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Primeiramente, indaga-se: Qual a relação existente entre o consumismo e o meio ambiente?

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Princípio da precaução: É uma garantia contra os riscos potenciais que, de acordo com o estado atual do conhecimento, não podem ser ainda identificados. Esse Princípio afirma que, mesmo diante da ausência da certeza científica formal, a existência de um risco de um dano sério ou irreversível impõe a implementação de medidas que possam evitar e prever esse dano (MILARÉ, 2011, p. 1520).

A resposta nos parece lógica, pois é sabido que o aumento do consumo tem um inegável impacto ambiental. Dentre outras razões, as mercadorias produzidas e consumidas, com menor ou maior grau, retiram uma fatia do meio ambiente, seja pelo consumo de energia e na emissão de gases poluentes para sua produção, ou ainda pela própria matéria-prima utilizada que provém da natureza.

Quanto a isso, Zacarias (2009, p. 135) lembra que os moldes atuais nos padrões de consumo, além de serem injustos, são, também, insustentáveis, haja vista que divididos de forma totalmente desequilibrada, pois aproximadamente 20% da humanidade que tem acesso aos bens de consumo são responsáveis por aproximadamente 80% do consumo dos recursos do planeta, em especial os Estados Unidos, Canadá, Japão e os países integrantes da Europa Ocidental.

Lídia Maria Lopes Rodrigues Ribas (2005, p. 677) ratifica a tese apresentada, pois, em seu pensamento, o sistema capitalista produziu uma série de máculas nas massas populacionais, bem como à natureza, em virtude de sistemas de produção com imenso poder destrutivo.

Além do mais, não se pode esquecer que não é apenas o meio ambiente que sofre com as consequências do consumismo, mas também o homem em sua singularidade, haja vista todos os problemas psíquicos e frustrações que o fustigam, bem como a preponderância do individualismo, com o esquecimento da solidariedade. Nessa linha, Bauman observa que: “a solidariedade humana é a

primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor” (2004, p. 96).

Ademais, os efeitos nefastos da sociedade de consumo se desdobram em muitos outros campos, pois, como já mencionado nos itens anteriores, os cidadãos que fazem parte dessa sociedade, ao mesmo tempo que são bombardeados com novos e mais rápidos “sonhos de consumo”, também o são com as consequências morais, psíquicas e intelectuais. Sobre isso, Santos ressalta que “Consumismo e

competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão” (2001, p.49).

O consumismo exagerado está também intimamente ligado com a ideia da concorrência, da competição, cuja arena, na atual sociedade, é o mercado. Desde

cedo as crianças e jovens são incentivados, inclusive pelas escolas, a competirem, porque, no jargão popular, “apenas os melhores serão bem sucedidos”, o que traz consigo, como uma de suas consequências, a diminuição da solidariedade entre as pessoas. Ocorre que, como pode se observar nos dias atuais, essa competição desmedida para ver quem ostenta mais e melhores condições materiais não parece estar trazendo benefícios nem aos indivíduos singularmente, mesmo aos que alcançam alguns de seus sonhos de consumo, nem à sociedade como um todo.

Nas palavras de Alain Touraine “Esta concorrência generalizada alimenta os

grupos de interesses e os corporativismos que não fazem mais referência ao interesse geral” (2006, p.100). Portanto, o real destinatário dos benefícios da cultura

do consumo, que tantos males traz ao indivíduo, não é a coletividade e sim um pequeno grupo. Fato esse que deve ser no mínimo considerado e servir de reflexão pelos integrantes da sociedade.

As consequências também são experimentadas pelos homens nas relações de trabalho, uma vez que a competição exagerada dentro do preconizado pelo fenômeno capitalista e pela sociedade de consumo torna o ambiente de trabalho mais áspero e as relações pessoais mais superficiais e efêmeras, tornando as pessoas descartáveis e realmente as transformando em mercadorias, facilmente substituíveis, por uma mais jovem e com um menor custo. E mais, outra consequência passa a ser o caráter de total subordinação e de dependência do trabalhador com o seu emprego, pois, nesse cenário de constantes mudanças e da premente necessidade de se “querer” e de se buscar mais e novos bens materiais, o trabalhador depende do seu salário.

Sobre o tema em debate, no mínimo, pertinentes as reflexões de Arendt que, ao interpretar o pensamento de Marx, afirma que o objetivo da revolução era a emancipação do homem em relação ao trabalho (2009, p. 43). Hoje em dia, se verifica, como dito acima, que os trabalhadores, de um modo geral, estão “presos” aos seus postos de trabalho. Seguindo a linha de raciocínio da filósofa alemã:

A emancipação do trabalho e a concomitante emancipação das classes trabalhadoras em relação à opressão e à exploração certamente significaram progresso na direção da não-violência. Muito menos certo é que tenham representado progresso também na direção da liberdade (2009, p. 141).

Outra consequência da cultura do consumismo sobre os indivíduos é a exercida pela publicidade por meio dos seus mais poderosos instrumentos, que são os meios de comunicação, no instante em que esses colaboram, de forma decisiva, para a massificação da sociedade que traz consigo a perda da identidade do indivíduo. Assim, se criam comportamentos padrões e, pior, pensamentos padronizados que, em sua grande maioria, vêm ao encontro dos anseios da própria cultura do consumo, beneficiando os detentores da produção.

Uma das cicatrizes da massificação da sociedade e da perda da capacidade de reflexão sobre o que se está fazendo e para onde se está indo é justamente a perda da capacidade de resistência a determinado modelo, que, no caso, é o da cultura do consumismo. Nesse viés, o indivíduo passa a ser um número, uma mercadoria, agindo no “automático” e vivendo para o consumo, como se a sua existência se limitasse ao trabalho que passa a ser o meio (para adquirir a moeda de troca) para se chegar ao fim que é o consumo que, por sua vez, é cíclico, pois, como já dito, numa velocidade cada vez mais espantosa, são fabricados mais e novas fontes de desejo.

É de se observar também que a análise dos reflexos da sociedade de consumo sobre o meio ambiente deve perpassar pela análise dessas consequências sobre os indivíduos, uma vez que, se são os próprios indivíduos que detêm a capacidade de serem sujeitos modificadores de seu entorno, a partir do momento em que essas mesmas pessoas são assoladas com sentimentos de desânimo e frustração, bem como no instante em que é decapitada a sua capacidade de reflexão e resistência, como consequência lógica, surge a degradação ambiental ocasionada pelo consumo, de uma sociedade padronizada, formada por indivíduos apáticos e incapazes de opor qualquer oposição.

Sobre isso, relevante é o pensamento de Touraine (2006, p. 66-67) que, mesmo tratando da questão referente à “morte da sociedade europeia”, aponta os mercados como principais atores da vida econômica, sendo que uma das consequências é o aumento da massificação do consumo. Nesse processo, os meios de comunicação exercem papel importantíssimo na facilitação entre a comunicação, a empresa e os indivíduos.

Assim sendo, e levando em consideração os tópicos anteriores, pode-se afirmar com precisão que os hábitos da atual sociedade de consumo têm um considerável impacto negativo junto no meio ambiente.

Para exemplificar, interessante é trazer à tona os dados elaborados pela organização não governamental WWF sobre a ferramenta conhecida como pegada ecológica7, quando revela que, no ano de 2008, a pegada ecológica do planeta havia ultrapassado em aproximadamente 25% a capacidade do planeta. Indo-se um pouco mais longe, e se fazendo uma projeção, se o ritmo atual continuar, se estima que entre 2030 e 2040 serão necessários o equivalente a dois planetas terras para suportar o atual estilo de vida de seus ocupantes. Mahatma Ghandhijá há muito afirmava: “A Terra pode oferecer suficiente para satisfazer as necessidades de todos

os homens, mas não a ganância de todos os homens”. Sobre o tema em debate,

Trigueiro afirma que:

Novas gerações de consumidores crescem sem perceber a relação que existe entre consumo e meio ambiente e, o que é mais preocupante, repetindo clichês do movimento ambientalista como “cuide do planeta hoje para que nossos filhos e netos tenham direito a um futuro”, “protejam as baleias”, ou ainda “salvem a Amazônia”. Ignorando-se a dimensão política presente no ato de consumo. Quando escolhemos de forma consciente o que nos convém consumir, evitando excessos e adotando marcas comprometidas com a sustentabilidade, estamos assumindo o papel que se espera de um consumidor do século XXI (2010, p. 64).

Acerca da questão da colisão ambiental, Josemar Xavier de Medeiros (2003, p. 366-370), em estudo sobre aspectos econômicos da produção e utilização do carvão vegetal, ressalta que, em média, dos aproximadamente 10 milhões de toneladas de carvão vegetal produzido todos os anos no país, setenta por cento dessa fatia é destinada à produção do aço bruto, portanto, verifica-se que a quantidade de carvão utilizada nas siderurgias nacionais é expressiva.

Ocorre que, como ensina o autor supracitado (2003, p. 369), a exploração e o beneficiamento do carvão vegetal destinado às siderurgias têm com consequência um impacto negativo na natureza em todas as etapas de sua produção, a começar com o desmatamento de florestas nativas, a própria atividade de extração, a

7 A pegada ecológica (ecologicalfootprint) mostra, baseada em questionários, o espaço físico

hipotético, medido em hectares, que cada ser humano, cidade, país, etc., precisa para suportar o nosso atual estilo de vida (lixo, matéria-prima, energia, dentre outros).

emissão de gases poluentes como o CO2 decorrente das queimadas, até o transporte do produto. Assim sendo, a flora, a fauna, a água, o solo e o próprio homem são afetados, sem falar que as condições de trabalho nesse tipo de ambiente, de regra, são desumanas.

A extração e a industrialização do carvão vegetal que, como visto, têm como consequência a devastação ambiental. Essa existe principalmente, em razão do consumo para a comercialização. É esse, portanto, um dos inúmeros exemplos dos impactos ambientais provenientes do consumismo.

A questão do consumo traz a reboque o argumento do desenvolvimento, aqui utilizado no sentido mesquinho e estrito que possa ter o termo, haja vista que se limita aos números financeiros, e seu aumento a qualquer custo, inclusive em detrimento da própria natureza. Nessa linha, adverte Clóvis Cavalcanti que não se tem como mensurar financeiramente a irreversibilidade das espécies em extinção ou da perda da biodiversidade (2003, p. 154). O mesmo autor destaca também:

Há dessa forma um conflito claro de sistemas e apreensões da realidade com os anseios da realização material do homem. É a atividade econômica que se quer promover, estimular; e é também a existência de freios naturais e éticos para aquilo que se imagina fazer. [....] É a matemática dos juros compostos brigando com princípios como o da constância do produto líquido da fotossíntese (2003, p. 154).

Em relação à questão do desenvolvimento, os mexicanos María de Los Ángeles Gonzáles Luna e Mirlo Matías de La Cruz, em artigo publicado em periódico nacional, lembram que:

Se considera que se da másprioridad al desarrollo económico que a la tutela de medio ambiente. Incluso la Jurisprudencia de diversos países tratan de armonizar o compaginar lastensiones provocadas por eldesarrollo económico y la problemática medioambiental, privilegiando entre ambos intereses, eldesarrollo (2012, p. 171).

Os mesmos autores referem ainda que:

[...] debe de haber una nueva configuración de la economia que no esté basada em la ganancia como fin primordial. Es necessário un cambio total en el desarrollo productivo y de consumo. Cambiar los hábitos consumistas y buscar las formas e innovar, produciendo e intercambiando productos que arrojan una alta cuota de contaminaciónal ser producidos o desechados por otros que contaminen menos (2012, p. 177).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Edgar Morin em sua última visita ao Brasil, ao enfrentar a questão, defendeu que devemos mudar o nosso modo de vida para que realmente as pessoas passem a ter práticas ambientais corretas. Autores, cujos trabalhos se destacam no campo tributário, como é o caso de Marciano Buffon, Ricardo Lobo Torres,Heleno Taveira Torres, dentre tantos outros, também advertem que o modo de vida adotado pela sociedade atual é extremamente nocivo ao meio ambiente, cujas consequências já são e ainda podem ser bastante duras.

Portanto, é fácil perceber que o modelo de vida que pauta nossas condutas é ardorosamente cruel com a natureza, da qual, inegavelmente, fazemos parte. Nesse passo, não se pode ignorar o fato de o ser humano também fazer parte da natureza, ou seja, no instante em que esse mesmo ser agride o meio ambiente, está se autoflagelando.

A questão que surge é se as pessoas de um modo geral têm consciência dos fatos anteriormente abordados. Acredita-se que uma parte considerável da população tem conhecimento dos fatos expostos, bem como que tais pessoas, em sua maioria, também detêm poder de interferência ou, no mínimo, de resistência.

Ainda, diante da afirmação anterior (supracitada), também surge outra questão: ora, se algumas pessoas têm consciência, por que muito pouco é realizado no que diz respeito à racionalização das práticas que agridem o meio ambiente? Para responder esse segundo questionamento, utilizar-se-á do pensamento de Giddens (2010, p. 20-21) quando afirma que a sociedade sabe a importância do choque ambiental em razão do consumo, entretanto, essa mesma sociedade não tem coragem de mudar os seus comportamentos. Seguindo a linha de raciocínio Trigueiro, adverte-se que:

Mudanças climáticas, escassez de recursos hídricos, produção monumental de lixo, destruição sistemática e veloz da biodiversidade, crescimento caótico e desordenado das cidades em que vive a maior parte da população mundial, transgeneia irresponsável, são problemas causados por nós, pelo nosso estilo de vida, hábitos, comportamentos e padrões de consumo (2009, p. 14).

Oportuno destacar que não se pode desconsiderar também que grande parte da população não detém informações sobre o real impacto do consumo, mesmo entre as pessoas que detêm parcela do conhecimento, tal não é suficientemente profundo, haja vista a própria complexidade da problemática.

Nesse sentido, também há que se ponderar que a falta de informação da população em geral é uma das principais causas dos problemas enfrentados pelo consumismo, por exemplo, o consumo de carne pode ser um dos grandes vilões do meio ambiente, haja vista que a pecuária é uma das responsáveis pela devastação de florestas, inclusive da Amazônica. Nesse sentido, seria conveniente que as pessoas tivessem acesso à informação da procedência das carnes que comem, bem como da forma de criação dos animais.

Interessante trazer a debate o apontamento de Bárbara Freitag (2010, p. 132-135) quando, ao fazer uma análise da influência das diferentes escolas da arquitetura das cidades, afirma que o modelo americano permeou as formas urbanas por meio das culturas dos shopping centers, que, por sua vez, são verdadeiros palacetes ao bel prazer do consumo, voltados à elite e à classe média. De outro lado, há um contingente de, aproximadamente, 50% da população nacional que vive em favelas ou invasores ilegais. É um contingente desassistido, sem educação, trabalho, saúde, saneamento básico.

Ora, se o ser humano é considerado a espécie mais evoluída do planeta Terra, da mesma forma tem a respectiva responsabilidade sobre tal. O ser humano deve saber reconhecer a sua responsabilidade em frente aos acontecimentos ambientais, pois esses, como pregam alguns, não são meras “fatalidades” ou vingança divina, mas, sim, a simples consequência da postura irresponsável da espécie que se considera o topo da cadeia evolutiva.

Em que pese toda a problemática apontada, existem movimentos e ações em prol da natureza. O pessimismo puro e simples, dissociado de atitudes, certamente não colaborará para o despertar de uma nova consciência e práticas ambientalmente corretas.

É necessário buscar dentro dos diversos campos científicos soluções plausíveis e viáveis. Assim, uma das possíveis possibilidades pode ser investigada

dentro do campo da tributação, haja vista a sua interferência na vida do Estado e dos indivíduos.

A partir dos debates até aqui apresentados, buscar-se-á, no próximo capítulo, a compreensão e a reflexão sobre as finalidades e fundamentos dos tributos a fim de se perquirir acerca das almejadas soluções para a problemática advinda da degradação ambiental proveniente da sociedade de consumo.

2 FINALIDADE DOS TRIBUTOS: EXTRAFISCALIDADE

A partir do raciocínio explanado no capítulo anterior, no presente buscar-se- á a compreensão e reflexão dos fundamentose finalidade do tributo a fim de se verificar o seu alcance e a real possibilidade de instrumentalizar o Estado na concretização do direito ao meio ambiente equilibrado.