“A novíssima arte do planejamento urbano deveria concentrar-se em fornecer uma estrutura melhor, dentro da qual o
planejador tivesse condições de trabalhar.”
Peter Hall
Todo reducionismo pode ser arriscado. Mesmo assim, gostaríamos de tratar a questão das políticas públicas sob uma definição que a princípio pode parecer simplificadora demais, mas que se relaciona perfeitamente com as análises que faremos sobre o contexto político nas pequenas cidades em que observamos os gestores públicos em suas tentativas de implantação dos projetos de município digital. Tratemos, portanto, uma política pública simplesmente como o resultado da atividade de uma autoridade investida de poder político e de legitimidade governamental.
Mais uma vez: o tema, políticas públicas, quase que por definição, já se reveste de uma interminável lista de possibilidades analíticas relacionadas com as decisões de políticas macroeconômicas, com o Estado do Bem Estar Social, com as escolhas ideológicas, técnicas, científicas, partidárias, enfim, com um arcabouço evidentemente muito complexo de caminhos a serem seguidos por políticos, partidos, governos e pelos demais atores do jogo político, cujas análises criam e hão de criar centenas de obras científicas sobre essas duas palavras. As políticas públicas oferecem farto material e debates para pesquisadores de várias áreas. Assim, a insistência em reconhecer sua importância não torna a definição feita no parágrafo anterior deveras simplificadora, mas resume com perfeição o sentido que nos interessa trabalhar a partir do objeto central desta dissertação. Portanto, trabalhando com a idéia pragmática de um resultado da atividade política governamental, as políticas públicas são geradas a partir de um processo de identificação de problemas e tomada de decisão que nem sempre seguem padrões normativos ou estratégicos comuns, pois dependem de contextos sociais e políticos com os quais se determina o caminho a seguir. Cada município possui suas prioridades e uma vez detectadas, os gestores empreenderão seus esforços para transformar a realidade encontrada para algo supostamente melhor, a partir das expectativas de seus cidadãos, apesar das dificuldades e da mudança de rumos que a própria
dinâmica da implantação de uma nova política pública pode impor. Um exemplo disso pode ser bem representado com as primeiras tentativas de investimento em TIC por parte da prefeitura de Barcelona, na Espanha.
Quando ao final dos anos 80 a cidade de Barcelona dedicou-se a revolucionar seus serviços públicos, a questão da tecnologia da informação e da comunicação ainda não estava em pauta. Mais tarde, efetuados os primeiros processos da reengenharia municipal, é que as TIC´s entraram na pauta de realizações políticas com a devida importância. Lá, assim como em vários municípios brasileiros, o processo foi inaugurado por meio de uma agressiva compra de terminais de computadores para todas as áreas da administração pública. Em 1991 todas as mesas dos funcionários públicos municipais possuíam seus computadores, mas ainda não havia uma política de transformação operacional baseada no adequado uso daqueles equipamentos avançados.
O processo de “entupir” as salas de computadores precedeu a tentativa de maximizar seu uso. Este é justamente o mesmo processo que verificamos em muitas cidades, ou seja, tem-se a certeza de que não se deve mais trabalhar sem que a burocracia faça uso de hardwares e softwares, mas não se promove a reflexão de como e em que escala utilizar a tecnologia a serviço do poder público e dos cidadãos.
A diferença entre Barcelona e muitas cidades brasileiras é que seus gestores tiveram a capacidade de detectar que havia algo errado com a pequena escala no uso das ferramentas disponíveis e que todo aquele investimento poderia ser maximizado a uma escala gigantesca. Em 1994, uma política pública iniciada três anos antes começou a gerar resultados. O novo modelo foi baseado em três agentes fundamentais: 1) os usuários e coordenadores dos processos das bases de dados de informação; 2) as estações de trabalho em mãos de cada usuário, cujo modelo padrão eram potentes PC´s utilizando o pacote Office da Microsoft e, finalmente, a 3) rede de comunicações que une os servidores e as estações de trabalho de forma cada vez mais transparente e com mais capacidade. O investimento racional nesta infra-estrutura, aliado a um planejamento objetivo e claro sobre o que se pretendia alcançar com o uso das TIC´s alcançou um significativo nível de desenvolvimento com a criação de uma potente rede de comunicação corporativa de voz e dados de alta capacidade, resultando na união de 150 redes de área local situados em 27 edifícios municipais, mais de 2.000
estações de trabalho e cerca de 150 servidores de dados.40 A partir deste ponto, a cidade passou a investir na conexão com fibra ótica na maioria dos edifícios públicos, na progressiva unificação de softwares utilizados pelos usuários, bem como na padronização de processos administrativos que agilizaram os serviços públicos e aproximaram os cidadãos do governo municipal sob os rigorosos critérios de eficiência e eficácia administrativa. Com isso Barcelona pôde redesenhar seus processos do Plano Diretor do município, de gestão da informação, relação entre os departamentos e órgãos públicos, da Guarda Municipal (Guarda Urbana), das áreas de Manutenção e Serviços, das licenças de obras e licenças de atividades e inspeções. Outra ação importante permitida pelo investimento no Município Digital em Barcelona refere-se à proximidade obtida entre a gestão pública e seus cidadãos. Para isso, o município utilizou como principal instrumento de aproximação entre cidadãos e governo a Internet. A aposta foi correta. Inaugurada em 1995, a página da internet da cidade de Barcelona (www.bcn.es) fora vinculada com o departamento “Barcelona Información” e seu objetivo inicial era alimentar o sistema com conteúdo sobre os serviços públicos e a cidade de modo geral.
É interessante notar que as cidades brasileiras também iniciaram seus investimentos em portais eletrônicos com estes mesmos objetivos. Mais uma vez, a diferença está na potencialização efetivamente realizada entre os primeiros tipos de uso e o aprofundamento na utilização do sistema. Atualmente o site, ou Portal, da cidade de Barcelona oferece informações turísticas sobre a cidade, mas também disponibiliza uma infinidade de condições para que seus usuários possam fazer tramitar solicitações, documentos, queixas, sugestões, protocolos eletrônicos etc. Em setembro de 2006 a prefeitura daquele município comemorou o feito de alcançar mais de cem milhões de acessos em sua página oficial.
Rigorosamente, todas as ações de políticas públicas geradas em Barcelona relacionam-se da mesma maneira com as ações realizadas por outras cidades que investiram, com planejamento ainda que tardio, nas chamadas TIC´s. Ao ilustrar o caso de Chiapas, no México, logo no início desta obra, afirmamos que os contextos históricos, políticos e sociais determinam caminhos a serem seguidos pelos gestores ao longo do processo de investimento em tecnologia no setor público e que, portanto,
40 AJUNTAMENT de BARCELONA. Barcelona: Gobierno y Gestión de la Ciudad. Ediciones Díaz de Santos. Madrid,
no caso de nosso objeto de pesquisa, qual seja, as prefeituras de pequenas e médias cidades, este processo também ocorre, uma vez que são determinados por forças peculiares de cada cidade (questão que será abordada com maior rigor à frente). Porém, no que se refere aos casos em que ocorreram exemplos de sucesso, há uma palavra comum que surgiu nos momentos mais decisivos: o planejamento.
Barcelona, assim como outras cidades, iniciou seu investimento em tecnologia sem que soubesse exatamente em que ponto poderia chegar. Também é muito comum a existência de compra de equipamentos sem que esta ação esteja vinculada a uma visão clara sobre como aquela tecnologia adquirida poderá ser usada e em qual escala, acarretando problemas de toda ordem para os gestores, desde dificuldades técnicas até a oposição política. O planejamento urbano é um termo típico dos processos de orientação de políticas públicas e sua existência deve-se ao fato de que junto com o crescimento das cidades também foi criada a necessidade de se planejar o uso do território de maneira racional, fazendo com que o impacto negativo do crescimento urbano fosse de alguma forma dirimido com a antecipação dos problemas derivados deste mesmo processo. Por mais preocupados com isso, mesmo uma cidade reconhecidamente famosa por sua capacidade de planejamento urbano como Barcelona, sofreu os impactos da introdução de um modelo totalmente novo para a administração local, tendo que se adaptar e corrigir os rumos para que efetivamente pudesse se transformar em uma cidade digital. Dessa forma, planejar é a palavra de ordem e sendo assim, planejar o uso mais adequado para as novas tecnologias é, também, uma obrigação do gestor preocupado com o futuro de sua cidade.
No que se refere ao Município Digital, registramos uma carência sobre a noção exata do que pretendem os gestores públicos ao investirem em tal projeto. Parte deste problema repousa sobre a incapacidade de criar planejamentos adequados para suas cidades. Esta nos parece uma questão cultural, pois está relacionada com a pouca importância que as administrações dão para a prática da antecipação dos problemas.
Outra característica que corrobora com esta idéia é a de que falta aos gestores públicos, particularmente à maioria dos prefeitos municipais de pequenas e médias cidades (não que esta característica também seja registrada nas mentes dos prefeitos de grandes cidades), aquilo que diversos pensadores denominam como um pensamento orientado para o futuro. Mesmo Barcelona,
como já afirmamos na página anterior, conhecida por sua capacidade de antever situações negativas e intervir no espaço urbano antes que venham a acontecer, teve dificuldades para adequar-se a este processo de adaptação às novas tecnologias. Portanto, planejar adequadamente o uso de novas tecnologias, sejam elas vinculadas ou não ao projeto do Município Digital, é uma forma de estabelecer não só um novo padrão para atendimento das demandas sociais, mas também um novo padrão de possibilidades ferramentais para uso por parte do corpo burocrático das administrações públicas, o que possibilitaria a ocorrência de um efeito virtuoso, e não virtual, de ampliação da capacidade dos gestores públicos de efetivamente passarem para o papel de agentes e não de “reagentes” dos problemas que brotam em suas mesas de trabalho quase todos os dias.