2 OS IMPACTOS CAUSADOS PELA INGERÊNCIA DA DOCUMENTAÇÃO
2.4 OS PROBLEMAS CAUSADOS PELA INGERÊNCIA DOS DOCUMENTOS E DE
A escola é uma organização que juntamente com a família tem a missão de educar. E as experiências que um indivíduo ali experimentam devem contribuir positivamente para o despertar de sentimentos de confiança, bem como “o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, como apregoa a Lei nº de Diretrizes e Base da Educação Nacional nº 9394/1996 (BRASIL, 1996, recurso online).
Considerada como a porta de entrada da escola, a secretaria é “a produtora e guardiã da memória e da documentação da escola, de seus alunos e professores, e que garante o controle de toda a situação escolar: atendimento, qualidade dos serviços, funcionamento”, dela dependendo todo o bom funcionamento e organização do ambiente escolar (PARANÁ, 2006, p. 9). Assim sendo, deve zelar para boa gerência dos documentos relativos à vida
escolar dos alunos que por ali passam, evitando, dessa forma, grandes transtornos no futuro desses indivíduos que demandam de seus serviços.
Acreditando nisso, a presente pesquisa busca verificar quais são os problemas recorrentes na gestão de vida escolar dos alunos das escolas do município de Gouveia, que impactam no número de processos de regularização de vida escolar da SRE/Diamantina, que podem ser evitados pelas instâncias responsáveis. Assim, foi feito um levantamento do número de processos e dos erros mais comuns cometidos pelas escolas que acarretam o quantitativo de processos instruídos pela SRE/Diamantina. Entre os casos mais comuns de regularização de vida escolar estão aqueles em que o aluno estuda em mais de uma escola e a instituição que recebe este aluno não analisa a documentação apresentada de forma correta no ato da matrícula.
A matrícula é o registro do ingresso do aluno na escola, que acontece por solicitação dos pais ou responsáveis ou do próprio candidato se maior de idade. No ato da matrícula, vários sãos os cuidados que o servidor, que está analisando a documentação do aluno que está sendo admitido, deve ter para não prejudicar sua vida escolar. Anualmente, a SEE/MG, publica resolução na qual cita quais documentos devem ser apresentados no ato da matrícula de um aluno. A legislação que está em vigor é a Resolução SEE nº 4.231/2019, na qual, em seu artigo 20 estabelece:
- Ao se apresentar na unidade de ensino, os pais/responsáveis ou o próprio aluno, quando maior de idade, deverão levar:
I - Documento de Identidade ou, na sua ausência, Certidão de Nascimento do aluno, original e cópia;
II - CPF do aluno, original e cópia, sendo obrigatória a apresentação se o aluno for maior de idade e facultativa se menor de idade;
III - Comprovante de residência, original e cópia, no nome de um dos pais/responsáveis ou do aluno. São considerados comprovantes válidos as contas de água, de energia ou telefone;
IV - Histórico Escolar ou Declaração de Transferência, constando o ano de escolaridade para a qual o aluno está habilitado, ficando o original na escola. §1° - Para o aluno menor de idade é necessária, ainda, a apresentação de documento de identidade e do CPF, originais e cópias, de um dos pais/responsáveis.
§2° - Caso o estudante seja declarado com Deficiência, Transtornos Globais do Desenvolvimento e Altas habilidades/Superdotação, é necessária a apresentação de laudo médico, original e cópia (MINAS GERAIS, 2019c, p. 1).
É muito comum também a escola de origem do aluno não emitir as informações corretas na Declaração de Transferência e quando a escola de destino recebe seu Histórico Escolar, em data posterior, percebe que há divergências nos documentos. Quando a escola
percebe o erro já é tarde demais e o aluno, muitas vezes, já não se encontra mais na escola por ter sido transferido novamente ou por já ter concluído o nível de ensino oferecido pela escola. Muitos alunos quando são admitidos na escola, a documentação apresentada é uma Declaração de Transferência que tem validade de 30 dias. Só que ao invés de documentar essa informação para acompanhamento e solicitação do Histórico Escolar à escola de origem, os ATBs responsáveis por organizar e manter atualizados cadastros, arquivos, fichários, livros e outros instrumentos de escrituração da escola e à vida escolar dos alunos, conforme estabelece a Lei Estadual nº 15.293//2004 (MINAS GERAIS, 2004), simplesmente arquivam a referida declaração na Pasta Individual do aluno. Uma vez arquivada, essa declaração só é analisada quando o aluno solicita seu Histórico Escolar na conclusão do nível de ensino oferecido pela escola ou no ato de sua transferência para outra escola. Ou seja, os ATBs ou o Secretário só se dão conta de que o aluno passou anos sem a documentação obrigatória exigida, na emissão de seu Histórico Escolar. Então, quando a escola de origem emite o Histórico Escolar, muitas vezes, retratam uma situação totalmente diferente daquela interpretada pela escola de destino no ato da admissão do aluno. A maioria dos processos de regularização instruídos pela SRE/Diamantina são oriundos dessa situação descrita. Então, quando se deparam diante dessa situação solicitam a interferência do Inspetor Escolar.
Não se pode deixar de considerar outros fatores que comprometem a emissão desses documentos em tempo hábil e de forma correta. A escassez de servidores e a grande demanda de serviços contribuem consideravelmente para a ocorrência de grandes problemas na vida escolar dos alunos. A realidade de cada escola se destoa sobremaneira. Enquanto algumas têm servidores em excedência, devido aos ajustamentos funcionais, outras têm menos do que o necessário, devido ao número de alunos. A particularidade de cada uma precisa ser analisada para se entender qual o caminho que elas deverão trilhar para, então, oferecerem um serviço de qualidade, evitando assim transtornos na vida dos indivíduos que demandam de seus serviços.
É muito comum também, entre esses casos de regularização de vida escolar, aqueles em que ex-alunos resolvem estudar ou trabalhar, mas, para isso precisam do Histórico Escolar para comprovação de escolaridade. Assim, procuram a escola onde concluíram os estudos para a retirada do documento. Ao fazer o documento para o solicitante, a escola descobre que o aluno não cursou ou reprovou em alguma disciplina e que isso passou despercebido pelos profissionais que trabalham ou trabalharam na secretaria da escola. Diante da situação, a escola procura o Inspetor Escolar para a resolução do problema. Depois de analisado o caso e o Inspetor Escolar não conseguir encontrar um Parecer que ampare a vida escolar desse aluno,
o processo é instruído e encaminhado à SEE/MG para pronunciamento. Depois de analisar toda a documentação do aluno, a SEE/MG emite parecer regularizando ou não a vida escolar do aluno em questão.
Em 2014, aconteceu um caso que impactou bastante a vida de um ex-aluno de uma escola da SRE/Diamantina. Desejando retornar aos estudos, esse ex-aluno procurou a escola onde havia concluído o 3º Período da EJA Ensino Médio para solicitar o seu Histórico Escolar. Quando a escola foi emitir o documento detectou que o aluno tinha sido matriculado de forma indevida, uma vez que, não havia sido aprovado na disciplina de Inglês na série anterior ao da matrícula na escola. Nesse caso em questão, nota-se que a escola cometeu um grave erro ao deixar de analisar a vida escolar do aluno de forma correta. Quando questionada sobre a não observância do procedimento correto, a Diretora, que ainda não estava na direção da escola à época da matrícula do aluno, informou que era comum a escola receber vários alunos encaminhados do Projovem - projeto oferecido pela Rede Municipal, sem a documentação. Assim que essa documentação era recebida, arquivava-se na Pasta Individual do aluno - e pelo que se nota no caso em questão, sem a devida análise. No caso desse aluno, a SEE/MG não emitiu parecer amparando sua vida escolar, responsabilizando a equipe gestora pelos danos causados à vida do aluno e repassando ao Inspetor Escolar, a responsabilidade de apresentar alternativas para o ex-aluno concluir o Ensino Fundamental. Diante da resposta encaminhada pela SEE/MG o aluno desistiu de prosseguir seus estudos.
Em 2019, quando assumi a Inspeção do município de Gouveia fui solicitada para dar orientações sobre o processo de reclassificação de um aluno. Ao receber as orientações, a Secretária Municipal de Educação percebeu que tinha feito, no ano de 2017, um processo de reclassificação de uma aluna de forma incorreta. Dessa forma, a aluna em questão, caso venha a precisar futuramente de uma autenticação de Histórico Escolar, que acontece geralmente quando o indivíduo vai ingressar em algum curso superior, sua vida escolar irá precisar ser amparada por algum Parecer da SEE/MG. Assim, a escola onde a aluna concluir o Ensino Médio precisará instruir o processo de regularização de sua vida escolar e encaminhar a SEE/MG para pronunciamento.