CAPÍTULO II A TEORIA DO ENSINO DESENVOLVIMENTAL DE V DAVYDO
2.3 A ATIVIDADE DE APRENDIZAGEM E IMPLICAÇÕES NO ENSINO, SEGUNDO
2.3.4 Os procedimentos do planejamento de uma tarefa de aprendizagem
Os componentes de uma tarefa de aprendizagem apresentada pelo professor são, segundo Davydov (1988b, p. 26):
1) a análise do material factual, a fim de descobrir nele alguma relação geral que apresente uma vinculação governada por uma lei com as diversas manifestações deste material, ou seja, a construção da generalização e da abstração substantivas;
2) a dedução, baseada na abstração e generalização das relações particulares do material dado e sua união (síntese) em algum objeto integral, ou seja, a construção de seu “núcleo” e do objeto mental concreto; e
3) o domínio, neste processo de análise e síntese, do procedimento geral de construção do objeto estudado.
Neste sentido, ressalta-se que a organização da atividade de aprendizagem dos alunos cabe ao professor, mas a análise do conteúdo deve ocorrer de forma compartilhada entre o professor e os alunos. Assim sendo, a análise do conteúdo consiste de uma experimentação coletiva entre alunos e professor no processo de atividade de aprendizagem, utilizando o procedimento de ascensão do abstrato ao concreto, do geral ao particular. Esse movimento implica posse do material (conteúdo), busca da “relação geral principal”, núcleo ou essência da matéria. Em seguida, identificação de como esta essência ou relação geral se manifesta em outras relações particulares.
Internalizar a idéia geral ou núcleo é essencial para que se proceda a uma atividade didática com situações-problema. Trata-se de um instrumento de prova, a partir do qual se pode extrair inferências, conclusões ou analogias. É a pedra de toque. Equivale dizer que diante de uma situação-problema é possível perceber, de plano, uma hipótese ou proposta de solução, com base na apreensão prévia da essência, núcleo ou “relação geral” ou universal. Isto demanda trabalho didático organizado, compartilhado; implica por em prática ações de aprendizagem orientada, dialógica entre aluno e, professor e os outros alunos.
Vejamos um exemplo de representação da idéia geral, universal, núcleo ou essência do conteúdo (abstração substantiva), utilizando os Ramos do Direito com base nas contribuições de Diniz (2007) e Gusmão (2005). Esta divisão do Direito é mais didática, pois, atualmente os ramos do direito interpenetram-se. A ilustração não faz referência ao(s) fundamento(s) do Direito. Não cremos que haja antinomia entre os ramos do direito. A este respeito ressalta Venosa (2007, p. 22):
Em geral as normas de direito público possuem o caráter de cogência ou obrigatoriedade, normas cogentes, como examinaremos. Não podem os interessados dispor diferentemente do que é determinado por elas. No direito privado há normas desse nível, cogentes, e outras que estão à disposição das partes, as chamadas
normas dispositivas.
Neste sentido ressalta Santos (2008, p. 26):
(...) a natureza pública ou privada das normas materiais deriva do caráter do interesse protegido (...) uma norma instrumental será de direito privado, quando o órgão ao qual ela confere o poder é o próprio interessado; será de direito público quando o poder, que dela dimana, é atribuído a órgãos públicos.
Na direção desses estudos, pode-se entender que, segundo Venosa (op. cit.), o que distingue os ramos do direito é a esfera de disponibilidade ou disposição, sendo indisponíveis as normas de direito público e disponíveis as de direito privado. Santos (op. cit.), por sua vez, aponta que a distinção encontra-se na prevalência do interesse protegido. Porém, ambos os autores ressaltam interpenetração ou intercomunicação entre os ramos do direito. Especialmente, sobre as denominadas “normas de ordem pública”. Aquelas que, embora constantes no direito privado, não podem ser dispostas (negociadas) pelas partes ou particulares, tais como as normas relativas ao Casamento, no Direito Civil; as normas que tratam do Décimo Terceiro e Férias, no Direito do Trabalho.
Modelação da Relação geral, universal, núcleo ou essência do conteúdo17
9.Direito do Consumidor 3. Direito Tributário
7. Direito Processual Penal 10. Direito Empresarial
11. Direito Civil
6.Direito Processual do Trabalho
2. Direito Penal Comum
1. Direito Penal Militar 4. DIREITO CONSTITUCIONAL18
8. Direito Ambiental 5. Direito Administrativo
DIREITO PÚBLICO
Relação geral, universal, núcleo ou essência do conteúdo
Em relação ao conteúdo acima a relação geral, universal, nuclear ou essencial é DIREITO PÚBLICO19. Existem, no exemplo, várias situações particulares ou ramos do
17 Também denominada de “relação principal geral, princípio, núcleo ou célula” por Davidov (1988b, p. 175). 18 Direito público por excelência
Direito Público, Direito Privado e Direito Difuso. O que depreende como essência desses conceitos é:
a) Direito Público: ramo do direito cujo interesse é, prevalentemente, do Estado. b) Direito Privado: ramo do direito cujo interesse é, prevalentemente, de pessoas,
individualmente, determinadas.
c) Direito Difuso20: ramo do direito cujo interesse é, prevalentemente, de pessoas e grupos indeterminados e ligadas por situação de fato.
Para saber se os ramos do direito, constante na ilustração, têm relação com Direito Público é preciso que a essência do conceito de Direito Público conste também neles. Então vejamos:
1. Direito Penal Militar: conjunto de normas e princípios, que prescreve condutas delituosas (em tempo de paz e guerra), praticadas por militar ou por civil contra militar, e estabelece penas e medidas de segurança. Visa garantir a ordem pública e a Soberania nacional
2. Direito Penal Comum: conjunto de regras e princípios, que definem condutas delituosas e cominam as penas e as medidas de segurança. Visa garantir a ordem pública.
3. Direito Tributário: conjunto de regras e princípios, que se ocupam com a atividade financeira do Estado, tocantes à Receita Pública, captação de recursos.
4. Direito Constitucional: conjunto de regras e princípios, que estruturam o Estado, estabelecem as forma de aquisição e exercício do Poder, fixam os mecanismos das principais instituições e definem os direitos e garantias individuais, políticas e sociais das pessoas. 5. Direito Administrativo: conjunto de regras e princípios, que dispõem sobre os órgãos, agentes e atividades públicas, visando realizar concreta, direta e imediatamente os fins visados pelo Estado (em regra, o bem comum).
6. Direito Processual do Trabalho: conjunto de normas, regras e princípios instrumentais, relativas aos órgãos judiciais trabalhistas e situações relativas à órbita trabalhista.
19 Em relação aos Ramos do Direito a doutrina, em Introdução ao Estudo do Direito (IED), classifica-os em
três grandes troncos: Direito Público, Direito Privado e Direito Difuso. A diferença entre um e outro, segundo parte considerável da doutrina, encontra-se na prevalência do interesse. Se esse for do Estado então o ramo do direito será considerado público, se for das pessoas individualmente, será privado, se, de pessoas indeterminadas, mas determináveis, será difuso. Porém, conforme advertido no corpo do texto os ramos do direito interpenetram-se, não havendo antinomia.
7. Direito Processual Penal: conjunto de normas, regras e princípios instrumentais, relativas aos órgãos judiciais criminais e situações relativas à órbita criminal.
8. Direito Ambiental: conjunto de regras e princípios que cuidam do meio ambiente em geral (proteção das matas, florestas, animais, o controle da poluição do ar e das águas, o lixo urbano e outros).
9. Direito do Consumidor: conjunto de regras e princípios que regulam as relações potenciais e efetivas entre consumidores e fornecedores de produtos e serviços.
10. Direito Empresarial: conjunto de regras e princípios que regulam as relações entre empresários e/ou pessoa física ou jurídica, que atuam na produção de bens, e serviços e relações negociais.
11. Direito Civil: conjunto de regras e princípios que regulam os direitos e obrigações de ordem privada, quanto às pessoas, quanto aos bens e quanto às relações que os regem.
Assim, a Relação geral, universal, núcleo ou essência do conteúdo, Direito Público encontra-se presente em 1. Direito Penal Militar, 4. DIREITO CONSTITUCIONAL, 5.Direito Administrativo, 2. Direito Penal Comum, 3. Direito Tributário, 6. Direito Processual do Trabalho e 7. Direito Processual Penal, portanto, se relacionam, diretamente. Porém, 8. Direito Ambiental, 9. Direito do Consumidor têm relação nuclear com a essência conceitual de Direito Difuso, enquanto 10. Direito Empresarial e 11. Direito Civil, com o Direito Privado.
Identificando no material ou conteúdo a relação geral, universal, nuclear ou essencial, os alunos constroem uma abstração substantiva sobre o assunto. Ao analisar o material e identificar a articulação lógico-teleológico da relação geral, universal, nuclear ou essencial em suas manifestações particulares, os alunos consolidam uma generalização substantiva, especialmente, com a mediação do professor. A este propósito, acena Davydov (1988a, p. 94):
Ao iniciar o domínio de qualquer matéria curricular, os alunos, com a ajuda dos professores, analisam o conteúdo do material curricular e identificam nele a relação geral principal e, ao mesmo tempo, descobrem que esta relação se manifesta em muitas outras relações particulares encontradas nesse determinado material. Ao registrar, por meio de alguma forma referencial, a relação geral principal identificada, os alunos constroem, com isso, uma abstração substantiva do assunto estudado. Continuando a análise do material curricular, eles detectam a vinculação regular dessa relação principal com suas diversas manifestações obtendo, assim, uma generalização substantiva do assunto estudado.
Na trajetória dessas ações mentais os alunos vão formando conceitos e construindo outras abstrações. Da articulação da relação geral, universal, nuclear ou essencial (abstração substantiva) com as suas manifestações particulares (generalização substantiva) os alunos
formarão um (ou mais) conceito (s), que serve de princípio geral orientador do conteúdo curricular a ser investigado, estudado.