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O Campo: o distrito, os programas sociais e a escola

2. Os programas sociais

Como relatado no primeiro item deste capítulo, os principais movimentos sociais do distrito têm origem na ação da militância católica das Comunidades Eclesiais de Base, inspiradas desde os anos 70 pela Teologia da Libertação. As entidades sociais de atendimento a crianças e adolescentes do bairro nada mais são do que o desdobramento da atuação desses movimentos. Duas entidades são referência para a população local no que diz respeito ao atendimento a jovens: o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente de Sapopemba – CEDECA – e o Cantinho da Esperança.

Centro de Defesa da Criança e do Adolescente – CEDECA – de Sapopemba

O CEDECA de Sapopemba é uma organização não governamental criada por integrantes da comunidade católica da região em 1985. O público-alvo da entidade é o jovem que cometeu algum tipo de infração ou que sofreu algum tipo de desrespeito aos direitos garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. A entidade desenvolve as seguintes ações: o acompanhamento jurídico, pedagógico e psicológico dos jovens e de suas famílias e a sensibilização da comunidade na qual estão inseridos. São atendidos jovens autores de atos infracionais encaminhados ao CEDECA por ação judicial e jovens que fazem parte da “rede de sociabilidade” dos primeiros:

66 Proporção de mulheres com idade inferior a 18 anos e que tenham tido pelo menos um filho nascido vivo no ano de referência, em relação ao total de mulheres que tiveram filhos nesse mesmo período.

100 Todos eles, inseridos igualmente no ciclo de violência, estariam vulneráveis ou participando ativamente do ‘mundo do crime’ local, e precisavam ser atendidos. (FELTRAN, 2008, p. 234).

Em 2005 eram atendidos mil adolescentes de 12 a 21 anos nos três núcleos socioeducativos da entidade. Além dos atendimentos com os educadores, os adolescentes são encaminhados para oficinas de dança, esporte, música, arte e para cursos de formação profissional. A maioria dos cursos é oferecida pela rede montada pelo próprio CEDECA e em parceria com outras organizações, como é o caso do Cantinho da Esperança. Além disso, os educadores costumam encaminhá-los para a rede pública de saúde e de educação. (FELTRAN, 2008).

A relação com a escola parece, contudo, bastante conflituosa. Os educadores relatam que, toda vez que tentam reinserir um dos meninos em Liberdade Assistida (ou mesmo aqueles que não estão em liberdade assistida, mas que pelo fato de pertencerem à rede de relações do CEDECA são considerados “casos perdidos”, instauradores da desordem na escola), enfrentam grande resistência por parte da equipe escolar. Embora ciente de sua obrigatoriedade de receber esses jovens, a equipe escolar cria uma série de empecilhos para não fazê-lo. Muitas vezes, o CEDECA tem que recorrer ao Conselho Tutelar para que a escola disponibilize vagas.

Ao ingressarem na escola, estes jovens enfrentam forte preconceito. Isso transparecerá nas entrevistas feitas com o corpo docente e nos relatos dos jovens das configurações 5 e 6.

Outra dificuldade enfrentada pela organização está relacionada à instabilidade das medidas decorrentes da dependência de convênios e de recursos públicos. Os programas sociais implantados por organizações não governamentais padecem de incerteza quanto à sua permanência. Por dependerem de recursos públicos, têm que passar por frequentes reformulações para se adequarem aos novos projetos das diferentes esferas de governo. A fragilidade desses programas sociais aparece no depoimento de Valter, músico que trabalha atualmente como educador do Centro da juventude, mas que iniciou o seu trabalho como educador no CEDECA:

“Comecei trabalhando no CEDECA. Como não tínhamos dinheiro, começamos a montar projetos para captar recursos da Prefeitura, chegamos a abrigar 15 oficinas num dos prédios. Recebíamos, por mês, 450 meninos da comunidade – de 6 anos até 17 anos e 11 meses; tinha aula de musica, dj, fanzine, capoeira, teatro, futebol, balé... O Centro funcionava todos os dias das 8 às 17h; eu era arte-educador, dava aula de Percussão. Era o céu! Trabalhei o ano de 2005 inteiro. Depois acabou o convênio, mas permaneci até junho de 2006 como voluntário. Trabalhava dois dias na Juta e dois dias

101 aqui. Mas chegou uma hora que não deu mais por causa do dinheiro. Em janeiro de 2006, comecei a trabalhar nas oficinas para os meninos em LA68 e

PSC69. Montei oficina de computação, manutenção geral. A ideia era ter uma

fonte de renda para não precisar roubar e usar os meninos para fazer o serviço de manutenção das casas do CEDECA. Mas não deu certo. Fiquei lá até 2007. Em abril de 2008, fui trabalhar no Agente Jovem. Dava aula de cidadania, informática. Aí saiu recurso para o projeto atual [...] O Centro da Juventude é uma continuação do Agente jovem.” (Valter, educador do Centro de Juventude)

O Cantinho da Esperança enfrenta dificuldades similares, como veremos adiante.

O Cantinho da Esperança

O Cantinho da Esperança é uma entidade voltada ao atendimento de portadores de deficiência que desenvolveu, de forma paralela, programas para a juventude. A entidade foi fundada em 1982, por integrantes da comunidade católica:

“O trabalho começou com um grupo de mães que se organizou para reivindicar creche, escola infantil e tinha duas mães que tinham filhos com deficiência e trouxeram a dificuldade. Elas acabaram desenvolvendo um trabalho com esse público.” (Irene, coordenadora de uma das organizações não governamentais do bairro)

Na década de 80, a captação de recursos públicos para o atendimento a portadores de deficiência era muito difícil. Irene se recorda de suas primeiras investidas – frustradas – a órgãos públicos:

“O Jânio alegava que esse público não votava e que, portanto, não tinha sentido investir recursos nele.” (Irene, coordenadora de uma das organizações não governamentais do bairro)

A dificuldade de captação de recursos para projetos direcionados aos portadores de deficiência e a oportunidade de estabelecer parcerias voltadas ao trabalho com jovens moradores das favelas do entorno levaram à entidade a desenvolver atividades com este público, destinando os recursos que sobravam para o projeto inicial do Cantinho da Esperança. Diversas ações eram realizadas em parceria com o CEDECA.

68 Liberdade Assistida.

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Um dos objetivos da organização é a promoção da integração entre os públicos por ela atendidos – portadores de deficiência e jovens “em situação de vulnerabilidade social”70.

Atualmente, o Cantinho da Esperança abriga dois programas para a juventude: o Centro da Juventude e o Fábricas de Cultura.

Centro da Juventude

O Centro da Juventude é um desdobramento do Agente Jovem, um programa que consistia na concessão de um benefício financeiro mensal no valor de R$65. Em contrapartida, os jovens deveriam participar das ações desenvolvidas pela instituição – cursos de cidadania e de computação oferecidos uma vez por semana. A entidade recebia recursos para a contratação de um educador para desenvolver essas atividades. O programa teve duração de quatro anos. As aulas ocorriam no Cantinho da Esperança.

Em 2008, a Secretaria Municipal de Assistência Social convidou o Cantinho da Esperança para participar de um novo programa, o Centro da Juventude. A instituição elaborou o projeto e este foi aprovado pela Secretaria.

O público-alvo do programa são jovens de 15 a 23 anos em situação de vulnerabilidade, ou seja, “jovens que estão fora da escola, com família desestruturada, envolvidos com o crime” (Kátia coordenadora do Centro da Juventude).

Os técnicos do Cantinho da Esperança consideram o atual programa mais estruturado do que o Agente Jovem. Há um espaço específico destinado ao Centro e recursos para a contratação de um coordenador, um auxiliar técnico, um especialista, um professor de inclusão digital, material pedagógico e alimentação. Embora tenham perdido o auxílio financeiro, os jovens comparecem a instituição diariamente – frequentam aulas de cidadania, computação e teatro71. Há dois turnos – manhã e tarde e duas refeições incluídas. Mensalmente, os jovens visitam um espaço de lazer ou cultural72 localizado fora do distrito. Inicialmente, o programa recebeu 60 jovens, distribuídos em duas turmas.

70 Não há uma definição clara deste público – são atendidos jovens residentes em áreas com elevado índice de vulnerabilidade juvenil.

71 O curso de teatro acabou no final do primeiro semestre de 2009 porque o contrato com a professora acabou e os alunos estavam desinteressados. Eles estavam estudando a possibilidade de introduzir outro curso.

72 Acompanhei a visita dos jovens ao Espaço Ciência da USP. Foi bastante interessante. Os meninos se comportaram, assistiram à projeção da constelação de estrelas num planetário improvisado, participaram da demonstração sobre o corpo humano com uma “maquete” e participaram de um “show de física” muito interessante. Além disso, eles foram ao Playcenter e a outros museus.

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Irene, coordenadora de uma das organizações não governamentais do bairro, fala a respeito das dificuldades vivenciadas pelos jovens atendidos pelo Programa:

“Não sei se os problemas vivenciados pelos jovens portadores de deficiência são muito diferentes dos problemas dos jovens que frequentam o Centro da Juventude – toda a discriminação que sofrem, a alfabetização com enorme defasagem – eles têm que esconder que não sabem ler, têm que dar trabalho, se o professor colocar para fora, melhor ainda – que aí não preciso mostrar que não sei ler e escrever. Como não dão trabalho dentro do Centro?”

Kátia, coordenadora do Centro da Juventude, relata que a má formação dos jovens dificulta o trabalho dos educadores:

“Tem um caso de um jovem com 16 anos que foi expulso da escola na 6ª série por ter agredido uma professora e não sabe ler nem escrever. Estamos tendo grandes dificuldades com ele. A educadora se prontificou a ajudá-lo, mas ele não se interessou. Ele é muito resistente, agressivo, provavelmente resultado da discriminação que sofre, muitas vezes dos próprios colegas.”

Valter fala com desânimo sobre a relação do jovem com a educação. De acordo com o educador, o jovem que abandona a escola o faz porque não tem noção da importância do estudo:

“Para ele, o estudo não é nada; não tem noção do que o estudo pode trazer/significar para ele. Se viver, mais tarde pode ser que entenda o significado. Mas, geralmente, com 17 anos ele já tem filho. Com 20, vai tá com quatro filhos. Vai tá trabalhando num subemprego.”

Como poderemos notar, as expectativas deste educador não diferem da imagem traçada pela equipe escolar. O fracasso é tido como algo inevitável e resultado de condições socioeconômicas e culturais.

As instalações do Centro da Juventude são bastante precárias – os espelhos da sala de dança estão quebrados, as paredes estão descascando, as escadas rangem. Os educadores afirmam que isso dificulta bastante o trabalho.

Por outro lado, Kátia acredita que a perda do auxílio financeiro deixou os jovens desmotivados. “Isso tem provocado muita desistência.” De fato, quando começamos a acompanhar o programa, a turma da tarde fora reduzida de 30 para 16 alunos.

Para evitar uma evasão ainda maior, os técnicos tiveram que abrir exceções, como permitir faltas, além de planejarem visitas domiciliares, visando um maior envolvimento dos familiares.

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Segundo Valter, para que o programa tenha impacto na vida dos jovens em situação de vulnerabilidade, a família tem que estar envolvida. A referência do jovem são os pais. Contudo, o educador reclama das dificuldades de convencimento dos familiares sobre a importância da sua participação. Valter estava bastante desanimado, com a sensação de que não vinha conseguindo muito progresso com os jovens do programa:

“Não consigo ver progresso. Passo muita raiva aqui. Propomos um trabalho, eles não aceitam. Eles não têm interesse por nada. Os meninos ficam provocando todo o tempo. Os meninos que estão fora da escola são os mais agressivos.”

Regina, outra educadora do programa que trabalha há 13 anos no Cantinho é mais otimista:

“Vejo progresso mais no lado afetivo. Não é um espaço de formação, profissionalização – nós tínhamos essa meta, mas descobri que a gente não tem capacidade, a menos que a gente consiga uma parceria [...] É um espaço de convivência, de escuta, de não censura, de não julgamento – ele pode falar o que ele quiser –, de construção de laços, de confiança [...] Percebo mudanças, eles acham ruim quando não tem o espaço, não gostam de férias... Mas é um processo longo, talvez a gente não veja resultado, apenas de alguns...”

Os jovens participantes percebem o programa como um importante espaço de socialização. Joana gosta do programa, mas não vê o impacto deste nas outras esferas da sua vida. Wagner e Ricardo comentam que se inscreveram no programa “pra passar o dia”. Wagner gosta de frequentar o programa, embora reclame dos compromissos:

“Os professores pegam no meu pé porque eu apronto... eles ficam falando... a gente não aprende nada.”

Ricardo foi o único jovem que afirmou que o programa provocou uma mudança no seu comportamento:

“Eu era mais bagunceiro, não ficava quieto. Foi as tias que conseguiu mudar eu... A Rita, a Kelly e as tias da cozinha... Elas falaram que iam tirar eu do curso se eu não obedecesse elas.”

105 Fábricas de Cultura

O Cantinho da Esperança também abriga o programa da Secretaria Estadual de Cultura denominado Fábricas de Cultura. O programa é destinado a crianças e jovens, entre 7 e 19 anos. Sapopemba foi selecionado por ser um dos distritos com maior Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) do município de São Paulo. Está prevista a construção no distrito de um Centro Cultural73. Enquanto isso não ocorre, as ações são desenvolvidas na sede do Cantinho da Esperança e no Centro Educacional Unificado (CEU) Rosa da China.

O Cantinho é responsável por divulgar o programa na comunidade e receber as inscrições, além de ceder o espaço e acompanhar os jovens nas atividades externas, como visitas a museus, o “dia da saúde”74, ida a peças de teatro e a apresentações dos jovens de outros distritos. O Cantinho recebe 50 jovens. A Secretaria Estadual de Cultura é responsável pela implementação do programa. Além de selecionar os alunos e a equipe responsável pela execução do programa, a Secretaria capacita a equipe e coordena as ações desenvolvidas com os jovens.

Os jovens recebem um auxílio financeiro. As atividades ocorrem três vezes por semana – por dois dias os jovens permanecem no Cantinho da Esperança e, no terceiro dia, vão ao CEU Rosa da China. No Cantinho, recebem aulas de expressão corporal e de “cultura”75. No CEU, encontram jovens de outras instituições e ensaiam um espetáculo que é apresentado no final do ano.

Os principais fatores que levam à evasão dos jovens, comentam os técnicos do programa, são a obtenção de trabalho e o fato de o aluno não se adaptar com a linguagem de teatro e dança.

Os alunos que permanecem no programa revelam, contudo, um desenvolvimento supreendente. Os jovens participantes mostram capacidade de se expressar, de articular ideias e desenvoltura muito maiores do que os que não participam do programa. Os jovens percebem o programa não apenas como um espaço de socialização, mas também de aprendizado e formação:

“O Fábricas me ajudou a perder a timidez. Antes eu não falava em público, não fazia perguntas nas aulas, não conversava muito, apenas com algumas amigas. Eu tinha muita dificuldade de fazer novas amizades. Agora eu perdi

73 Esses espaços culturais, com cerca de 4 mil metros quadrados, foram concebidos para abrigar e promover formação em diversas áreas artístico-culturais, contando com salas especiais de teatro, dança, música, circo, artes visuais, multimeios e biblioteca.

74 Os meninos fazem um check up num hospital selecionado pelo programa.

106 a timidez, vi que sou igual aos outros. [...] Fiz muitos amigos.” (Jéssica, participante do programa Fábricas de Cultura)

Jéssica comenta que o programa a ajudou na escola:

“Nas aulas de cultura, a gente leu livros, textos e escreveu muitas redações. Foi muito bom pra escola porque eu li e escrevi bastante.”

Lúcio também tem uma visão muito positiva do Programa:

“[...] O Fábricas foi o melhor curso que eu fiz na minha vida [...], pelas amizades, pelas pessoas que eu conheci, pessoas muito diferentes, de religiões, opiniões diferentes e eu me adaptei a essas pessoas. Eu respeito elas e elas me respeitam. Fiz grandes amizades, pessoas que acreditaram em mim, me apoiaram, me incentivaram. Foi uma porta para conhecer São Paulo. Ali eu conheci teatro, música, dança, fui reconhecido pela sociedade, visitei museus, fui a uma escola de teatro, circo e música. Fiz aula durante uma semana. Era pouco dinheiro – R$50. Mas eu não me arrependo. Fiz de corpo e alma.” (Lúcio, participante do programa Fábricas de Cultura)

Quando perguntamos o que tinha mudado na sua vida, ele respondeu:

“O que mudou foi a vontade de viver, de aprender. Tem muita coisa para aprender. Quero aprender música – fiz aula de cavaquinho, de música. O Fábricas foi um tempo que eu não perdi. O Fábricas ensina postura, como se comportar, se colocar numa conversa, os educadores ensinam a ter respeito. Ficou mais fácil de me expressar – perdi a timidez. Eu era tímido, depois do Fábricas, fiz muitas amizades”. (Lúcio, participante do programa Fábricas de Cultura)

Lúcio também comentou sobre as mudanças após o programa:

“[...] Mudou meu jeito de agir. Não me importava com as pessoas, aprendi a entender o lado das pessoas, a lidar com as pessoas, a conviver mais com as pessoas, a conhecer o outro, a respeitar mais os outros. Aprendi nas vivências – “eu e o espaço”, “eu e o outro”, “eu e minha expressividade” – atividades de corpo, mental. Aprendi a conhecer melhor o outro. Li livros, interpretava. Me ajudou a escrever. A gente entregava as redações, elas corrigiam. Descobri que eu era capaz. [...] Me ajudou a sair do tráfico e me ensinou a gostar de ler.” (Lúcio, participante do programa Fábricas de Cultura)

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3. A escola

De acordo com Dayrell (2007), a unidade escolar articula duas dimensões – a institucional e a cotidiana:

Institucionalmente, é ordenada por um conjunto de normas e regras que buscam unificar e delimitar a ação dos seus sujeitos. No cotidiano, porém, convive com uma complexa trama de relações sociais entre os sujeitos envolvidos – alunos, professores, funcionários, pais – que incluem alianças e conflitos, imposição de normas e estratégias, individuais ou coletivas, de transgressão e de acordos; um processo de apropriação constante dos espaços, das normas, das práticas e dos saberes que dão forma à vida escolar. (DAYRELL, 2007, p. 1118)

Estamos interessados em explorar esta trama de relações sociais entre os atores escolares – com ênfase nos professores, nos coordenadores pedagógicos e nos alunos. Para tanto, apoiamo-nos nas entrevistas realizadas com diretores, coordenadoras e professores, nos depoimentos de alunos e na observação da rotina escolar. Foram entrevistados 14 professores, 2 coordenadores, a bibliotecária e um dos diretores da escola; além disso, contamos também com o depoimento de 23 jovens. Procuramos entrevistar professores com características distintas76, de forma a permitir uma visão mais ampla do corpo docente da escola.

O nível médio de ensino

Nesta pesquisa, restringimo-nos ao ensino médio regular. Castro (2009) o define como “um ponto de encontro das muitas contradições do ensino”. Como fase final da educação básica, a escola pública de ensino médio recebe jovens oriundos de diversas escolas, com níveis de formação distintos. A equipe da escola aqui estudada relata que, com freqüência, depara-se com alunos com sérias dificuldades na escrita, na interpretação de textos e que não dominam as quatro operações matemáticas.

A possibilidade de recuperação dos alunos ao longo das séries do ensino fundamental77 tem sido comprometida pelo reduzido corpo docente, com baixa qualificação e recursos limitados. Como resultado, muitos atingem a última série deste nível de ensino sem as habilidades mínimas desejáveis. O que fazer? Reter o aluno ou encaminhá-lo para as

76 Considerando tipo de vínculo com o Estado, atividades desenvolvidas além da escola, tempo em que leciona nesta escola, experiência em escolas particulares e faculdades.

77 As escolas municipais e estaduais de São Paulo adotam o Sistema de Progressão continuada com dois ciclos: da 1ª à 4ª série (ou 5ª série pelo novo sistema da educação básica) e da 5ª (ou 6ª) à 8ª (ou 9ª) série.

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escolas de ensino médio? A solução adotada tem sido, muitas vezes, a de aprová-los, transferindo o “problema” para o outro nível de ensino.

Além de receber este público diverso, a escola tem que dar conta dos ambiciosos objetivos traçados pela Secretaria Estadual de Educação, com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Em seu artigo 35, a Lei prevê que o ensino médio, etapa final da educação básica, deve ter duração mínima de três anos e as seguintes finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.