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Os Primeiros Passos das Ocupações no Rio Grande do Sul

No próprio relato do início das ocupações, é possível perceber a complexidade das relações entre os estudantes e as organizações políticas. Na semana iniciada em 2 de maio, uma reunião ocorrida no Colégio Paula Soares, no centro de Porto Alegre, trazia como pauta a possibilidade de ocupações nas escolas estaduais do Rio Grande do Sul156. Nela, com a presença de representantes de diferentes grêmios e de entidades estudantis como a

156 Segundo reportagem do Jornal Zero Hora, as ocupações já vinham sendo discutidas pelas entidades estudantis desde o início do mês de abril, mas divergências entre tais entidades teriam retardado seu início (http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/educacao/noticia/2016/05/o-que-move-as-ocupacoes-de-escolas-no-estado-5804779.html, acesso em 25/07/2017).

União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), a União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas (UGES) e a União Metropolitana dos Estudantes Secundários de Porto Alegre (Umespa) e do coletivo União da Juventude Socialista (UJS, ligada ao PCdoB), se discutia e incentivava a ocupação de escolas. As integrantes do grêmio estudantil do Julinho, que, inicialmente, estavam incertas quanto à ocupação, decidiram por não realizá-la naquele momento157. Isso não significa que a ideia de ocupação não andava pelas cabeças e bocas do Julinho. Bruna, por exemplo, nos relata que, na reta final do ano letivo de 2015, uma “virada cultural” fora realizada na escola. A iniciativa partira da direção da escola como forma de recuperação de carga horária, em função de uma greve de professores realizada naquele ano. A atividade contou com uma variada programação cultural que, durante toda a madrugada, abordou temas que iam da Guerra dos Farrapos até a apresentação de professores e show de talentos estudantis. Segundo Bruna, a experiência de virar a madrugada com atividades na escola levou alguns estudantes a se perguntar no momento em que assistiam às repercussões das ocupações paulistas de novembro de 2015: “Como será que é ocupar a escola, passar o tempo todo?”158 Já às vésperas da ocupação do Julinho, em maio de 2016, Naiara questionava a integrantes do grêmio estudantil sobre uma possível ocupação. Após o “contágio” das ocupações de São Paulo, a ideia definitivamente transitava pelos corredores da escola.

A incerteza que se manifestava nas integrantes do grêmio estudantil seria, por fim, vencida. E, na tarde do dia 12 de maio, atendendo a uma sugestão dada na referida reunião com as entidades, o grêmio do Julinho convocava uma assembleia com os estudantes da escola para discutir a possibilidade de uma ocupação simbólica de 24 horas. Aprovada pelos alunos e alunas presentes, a ocupação teve início na mesma noite, contando com cerca de 50 participantes. Na manhã seguinte, uma nova assembleia – desta vez com a presença de estudantes deste turno – reforçou a opção pela ocupação: neste momento, cerca de 50 jovens aderiram.

Na reunião da semana anterior à ocupação, o desacordo entre o grêmio do Julinho e as entidades estudantis presentes foi evidente e gerou conflitos, conforme o exposto por

157 É interessante notar que, diferente do caso paulista, entidades estudantis tiveram papel relevante na origem das ocupações no Rio Grande do Sul. No entanto, diversas reportagens (como a citada na nota acima), destacam o “efeito demonstração” da experiência paulista entre os estudantes gaúchos (mesmo aqueles não vinculados a entidades estudantis). Tal “efeito demonstração” teria ocorrido tanto no que se refere ao uso da ocupação como repertório de ação, quanto no que se refere ao sucesso deste repertório na conquista dos objetivos dos estudantes de São Paulo.

158 Depoimento de Bruna (1ª sessão, 14/12/2018, arquivo pessoal).

Bruna em uma roda de conversa ocorrida em 28 de maio159. Em função do caráter independente do grêmio estudantil do Julinho e de desacordos já existentes – e apenas expressos na referida reunião –, ficou decidido em assembleia que tais entidades não teriam acesso à ocupação do Colégio Júlio de Castilhos. Também o coletivo UJS, por sua vinculação com o Partido Comunista do Brasil, seria barrado por decisão do conjunto de alunos e alunas ocupantes.

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Independentemente do alinhamento ou não a entidades estudantis, a pauta de reivindicações do conjunto das ocupações secundaristas do RS incluía pontos ligados à precarização das escolas estaduais e ao processo político do estado. Por um lado, os estudantes denunciavam as precárias estruturas físicas de suas escolas, que há meses – e até anos – demandavam reformas, a falta de materiais básicos como papel para cópias, a má qualidade da merenda, o atraso do repasse de verbas para manutenção dos prédios escolares e a falta de professores nos quadros das unidades de ensino. Por outro lado, a pauta política dos estudantes opunha-se a dois projetos específicos que, a seu ver, representavam ataques ao ensino público por parte de políticos conservadores: o PL 44/2016, que abria a possibilidade de transferência da administração das escolas para organizações sociais (OSs) – visto pelos estudantes como uma possibilidade de avanço da privatização do ensino público, através da ingerência de fundações privadas nas escolas – e o PL 190/2015, que implantaria o programa Escola Sem Partido, abrindo um processo de cerceamento do debate no meio escolar, seja sobre assuntos ligados abertamente à política ou a questões de gênero e/ou etnia160.

Junto a estes pontos, o movimento dos estudantes prestava solidariedade à situação dos professores que, além de receberem baixos salários, vinham tendo os mesmos

159 Tal roda de conversa será abordada na próxima seção. Além disso, como já indicamos, Bruna detalhou o processo de definição e início da ocupação em entrevista cedida a esta pesquisa.

160 As informações a respeito da pauta foram retiradas de conversas com estudantes em diferentes ocupações que visitamos e da cobertura da imprensa sobre o movimento de ocupações de forma mais ampla. Um panfleto intitulado “Por que as escolas do RS estão ocupadas?”, de autoria do Comitê das Escolas Independentes, também expunha a pauta do movimento. Além das demandas já citadas, o material elencava também a defesa da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), que estaria em risco devido a cortes de verbas e a defesa do passe livre estudantil. O panfleto, reproduzido nos anexos ao final deste trabalho, foi distribuído no ato organizado pelo Comitê em 06 de junho, que será relatado e analisado adiante.

parcelados desde o ano anterior. Logo no início das ocupações gaúchas, inclusive, uma greve dos professores estaduais foi deflagrada, sendo prontamente apoiada pelos estudantes. Pode-se dizer, portanto, que a agenda de reivindicações dos jovens e das jovens transitava da denúncia e da luta contra o longo processo de precarização do ensino público ao enfrentamento da agenda política neoliberal e conservadora no estado.

A opção pela ocupação como forma de luta, como já foi dito anteriormente, teve como referência direta o exemplo das ocupações secundaristas de São Paulo no ano de 2015161. Entretanto, a decisão partiu também do entendimento de que novas formas de enfrentamento se faziam necessárias na conjuntura em que os estudantes se encontravam.

Em uma reflexão feita retrospectivamente, um dos jovens ocupantes chega a colocar a opção pelo método da ocupação como algo relacionado a um sentimento de urgência, à necessidade de medidas mais radicais de luta: “A gente fez passeata, protesto, e não conseguia resposta. A ocupação foi a resposta para a gente conseguir”162. Assim, nos intensos dias que se seguem ao 13 de maio, as ocupações espalharam-se como um incêndio pela capital e pelo interior do estado: no dia 19 daquele mesmo mês, já eram contabilizadas 94 escolas ocupadas, em 39 municípios gaúchos163. Apesar da dificuldade na identificação do número preciso de escolas envolvidas no processo das ocupações, estima-se que tenha chegado a quase 150 o total de escolas ocupadas ou, ao menos, com alguma ação relacionada ao processo de ocupações164.

161 Embora a ocupação de escolas tenha sido utilizada, enquanto tática de luta, no estado do Mato Grosso do Sul em 2012, o episódio não deu origem à onda que o caso paulista provocou em função de sua dimensão e visibilidade. Depois de São Paulo, Goiás, Rio Grande do Sul, Ceará, Minas Gerais, Paraná e outros estados assistiram também a ocupações em escolas, institutos federais e universidades públicas entre 2015 e 2016.

162 “Um ano depois, estudantes celebram reformas e conscientização como legados das ocupações”. organizadas, estruturadas e duradouras (como a do próprio Julinho) até ocupações com poucos estudantes, instáveis e efêmeras. Quanto a este segundo caso, podemos citar como exemplo a ocupação de uma escola de ensino fundamental na zona sul da cidade, onde realizamos uma oficina de história do rock. Ali, presenciamos o número reduzido de estudantes e ouvimos seus relatos e desabafos. O fato de serem estudantes muito jovens e inexperientes era um desafio extra à ocupação. Naiara, em sua entrevista, nos informou que chegou a visitar a ocupação da escola em sua formação, para prestar apoio e ajuda na organização inicial, visto a necessidade dos estudantes (Depoimento de Naiara, 1ª sessão, 01/08/2017, arquivo pessoal). Certamente, a relativa precariedade da ocupação em questão esteve presente em outras escolas do estado. A nosso ver, isto não diminui a dimensão e a importância política do processo de ocupações dos secundaristas do Rio Grande do Sul, mas indica a complexidade e mesmo os limites do fenômeno.

De qualquer forma, a eclosão do movimento de ocupação das escolas gaúchas coincidiu com um momento de atritos entre o então secretário de educação do estado, Vieira da Cunha (do Partido Democrático Trabalhista – PDT), e o governador José Ivo Sartori (do então Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB, atual MDB).

Ainda em maio, segundo a imprensa local, Vieira da Cunha teria pedido sua demissão devido a questões orçamentárias da pasta: ao ter a solicitação negada, partira então para um período de férias165. No mesmo dia de seu afastamento temporário, 11 de maio, tinha início o movimento de ocupações das escolas, na EEEM Emílio Massot. Iniciava-se também, via imprensa, um breve período de especulações quanto ao futuro de Vieira da Cunha no secretariado estadual. Por fim, no início de junho, o pedetista se desligaria da pasta, devido ao desgaste provocado pelo movimento das ocupações e pela greve do magistério estadual, mas também devido a discussões internas de seu partido, com vistas às eleições municipais da capital, que ocorreriam nos últimos meses daquele ano166.