CAPITULO V – ANÁLISE ESTATÍSTICA
6. Análise estatística
7.1. Os recursos/impugnações das decisões dos tribunais arbitrais
Na impossibilidade de acesso a dados relativos aos recursos/impugnações interpostos/as das decisões proferidas pelos tribunais arbitrais em matéria tributária, e em particular da amostra que foi recolhida para o presente estudo, foi efetuada uma pesquisa livre através dos acórdãos proferidos pelos Tribunais Centrais Administrativos Norte e Sul e pelo Supremo Tribunal Administrativo publicados no sítio www.dgsi.pt a fim de chegar à existência ou inexistência de recursos/impugnações apresentados.
Assim, da análise efetuada recolhemos um parco número de 13 (treze) acórdãos relativos aos recursos/impugnações das decisões proferidas pelos tribunais arbitrais, e que se apresentam da seguinte forma:
Gráfico 16 - Percentagem de recursos e impugnações apresentadas das decisões do tribunal arbitral
Fonte: DGSI
Como podemos retirar do presente quadro, 38,5% dos acórdãos recolhidos correspondem aos recursos apresentados no Supremo Tribunal Administrativo. Ao passo que 61,5% são referentes às impugnações apresentadas no Tribunal Central Administrativo. Por curiosidade, foram todas apresentadas no Tribunal Central Administrativo Sul.
No quadro seguinte identificamos os recorrentes daquelas decisões. Nos quadros que se seguem, a análise das percentagens é efetuada individualmente.
Assim: 38,50% 61,50% 0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00% 70,00% Tribunais Arbitrais Recursos Impugnações
Gráfico 17 - Recorrentes das decisões proferidas pelo tribunal arbitral
Fonte: Elaboração própria
À Autoridade Tributária corresponde uma percentagem de 80% de apresentação de Recursos para o Supremo Tribunal Administrativo, assim como das Impugnações para o Tribunal Central Administrativo.
Ao Sujeito Passivo, resultado da amostra recolhida, apenas é atribuída uma percentagem de 20% quer nos Recursos para o Supremo Tribunal Administrativo, quer nas Impugnações para o Tribunal Central Administrativo.
Vejamos, agora os respetivos resultados:
Gráfico 18 - Resultados dos recursos e impugnações
Fonte: Elaboração Própria 80% 20% 80% 20% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90%
Autoridade Tributária Sujeito Passivo
Recursos Impugnações 100% 25,00% 62,50% 12,50% 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2
Procedente Improcedente Parcialmente Procedente Não conhecimento do
recurso Recursos Impugnações
Da análise do presente quadro, verifica-se que a totalidade dos recursos apresentados no Supremo Tribunal Administrativo não foram admitidos, ou se quisermos não houve conhecimento dos respetivos recursos. Os recorrentes fundamentaram a sua pretensão na oposição das decisões proferidas pelos Tribunais Arbitrais com acórdãos já proferidos quer pelos Tribunais Centrais Administrativos, aqui em um dos casos, quer pelo Supremo Tribunal Administrativo, nos demais casos. A título exemplificativo, a Autoridade Tributária interpôs recurso para o Supremo Tribunal Administrativo da decisão nº 256/2016 proferida pelo Tribunal Arbitral pela alegada contradição com o decidido no acórdão do STA, processo nº 0765/13, de 03 de julho de 2013. Ainda, interpôs recurso para o Supremo Tribuna Administrativo da decisão nº 254/2015-T proferida pelo Tribunal Arbitral, pela alegada oposição com o decidido no acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul, processo nº 07141/13 de 26 de junho de 2014.
Não obstante, o Supremo Tribunal Administrativo entendeu que tais decisões não contrariavam qualquer acórdão proferido e já transitado em jugado, pelo que não admitiu os recursos apresentados.
No que às impugnações diz respeito, verifica-se que a percentagem mais elevada é aquela que corresponde às impugnações improcedentes, com 62,5%. Seguidamente, com 25% as impugnações procedentes e 12,5% as parcialmente procedentes.
Ora, os fundamentos apresentados pelos recorrentes, na maioria dos casos pela AT, como já havia ficado demonstrado supra, prendem-se essencialmente por questões de violação do princípio do contraditório e igualdade das partes, previstos no artigo 28º, nº 1 do RJAT; omissão de pronúncia; pronúncia indevida; desrespeito pelo prazo de pronúncia e ainda incumprimento do princípio do inquisitório.
Tomemos como exemplo o acórdão proferido pelo Tribunal Central Administrativo Sul, processo 09156/15, de 09 de junho de 2016 e o acórdão proferido pelo mesmo Tribunal, processo nº 08707/15, de 24 de novembro de 2016.
No primeiro, a Autoridade Tributária impugnou a decisão arbitral nº 99/2015-T por entender que a mesma padecia de nulidade pelo facto de se ter pronunciado sobre questão pela qual não se deveria pronunciar, fundamentando a sua pretensão nos termos do artigo 28º, nº 1, alínea c) do RJAT. Entendia a Autoridade Tributária que o Tribunal Arbitral não era competente para se pronunciar sobre o reconhecimento de isenção fiscal com transmissão de bens imóveis integrados num processo de insolvência. Segundo a Autoridade Tributária era uma questão sujeita à jurisdição judicial e, portanto, fora da competência do tribunal arbitral. De acordo com o coletivo de juízes a invocação feita pela Autoridade Tributária de que a questão em causa prendia-se pelo reconhecimento de uma iprendia-senção fiscal não preclude a competência do tribunal arbitral para dirimir o conflito. O que estava em causa era a anulação da liquidação de IMT com base na ilegalidade. A competência do tribunal arbitral não é determinada pelo fundamento na base do qual é formulado o pedido. Era, portanto, e de acordo com o artigo 2º, nº 1 do RJAT, da competência dos tribunais arbitrais, pelo que não existia pronúncia indevida por parte do mesmo.
Assim, o coletivo de juízes acordou em julgar improcedente a impugnação apresentada pela Autoridade Tributária.
No segundo acórdão, a Autoridade Tributária impugnou a decisão arbitral nº 785/2014-T por entender que a mesma padecia de nulidade. O pedido de pronúncia foi julgado improcedente por não terem sido
apresentados documentos suscetíveis de fazerem prova da transferência de propriedade dos veículos e, entendeu a AT que a ausência de iniciativa do tribunal em requerer à impugnante esses elementos de prova determinaria a nulidade daquela decisão. Não olvidando o ónus da prova que cabe as partes, afirma que o tribunal tem um papel importante na descoberta da verdade e que, portanto, deve realizar as diligências necessárias para alcançar esse objetivo. Colocando, assim, em questão o princípio do inquisitório no processo arbitral que deverá resultar na livre determinação das diligências necessárias a realizar (artigo 16º, alínea e) do RJAT). O princípio do inquisitório está consagrado no artigo 114º do CPPT aplicável ao processo arbitral ex
vi artigo 29º, nº 1 do RJAT.
O coletivo de juízes adere a posição tomada pela impugnada no presente acórdão de que o tribunal ofenderia os princípios da igualdade e da imparcialidade das partes no caso de proceder à realização de diligências posteriores para além do que havia sido requerido pelas partes. Para o coletivo de juízes o princípio do inquisitório não implica a livre iniciativa de apuramento judicial de factos.