O CONTEXTO HISTÓRICO
2. Os Reformadores e a Tarefa Missionária da Igreja
É dito amplamente que os Reformadores Protestantes não tinham visão missionária; embora cressem que tinham redescoberto o evangelho apostólico, não tinham nenhuma visão apostólica para anunciá-lo às partes extremas da terra. Esta é uma visão que os historiadores modernos parecem adotar.
Gustav Warneck, tido como o pai da missiologia como disciplina teológica, foi um dos primeiros estudiosos protestantes a promover esta visão. Perdemos na Reforma não somente a ação missionária, disse ele, ―mas até a idéia de missão, no sentido em que a compreendemos hoje‖. ―Isto é assim‖, afirmou, ―porque os pontos de vista teológicos fundamentais impediram-nos de dar a suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma orientação missionária.‖
Stephen Neill, em seu livro A History of Christian Missions, procura um julgamento equilibrado e escreve:
Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (London, England: Oliphant, Anderson & Ferrier, 1906).
É claro que a idéia de progresso consistente da pregação do evangelho por todo o mundo não é estranho ao pensamento de Lutero. Entretanto, quando todas as coisas favoráveis que têm sido ditas e que podem ser ditas; quando todas as evidências possíveis dos escritos dos Reformadores têm sido reunidos, isto resulta em muito pouco missões.240
O livro History of the Expansion of Christianity, de Kenneth S. Latourette, revela o registro das igrejas da reforma (século dezesseis) comparado com o registro de Roma: ―No século dezesseis, apogeu da atividade missionária católica, os protestantes não fizeram nenhuma tentativa de propagar a fé fora da Europa.‖241
3 - O Ambiente da Época:
Em 1492 Colombo deparou com um novo mundo, e cinco anos depois Vasco da Gama tinha sido o primeiro europeu a alcançar a costa ocidental da Índia por mar. Vastas oportunidades para a igreja cristã foram abertas. Como Latourette observa, ―
A descoberta e a conquista estavam abrindo a maior das portas para a expansão que qualquer religião jamais teve.‖
As grandes viagens de descobrimento foram motivadas pela necessidade de comércio, ambição por ouro, desejo de fama e de absoluta e inexorável curiosidade. Mas elas foram também devidas ao impulso missionário da Igreja Católica Romana, que tinha sido mais ou menos contínuo por centenas de anos.
Durante esse período, a história da missão cristã foi, necessariamente, a história do monasticismo.n No ano seguinte ao da descoberta de Colombo, o Papa Alexandre VI dividiu o mundo em duas esferas de operação: a espanhola e a portuguesa. Ao mesmo tempo instigou os hispânicos a procurar converter os povos do novo mundo e ―para enviar tanto às ilhas como aos continentes homens honestos, tementes a Deus e virtuosos que fossem capazes de instruir os povos indígenas na boa moral e fé católica.‖243
5 - Obstáculos às Missões Protestantes
Obstáculos práticos e teológicos tinham de ser superados antes que as missões protestantes pudessem agir com determinação. Havia, em primeiro lugar, sérias dificuldades práticas. Até 1648, quando a Paz de Westphalia marcou o fim da luta religiosa da Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Germânia, os protestantes estavam lutando por sobreviver e não dispunham de tempo para se preocupar com missões aos pagãos estrangeiros.
Além disso, a oportunidade para missões aos pagãos era inacessível aos protestantes, uma vez que não dispunham de contato direto com os povos bárbaros ou pagãos; as rotas marítimas eram dominadas naquele tempo por navios de países católicos. Outro fator é que, enquanto numerosos Reformadores, tais como Lutero e Bucer, tinham sido monges, a Reforma havia rejeitado todo o sistema monástico e o conceito que por quase mil anos tinha constituído a tradição, habilidade e equipamento das missões.
6 - Preocupação Missionária dos Reformadores
Houve, inquestionavelmente, vários pontos de preocupação missionária nas igrejas protestantes da Reforma. Houve mais do que um estudioso que detectou uma visão missionária verdadeira.
W. P. Stephens fáz o seguinte comentário acerca de Martin Bucer, pastor reformado de Estrasburgo, na época de Calvino:
Stephen Neill, A History of Christian Missions (Harmondsworth: Penguin, 1964), 2 Kenneth S. Latourette, A History of the Expansion of Christianity (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing Company, 1971),
Stephen Neill, A history of Christian Missions (Harmondsworth: Penguin, 1964). Comentando sobre a determinação em Ezequiel 14.16 para buscar os perdidos e arrebanhar de volta os extraviados, Martin Bucer observa que a igreja deve levar a Cristo aqueles que não o conhecem, enviando o evangelho da terra natal até os confins das terras pagãs. Como Bucer vê esta questão, enquanto somente Deus conhece seus eleitos, Ele ordena a seu povo que saia e chame as criaturas para a vida eterna. A igreja é a cidade de Deus ―onde Deus governará por sua Palavra e Espírito mais do que qualquer outro no mundo, e a partir daí Ele propagará a doutrina salvadora a toda a terra.
Arrazoar que os Reformadores não tinham visão missionária alguma é desconhecer o impulso básico de sua teologia e ministério. Scherer afirma que ―os cristãos devem permitir-se ler a Bíblia através dos olhos de Martinho Lutero como missiologista.‖245 Um ponto de partida relevante na teologia dos Reformadores não era o que as pessoas podiam ou não podiam fazer pela salvação do mundo, mas o que Deus já havia realizado em Cristo.
Em conexão com a doutrina do sacerdócio de todos os crentes, Lutero enfatiza o direito e dever de todo cristão propagar o evangelho; o cristão é obrigado a fazer isto com medo de perder sua alma e incorrer no grave descontentamento do Senhor.
Se ele estiver em um lugar onde não haja nenhum cristão, não precisa de outro chamado para ser cristão, chamado e ungido por Deus no seu interior. Aqui é seu dever pregar e ensinar o evangelho aos pagãos extraviados, ou não-cristãos, por causa do dever do amor fraternal, muito embora nenhum homem o chame a fazer isto.246
Seria anacrônico esperar que os Reformadores falassem em termos do movimento missionário dos séculos XIX e XX: eles certamente não tinham definido claramente o conceito de obra missionária estruturada contemporânea. A chave do pensamento de Lutero sobre esta questão é sua inequívoca compreensão da missão como missão da Palavra de Deus. Os homens são os instrumentos fracos e dispensáveis do poder irresistível da Palavra de Deus.
Embora os pastores possam ser fracos e o mundo, poderoso, o santo evangelho é ainda mais poderoso, e nenhum obstáculo pode impedir seu progresso. Ainda que todos os pastores tivessem de ser eliminados, o evangelho prosseguirá no mundo da melhor forma e transformará o mundo.247
Segundo Oberman, ―Calvino, por outro lado, foi mais explícito, uma vez que sua teologia era a que impunha a responsabilidade do crente no mundo mais seriamente do que a de Lutero.‖248
Os Reformadores imaginavam uma expansão missionária em direção aos países em que não havia protestantes. Em 1555, Calvino foi contatado por Nicolas Durand de Villegagnon, com apoio do Almirante Gaspar de Coligny, sobre o envio de pastores de Genebra para ministrar a uma pequena colonização huguenote na baía do Rio de Janeiro. A companhia genebrina de pastores comissionou de fato 14 deles, que viajaram com várias famílias calvinistas huguenotes para o Brasil. Sua intenção foi não apenas ministrar às famílias protestantes, mas também converter os nativos, tendo, porém, abandonado o empreendimento devido à violenta e selvagem ação contrária dos portugueses.
Digno de nota é também que eles abandonaram completamente com qualquer idéia de fazer uso da força na cristinianização das pessoas.
W. P. Stephens, The Holy Spirit in the Theology of Martin Bucer (London, England: Hodder and Stoughton, 1968), 159.
Theology (Minneapolis,
Minnesota: Augsburg Publishing House, 1987), 66.
Luthers‘ Works, vol. 19, (London, England: SCM Press, 1955) 310. 247 Ibid., vol. 19, Heiko Oberman, The Down of the Reformation: Essays in Late Medieval and Early Reformation Thought
(Edinburgh, Scotland: T. & T. Clark, 1986), 235. Lutero disse:
A espada do imperador nada tem a ver com a fé, e nenhum exército pode atacar outros sob a bandeira de Cristo; na verdade, se o papa fosse realmente o vigário de Cristo sobre a terra, ele pregaria o evangelho aos turcos, em vez de incitar os governadores seculares a desfechar violentos ataques contra eles.
A principal preocupação dos Reformadores foi a de irradiar a fé Reformada em toda a Cristandade, concebida como missão da Palavra de Deus; Além dos vastos problemas teológicos naquele tempo, olharam também além do horizonte imediato para difundir o evangelho aos ainda não alcançados.
A obrigação de ministrar o evangelho a outros incumbe a todos os crentes. Mas os métodos pelos quais esta responsabilidade deve ser realizada em variadas circunstâncias requer estudo adicional e delineamento. Entretanto, é importante ouvir o testemunho da igreja em sua história sobre a questão da pregação do evangelho por todos os cristãos, à medida que a igreja se torna cada vez mais cônscia da responsabilidade de todos os seus membros para espalhar a grata boa notícia da salvação em Jesus Cristo.
Esta afirmação pode também ser dita com respeito aos Reformadores. O testemunho de Calvino e Lutero com vistas à obrigação que todos os crentes têm de transmitir o evangelho a seus próximos é clara e sincera. As persuasões mais fortes possíveis fomentaram o despertar dos membros da igreja para sua responsabilidade. Essa responsabilidade é firmemente ancorada na condição oficial do povo. O Espírito Santo está ativo em toda a igreja. Toda a comunidade testemunha porque é a habitação do Espírito Santo.
Portanto, a igreja existe para o mundo como reflexo da obra salvadora estendida a todo o mundo. Como Kraemer declara: ―Começando desta orientação fundamental, os aspectos essenciais da igreja como corpo, que Cristo cria para si mesmo através do Espírito Santo, são que a igreja é missionária e ministerial.250
Isto implica que cada membro do corpo de Cristo tem o direito e o dever de realizar a Obra missionária da Igreja.
O ensino cristão da era apostólica inicial até o presente, tem como premissa afirmar o direito e o dever dos membros comuns da igreja de levar a outrem o evangelho. Os Reformadores enfatizaram o fato de que a confissão pessoal e o compartilhamento da fé são implicações éticas da vida cristã, embasando estes atos no ofício que os crentes recebem de Cristo, o ofício de sacerdócio de todos os crentes, ou, mais especificamente. o ofício profético de todos os crentes. Qualquer tentativa de negar este direito e obrigação contraria o testemunho unânime da igreja cristã ao longo de sua história.
A obrigação de ministrar o evangelho a outros incumbe a todos os crentes. É importante ouvir o testemunho da igreja em sua história sobre a questão da pregação leiga do evangelho, à medida que a igreja se torna cada vez mais cônscia da responsabilidade de todos os seus membros para espalhar a grata boa-notícia da salvação em Jesus Cristo. O dever dos crentes de anunciar o evangelho a seu próximo não-crente é um aspecto da responsabilidade de testemunhar o que promana da natureza missionária da igreja. Os investidos do ofício têm o dever de lembrar aos membros cristãos esta natureza da igreja e preparar os santos para a tarefa do ministério (Efésios 4.12). O ministério dos santos é um ministério de palavra e virtude a todas as pessoas dentro e fora da comunidade cristã (Colossenses 3.12-17; 1 Tessalonicenses 5.15; 1 Coríntios 10.31-11.1).
O chamado de Deus tem a intenção de mover a igreja de dentro do espaço físico do templo para fora, para alcançar o mundo, conforme observa o bispo anglicano Leslie Newbigin: ―A igreja é o povo peregrino de Deus que corre por todos os cantos da terra, instando todos os homens a reconciliar-se com Deus, e apressa-se em chegar ao fim do tempo para encontrar seu Senhor, que reunirá todos em um.‖
Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (London, England: Oliphant, Anderson & Ferrier, 1906).
Hendrik Kraemer, A Theology of the laity (Philadelphia, pennsylvania: Westminster Press, 1958), 127.
Leslie Newbegin, The Household of God (London, England, 1953), 25. João Calvino e Missões
Um Estudo Histórico Scott J. Simmons Introdução
Existe uma duradoura tradição que afirma que Calvino e o movimento protestante primitivo não tinham interesse em missões. Gustav Warneck escreveu no começo deste século: ―Nós perdemos com os Reformadores não apenas a ação missionária, mas mesmo a idéia de missões... [em parte] porque perspectivas teológicas fundamentais deles evitaram que dessem a suas atividades, e mesmo a seus pensamentos, uma direção missionária‖[1] Warneck chega a afirmar que Calvino afirmou que a Igreja não tinha a obrigação de enviar missionários [2]. Seu engano continua até os dias de hoje. Ralph D. Winter, por exemplo, escreve que os Reformadores ―nem mesmo falavam de missões estrangeiras‖ [3]. Ele afirma que o movimento missionário protestante pode ser dividido em três eras: a primeira iniciando em 1792, com William Carey, a segunda iniciando em 1865 com Hudson Taylor, e a terceira iniciando em 1934 com Cameron Townsend e Donald McGavran. O autor descreve os esforços missionários até 1792 ao dizer ―nossa tradição protestante nos levou durante 250 anos a pensar apenas em nossos próprios negócios e nossa própria bênção (como o antigo Israel)‖.
Mesmo que estes ataques possam ser lançados contra muitas igrejas da tradição protestante, e mesmo contra algumas igrejas calvinistas, é simplesmente falso dizer que João Calvino não tinha interesse em missões. Na verdade, Calvino enviou centenas de missionários para a França, o resto da Europa, e mesmo para o Novo Mundo. A discussão a seguir, portanto, não somente demonstrará que João Calvino tinha uma coerente teologia de missões, mas provê um resumo de como sua teologia o levou a agir em seus propósitos missionários através do mundo.
A Teologia de Missões de Calvino
Calvino nunca escreveu um tratado sistemático sobre sua teologia de missões. Entretanto, suas Institutas, seus comentários e cartas contêm muitas referências à sua teologia de missões e seu espírito missionário. Uma descrição acurada de sua teologia de missões pode ser reconstruída destas afirmações feitas por Calvino em seus escritos. O que se segue nos trará um resumo de sua teologia de missões, bem como respostas a objeções à sua teologia e como ela se relacionaria com missões.
Uma afirmação positiva
A base para as missões cristãs, de acordo com Calvino, é o presente Reino de Jesus Cristo. Em seu comentário aos Salmos e profetas, fica claro que Calvino considerava o reino de Davi como a sombra do Reino maior que viria. Por exemplo, comentando Isaías 2.4, Calvino escreve: ―a diferença entre o Reino de Davi, que era apenas uma sombra, e este outro Reino‖ é que, ―pela vinda de Cristo, [Deus] começou a reinar... na pessoa de seu Filho unigênito‖[5]. Comentando Salmo 22.28, Calvino escreve: ―esta passagem, não tenho
dúvidas, concorda com muitas outras profecias que representam o trono de Deus erguido, no qual Cristo pode assentar-se para comandar e governar o mundo[6]. Este Reino presente de Deus, por meio de Cristo, é pressuposto através de seus escritos quando ele fala da base para missões mundiais.
Uma importante dinâmica que toma efeito neste novo Reino é a destruição da distinção entre judeus e gentios. Calvino frequentemente faz uso de Efésios 2.14 para insistir que a parede divisória entre judeus e gentios foi quebrada e o Evangelho tem sido proclamado, de forma que ―nós [judeus e gentios] fomos reunidos juntos no corpo da Igreja, e o poder de Cristo é posto para sustentar-nos e defender-nos‖.
Desde que o reinado de Cristo se estende não somente sobre os judeus, mas sobre o mundo inteiro, gentios são chamados junto com os judeus ao Seu Reino. É a inclusão dos gentios na comunhão de Israel que permite que o Evangelho do Messias judeu seja proclamado aos gentios por todo o mundo.
A tarefa de Cristo enquanto governa a terra dos céus é subordinar a terra a Ele mesmo. Isto acontece de duas formas. Primeiro, os réprobos que se recusam a submeter-se ao domínio de Cristo ―atacam‖ o Reino de Cristo ―de tempos em tempos até o fim do mundo‖, e ao mesmo tempo eles se prostrarão aos Seus pés. Segundo, os eleitos serão ―trazidos para prestar uma disposta obediência a Ele‖, se submetem e se humilham-se diante dEle. Depois do último dia, estes serão feitos ―participantes com Ele em glória‖. Por meio desses dois métodos, o Reino será estendido por todo o mundo. Em nenhum momento, o progresso do Reino será barrado. Comentando Isaías 2.2, Calvino escreve que haverá ―progresso ininterrupto‖ na expansão de Seu reino ―até que Ele apareça uma segunda vez para nossa salvação‖. O Reino de Cristo, o ―Reino invencível‖ será ―vastamente estendido‖ porque Deus faz ―sua comitiva avançar para longe e numa larga estensão‖. Por toda a era da Igreja, de acordo com Calvino, o Reino de Cristo será expandido por todo o mundo.
O meio pelo qual o Reino de Cristo é espalhado pela terra é através da pregação do Evangelho às nações. Calvino escreve ―não existe outra forma de edificar a igreja de Deus senão pela luz da Palavra, em que o próprio Deus, por sua própria voz, aponta o caminho da salvação. Até que a verdade brilhe, os homens não podem se unir juntos, na forma de uma verdadeira igreja‖. Calvino insistia que os cristãos carregam a responsabilidade de espalhar o Evangelho. Ele escreve ―porque é nossa obrigação proclamar a bondade de Deus para todas as nações... a obra não pode ser escondida em um canto, mas proclamada em todos os lugares‖ . Embora Deus pudesse ter usado outros meios, Ele escolheu ―empregar a ação de homens‖ para a pregação do Evangelho.
A teologia de missões de Calvino é, portanto, teocêntrica e cristocêntrica, focando a glória de Deus em Cristo assim como a obrigação do homem. Tudo na vida deve ser vivido para a glória de Deus. Enquanto a Igreja Católica usava obras meritórias e ascetismo como ferramenta de motivação para missões, protestantes não usariam este tipo de motivação. Para Calvino, o fator motivacional de missões mundiais era a glória de Deus. Quando o Evangelho é proclamado e aceito entre as nações, Deus é adorado e glorificado. Esta é a finalidade principal do homem. Charles Chaney escreve sobre Calvino: ―o fato de que a glória de Deus era o motivo primordial nas primeiras missões protestantes e isto ter se tornado, mais tarde, uma parte vital do pensamento e atividade missionárias, pode ser traçado diretamente em direção à teologia de Calvino‖ .
Ataques contra a Teologia de Missões de Calvino
Muitos disseram que a teologia de Calvino era uma obstrução para missões, nos séculos XVI e
XVII. Dois ataques são comumente dados contra a teologia de missões de Calvino. Há um mau entendimento quanto à Grande Comissão e sua doutrina da predestinação. Entretanto, estes ataques refletem um entendimento pobre da teologia de Calvino.
Alguns objetam contra o entendimento missionário de Calvino ao afirmar que Calvino cria que a Grande Comissão (Mt 28.18-20) estava ligada apenas aos apóstolos do século I, fazendo missões desnecessárias para as gerações futuras. É verdade que Calvino interpretava a Grande Comissão como se referisse ao ministério apostólico. Entretanto, seu motivo para interpretar a Grande Comissão desta forma não era diminuir a necessidade de missões no tempo atual. Ele estava lutando uma batalha diferente – a saber, a batalha contra a doutrina católica da sucessão apostólica. Calvino pretendia mostrar que o
Apostolado era um munus extraordinarium temporário que cessou após os Doze. A Grande Comissão era trazida à discussão para argumentar contra o Catolicismo, não contra a atividade missionária.
Calvino nunca expressou a idéia de que os apóstolos completaram o mandamento missionário de tal forma que a atividade missionária não é mais necessária. Ele via somente o princípio do avanço do Evangelho para todas as nações completado pelos apóstolos. Calvino escreveu sobre o ministério apostólico: ―Cristo, como sabemos, penetrou com velocidade assustadora, do oriente ao ocidente, como o relâmpago, com o objetivo de levar à igreja os gentios de todas as partes do mundo‖ . Ainda assim, Calvino também escreveu sobre a necessidade da atividade missionária no tempo presente. Por exemplo, comentando Mateus 24.19, ele escreveu: ―o Senhor ordena que os ministros do Evangelho vão para longe, com o objetivo de anunciar a doutrina da salvação em todas as partes do mundo‖. Calvino também fez afirmações similares em seus comentários sobre Isaías 12.5; 45.24;