CAPÍTULO 3: ORIENTAÇÃO TEÓRICA
3.3 Os processos interacionais em sala de aula
Na apresentação de alguns objetivos da matriz utilizada como roteiro de observação, uma expressão é de fundamental importância para as interações que ocorrem em sala de aula: construção de andaimes. Cazden (1991) apresenta o conceito de andaime, andamiaje, metaforicamente utilizado para se referir a “um auxílio visível e audível que um membro mais experiente de uma cultura pode dar a um aprendiz” (BORTONI-RICARDO; CASTANHEIRA; MACHADO, 2009, p.26). O termo original, scaffold, foi introduzido em 1983 por Jerome Bruner, psicólogo norte-americano, “cujo principal interesse são as formas institucionais pelas quais a cultura é transmitida” (BORTONI-RICARDO; MACHADO; CASTANHEIRA, op. cit., p. 26). O conceito remete-nos às intervenções ocorridas durante o processo ensino-aprendizagem que, progressivamente, permitem ao aluno construir seu conhecimento, embora uma situação de andaimagem possa ocorrer em várias situações sociais.
Um trabalho de andaimagem pode tomar a forma de um prefácio a uma pergunta, de sobreposição da fala do professor à do aprendiz, auxiliando-o na elaboração de seu enunciado, de sinais de retorno (backchanneling), comentários, reformulações, reelaboração e paráfrase e, principalmente, expansão do turno de fala do aluno. Todas essas estratégias dão a ele a oportunidade de “reconceptualizar” o seu pensamento original, seja na dimensão cognitiva, seja na dimensão formal. (RICARDO-BORTONI; MACHADO; CASTANHEIRA, 2009)
Pearson e Gallagher (1983, apud CAZDEN,1991, p.116) apresentam um esquema que mostra a estrutura básica para a construção de andaimes, mas que também se adapta a toda situação de aprendizagem:
Proporção de responsabilidade para completar uma tarefa
Todado professor Responsabilidade conjunta Toda do aluno
A formação do professor deve ocorrer com a perspectiva de que o docente adquira condições de reconhecer as situações propícias para a construção de andaimes. Cazden (1991) apresenta como elementos essenciais para a construção de andaimes as perguntas que o professor faz em uma sequência denominada IRE – Iniciación del maestro, respuesta del
niño, evaluation (iniciação do professor, resposta do aluno e avaliação ), que é o modelo mais
frequente no discurso escolar em todas as séries. Em um evento de tempo compartilhado, que, de acordo com Cazden (1991), é aquele destinado para o aluno responder a perguntas aparentemente simples feitas pelo professor, como, por exemplo, “Você tem algo novo a nos contar?”, a sequência IRE é muito recorrente. Na terceira parte do esquema, está centrada a reconceptualização, referente à avaliação feita pelo professor da resposta dada pelo aluno, pois, na verdade, não ocorre uma simples avaliação, e sim um momento para induzir o aprendiz a uma nova maneira de contemplar, categorizar, reconceptualizar e recontextualizar os fenômenos referentes à discussão (CAZDEN, 1991).
Bortoni-Ricardo, Machado e Castanheira (2009) mostram a contribuição que a sociolinguística interacional pode trazer para a operacionalização da construção de andaimes por meio do conceito de Gumperz (1988) denominado pistas de contextualização. Gumperz (1988) “denominou de convenções de contextualização as pistas de natureza sociolinguística que utilizamos para sinalizar as nossas intenções comunicativas ou para inferir as intenções conversacionais de um interlocutor” (RIBEIRO; GARCEZ, 1988, p.98). Há pistas linguísti- cas relacionadas à alternância de código, dialeto ou estilo; pistas paralinguísticas, marca- das pelas pausas, tempo de fala ou hesitações, e as pistas prosódicas, marcadas pela entoação, o acento, o tom (RIBEIRO; GARCEZ, 1988).
Demonstração como modelo de instrução Prática ou aplicação Prática dirigida Desencargo gradual da responsabilidade
[...] é através de constelações de traços presentes na estrutura de superfície das mensagens que os falantes sinalizam e os ouvintes interpretam qual é a atividade que está ocorrendo, como o conteúdo semântico deve ser entendido e como cada oração se relaciona ao que a precede ou a segue. Tais traços são denominados pistas de contextualização. (GUMPERZ, 1988, p.100)
A interação professor-aluno que ocorre na construção de andaimes também dialoga com a teoria postulada por Vigotski sobre a relação entre aprendizagem e desenvolvimento. Para Vigotski (1999), o aprendizado da criança ocorre antes de seu ingresso na escola, pois, de alguma forma, ela já teve contato prévio, mesmo que de forma simplificada, com a situação de aprendizagem que ocorre em sala de aula. A aprendizagem e o desenvolvimento já possuem uma inter-relação desde o primeiro dia de vida da criança. O materialismo histórico e dialético é considerado a matriz epistemológica básica de sua teoria, cujos pressupostos consideram que, produzindo o meio em que vive, o homem se produz; ou seja, a história pode determinar o homem, mas o homem também é determinante na história (ZANELLA, 1994).
Para o estudioso russo, o desenvolvimento humano possui dois níveis. O primeiro, denominado nível de desenvolvimento real, compreende as atividades que a criança consegue fazer sozinha, “relativas a funções mentais da criança que se estabeleceram como resultado de certos ciclos de desenvolvimento já completados” (VIGOTSKI, 1999, p.111). O segundo, nível de desenvolvimento potencial, engloba as atividades que a criança consegue realizar apenas com o auxílio de alguém mais experiente, que pode ser um adulto ou mesmo outra criança. Entre esses dois níveis, encontra-se a Zona de Desenvolvimento Proximal, ZDP, que, de acordo com Vigotski (1999, p.112):
[...] é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinada através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes.
Para Vigotski (1999, p. 113), “A Zona de Desenvolvimento Proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão, presentemente, em estado embrionário”. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal converge para as relações de andaimagem em sala de aula a partir do momento em um membro menos experiente, o aluno, é auxiliado por um membro mais experiente, o professor, até que seja capaz de construir seu próprio conhecimento.
A mediação pedagógica, sobretudo nas práticas de leitura, é outra vertente das interações em sala de aula que se pretende investigar. A prática da leitura tutorial ou
compartilhada, também denominada de colaborativa pelos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (BRASIL, 1997), é uma atividade que em qualquer contexto educacional se faz imprescindível. Nela “o professor deve atuar fazendo intervenções didáticas, por meio das quais interage com os alunos, a fim de conduzi-los à compreensão do texto” (BORTONI- RICARDO; MACHADO; CASTANHEIRA, 2009, P.51). Nesse trabalho de mediação, o docente faz o papel do tutor que, paulatinamente, aproxima o aluno da situação de aprendizagem. É a oportunidade de fazer com que os discentes utilizem seus conhecimentos de mundo e ou mesmo o conhecimento enciclopédico para dialogar com os textos com os quais estabelecem contato (BORTONI-RICARDO; MACHADO; CASTANHEIRA, op.cit.). As observações de sala de aula também deverão focar a capacidade que o docente possui de administrar os turnos de fala dos alunos. A negociação das estruturas de participação, ou seja, a criação de normas para que a integração docente-discente ocorra de forma a potencializar a capacidade comunicativa do aluno, administrando seus turnos de fala, garante a obtenção de melhores resultados no trabalho pedagógico, fato que já foi comprovado por pesquisas etnográficas realizadas em salas de aula do Brasil e de outros países (BORTONI-RICARDO; MACHADO; CASTANHEIRA, 2009).