• Nenhum resultado encontrado

Em 1995, Nicolas Negroponte publicou o livro A vida digital13, no qual fez várias previsões e análises do impacto das novas tecnologias em nossa vida. Umas não se confirmaram, mas outras estão se concretizando, mesmo que com defasagem de alguns anos. Dentre elas está sua análise do compor-tamento dos conglomerados de comunicação em manter o atual modelo de negócios, mesmo dentro do contexto digital dos veículos de comunicação.

Os barões dos meios de comunicação irão se agarrar a seus impérios centrali-zados amanhã, na tentativa de mantê-los. Estou convencido de que, lá por 2005, os americanos passarão mais horas na Internet (ou qualquer que seja o nome) do que assistindo às redes de televisão. As forças combinadas da tecno-logia e da natureza humana acabarão por impor a pluralidade com muito maior vigor do que quaisquer leis que o Congresso possa inventar.

Esta é uma afirmação contundente, pois estamos exatamente atraves-sando um período onde políticas de comunicação estão sendo traçadas pelo governo brasileiro, contemplando ora parte dos interesses dos radiodifusores,

136

ora parte dos interesses das operadoras de TV paga, ora as empresas de tele-comunicações. E no caso dos radiodifusores, as decisões do Congresso Na-cional contribuem para que o modelo de negócios da TV analógica seja repe-tido na TV Digital aberta. Mas, se essas políticas serão aceitas pela audiência, é outra história. A interatividade, a multiprogramação, a quantidade de ca-nais, a alta definição das imagens, padrão do sinal e a possibilidade de realizar cópias dos programas veiculados na TV Digital estão sendo decididos pelo governo sem consulta pública. A escolha do padrão japonês de transmissão digital foi um consenso entre os radiodifusores, na tentativa de se manter o modelo atual, conforme demonstra Cruz (2008).

Ele permite que as emissoras façam transmissões para celulares, man-tendo-se o modelo de negócios atual. A ameaça das operadoras de telecomu-nicações fez com que as redes se juntassem em uma campanha, em março de 2006, que dizia: “TV aberta: 100% Brasil, 100% grátis.” (CRUZ, 2008, p. 93).

A campanha reuniu a TV Bandeirantes, RedeTV e SBT e apoiada pela TV Globo, Record, TV Cultura e Rede Vida. Esta pode ser considerada uma das primeiras estratégias significativas que as emissoras traçaram frente às novas tecnologias.

Entretanto, a concorrência com as empresas de telecomunicação não é a única frente de batalha das emissoras de TV aberta. A convergência digital está se constituindo em um forte adversário na luta pela audiência. Henry Jenkins, professor e fundador do programa de Estudos de Mídia Comparada do MIT – Massachusetts Institute of Technology – afirma que a convergência digital é algo diferente de apenas uma mesma máquina agregar vários tipos de mídia que anteriormente possuíam sua própria plataforma. A convergência não é apenas uma questão tecnológica e midiática. A convergência passa a ser uma questão cultural, onde os hábitos dos indivíduos mudam, e assim, toda relação entre o indivíduo, a mídia e entre nós mesmos. Cita o autor (2008, p. 27-28):

Por convergência refiro-me ao fluxo de conteúdos através de múltiplos su-portes midiáticos, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao

com-portamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que de-sejam. [...] A convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais sofisti-cados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros dos con-sumidores individuais e suas interações sociais com os outros.

Para Jenkins (2008), a questão da convergência das mídias faz surgir uma nova cultura: a Cultura da Convergência.

A mudança central está no fato de que o individuo possui diversas formas e ferramentas para buscar a informação que deseja ou o entretenimento que deseja. E ele quer fazer isto de forma rápida e segura. Isto ocorrendo, muda completamente o atual modo de produção midiática e o modo como a indús-tria midiática veicula suas mensagens. Além disso, a publicidade que financia toda essa indústria, também terá de encontrar novos modos de sedução e per-suasão para vender seus produtos.

A convergência das mídias é mais do que apenas uma mudança tecnológica. A convergência altera a relação entre tecnologias existentes, indústrias, mer-cados, gêneros e públicos. A convergência altera a lógica pela qual a indústria midiática opera e pela qual os consumidores processam a notícia e o entreteni-mento. (JENKINS, 2008, p. 41).

Isto faz surgir um novo tipo de consumidor. Agora, não definido por classe social, poder aquisitivo ou grau de instrução. “A pesquisa de audiência se deslocará, cada vez mais, para o estudo do status do usuário e para sua nova função como peça-chave da convergência dos meios”. (VILCHES, 2003, p. 21).

Como citado, a internet já vem tirando das emissoras de televisão boa parte da audiência. Cruz (2008) descreve um estudo realizado pelo instituto Datanexus referente a novembro e dezembro de 2003, em que era possível comprovar que a internet vinha retirando audiência das emissoras. O estudo apontava que, na grande São Paulo, as pessoas que não possuíam acesso à internet gastavam 12% de seu tempo com a televisão, contra 9,4% das

pes-138

soas que possuíam acesso. Ainda de acordo com Cruz (2008), em 2005 o país contava com uma audiência residencial de 2.654 milhões. Notícia veiculada pelo site G114 aponta estudo realizado pelo instituto IBOPE Nielsen Online, que faz medições desde 2001, segundo o qual o Brasil possui 62,3 milhões de pes-soas com acesso a internet em casa ou ambientes corporativos (lan house, bi-bliotecas, trabalho etc.). Ainda de acordo com o estudo, o brasileiro gasta 40 horas e 41 minutos mensais navegando na internet, o que faz do Brasil campeão de navegação na rede.

Este comportamento está mudando o hábito de uma parcela considerável de espectadores da TV aberta. Em pesquisa divulgada pelo instituto Data-folha,15 jovens da classe A e B já preferem a internet (43%) como fonte de informação e entretenimento em lugar da televisão (26%). Em outras faixas sociais, a diferença entre os números diminui, o que pode ser explicado pela conexão banda larga mais acessível à classe A e B.

Em outro estudo divulgado pela IMMI (Integrated Media Measurement Inc.)16, um quinto dos americanos já vê TV pela internet. De acordo com o estudo, 50% dos que veem televisão pela web realmente substituíram a TV pelo computador. A outra metade usa para ver programas em horários alter-nativos ou rever programas que já tenham vistos na TV aberta ou a cabo. O site americano www.hulu.com é uma tentativa das emissoras de televisão americanas de conter o avanço do maior site de distribuição de vídeos atual-mente: o Youtube. O Hulu é o resultado de uma parceria entre as redes News Corp e a NBC Universal e distribui gratuitamente vídeos de seus programas e séries, que conta, ainda, com produtos da Sony e da MGM.17 Dados recentes, divulgados pelo site InfoOnline18, mostram que o site vem ganhando popula-ridade exibindo, em março de 2009, 437 milhões de vídeos (de acordo com a mesma reportagem, ainda muito distante de Youtube que, no mesmo mês, exibiu 5,9 bilhões de vídeos) e já estuda a possibilidade de adotar um modelo pago para uso do site.

É muito forte o indício de que as pessoas estão migrando para a web.

Não que elas não queiram mais a televisão, nem sua programação. É a ma-neira como a Web está oferecendo os produtos das emissoras de TV que tem atraído essa audiência. Com isso, os altos índices de audiência massiva que as

emissoras obtinham na década de 1980 dificilmente se repetirão, devido às novas tecnologias.

Outro segmento da indústria do audiovisual que em breve irá competir de igual para igual com a TV aberta é o mercado de TV paga. Esse ramo de atividade teve um início nebuloso no país. Nos EUA, a TV a cabo teve início por volta de 1947, quando esse sistema foi utilizado para fazer chegar a TV a localidades sem cobertura. Em 1970, a TV a cabo nos EUA já era comum na maioria das cidades rurais e suburbanas e as grandes redes começaram a se instaladas19. No Brasil, somente no governo de Jose Sarney, em 1988, o Go-verno Federal publicou o decreto 95.744/88, que regulava a distribuição do sinal por cabo e o concebia como um serviço especial, diferenciando-o da radiodifusão pelo simples fato de transmitir sinal codificado somente a assi-nantes, enquanto, na TV pelo ar, o sinal era transmitido gratuitamente para o público20.

Somente em 1990, no governo Collor, licenças para a prestação do ser-viço foram entregues a pequenos empresários e parentes de congressistas. Em 1995, já no governo Fernando Henrique, foi instituída a Lei Geral do Cabo, que regulamenta o setor até o momento. Após a publicação da Lei, outorgas foram entregues a outros empresários, porém, do ano 2000 até 2009, o go-verno não entregou mais outorgas, criando, assim, um mercado fechado e quase monopolista.

Agora, esse cenário está mudando. Em 1997 foi criada a Anatel, Agência Nacional de Telecomunicações, que tem por função regular e viabilizar o modelo de telecomunicações brasileiro. Após dez anos sem a liberação de novas outorgas, em julho de 2010 a agência suspendeu a limitação no número de prestadoras e voltou a analisar os mais de 1.000 pedidos que haviam sido protocolados durante esses dez anos, bem como novos pedidos que foram protocolados. Além disso, tramita no Senado Federal o PLC 116/2010 que, entre outras normas, prevê a liberação para que as empresas de telecomunica-ções também ofereçam canais de TV por assinatura e derruba o veto para que empresas estrangeiras atuem no setor, favorecendo empresas como a Oi/Por-tugal Telecom, a Claro/Embratel, a NET e Vivo/Telefônica, TIM e GVT”, concorrentes de peso para TV Digital aberta.

140

Com essas ações, a Anatel quer aumentar de 260 para 5 mil o número de municípios atendidos e acredita que o mercado de TV por assinatura a cabo, MMDS, Satélite, que atualmente gira em torno dos 8 milhões de assinantes, irá dobrar até 2014.

O problema central reside no fato de que as duas indústrias estão to-mando caminhos opostos. Até o momento não houve um entendimento se a interatividade desenvolvida para a TV Digital estará presente nos dispositivos da TV paga. O Ginga, software brasileiro que permite a interatividade, não estará presente nos canais abertos oferecidos pelas operadoras. Sem essa in-tegração, possíveis ações publicitárias e comerciais que estão previstas para a interatividade na TV Digital não farão parte da programação da TV paga.

Este é um caminho muito perigoso, pois enormes oportunidades de gerar re-ceita e menos dependência dos espaços publicitários deixarão de atingir mi-lhares de consumidores que sintonizam os canais abertos via TV a cabo.