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2 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, A TOLERÂNCIA E O

2.3 A liberdade de expressão como direito fundamental

2.3.1 Os princípios constitucionais que garantem a liberdade de

A liberdade de expressão está garantida especialmente pelo princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, o princípio da igualdade40 e o

princípio democrático. O princípio da dignidade humana41 coloca o homem no centro

de toda ordem jurídica, pois “[...] a premissa material da dignidade humana impõe que a autonomia individual seja apreciada não sob um enfoque meramente descritivo, mas sim, sobretudo, como uma submissão moral à personalidade individual”. (CHEQUER, 2011, p. 35).

A liberdade de expressão recebe garantia constitucional pelo princípio da dignidade humana considerando-se o aspecto instrumental de autodefinição e autodeterminação individual. O valor da dignidade humana funciona como fundamento para a liberdade de expressão, mas também, como limite a ela, visto que o respeito aos demais direitos fundamentais deve sempre que possível, balizar o exercício da liberdade de expressão, inclusive como requisito para a realização dessa dignidade42.

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O princípio da igualdade, em conjunto com o princípio da liberdade e o da fraternidade, compõe a base fundamental dos Estados Democráticos de Direito. A sua importância é tamanha que em obra dedicada ao seu conteúdo jurídico Mello (2008, p. 45) assim o reverencia, “[...] a isonomia se consagra como o maior dos princípios garantidores dos direitos individuais”.

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Thomas Fleiner (2003) associa a dignidade humana à liberdade que somente ao homem é possível atribuir. Ele diz que em “[...] virtude de sua razão o homem é capaz de determinar os valores com base nos quais ele quer orientar a sua ação, estabelecendo o que é bom ou mal para si próprio”. (FLEINER, 2003, p. 11-13). A violação da dignidade humana acontece justamente quando esta liberdade é invadida por outrem, pois a dignidade pressupõe ser possível às pessoas formarem suas opiniões e, de acordo com elas, tomarem suas próprias decisões. Acrescenta ainda que, pertence à dignidade do homem o respeito à sua individualidade e que as práticas discriminatórias de qualquer ordem, representam uma violação à dignidade humana.

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Esta ideia está presente no pensamento de Rawls quando ele trata das liberdades fundamentais aplicadas aos dois casos fundamentais, quando defende que somente é possível uma restrição a uma liberdade fundamental para preservar o núcleo central da própria liberdade, que por sua vez se fundamenta na promoção da autonomia e na dignidade humanas. Vide tópico específico: A contribuição dos liberais modernos.

O segundo princípio constitucional protetor da liberdade de expressão, é o princípio da igualdade43. O direito de manifestar as ideias, opiniões, valores44 e

sentimentos, divergentes ou não, de modo livre e amplo é direito de todos. Não se trata de mero reconhecimento formal do direito, pois, imperioso e imprescindível é proporcionar as mais amplas condições de materialização, de efetivação da liberdade de expressão. O objetivo do princípio da igualdade como fundamento da liberdade de expressão é “[...] garantir a existência, a inteireza e condição de acesso de uma esfera pluralista de discussão pública, exigindo-se o afastamento de eventuais discriminações já consolidadas no passado”. (CHEQUER, 2011, p. 39). O princípio da igualdade como fundamento constitucional da liberdade de expressão, destaca a forma como esse direito será apresentado à disposição dos grupos minoritários, isto é, para ser efetivo, o direito à liberdade de expressão deve estar disponível aos grupos minoritários na sociedade.

O princípio democrático é o terceiro princípio constitucional que legitima a liberdade de expressão enquanto um direito fundamental. Por sua condição à livre expressão presume-se “[...] uma dialética entre o discurso e o „contradiscurso‟, entre a narrativa e a „contranarrativa‟”. (CHEQUER, 2011, p. 40). A liberdade de expressão é um dos direitos fundamentais mais importantes para qualquer sociedade que se pretenda democrática, por isto mesmo, não é exagero afirmar que

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Desde a Antiguidade, o princípio da igualdade é apontado como o cerne da justiça. Em todas as épocas do pensamento ocidental, o senso de justiça pareceu conter uma certa ideia de igualdade. (OLIVEIRA, 2009, p. 77) Ele também aparece nas doutrinas religiosas cristãs da Idade Média. Lá a igualdade é tratada na condição de universalidade, pois todos os homens são originados da mesma fonte, Deus, e por isto mesmo, em essência todos são iguais. Mais antigamente no período clássico grego, a igualdade é uma condição natural. Assim, alguns são iguais e outros desiguais entre si a partir de uma lógica determinista do cosmos ou de Deus. Nascer para o mando ou para a obediência é condição imposta pela própria natureza ou pela divindade.

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Sobre os valores Garcia Morente (1980, p. 298) ensina que diante da realidade existencial do mundo, ele não é indiferente para o ser humano. Não há nada que exista perante o qual o ser humano não adote uma postura positiva ou negativa, uma posição de preferência, de avaliação, de valoração. Neste sentido, “não há coisa alguma que não tenha um valor”. O que se enuncia de alguma coisa quando ela é avaliada como boa ou má, útil ou inútil? Certamente não é da ordem do ser que se trata tal avaliação, mas sim da ordem do valer. O que é enunciado é o valor. Entretanto, do que se trata o valor? A filosofia tem distinguido entre juízos de existência ou realidade e juízos de valor. Os primeiros “[...] enunciam de uma coisa aquilo que ela é, enunciam propriedades, atributos, predicados dessa coisa, que pertencem ao ser dela, tanto do ponto de vista da existência dela como ente, como do ponto de vista da essência que a define. [Já os juízos de valor] enunciam acerca de uma coisa algo que não acrescenta nem tira nada do cabedal existencial e essencial da coisa. Enunciam algo que não se confunde nem com o ser enquanto existência nem com o ser enquanto essência. Como conclusão, tem-se que “os valores não são coisas nem elementos das coisas”, mas também, como erroneamente já se considerou, os valores não são impressões de caráter subjetivo de agrado ou desagrado que as coisas produzem no sujeito e que o sujeito projeta nas coisas. O critério do valor não é uma propriedade do ser do objeto e muito menos um sentimento ou uma projeção sentimental do sujeito, pois “acerca do agrado ou desagrado subjetivo não há discussão possível”, enquanto dos valores é possível discutir. (GARCIA MORENTE, 1980, p. 298).

O grau e a plenitude do exercício da liberdade de expressão podem servir – e muito – como termômetro para medir o nível de liberdade e tolerância existentes em um determinado regime político, assim como avaliar a maturidade alcançada pelas instituições políticas e jurídicas de uma sociedade. (CHEQUER, 2011, p. 40).

Somente é possível pensar-se uma sociedade efetivamente democrática na medida em que seus cidadãos estejam bem informados dos acontecimentos da vida política de sua sociedade. Neste sentido, o direito à informação como componente da liberdade de expressão em sentido amplo, é garantia fundamental para a formação de opiniões críticas e conscientes sobre a atuação política dos governantes e dos agentes públicos servindo de controle e de fiscalização de como são orientadas e coordenadas as políticas públicas dos governos. A liberdade de expressão não é, deste modo, apenas um direito fundamental que condiciona a realização da sociedade democrática pela atuação política de seus membros, é “[...] uma parte essencial para configurar o Estado democrático, garantindo a formação de uma opinião livre e a realização do pluralismo como princípio básico de convivência”. (CHEQUER, 2011, p. 41).

2.3.2 A liberdade de expressão como um direito fundamental limitado: teoria externa