3 OS DISCURSOS OFICIAIS SOBRE A FORMAÇÃO DE
3.4 O ESTÁGIO SUPERVISIONADO E A FORMAÇÃO DE
3.4.1 Os programas das atividades de Estágio Supervisionado
Tomando como parâmetro a legislação que regulamenta os cursos de formação de professores, bem como o Projeto Político-Pedagógico do curso de licenciatura em Letras que investigamos neste estudo, apresentaremos um breve comentário sobre os programas dos estágios de Língua Portuguesa.
O curso de Letras instituiu em seu Projeto Político-Pedagógico os programas das atividades de estágio, pautando-se no entendimento de que esse componente
curricular é uma atividade que envolve dicotomicamente os fundamentos teóricos e práticos e propicia aos alunos-mestres a inserção no âmbito das instituições escolares, bem como a reflexão sobre a prática docente que se realiza. Sendo assim, sistematizou as atividades de Estágio Supervisionado em Língua Portuguesa em programas que se distribuem em quatro etapas, conforme destacamos abaixo:
Quadro 7 – Ementas do componente curricular Estágio
ATIVIDADES EMENTA
Estágio I Prática pedagógica e vivência no cotidiano escolar. Diagnóstico de problemas no âmbito do ensino e da aprendizagem de Língua Portuguesa. Seminário de integração. Relatório parcial.
Estágio II Observação e participação no contexto escolar. Construção de alternativas de superação das dificuldades. Seminário de Integração. Relatório parcial.
Estágio III Exercício da docência através da regência em sala de aula do Ensino Fundamental. Seminário de integração. Relatório final. Estágio IV Exercício da docência através da regência em sala de aula do
Ensino Médio. Seminário de integração. Relatório final. Fonte: Projeto Político-Pedagógico do curso de Letras (2006).
As atividades do Estágio I, caracterizadas como fase de diagnóstico da realidade escolar, iniciam-se na universidade com a apresentação e a discussão acerca das tarefas a serem realizadas durante o semestre letivo. As aulas teóricas abordam questões sobre a metodologia do ensino de língua, bem como sobre a vivência dos alunos-mestres no cotidiano escolar, por meio de seminários temáticos.
Após essa etapa, os alunos são encaminhados às escolas para conhecer o ambiente escolar nos aspectos administrativos e pedagógicos e elaborar um diagnóstico cujo propósito é tomar consciência das reais condições de funcionamento de uma instituição escolar. Para tanto, descrevem os aspectos da estrutura física, observando a disponibilidade de espaços destinados à realização das aulas, bem como de salas de professores, de multimeios, de biblioteca, de reuniões, de orientação de alunos, de eventos culturais etc. Ainda nessa etapa, os alunos-mestres fazem a caracterização da clientela atendida na escola, assim como o levantamento dos problemas mais frequentes evidenciados, tais como: evasão, repetência, não cumprimento das normas da escola, aspectos que comprometem a
aprendizagem (indisciplina, hiperatividade, falta de motivação etc.), além de descreverem as tentativas de solução apontadas pelos gestores da escola. Investigam, ainda, os aspectos didáticos e pedagógicos que envolvem a construção e execução do Projeto Político-Pedagógico da escola, a forma de realização do planejamento das disciplinas, a caracterização dos professores no que se refere à qualificação profissional e ao grau de instrução, bem como os problemas destacados pelos docentes e gestores.
Em seguida, os alunos-mestres adentram a sala de aula para observar a prática pedagógica do professor regente e, a partir dessa observação, elaborar um diagnóstico que revele o cotidiano do professor e dos alunos, assim como os aspectos relevantes da administração e da infraestrutura da escola. Nesse levantamento, os estagiários registram, principalmente, os problemas observados no âmbito do ensino de Língua Portuguesa, haja vista que precisarão construir um projeto de intervenção que apresente perspectivas de superação. Nesse procedimento, observam os aspectos didático-pedagógicos e linguísticos que se referem aos conteúdos, às concepções de linguagem, aos objetivos de ensino, à metodologia de ensino, apontando a abordagem de ensino e o modo como se processam as atividades de leitura, compreensão, produção de textos e gramática.
Ressaltamos que se solicitam dos alunos-mestres a descrição de ações realizadas no contexto das salas de aulas nos diários de campo e o registro das reflexões que fizeram sobre a prática pedagógica do professor, dos elementos administrativos da escola e de suas implicações para o processo de ensino e aprendizagem.
De volta à sala de aula da universidade, participam de um seminário de integração no qual discutem e analisam os problemas detectados nas observações realizadas para, em seguida, apresentar as críticas e as possíveis alternativas de solução. Finalmente, todas as atividades são registradas nos relatórios parciais, que servirão de base para a montagem do projeto de intervenção.
O Estágio II também se inicia no campus da universidade, onde os alunos constroem o projeto de intervenção como alternativa de superação das dificuldades. Nesse momento, são auxiliados pelos professores orientadores, os quais apresentam sugestões de atividades didáticas. Depois, voltam às escolas para observar e participar das atividades desenvolvidas na sala de aula, aplicando o projeto de intervenção que eles elaboraram na vivência do Estágio I. Novamente,
ocorre o momento da reflexão sobre a prática pedagógica e as vivências na escola, que são posteriormente registradas no relatório parcial.
Nos Estágios III e IV, quando já estão bem adaptados ao ambiente escolar, realizam as experiências no exercício da docência através da regência de sala de aula no ensino fundamental e médio. Nessa etapa, os alunos-mestres elaboram os planejamentos das atividades de ensino e assumem a direção de sala, sendo acompanhados e avaliados pelo professor regente e pelo supervisor de ensino (professor da disciplina de estágio). Finalizando essas duas etapas, elaboram os relatórios finais, nos quais apresentam detalhadamente as atividades que realizaram nas fases de regência de classe.
Analisando a distribuição da carga horária dos componentes curriculares (Quadro 6), especialmente nos componentes de conteúdos específicos, podemos perceber que foram alocadas horas para os fundamentos teóricos (carga horária teórica), como também para a prática como componente curricular (carga horária prática), contudo não verificamos nas ementas das atividades propostas para os estágios (Quadro 7) qualquer dispositivo que apontasse para a articulação dos conteúdos específicos com o estágio, nem mesmo com a carga horária prática destinada a cada componente curricular. Portanto, podemos levantar a hipótese de que o estágio acontece de modo distanciado dos outros componentes curriculares.
Essa compreensão revela-nos a necessidade de promover uma revisão no programa de estudos contido no PPP do curso de Letras, tendo em vista que, se levarmos em conta a Resolução CNE n. 009/2002, constataremos que ela orienta para pensarmos uma formação de professores em equipe, como um projeto próprio e autêntico, no qual a garantia seja o comprometimento de todos os professores que ministram aulas no curso. A esse respeito, Pimenta e Lima (2010, p. 44) consideram que “num curso de formação de professores todas as disciplinas, as de fundamentos e as didáticas, devem contribuir para a finalidade, que é formar professores a partir da análise, da crítica e da proposição de novas maneiras de fazer educação”.
Tal pensamento leva-nos a compreender que esse objetivo somente pode ser efetivamente conseguido se o estágio for uma preocupação de todos os docentes, bem como se houver a articulação das atividades de estágio com todas as disciplinas teóricas e práticas oferecidas. Ora, se o estágio está acontecendo como uma atividade dissociada dos saberes linguísticos e didático-pedagógicos, então o modelo de formação proposto no PPP pode não acontecer de maneira satisfatória.
Portanto, se o curso de formação de professores quiser realmente formar docentes capazes de se inserir nas escolas de modo a propor um ensino significativo, de mudanças nas concepções de cultura e valores para a vida, o estágio deve ser um trabalho conjunto e articulado.