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3. A TRANSFERÊNCIA INTERNACIONAL DE PESSOAS CONDENADAS E SUA

3.3. A regulamentação da transferência internacional de pessoas condenadas no âmbito das

3.3.4. Os procedimentos e as modalidades de transferência

Os dois modelos de transferência (de prosseguimento da execução e de conversão da sentença) foram admitidos no tratado-modelo da ONU e na Convenção de Estrasburgo195.

Com efeito, na forma como foram redigidos os dispositivos relativos a esses procedimentos, faz-se crer que eles não são tão distintos, especialmente no que se refere aos seus limites e quanto ao resultado que produzem. Em ambos os documentos, a escolha da modalidade de transferência foi facultada exclusivamente ao Estado de execução da pena, como se essa decisão não provocasse qualquer efeito para o Estado de condenação ou para a soberania de sua decisão196.

No modelo de prosseguimento da execução (continued enforcement), a sentença prolatada pelo Estado de condenação é incorporada ao ordenamento jurídico do Estado de execução imediatamente ou logo após a uma ordem de uma autoridade administrativa ou judiciária para o início de seu cumprimento. Nesse caso, há uma simples continuidade no cumprimento da sanção imposta pelo Estado da condenação, podendo ela própria servir de fundamento para a restrição de liberdade do acusado. Em princípio, nesse modelo, o Estado da execução fica limitado à natureza legal e à duração da pena imposta pelo Estado de condenação. Esse procedimento se equipara, contudo, ao da conversão, a seguir analisado, ao se prever a possibilidade de o Estado de execução da pena proceder, mesmo nesse procedimento de simples continuidade, a uma adaptação da condenação à sua legislação, quando esta apresentar, por sua natureza ou duração, significativa incompatibilidade197.

Por seu turno, no modelo de conversão da sentença (convertion of the sentence ou exequatur procedure), profere-se no Estado de execução da pena uma nova decisão, levando-

195 Vide arts. 14 a 20 do tratado-modelo da ONU e arts. 9, 10 e 11 da Convenção de Estrasburgo. Tais

disposições são essencialmente semelhantes e

196 O art. 9 da Convenção de Estrasburgo e o art. 14 do tratado-modelo da ONU facultam ao Estado de

execução da pena a escolha do procedimento a ser seguido. No tratado-modelo da ONU, não se prevê sequer a necessidade de comunicação ao Estado de condenação sobre o procedimento que será seguido. Já a Convenção de Estrasburgo estabelece, em seu art. 9.2, que o Estado de execução da pena deve informar, quando requerido, inclusive antes da transferência, qual o modelo será seguido. Além da informação quanto modelo que será seguido, aos Estados que desejam manter o acompanhamento da execução da sentença, é igualmente relevante a informação quanto a qualquer alteração, por adaptação ou conversão, da forma de cumprimento de sua sentença. Nenhum dos documentos ora analisados preveem o dever de prestar essa informação. Como se verá mais adiante, quando analisado os direitos e deveres de informação, tanto um como o outro regulam apenas a possibilidade de encaminhamento de relatórios sobre o cumprimento da pena pelo Estado de execução ao Estado de condenação.

se em conta os fatos como apresentados na sentença estrangeira, subsumindo-os às previsões normativas do ordenamento jurídico nacional. Por conseguinte, nesse modelo, a sanção imposta ao cidadão transferido será aquela prevista na ordem jurídica do Estado de execução da pena e não mais aquela do Estado de condenação. Essa nova decisão, contudo, encontra-se limitada por uma série de disposições previstas no próprio acordo internacional. Assim, em primeiro lugar, não se pode proceder a uma revisão do mérito da condenação. Como dito, os fatos devem ser considerados conforme a apreciação já elaborada pela autoridade judiciária do Estado de condenação198. Além disso, uma pena de privação de liberdade não pode ser

convertida em pena simplesmente pecuniária, evitando-se, assim, um suposto sentimento de impunidade no Estado de condenação, ao se descaracterizar em absoluto sua sanção199. Deve,

outrossim, ser deduzido o tempo de pena já cumprido pelo sentenciado no Estado de condenação200. Por fim, a conversão da sentença não pode, em respeito ao princípio da

vedação da reformatio in pejus, implicar em qualquer agravamento da situação do indivíduo sentenciado, devendo ser, inclusive, desconsiderado, nos termos da Convenção de Estrasburgo, os limites mínimos previstos nos tipos penais do Estado de execução201.

A imposição de todos esses limites à conversão da sentença, de um lado, e a abertura para uma adaptação da sentença estrangeira à ordem jurídica nacional no modelo de prosseguimento da execução, de outro, implicam efetivamente numa aproximação significativa dos dois modelos. Entretanto, há quem sustente, como Borja Mapelli Caffarena e María Isabel González Cano, que o sistema de prosseguimento da execução implicaria maior segurança para o Estado da condenação, uma vez que não seriam alteradas essencialmente as condições de cumprimento da pena prevista em sua sentença, pois, enquanto, nesse modelo, a adaptação seria excepcional, no da conversão, a alteração da pena seria a regra202.

198 Confira-se o disposto no art. 16 e 17, primeira parte, do tratado-modelo da ONU e art. 11.1.a da

Convenção de Estrasburgo.

199 Vide art. 16, in fine, do tratado-modelo da ONU e art. 11.1.b da Convenção de Estrasburgo. 200 Vide art. 18 do tratado-modelo da ONU e art. 11.1.c da Convenção de Estrasburgo. 201 Vide art. 19 do tratado-modelo da ONU e art. 11.1.d da Convenção de Estrasburgo.

202 Ao analisar os dois sistemas, os autores afirmam que: “[no sistema de conversão] las posibilidades de

sustitución pueden ser tan amplias que se ha afirmado que implican un auténtico vaciamiento de la pena o del contenido de la sanción incialmente impuesta, lo que predispone en cierta forma a los Estados contra el sistema de conversión. [...] sin embargo, la adaptación de la pena, em caso de optarse por el sistema de prosecución, es excepcional, y como al especialidade se pone en práctica sólo em determinados casos de incompatibilidad o inexistência de la pena en el Estado de cumplimiento”. CAFFARENA, Borja Mapelli; CANO, María Isabel Gonzalez. El traslado de personas condenadas entre países. Madrid: McGraw Hill, 2001, p. 80-83. No mesmo sentido, cf.: SOUZA, Artur de Brito Gueiros. Presos estrangeiros no Brasil: aspectos jurídicos e criminológicos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 291-293.

É importante destacar, ainda, que, para evitar prejuízos ao sentenciado por eventual demora no processo de conversão da sentença, a Convenção de Estrasburgo prevê a possibilidade de o apenado ser transferido antes da decisão sobre a conversão, devendo, nessa hipótese, o Estado de execução da pena mantê-lo sob custódia provisória, enquanto tramita esse processo, ou assegurar o seu comparecimento quando convertida a sentença203.

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