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Segunda-feira, 13 de junho de 2016.

Estudantes de escolas ocupadas ligadas à União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), aos coletivos UJS (vinculada ao PCdoB) e Kizomba (vinculado ao PT), ao já citado Juntos (PSOL) e estudantes de dez escolas da Região Metropolitana

tomados [em sua avaliação] abusiva e ilegalmente por estudantes” (http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2016/06/apos-acordo-justica-do-rs-acolhe-acao-por-desocupacao-de-escolas.html, acesso em 12/11/2017). Porém, a partir da análise do mesmo despacho, reportagem do Diário de Santa Maria afirma que a ação de desocupação teria sido negada, reforçando, ao mesmo tempo, a necessidade da retomada das aulas nas escolas ocupadas. Tal liminar chegou a ser distribuída em versão impressa nas ocupações. A reportagem ainda afirmava que a decisão orientava a retomada da negociação entre as partes com as devidas mediações jurídicas (http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/rs/geral-policia/noticia/2016/06/justica-julga-liminar-que-pedia-desocupacao-das-escolas-estaduais-5992636.html, acesso em 12/11/2017). Agradecemos ao colega sociólogo Jonas Medeiros pela indicação desta narrativa conflitiva na imprensa. Como se verá adiante, entretanto, o desfecho do movimento das ocupações gaúchas se deu no terreno político, e não judicial.

210 Idem.

de Porto Alegre realizavam ato na Praça da Matriz, local onde se encontram o Palácio Piratini, sede do Executivo gaúcho, e a Assembleia Legislativa. O protesto, além de buscar pressionar o governador quanto às negociações, chamava também atenção para o enfrentamento aos projetos de lei que tramitavam no parlamento estadual211. Segundo reportagem do Portal Sul21, o ato também respondia ao início de ação judicial do governo que, a despeito da fala do secretário na reunião de 08 de junho – relatada nas páginas anteriores –, ingressava no judiciário exigindo a desocupação das escolas em um prazo de 48 horas para a retomada das aulas.

Por volta das 16h, após palavras de ordem ditas ao microfone, estudantes entraram no saguão da Assembleia com instrumentos, bandeiras, faixas e cantos, ocupando-a e exigindo a retirada dos projetos de lei de tramitação. A situação chegou a um impasse quando o governo estadual anunciou, através de seu líder de bancada (deputado Gabriel Souza – PMDB), que não retomaria reuniões de negociação enquanto a Assembleia não fosse desocupada212. Entre a segunda e a terça-feira, os estudantes permaneceram no local, cercados pela polícia militar que, em um primeiro momento, teria bloqueado a entrada de familiares, apoiadores e até mesmo alimentos ou qualquer tipo de ajuda. Após negociação, a entrada de alimentos teria sido permitida. Entretanto, estudantes relataram que o sistema de ares-condicionados fora programado para baixas temperaturas, deixando-os com frio durante toda a noite213.

Ao longo do dia 14 de junho, após negociações entre o governo estadual e estudantes, intermediadas por deputados da oposição, um acordo verbal fez com que os estudantes dessem início à desocupação da Assembleia. Pelo acordo, o governo e sua base se comprometiam a passar a votação do PL 44/16 – que transferiria a administração das escolas para as organizações sociais – para o ano seguinte, garantindo maior tempo de discussão. Junto a isso, houve a proposta de apresentação de um cronograma de obras nas escolas e melhorias na merenda. E, embora os estudantes afirmassem que a desocupação das escolas só ocorreria após a decisão de suas respectivas assembleias internas, o líder

211 “Estudantes ocupam Assembleia Legislativa pedindo retirada de projetos”

(http://www.sul21.com.br/jornal/estudantes-ocupam-assembleia-legislativa-pedindo-retirada-de-projetos/, acesso em 17/07/2017).

212 “Sartori recusa-se a atender reivindicações de estudantes que ocupam Assembleia”

(http://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2016/06/sartori-recusa-se-a-receber-estudantes-que-ocupam-a-assembleia-para-dialogo-7738.html, acesso em 17/07/2017).

213 “Estudantes prometem passar a noite na AL e devem se reunir com presidente pela manhã”

(http://www.sul21.com.br/jornal/estudantes-prometem-passar-a-noite-na-al-e-devem-se-reunir-com-presidente-pela-manha/, acesso em 16/07/2017).

do governo, deputado Gabriel Souza, anunciava à imprensa que o processo de desocupação das escolas teria início após a assinatura do acordo estabelecido naquele dia214.

A este acordo entre as representações das ocupações ligadas às entidades estudantis e o governo, as ocupações do CEI responderam com uma ação ainda mais radicalizada. Na manhã do dia 15 de junho, o prédio da Secretaria Estadual da Fazenda foi ocupado por cerca de 40 jovens. Ao mesmo tempo em que buscavam mostrar que a negociação do dia anterior não contemplava a totalidade do movimento das ocupações, os estudantes escolhiam o prédio que simbolizava o controle financeiro e patrimonial do Executivo como forma de pressionar o governo do estado a melhorar a proposta215.

Se a ação do CEI foi mais confrontacional do que a das entidades, a reação governamental foi também mais truculenta. A ausência de lideranças partidárias e de organizações de grande porte como as presentes na ocupação da Assembleia Legislativa, o número reduzido de envolvidos e o fato do prédio da Secretaria da Fazenda ser um imóvel mais isolado no centro da cidade são também fatores que ajudam a entender a reação mais violenta das forças policiais.

Por volta das 9:30, a tropa de choque da Brigada Militar passou a bloquear os acessos ao prédio e seu entorno. Coincidentemente, próximo ao local, na sede da Secretaria Municipal de Administração (SMA) da Prefeitura de Porto Alegre, ocorria um ato que integrava as atividades da greve dos municipários, que começara ao final do mês de maio. Ao tomarem conhecimento da ocupação e do cerco da PM, os trabalhadores municipários deslocaram-se para o prédio da Secretaria da Fazenda, a fim de prestarem apoio e solidariedade aos estudantes.

214 “Após negociação com governo, estudantes decidem desocupar escolas e Assembleia do RS”

( http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2016/06/apos-negociacao-com-governo-estudantes-decidem-desocupar-escolas-e-assembleia-do-rs-5992377.html, acesso em 17/07/2017).

215 “Contrários a acordo com governo, estudantes independentes ocupam Secretaria da Fazenda”

(http://www.sul21.com.br/jornal/estudantes-ocupam-a-sefaz-em-busca-de-melhores-propostas-do-governo-do-estado-para-a-educacao/, acesso em 18/07/2017). As informações que se seguem sobre os desdobramentos da ocupação da Secretaria da Fazenda são resultado da observação e do acompanhamento diretos feitos durante os acontecimentos. Estivemos presentes em frente da SEFAZ enquanto ocorria a ação de desocupação forçada. Assim, presenciamos (e sofremos) a repressão no lado de fora do prédio. Ao longo da tarde e da noite, acompanhamos o trajeto dos jovens maiores de idade, da SEFAZ até o Presídio Central, quando foram liberados na madrugada seguinte. Sobre o ocorrido no interior do prédio, consultamos vídeos e relatos feitos pelos jovens e pelo jornalista Matheus Chaparini, bem como as entrevistas de Bruna e Diego.

Os registros de tal observação – em certa medida, participante – foram sistematizados apenas nos dias posteriores, devido à intensidade dos acontecimentos, como se verá no relato. Sempre que a fonte for outra, a indicação será feita em nota de rodapé.

A ação da polícia militar na desocupação do prédio foi marcada pela truculência e pela arbitrariedade, sendo inclusive caracterizada em relatório do Comitê Estadual Contra a Tortura como prática de tortura e tratamento cruel, desumano e degradante contra os jovens ocupantes216. Enquanto proibia a entrada de advogados apoiadores do movimento e sem a presença de conselheiros tutelares – que chegariam depois –, policiais militares entraram no prédio, renderam os jovens e fizeram uso indiscriminado do spray de pimenta, atingindo olhos e boca de estudantes que se encontravam sentados ao chão.

Ainda na mesma ação, a identificação do jornalista Matheus Chaparini, que acompanhava os jovens para a realização de uma reportagem sobre a ocupação, foi ignorada e o mesmo foi preso juntamente com militantes maiores de idade que acompanhavam a ocupação217. Do lado de fora, municipários que protestavam e denunciavam a ação da Brigada eram também alvo de sprays de pimenta, além de bombas de efeito moral e cassetetes utilizados para abrir espaço para a chegada e, posteriormente, saída de camburões para o transporte dos jovens presos no interior da Secretaria da Fazenda. A partir dali, o grupo dos jovens menores de idade faria uma peregrinação entre o Departamento Médico Legal (DML) – para o registro de lesões corporais – e a Delegacia do Departamento Estadual da Criança

216 “Relatório aponta que houve tortura a estudantes em desocupação da Sefaz”

(http://www.sul21.com.br/jornal/relatorio-aponta-que-houve-tortura-estudantes-em-desocupacao-da-sefaz/, acesso em 18/07/2017).

217 Além de relatos dos estudantes e militantes envolvidos feitos posteriormente em reportagens, as informações sobre o que ocorreu no interior do prédio da Secretaria da Fazenda estão presentes no relato do jornalista Matheus Chaparini disponível em http://www.jornalja.com.br/da-ocupacao-ao-presidio-central-o-relato-do-reporter/ (acesso em 18/07/2017). O jornalista ainda daria outro relato complementar em forma de entrevista em “‘Tu sai para trabalhar às 7h, não acha que vai sair do Central algemado às 2h do outro dia’” (http://www.sul21.com.br/jornal/tu-sai-para-trabalhar-as-7h-nao-acha-que-vai-sair-do-central-algemado-as-2h-do-outro-dia/, acesso em 18/07/2017). Um outro relato do jornalista encontra-se em CHAPARINI, Matheus. “24h de reportagem: a última ocupação?” In: CATTANI, Antonio David.

Escolas Ocupadas. Porto Alegre; CirKula, 2017, 119-128. Além dessas fontes, o vídeo “BM retira estudantes da Sefaz com spray de pimenta”, com imagens feitas pelo jornalista, encontra-se disponível no canal de youtube do Jornal Já, veículo para o qual Matheus Chaparini trabalhava à época (https://www.youtube.com/watch?v=wdG_GNsfNFs, acesso em 18/07/2017). Também o cineasta independente e ativista Nivek D’Arc sofrera o mesmo tratamento na ocasião. Naquele momento, ele trabalhava no projeto “Minha Escola, Minhas Regras”, produzindo um documentário que acompanhava ocupações nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O projeto acabaria por incluir os acontecimentos na SEFAZ. Informações sobre o “Minha Escola, Minhas Regras” estão disponíveis em sua página no Facebook (https://www.facebook.com/minhaescolaminhasregras/?__tn__=K-R&eid=ARCxEXebrRKypDEg3rT_hl9kwUcwkTwl4Ppg940RFWr3KaRtfa0iHGaQsHHOHiM879cfoCZ

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O processo dos envolvidos segue em tramitação na justiça.

e do Adolescente (DECA), sendo liberados aos responsáveis ao longo da tarde do mesmo dia. Já os maiores de idade, após também registarem lesões corporais no DML, foram encaminhados à 3ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (3ª DPPA) da Polícia Civil – local para onde se convencionou encaminhar militantes e manifestantes detidos em manifestações nos últimos anos218. Ao início da noite, seriam transferidos ao Presídio Central e ao Presídio Feminino Madre Pelletier, de onde sairiam durante a madrugada, após expedição do relaxamento de prisão pelo juiz de plantão no Fórum Central da capital.

Um conjunto de advogados que acompanhavam o caso desde o início do dia manteve o acompanhamento do processo pelos meses seguintes. Até o fechamento desta pesquisa, os processos dos maiores de idade seguiam sua tramitação com os jovens em liberdade219. A força das duas ações – na Assembleia Legislativa e na Secretaria da Fazenda – e sobretudo o desgaste político sofrido pelo governo devido à ação repressiva no segundo caso, quando os direitos de menores de idade e de um membro da imprensa foram intensa e explicitamente violados, fizeram com que uma definição em torno das negociações fosse acelerada. Ainda assim, quase uma semana se passaria até o desfecho final das ocupações. Em sua saída, os estudantes das diversas escolas organizaram mutirões de limpeza para a entrega simbólica das chaves às respectivas direções e, em alguns casos, a representantes da Secretaria Estadual de Educação220.

A Escola de Ponta-Cabeça: A ocupação como inversão da ordem e