• Nenhum resultado encontrado

Passemos, finalmente, à apresentação dos resultados empíricos obtidos ao longo do período desta pesquisa. Iniciaremos este capítulo apresentando o perfil das cidades pesquisadas, a estratégia determinada para a apresentação dos aspectos que envolvem a criação dos municípios digitais, bem como os processos de decisão, a conjuntura política local, a divisão do poder, enfim, todos os aspectos mais importantes que nos propusemos a debater logo no início desta obra.

O primeiro passo é delimitar nosso campo de estudo e observação. No início dos trabalhos, afirmamos que foi possível delimitar o perfil dos municípios observados. Trata-se de cidades de pequeno e médio portes, entre 5 mil e 600 mil habitantes, com boa posição no ranking do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano e com Receitas Correntes Líquidas (RCL)46 que variam entre 10 milhões e 600 milhões de reais47. O PIB desses municípios varia, do maior para o menor, entre R$2.600.000,00 (dois milhões e seiscentos mil reais), para pouco mais de R$110.000.000,00 (cento e dez milhões de reais)48, também conforme apresentamos no início deste texto. Como se pode depreender, ainda que por informações gerais, não podemos afirmar que os cidadãos desses municípios não tenham, na média, uma qualidade de vida dentro de padrões aceitáveis, principalmente quando comparados com dados da média nacional.

Todos esses municípios vêm sendo tratados como “cidades de pequeno e médio porte”, pois entendíamos que dessa forma seria mais claro demonstrar nossa intenção de buscar as realidades dos municípios menores do país, principalmente aqueles com menos de 20 mil habitantes, os quais representam 80% do total de 5.562 cidades do Brasil.

Nossa amostra composta por 10 (dez) municípios soma um total de 1.308.630 (um milhão, trezentos e oito mil, seiscentos e trinta) habitantes. A escolha por cidades de pequeno e médio portes serve como uma referência clara e objetiva que facilita o entendimento do leitor sobre o foco de nosso interesse. No entanto, no que se refere ao tipo de observação proposta, classificar as

46 Repetindo o conceito apresentado logo nas primeiras páginas, a RCL é o somatório da arrecadação de tributos, de contribuições econômicas e

sociais, da exploração do patrimônio, receitas industriais, agropecuárias, de serviços, transferências correntes recebidas e outras receitas correntes, deduzindo-se as transferências efetuadas aos Municípios em razão de preceito constitucional, a Contribuição do Plano de Seguridade Social do Servidor, os Valores de Compensação Financeira entre regimes de Previdência, de que trata a Lei Federal nº 9796 de 05.05.1999, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério – FUNDEF, criado pela Lei Federal nº 9424 de 24/12/96. BASE LEGAL: Inciso IV do Artigo 2º da Lei Complementar 101/2000 de 04/05/2000 e Portaria STN nº 470 de 20/09/2000. Fonte da Definição: Secretaria de Estado da Fazenda (SEFA) do Paraná.

47 Fonte: Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Referência Exercício 2005.

cidades pelo número de habitantes não é suficiente para determinar, por exemplo, qual a sua capacidade de investimento e/ou de recursos disponíveis no orçamento, para a elaboração e execução de políticas públicas e também para a manutenção dos gastos fixos como salários, manutenção, dentre outros.

Dessa forma, com o objetivo de agregar uma informação importante para a pesquisa, realizamos uma classificação dos dez municípios dividindo-os em três faixas de acordo com a relação existente entre o valor da Receita de Corrente Líquida (RCL), segundo os dados da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, dividido pelo número de habitantes, conforme os dados do IBGE. Uma das vantagens desta divisão está no fato de que ambas as fontes representam dados de 2005, o que anula a possibilidade de desvios deste cálculo da amostra, tornando a informação mais fidedigna. Outro fator importante que justifique este cálculo é que os dados da RCL de cada município representam um indicador importante sobre a capacidade de investimentos por parte dos municípios. É evidente que analisar cada uma das peças orçamentárias do ano de 2005 em cada uma das cidades que compõem a nossa amostra seria ideal, uma vez que imprimiria uma precisão maior. Contudo, foi- nos impossível utilizar os dados por duas razões: a primeira devido à dificuldade de acesso aos orçamentos municipais e, mais importante, algumas das cidades ainda não possuíam a aprovação das contas do exercício por parte do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, o que, em caso de descumprimento de alguma norma ou legislação como, por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal, os números poderiam sofre alterações.

Portanto, a opção pela divisão entre RCL e População pareceu-nos a mais segura como fonte de referência sobre a capacidade de investimentos das administrações municipais de nossa amostra. Dessa forma, criamos o “Coeficiente de Relação entre a Receita de Corrente Líquida e a População do Município” e assim criamos uma sigla para este cálculo definida como “CRP”, ou seja, o coeficiente entre receita e população. Ao longo das entrevistas com os gestores uma das questões foi sobre o grau de endividamento das prefeituras e as respostas contribuíram para ampliar nossa visão e segurança sobre a idéia do CRP, uma vez que apresentam referências que auxiliam na definição sobre esta capacidade de investimento da cidade, já que o grau de endividamento que nos foi apresentado também é uma informação fundamental para alcançarmos uma resposta condizente com a realidade financeira da administração municipal. Dessa forma, ao fazer este cálculo, dividimos nossa amostra em três faixas de CRP, em reais.

FAIXA 1 = 500.000 < CRP < 1.000.000

FAIXA 2 = 1.000.001 < CRP < 1.500.000

FAIXA 3 = CRP > 1.500.000

Feito este cálculo, classificamos as cidades em cada uma das faixas e obtivemos a relação de 3 (três) municípios na Faixa 1, 5 (cinco) municípios na Faixa 2 e, finalmente, 2 (dois) municípios na Faixa 3. Em seguida, conforme justificado no início desta atividade, retiramos os nomes dos municípios e os definimos conforme sua posição em cada uma das faixas. Dessa forma, obtivemos a seguinte referência, dividida por faixas.

FAIXA 1 = CIDADE A-1 CIDADE B-1 CIDADE C-1 FAIXA 2 = CIDADE A-2 CIDADE B-2 CIDADE C-2 CIDADE D-2 CIDADE E-2 FAIXA 3 = CIDADE A-3

CIDADE B-3

TOTAL DA AMOSTRA = 10 CIDADES

Esta classificação permitiu diferenciar as cidades, também, pela capacidade que possuem em termos de saúde financeira. Assim encontramos municípios com grandes receitas, mas com capacidade de investimento comprometida, seja pelo grau de endividamento, seja pela conjunção desta informação com o cálculo do CRP. Por outro lado, municípios pequenos em termos populacionais possuem alta performance na relação de suas receitas com a quantidade de habitantes. O gráfico de rosca apresentado abaixo resume a divisão por dos municípios por seu CRP e apresenta as cidades em cada uma das faixas.

Divisão da Amostra Conforme CRP

FAIXA 1

FAIXA 2

FAIXA 3

CRP

- Cidade A-3

- Cidade B-3

- Cidade A-2

- Cidade B-2

- Cidade C-2

- Cidade D-2

- Cidade E-2

- Cidade A-1

- Cidade B-1

- Cidade C-1

Gráfico 1: Divisão da Amostra Conforme CRP.

Ao eliminar a referência populacional, pudemos obter um resultado mais preciso que será bastante útil ao longo das próximas páginas, pois pretendemos demonstrar que uma queixa comum por parte dos gestores municipais, qual seja, a falta de recursos para investimentos, não se relaciona com os projetos de investimento em TIC, isto é, cidades com baixos orçamentos são capazes de investir em projetos de tecnologia com a mesma qualidade que aquelas administrações com alta capacidade de investimento. A figura abaixo apresenta justamente esta informação. Depois de classificadas nas três Faixas de CRP, dividimos aqueles municípios entre os que instalaram a infra-estrutura das infovias municipais, as que instalaram parcialmente e as que instalaram completamente.

Figura 3: Distribuição da Amostra conforme CRP e etapas de instalação das Infovias

A observação da figura acima demonstra que não existe relação entre o CRP e a capacidade de instalar as infovias municipais, uma vez que existe uma cidade com a infra-estrutura instalada em cada uma das três Faixas. Portanto, existem outros fatores mais importantes do que a RCL que podem contribuir ou prejudicar o processo de instalação da infovia municipal e transformação dos municípios convencionais em Cidades Digitais. Assim, cabe demonstrar os resultados e observações pertinentes ao processo de decisão do gestor público rumo aos projetos das cidades digitais, as dificuldades encontradas e a influência das relações políticas, da capacidade de articulação, da burocracia, corrupção e do método de trabalho de cada gestão.

Documentos relacionados