1.(RE)PENSANDO AS RELAÇÕES ENTRE LITERATURA E SOCIEDADE
4. CONTO: UM GÊNERO LITERÁRIO QUE RESISTE AO TEMPO
4.3. JÚLIO EMÍLIO BRAZ, ESCRITOR DE JOVENS LEITORES Olhei de novo e todos estavam lá.
4.3.5. Os professores em contato com “A descida”
Já anunciado anteriormente, cada análise de conto se complementa com a percepção dos professores e professoras da rede pública estadual de Santa Catarina que vivenciaram, por quatro meses, atividades geradas a partir da literatura afro-brasileira.
Novamente, o que esses profissionais intuíram, lendo os contos em diálogo com os prováveis elementos identificadores de uma literatura afro-brasileira, será apresentado. A seguir, o registro, em Gráfico, sobre o conto ―A descida‖.
Gráfico 3 – Os identificadores e o conto de Júlio Emílio Braz
0 10 20 30 40 50 60 70 Elementos identificadores temática autoria ponto de vista linguagem público texto
Como nos Gráficos mostrados anteriormente, para os contos ―Boneca‖, de Cuti e ―Uma furtiva lágrima‖, de Nei Lopes, os resultados apresentados para o conto ―A descida‖, de Júlio Emílio Braz, apresenta dados que se assemelham.
A percepção do conto como pertencente à literatura afro- brasileira foi feita por 25% dos cursistas. Dentre estes, 33% citaram algum elemento identificador. A temática e a autoria, ainda que em pequeníssima escala, foram mencionadas; a identificação da linguagem e o ponto de vista, como identificadores, foram considerados praticamente irrelevantes; e o público sequer foi citado.
Ler a favela como temática afro-brasileira e, ou perceber a afro- brasilidade de um texto que ocorra no espaço do morro não parece tarefa complicada, apesar de que vários cursistas não relacionaram o conto ―A descida‖ como conto afro-brasileiro (apenas 25%).
Dentre os contos analisados, é o único que não traz nenhuma palavra do repertório negro. O ambiente, a situação de marginalização é que se configura como representante da literatura afro-brasileira. Um dos cursistas retratou essa situação
O conto ―A descida‖ não traz características explícitas dos personagens, mas podemos relacionar o ―pai‖, personagem perseguido, bem como as características da família, do ambiente e a própria situação remete a uma situação que pode ter semelhança a um povo escravizado (Cursista U)
Ou na apresentação de trechos retirados do conto, como o que segue
Minha mãe apenas ouvia, melancolia nos olhos, dor guardada pra ela mesma, lá no fundo, ou escondida do pai durante a noite sem dormir, chorando, os olhos presos na frágil segurança da porta do barraco.
Não dizia, mas tinha medo. Pedia cuidado. Chorava e pedia pro pai falar menos. Dizia que seria melhor cuidarmos da nossa vida e esquecer o resto. Não ver. Não ouvir.‖ ―A mãe ainda tentou argumentar. Queria nos tirar do morro.‖ (Trecho do conto, recortado pelo cursista)
Observa-se que os cursistas que citaram o conto ―A descida‖ conseguiram fazê-lo com propriedade, realçando que se trata de uma escolha e que, a alusão ao conto por parte dos cursistas se instaura como ponto de partida para aprofundar as diferentes leituras que ele suscita. 4.4. CONCEIÇÃO EVARISTO – ―ESCREVIVÊNCIA‖ NA LITERATURA BRASILEIRA
Apresentar Conceição Evaristo e sua obra traz um gosto de rompimento, de trazer o novo, que talvez nem seja tão novo, mas que foi negado a muitas gerações de afrodescendentes.
Conceição Evaristo não é a primeira, nem a única mulher negra brasileira a apresentar, de outra maneira, as personagens negras na literatura de nosso país. No passado, encontramos Maria Fermina dos Reis, Carolina Maria de Jesus. Na atualidade, Conceição Evaristo, juntamente com Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves, entre outras se
destacam em edições dos Cadernos Negros e, para além desses, Conceição ganhou o mundo com seus livros Becos de Memória (2006) e Ponciá Vicêncio (2003).
Maria da Conceição Evaristo Brito nasceu em Belo Horizonte, em 1946. De Belo Horizonte, com o curso normal, em 1973, migrou para o Rio de Janeiro. Nessa cidade, ingressou no magistério público, concluiu o curso de Português-Literaturas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se tornou Mestre pela PUC-Rio e Doutora pela UFF (Universidade Federal Fluminense – RJ).
Sua estréia na Literatura aconteceu em 1990, na série Cadernos Negros. A partir de então vem publicando contos e poemas, tendo publicações na Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra. Em 2003, publicou o romance Ponciá Vicêncio e, em 2006, o romance Becos de Memória. Seus contos e romances têm sido estudados em universidades brasileiras e do exterior.
A escritora é ―Participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra em nosso país.‖ (LITERAFRO)55
, tendo sido funcionária da Secretaria Municipal de Cultura, do Rio de Janeiro, onde trabalhou na Divisão de Cultura Afro-brasileira.
Estreou na literatura, na série Cadernos Negros, volume 13, tendo participado de 14 edições da série, nos gêneros conto e poesia. Integra antologias nacionais e internacionais e vem se apresentando em eventos literários no Brasil e no exterior.
Apresenta textos narrativos e poesia com a temática racial, privilegiando a mulher negra. Sua temática mescla a ancestralidade, o resgate do povo negro na diáspora, a denúncia da escravidão – todos esses podem ser encontrados no seu livro Ponciá Vicêncio.
―Ponciá Vicêncio sabia que o sobrenome dela tinha vindo desde antes do avô de seu avô, [...]. O pai, a mãe, todos continuavam Vicêncio. Na assinatura dela, a reminiscência do poderio do senhor, de um tal coronel Vicêncio.‖ (EVARISTO, 2003, p. 29)
―O tempo passou e ali estavam os antigos escravos, agora libertos pela ‗Lei Áurea‘, os seus filhos, nascidos do ‗Ventre Livre‘ e os seus netos que nunca seriam escravos.‖ (EVARISTO, 2003, p. 48)
A autora também explora temas contemporâneos, relacionados aos infortúnios, às exclusões vivenciadas no cotidiano moderno. Entre seus poemas e contos, podem ser citados:
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Favela Barracos montam sentinela na noite. Balas de sangue derretem corpos no ar. Becos bêbados sinuosos labirínticos velam o tempo escasso
de viver. (EVARISTO, 2008, 43)
Na sua obra também pode ser encontrado um contradiscurso, que pode ser percebido no conto ―Ayoluwa, a alegria do nosso povo‖, que marca a esperança, as possibilidades de se reconstruir.
Ayoluwa, alegria de nosso povo, continua entre nós, ela veio não com a promessa da salvação, mas também não veio para morrer na cruz. Não digo que esse mundo desconsertado já se consertou. Mas Ayoluwa, alegria de nosso povo, e sua mãe, Bamidele, a esperança, continuam fermentando o pão nosso de cada dia. E quando a dor vem se encostar em nós, enquanto um olho chora o outro espia o tempo procurando a solução. (EVARISTO, 2005, p. 35)
Conceição Evaristo encerra o rol de escritores selecionados para este trabalho, e dela foram escolhidos dois contos: ―Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos‖ e ―Olhos d‘água‖ .
4.4.1. “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos” – um conto no limiar da emoção
O conto ―Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos‖ foi publicado em 2007 na série Cadernos Negros – Contos afro-brasileiros, vol. 30.
―Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos‖ é um conto que narra a história de duas meninas gêmeas que moram na favela com sua mãe e mais dois irmãos. A realidade da pobreza, do envolvimento (de um dos irmãos das meninas) com as drogas, os constantes tiroteios vão aparecendo, e contrastam com a inocência da menina Zaíta, que é absorvida por uma figurinha, dessas que as crianças colecionam. Isso mesmo, Zaíta colecionava figurinhas e agora possuía ―[...], a mais bonita. A que retratava uma menina carregando uma braçada de flores.
Além da impressa, um doce perfume compunha o minúsculo quadro.‖ (EVARISTO, s/d)
Logo no início da narrativa, Zaíta se dá conta que havia perdido sua figurinha predileta. A narrativa gira em torno da busca da figurinha pela menina que é surpreendida por um tiroteio na favela e termina vítima deste.