Embora ainda seja escassa no âmbito do Serviço Social análises quantitativas e qualitativas sobre esta temática, verificou-se que o sofrimento psíquico da mulher e sua relação com o trabalho reprodutivo já é discutido em áreas, como a psicologia e a psiquiatria, o que não tira do Serviço Social a responsabilidade de olhar para esta expressão da Questão Social, dentro dos limites estabelecidos, e questionar modelos hegemônicos de assistência à saúde física e mental da classe trabalhadora, em particular, das mulheres.
Devido a impossibilidade da pesquisa de campo diante do contexto da Pandemia do Covid-19, neste trabalho, lançaremos mão de algumas pesquisas desenvolvidas pesquisadoras as quais serão analisadas a partir de uma perspectiva crítico dialética, levando em consideração, as dimensões ético-político que este trabalho assume.
É importante ressaltar que os estudos de caráter epidemiológico nos servem de base epistemológica para reflexão do nosso objeto. A análise destes dados e pesquisas partem das condições materiais do trabalho doméstico e reprodutivo, das desigualdades de gênero, do patriarcado e da divisão sexual do trabalho que determinam o lugar que as mulheres ocupam no trabalho produtivo e na reprodução e como isso vem, ao longo dos tempos, impactando em muitos aspectos da totalidade da vida, incluindo a saúde física e mental.
Pesquisa realizada com 2055 mulheres20, desenvolvida pelas pesquisadoras Tânia Maria de Araújo, Paloma de Sousa Pinho e Maura Maria Guimarães de Almeida do Departamento de Saúde da Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia, no ano de 2005, cuja abordagem foi sobre a prevalência de transtornos mentais comuns e a relação com as características sociodemográficas e o trabalho doméstico, trouxe dados interessante para a análise desse fenômeno. Observou-se que 83,8% das entrevistadas eram as únicas responsáveis pelos afazeres domésticos, somente 5% não faziam qualquer tipo de trabalho doméstico. Das que tinham auxílio nos afazeres, 51,8% eram realizadas por outras mulheres e 25% das entrevistadas, não recebiam qualquer tipo de ajuda, 26,9% apontaram uma alta sobrecarga de trabalho indicada por atividades como cozinhar, lavar, passar e limpar.
Ainda segundo a referida pesquisa, 45,1% dessas mulheres não dedicavam tempo para o lazer pessoal, e quanto mais filhos/as estas tivessem, menos tempo era dedicado para o cuidado com elas.
Dentre as 2055 mulheres entrevistadas, a prevalência de “transtornos mentais comuns”21
foi de 39,4% o que correspondeu a 811 mulheres. Dentre os sintomas avaliados sobressaiu a prevalência de humor depressivo e ansioso. A referida pesquisa revelou ainda que a presença de transtornos mentais está associada às condições de vida, aos baixos níveis de escolaridade, as determinações econômicas, a raça, ser chefe de família e as condições de trabalho. A partir desses condicionantes se chegou a um percentual de 49,5% de mulheres que apresentaram processo de adoecimento mental advindo da alta carga de trabalho doméstico.
Mediante os dados coletados as pesquisadoras Araújo, Pinho e Almeida (2005), constataram que as mulheres com alta sobrecarga de trabalho doméstico possuem maior prevalência de transtornos mentais comuns, isso por que a falta de colaboração de outros
20 Realizou-se estudo epidemiológico de corte transversal, com finalidade descritiva, exploratória. Foi estudada
uma amostra representativa da população com idade de 15 anos ou mais, residente na zona Urbana de Feira de Santana, Bahia, Brasil. A seleção deste munícipio se deu a partir de dados do censo do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram visitados 1479 domicílios localizados nas ruas que foram sorteadas de acordo com os dados censitários. A coleta de dados foi feita por intermédio de fichas domiciliar com os dados gerais sobre o domicilio e seus residentes, como também, foi utilizado, um questionário individual “com informações sócio demográficas acerca do trabalho profissional, do trabalho doméstico, atividades de lazer e saúde mental”. É um estudo da área da Saúde coletiva e do departamento de Epidemiologia da Universidade Estadual de Feira de Santana- BA. Os transtornos mentais comuns foram avaliados através do Self-Reporting Questionare (SRQ-20) que é um instrumento utilizado para triagem de morbidade psíquica neurótica, estruturado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) tem a finalidade de detectar sintomas de sofrimento psíquico. Tal estudo foi devidamente submetido e aprovado no Comitê de Ética em pesquisa do Hospital São Rafael. (ALMEIDA, ARAÚJO, PINHO, 2005, p.339).
21 Os transtornos mentais comuns já mencionados dizem respeito a grupos de sintomas tais sintomas podem ser
somáticos, ou presença de humor depressivo, decréscimo de energia vital ou pensamentos depressivos. (ALMEIDA, ARAÚJO, PINHO, 2005, p. 343).
familiares, a não dedicação de tempo semanal para lazer, a rotinização, a desvalorização e invisibilidade do trabalho doméstico são fatores produtores de intenso sofrimento psíquico.
Outros dados extraídos do referido estudo, apontaram que a inserção das mulheres no mercado de trabalho e as condições de vida são fatores associados e determinantes para o processo de adoecimento mental das mesmas. Ademais, há uma relação direta entre o trabalho reprodutivo e produtivo, e os agravos na saúde mental desses sujeitos tendo em vista que a inserção no mercado de trabalho “produtivo” é limitada por suas responsabilidades domésticas e familiares.
A pesquisa aponta que o trabalho da reprodução, pode ser considerado potencializador de sofrimento psíquico e de processos de adoecimentos mentais. No entanto, por exemplo, sobre como esse fenômeno como uma das expressões da questão social, ou seja, algo que é perpassado por uma gama de determinações, aparece como um problema reduzido a um transtorno mental, ou mais precisamente ao sujeito individual.
A nosso ver, há na pesquisa, uma reafirmação da clínica médica e psiquiátrica em detrimento da totalidade das relações em que as mulheres estão inseridas, que são de classe, de raça e gênero e de outros meios os quais a formação da sociedade capitalista seja vista como elemento basilar no processo de sofrimento psíquico das mulheres. Não se trata de questionar o diagnóstico psiquiátrico, mas de problematizar práticas hegemônicas na sociedade e desvendar a essência do movimento do real.
Pesquisa realizada por Valeska Zanello, Gabriela Fiuza e Humberto Soares Costa e intitulada “Saúde Mental e gênero: facetas gendradas do sofrimento psíquico” apontam que a experiência do sofrimento psíquico que atinge as mulheres está gendrado e marcado pelos valores e papeis que foram destinados socialmente a esses sujeitos. Esta pesquisa foi realizada com 15 usuários (as), 7 mulheres e 8 homens de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em Brasília. Utilizou-se como método a realização e análise de entrevistas semiestruturadas.22
A partir das análises feitas pelo/as autor/as, foram adotadas 7 categorias para discutir o sofrimento psíquico das mulheres os resultados apontam que as experiências de sofrimento psíquico, estão moldadas por valores sociais e culturais que incidem na vida das mulheres. Questões como o casamento, maternidade, padrões sociais estéticos, violência doméstica,
22 Esta pesquisa teve como objetivo analisar a “loucura” ou o sofrimento psíquico grave, entretanto, não em crise,
bem como, colocar em tela os sujeitos e o modo como os valores e ideais de gênero participam da configuração e constituição do sofrimento psíquico. Ademais, possibilitar pensar estratégias de intervenção em Saúde Mental que considerem as particularidades de gênero no processo de adoecimento mental. A pesquisa não faz relação com o fundamento da sociedade capitalista na construção social do ser mulher na sociedade, no entanto, considera que as questões que envolvem a mulher são úteis para o funcionamento social. O estudo é relevante para pensar a saúde mental atrelado a questões de gênero.
sexual, física e psicológica são determinantes de sofrimento psíquicos, que na nossa visão, não podem e não devem serem discutidos de forma fragmentada sem considerar as bases que legitimam estas expressões das desigualdades da sociedade capitalista.
Uma das poucas pesquisas existentes no âmbito do Serviço Social que discutem sobre o sofrimento psíquico das mulheres e sua relação com o trabalho reprodutivo foi realizada por Ana Carolyne Carneiro, Jordana Gabriela Murmel e Rosilea Werner, ambas estudantes de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR.
O referido estudo foi realizado no CAPS II, utilizando como metodologia análise documental e bibliográfica, traçando o perfil dos/as usuários/as que frequentam o serviço de saúde mental e objetivando identificar a relação que existe entre desigualdades de gênero e o sofrimento psíquico das mulheres com diagnósticos de transtorno mentais, considerando os fatores sociais eculturais como determinantes.
Foi identificado que dos (as) 311 pacientes que são atendidas neste serviço, 181 são mulheres entre 33 e 40 anos, possuem majoritariamente transtorno de humor afetivos e ansiosos e que existe uma possível relação entre o adoecimento e as extensas jornadas de trabalho, de estresse e preocupações que afetam diretamente a saúde física e mental das mesmas. Para as referidas autores/as,
Ao analisar a saúde mental na perspectiva de gênero entende-se o quanto as relações sociais estabelecidas vão interferir na personalidade, e no subjetivo de cada indivíduo e ainda na sociedade como um todo. A desigualdade de gênero sempre esteve presente na nossa sociedade, intervindo na cultura e modo de viver de cada um, principalmente das mulheres. As relações de gênero definem e legitima a mulher como cuidadora e responsável pelo lar e quando não conseguem cumprir com esse papel, sentem-se culpadas, e quando ocorre o adoecimento psíquico torna-a mais vulnerável, os sintomas causados pela doença mental agravam a situação da mulher de não conseguir alcançar seus objetivos como mãe e esposa. (CARNEIRO, MURMEL, WERNER, 2017, p.03)
Conforme a Organização Pan-americana de saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) os transtornos mentais continuam crescendo e trazem rebatimentos significativos na saúde e na vida social dos indivíduos e são as mulheres as principais afetadas.
Levando em consideração tais constatações, e conforme acrescenta Viapiana et al. (2018) o adoecimento psíquico na sociedade contemporânea tem determinações sociais que não possuem relação apenas com atributos individuais, como a capacidade de administrar os pensamentos, as emoções, os comportamentos e as interações com os outros, mas também as questões sociais, econômicas, políticas e ambientais, sendo assim, a particularidade do trabalho
reprodutivo pode ser considerado um potencializador de sofrimento psíquico das mulheres tanto no que envolve o espaço produtivo quanto no reprodutivo.
Porém, é indispensável refletir sobre o fenômeno considerando que há uma progressão epidêmica dos transtornos mentais e que é importante não ignorar seu significado para que não se caia num lugar limitado e reduzido da reflexão, bem como, não haja uma naturalização de diagnósticos e de persistência dos modos tradicionais identificar a saúde mental das mulheres. Outros dados importantes na afirmação da relação entre trabalho e transtornos mentais, vem do boletim epidemiológico de transtornos mentais relacionados ao trabalho, desenvolvido pelo Centro Colaborador da Vigilância dos Agravos à Saúde do Trabalhador em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), no período de 2006 a 2017, segundo o referido boletim, foram as mulheres as principais acometidas por transtornos mentais, elas também são as que prevaleceram entre as notificações de transtornos decorrente do trabalho, representando 59,7% das notificações.23 Assim, “a partir de 2007, em cada ano o número de mulheres foi maior do que o de homens, e essa diferença cresceu ao longo do tempo. Também aumentou exponencialmente o número de notificações ao longo desse período, maior para mulheres do que entre as pessoas do sexo masculino”. (CCVISAT, 2019, p. 01)
Outro estudo que merece destaque foi realizado com mulheres trabalhadoras rurais de um assentamento do Rio Grande do Norte localizado na região de Mato Grande, esse tem como título, “Condições de vida, gênero e saúde mental entre trabalhadoras rurais assentadas”24, foram entrevistadas 22 mulheres e verificou-se que há uma prevalência de
transtornos mentais comuns nessas que corresponde a 43,6% e que isso pode estar articulado as desigualdades de gênero, violência, questões ambientais, socioeconômicas, sobrecarga de trabalho, com impacto direto na qualidade de vida desta população e sendo elementos intensificadores de sofrimento psíquico.
É importante destacar que todas estas pesquisas aqui utilizadas como base para discutir o trabalho de reprodução como potencializador de sofrimento psíquico, apontam para a alguns aspectos importantes, o primeiro delesé a complexidade do processo saúde- doença que deve ser pensado levando em consideração a sociedade capitalista, sua formação e as determinações sociais que são elementos chaves para compreender a saúde física e mental, o segundo é que os processos de adoecimentos são essencialmente sociais.
23 Esta pesquisa foi realizada com base nos dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) 24 Teve como objetivo investigar a presença de transtornos mentais comuns (TMC) e as determinações relacionadas
a emergência desses nas mulheres de um assentamento do Rio Grande do Norte. Este estudo foi realizado por Maria da Graça Silveira Gomes da Costa, da Universidade Potiguar, Magda Diniz Bezerra Dimensteir e Jader Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Diante disso, fica visível que se vive numa sociedade adoecida, de desigualdades gritantes que incidem de forma particular na vida e na saúde física e mental das mulheres. Essas ao serem inseridas no mercado de trabalho ainda carregam o peso do trabalho reprodutivo, e na maioria das vezes ocupam espaços onde vão exercer funções coextensivas deste trabalho.
Portanto, colocar esta discussão em pauta é fundamental para descortinar as particularidades da saúde física e mental das mulheres e invisibilidade quando relacionada as responsabilidades com os cuidados, o trabalho doméstico, o suporte emocional e em muitos casos financeiros da família. Isso pode ser evidenciado na dificuldade encontrar dados sobre a particularidade do sofrimento psíquico das mulheres e suas determinações familiares, sociais e políticas.
Por conseguinte, os efeitos na saúde física e mental das mulheres ainda são poucos discutidos, o que não significa que devemos silenciar, optar por isso é contribuir para manutenção desta invisibilidade que é funcional ao modelo de sociedade patriarcal no qual se vive e que coloca a mulher e seu trabalho na esfera produtiva e reprodutiva como invisível, ao passo que também, invisibiliza os processos de adoecimento físico e mental desses sujeitos.
3.2.1- O princípio da investigação: as mulheres do CAPS Leste III
A experiência do estágio curricular obrigatório é de fundamental importância para formação profissional do Serviço Social. A realidade concreta vivenciada nesse, foi base fundamental para o desenvolvimento desta pesquisa. Os documentos construídos a partir dessa vivência25 são fontes de pesquisa indispensáveis para a construção das análises e reflexões feitas neste trabalho. Neste sentido, por intermédio da minha vivência como estagiária em um serviço da rede de atenção psicossocial, para ser mais especifica, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III leste pude me aproximar dos sujeitos usuários/as do serviço.
O CAPS é uma instituição pública, de gestão municipal e é um dispositivo social estratégico para efetivação dos princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica brasileira26, principalmente, no que tange o processo lento e gradual de diminuição de leitos nos hospitais psiquiátricos e a reintegração dos sujeitos com transtornos mentais à família e a sociedade.
Este dispositivo social é uma importante estratégia para a Política de Saúde Mental visto que atua articulado com toda rede de serviços públicos, além da articulação com a família e
25 Relatório de estágio, diário de campo e plano de estágio.
26 De acordo com a portaria 3.088/2011 que dispõe sobre a rede de atenção psicossocial (RAPS) os CAPS é um
comunidade na perspectiva que os/as usuários/as são sujeitos de sua vida e donos de suas histórias.
Com base no relatório de estágio (2019) os sujeitos usuários/as deste serviço os (as) possuem entre 18 e 60 anos, têm transtornos mentais severos, persistentes e recorrentes e residem na zona leste e sul de Natal/RN. Foi possível identificar que a grande maioria dos/as usuários/as atendidos/as no serviço são mulheres pardas e negras, de baixa renda, com baixa escolaridade, oriundas principalmente da zona leste e sul de Natal. Os/as mesmos/as chegam ao CAPS através de encaminhamentos das unidades básicas, hospitais psiquiátricos, instituições da rede de assistência social etc.; ou de forma espontânea.
Para a análise desse trabalho, compreendemos que os sujeitos usuários/as do CAPS têm necessidades específicas que não podem ser entendidas descoladas de determinantes como as condições de gênero, raça e classe, já que essas características são determinações sociais que asseguram, principalmente o lugar das mulheres como principais usuárias das políticas sociais no Brasil, pela sua condição de pobreza, e se tomarmos como referência a raça/etnia, pela condição sócio histórica que as mulheres negras vivenciam em termos de desigualdades, discriminação, preconceito e exploração.
A maior parte das mulheres atendidas no CAPS III, no período do nosso estágio, trazia reclamações sobre as atribuições e responsabilidades que lhes eram impostas tanto em termos do trabalho doméstico quanto no trabalho desenvolvido fora do lar, e que isso estava trazendo rebatimentos para a qualidade da sua saúde física e mental, não raro, era possível verificar, por intermédio de suas falas, o sofrimento e angústia refletida nessas jornadas extensivas de trabalho.
Assim, por intermédio dos diálogos informais e participação em grupos de famílias e orientações individuais com as mulheres (informação verbal) elas se mostravam sobrecarregadas, presas nessas responsabilidades, sem que houvesse nenhum horizonte capaz de transformar, pelo menos de modo imediato tal realidade, uma vez que além de serem, em muitos casos, as únicas cuidadoras e responsáveis pelos afazeres domésticos, algumas também trabalham no espaço produtivo e isso é retratado por elas como uma sobrecarga de responsabilidades que sistematicamente refletia em sintomas em um primeiro momento como: distúrbios de sono, excesso de cansaço, transtornos de ansiedade e medos, que as levaram a procurar auxílio médicos, principalmente no campo da psicologia e psiquiatria.
Em muitos momentos as reflexões se direcionavam para as determinações das mulheres com o cuidado no interior da família, nesses momentos era comum escutar frases como a de Maria27 “trabalhar, lavar, passar, sem ter direito a nenhum descanso?”.
Amélia apontou que: “Eu não sou a mulher maravilha” e “Eu sou a número 1 para tudo”, ou a de Joana “Eu faço tudo e não sou valorizada”. Todas as falam demonstraram o peso que o trabalho reprodutivo tem nas suas vidas e como isso era causa de sofrimento físico e mental, e em alguns momentos era possível identificar o sentimento de resignação diante da realidade. Uma vez que de tão naturalizado sua ruptura seria algo muito distante de suas realidades.
Conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, “as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas por semana com afazeres domésticos e cuidado de pessoas em 2018, quase o dobro do que os homens gastaram com as mesmas tarefas – 10,9 horas.” E mesmo que essas trabalhassem fora do lar, “a mulher cumpria 8,2 horas a mais em obrigações domésticas que o homem também ocupado”. (IBGE, 2018)
Por mais que tenhamos avançado em muitas pautas pela luta dos movimentos feministas, ainda há velhas/novas batalhas que demandam esforços coletivos para sua superação, uma delas é, indiscutivelmente, a não divisão do trabalho doméstico que sistematicamente tem implicado em aspectos diversos na vida da mulher, dentre esses, sua saúde.
No campo da saúde mental, Mendonça (2006) afirma que as falas das mulheres devem ser compreendidas levando em consideração a subjetividade articulada a realidade concreta. Muito embora, tenha ocorrido avanços por intermédio da luta do movimento da reforma sanitária e psiquiátrica, a autora em tela aponta que ainda há um predomínio do modelo hospitalocêntrico na forma de olhar para a saúde das mulheres, bem como, ainda há um predomínio do saber médico e de uma visão restrita e a-histórica da saúde, em detrimento, da concepção de saúde ampliada na qual o recorte de classe, de raça e gênero, bem como, as determinações sociais do processo de adoecimento físico e mental das mulheres devem ser considerados essenciais.
3.3. “A explosão da Pandemia do Novo Corona vírus”: elementos iniciais para reflexão