia, paciência e respeito trouxeram a gratidão, admiração e o desabrochar de olhares sensíveis à docência refletidos pela docência dirigida a eles. Como exigir um olhar sensível de um professor, quando ele nunca sentiu esse olhar em sua formação? Certamente, olhares afetivos se revelam na reciprocidade, comprovada nas narrativas e na companhia dos sujeitos da pesquisa.
O movimento constante nos tira a imobilidade, desafia, não existem certezas. Diante de tantas incertezas surgem as dificuldades e os medos. O que encontrar? Para onde olhar? Como vencer a falta de tempo e encontrar tempo para documentar? Olhar para as crianças e a diversidade de suas infâncias é um desafio. Os alunos/estagiários tiveram a oportunidade de educar o olhar e de diferenciar o ato de ver e simplesmente olhar. Aquele que vê é passivo. E que aquele que olha é ativo, tenso, inquiridor e imaginativo. O ato de olhar foi proposto aos estudantes ao longo do processo de documentar no estágio.
Diariamente enfrentaram as eternas dificuldades confrontadas na docência em encontrar tempo, em escolher caminhos demarcados ou simplesmente se aventurar nos desvios. Nas análises das documentações, foi possível encontrar palavras que evidenciaram os temores sentidos pelos alunos estagiários ao se depararem com a docência e com a responsabilidade de documentar. Palavras como: preocupação, desafio, tensão, ansiedade, imprevisto e medo permearam todo o processo de construção da documentação pedagógica. Dificuldades que foram confidenciadas nas
cartas e nas narrativas tecidas ao longo da pesquisa. Os alunos perceberam que não é fácil e, muitas vezes, não é prazeroso o ato de documentar, pois as adversidades e rotina diária tornam o processo penoso e cansativo.
Os maiores medos encarados foram: não conseguir tecer a documentação
pedagógica e assumir a docência com os bebês. Como ouvir o que não é dito com
palavras? Como olhar, escutar, sentir e registrar? Questionamentos que encontraram respostas nas narrativas e nos encontros possibilitados pela docência e pela
documentação pedagógica.
Assim, diante de tantas dificuldades e infortúnios, como a falta de tempo, o excesso de trabalho e o cansaço, esses não foram suficientes para apagar a superação enfrentada pelos alunos/estagiários, triunfo evidenciado nas narrativas que revelaram a autoria, assumida nas escolhas colhidas nos encontros e apresentados na documentação pedagógica.
Os alunos/estagiários também flertaram com o passado e resgataram memórias e narrativas de um tempo que não finda, mas se ressignifica. Que criança e infância os alunos/estagiários tiveram/foram? Os encontros com o passado possibilitaram novos encontros e novas narrativas com os bebês que encontraram no estágio. Que imagem de criança e infância os alunos tiveram a partir da
documentação pedagógica? Com resistência e medo todos se expuseram e
narraram histórias pessoais, sentimentos que afloram olhares focados para si, para os outros alunos e professoras e para as crianças e bebês.
Os alunos/estagiários descobriram, no decorrer do processo de documentação
pedagógica, crianças/bebês protagonistas, inventivas, potentes, que dialogam nos
encontros com outros no contexto educativo. Nas cartas, apresentaram olhares atentos quando se voltaram exclusivamente para os bebês e crianças e, simultaneamente, preocuparam-se em oferecer espaços vigorosos para que exerçam sua autonomia e criatividade.
Com as narrativas que entrelaçaram os fios da experiência, os olhares se ampliaram e possibilitaram encontrar sua imagem de criança, apresentada na
documentação pedagógica, tecida no percurso da pesquisa. É visível o protagonismo
das crianças e o quanto elas foram vistas como autoras da sua própria história. Evidenciaram, em suas cartas, os contextos que foram (re)visitados e (re)conhecidos pelos alunos/estagiários, mostraram diferentes imagens, espaços, crianças e professoras que, aliados às aulas teóricas, possibilitaram reflexões sobre
a complexidade e a simplicidade que paralelamente alimentam a docência. E, a partir das observações, dos registros, das interpretações e compartilhamentos, as crianças foram vistas, percebidas, narradas.
O que teriam os estudantes a dizer à Educação? O que teriam a dizer sobre a Educação Infantil, a documentação pedagógica, a formação de professores, sobre nós e sobre eles mesmos?
Nesse enredo, é fascinante ser o entregador de cartas, aquele que às vezes lê as correspondências e se apropria das narrativas, das conversas e materialidades antes de entregá-las aos destinatários, antes de se aninharem nas caixas.
Ao ler as cartas e registros dos alunos/estagiários “remetentes”, foi oportuno perceber que no processo do estágio e da documentação pedagógica eles se sensibilizaram, se encantaram e encantaram, tornaram-se narradores que, com olhar sensível e escuta de contexto, foram autores e produtores da sua própria história com os bebês.
Que relações são passíveis de estabelecer sobre o processo de
documentação pedagógica no percurso de formação inicial a partir das
narrativas dos alunos/estagiários? Inerentes mudanças foram percebidas ao longo do percurso. Com suas narrativas expressaram as transformações que desfrutaram. Tiveram e deram visibilidade quando apresentaram suas histórias luminosas e cheias de autoria. Tornaram-se autores reflexivos que, na procura pelos saberes, valorizaram cada experiência, possivelmente vivida na prática docente e no processo da
documentação pedagógica.
O processo de documentação pedagógica possibilitou uma experiência formativa não a partir da reprodução de técnicas, modelos e formas, mas, sim, de um autor produtor de sua própria história com as crianças.
Os alunos/estagiários evidenciaram, em suas narrativas, o quanto a disciplina e a prática da docência foram importantes para a sua formação profissional e pessoal, apresentando uma pequena prévia do que é a profissão.
Com a documentação pedagógica os alunos/estagiários afirmaram a autoria, apresentaram certezas e disposição para confrontar os desafios, dessa forma, eles seguem seus caminhos, possivelmente fortalecidos e com o esperado brilho no olhar.
Como preparar o professor para que ele eduque a criança pequena de forma humanizada? Como formar ou transformar o aluno/estagiário, futuro professor narrador? O que pode tocar ou afetar um futuro professor?
O estágio é um tempo que possibilita aprender, formar e transformar os sujeitos, nesse contexto, o sujeito aluno/estagiário pode ser encontrado e se encontrar. Essa jornada marcada por encontros certamente aproximou os alunos/estagiários do “ser professor” e, privilegiadamente, iniciaram seus percursos na formação, amparados por seus professores e pelo esforço em aprender a registrar, narrar, compor a documentação pedagógica e compartilhá-la.
A autoria se fez presente nas narrativas e compartilhamentos apresentados pelos alunos/estagiários na documentação pedagógica, eles foram autores e juízes do próprio processo de formação. Evidenciaram maturidade, responsabilidade e desejo de seguir em frente, de tentar fazer diferença e deixar marcas.
Suas caixas se expandiram e continuarão abertas para novas memórias e histórias... talvez um dia... alguém narre com alegria ou desespero o quanto foi trabalhosa, porém marcante, a experiência do processo de documentação no primeiro estágio supervisionado da Educação Infantil.
Felizmente, os questionamentos não cessam, impossível selá-los com exatidão. Com as incertezas, novas narrativas são escritas e compartilhadas, alimentando no percurso atemporal a história tão preciosa.
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