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CAPITULO III A SIGNIFICAÇÃO DA DISCURSIVIDADE E A SOCIEDADE

3.1 OS REPRESENTANTES NO COMITÊ ENQUANTO SUJEITOS

O Comitê é uma estrutura formada por representações dos segmentos dos Poder Público, Usuários e Sociedade Civil. Porém essa apresentação da Lei 9433/1997, implica em uma tomada de posição sob a gestão de recursos hídricos e a interação política pretendida. No artigo primeiro, inciso VI, está expresso que deve integrar essa gestão Poder Público, os Usuários e as Comunidades. (BRASIL, 1997).

Dessa forma, é discurso estabilizado que os grupos que integrem esses segmentos de gestão necessitam estar aptos para exercer o poder de representação e que a vitalidade de experiência colegiada seja sustentada pela capacidade coordenativa estratégica que possuam. A participação da sociedade na gestão pública “tem sido preconizada como avanço necessário visando a maior transparência e até, eficiência social das decisões voltadas a promover a sociedade de bens de interesse comum.” (LANNA, 2000, p.1).

Neder (2002) ao se referir a Sociedade Civil e a capacidade representativa diante da força de pressão de outros grupos de pressão afirma que:

A presença de facções bem estruturadas e com poder de decisão (lobbies empresariais, sindicais e burocráticos, por exemplo) constitui um ponto de vitalidade de experiências colegiadas. Mas são também ameaças à sua sobrevivência, capazes de minar ou destruir as possibilidades de participação dos grupos desorganizados ou com baixa capacidade de coordenação estratégica (NEDER, 2002, p.200).

No Comitê de bacia do Tibagi é significativo que os representantes do segmento que compõe essa relevante tarefa de estejam caracterizados e se reconheçam nessa representação. Preconiza-se, portanto, que os sujeitos tenham uma identificação com o lugar do qual partem e se inscrevem. Organizar as marcas no texto pesquisado a partir do corpus, reunir os grupos de segmentos que convergem com as fundamentações teóricas propostas, permite destacar os aspectos do modelo que se pretende participativo da situação atual de gestão tripartite do Comitê do Tibagi e analisar contra-identificações e desidentificações (PECHEUX, 1997) possíveis com essa estabilização tanto da função de cada segmento quanto do dizer de cada segmento.

Evidencia-se nas falas dos representantes dos segmentos a “função de formação imaginária [...] em suas relações de sentido e de forças (de que lugar fala, ”x”, “y”, etc.), através dos vestígios que deixam no fio dos discursos” (ORLANDI, 2012, p.65), que vão se constituindo na relação com as formações discursivas e os efeitos da ideologia presentes dentro do Comitê. Isso caracteriza o perfil das entidades representativas a partir do modelo de gestão tomada como compartilhada de bacia hidrográfica pelas formações discursivas e conceitual-ideológica dominante.

Assim, a representação da Sociedade Civil enquanto o objeto simbólico produz efeito de heterogeneidade discursiva25 enquanto discurso conforme as condições de produção dentro do Comitê do Tibagi, tendo na inscrição do dizer a ideologia como aquilo que constitui o dizer para a compreensão do sentido deste mesmo dizer. As questões que delineiam o perfil das entidades que representam, tem a intenção de demarcar a composição tripartite da Sociedade Civil (SC) Poder

25

Um discurso heterogêneo é aquele produzido a partir do imbricamentos de várias FDs (religiosa, política, jurídica entre outras).

Público (PP) e Usuário (US) em destaque para a participação dos representantes da Sociedade Civil e sua forma sujeito. A partir do ‘como se fala’, e não ‘o que se fala’ se demarcam em discursividades e expressam as ideologias que sustentam seus dizeres. Esses sujeitos da representação possuem características especificas que se apresentam a seguir. (Quadro 12).

Através das questões descritivas do perfil, forma e segmento (questões 1 a 7), a média de idade dos integrantes entrevistados da Sociedade Civil é de 51,1 anos, o que fica próximo da média simples de idade de 49,9 para a totalidade dos representantes entrevistados. Nessa caracterização, os dados permitem analisar as condições de discurso e o lugar da fala do entrevistado do atual Comitê. Estes participantes são, na maioria, nascidos na década de 1960, o que indica uma

formação discursiva e ideológica a partir das forças dos aparelhos ideológicas do Estado, representada pelo modelo burocrático-tecnicista educacional e predomínio em formação nas engenharias e geologia.

A ideologia dissimula a evidência dos discursos e demarca assujeitamento dos sujeitos ao modelo ideológico. Isso cria uma ilusão discursiva que faz parecer natural e evidente a necessidade de que para se trabalhar com as questões dos recursos hídricos se faz necessário uma formação técnica apropriada.

Na questão 16, ao serem indagados os representantes, sobre quais fatos/situações/leis envolvem ou envolviam o modelo de gestão praticado, está presente na memória discursiva dos representantes da ONG, a correlação com a tecnicidade ao dizer... “[...] Quando eu estou interessado em alguma coisa eu faço acontecer. Se não tiver nenhum, uma pessoa falar, [...], qual que é a base técnica? Não tenho. Então eu tenho todo o estudo aqui e pronto acabou. [...] (SC ONG2).

Também há em outro representante da Sociedade Civil, técnico profissional, uma memória discursiva baseada na tecnicidade quando aponta que:

[...] “eu acho que a gente tem que ter uma visão centralizada. A gente tem que levar mais duas coisas. A boa prática da iniciativa privada, junto com a acadêmica, junto com o estudo acadêmico cientifico da academia. A academia pode ajudar e muito nisso. Onde? Ela vai fazer a análise da água, ela vai criar um histórico disso, ela vai ver o comportamento do rio, ela começa a ter um parâmetro técnico de como é que está, e isso ajuda bastante. [...].” { SCTP4)

USUÁRIOS

segmento Indústrias Agronegócios Drenagem e resíduos

urbanos

hidroeletricidade Abastecimento urbano

Entidade Klabin Associação de aquicultores DRZ Copel Sanepar

Localizaçao Alto Tibagi Alto Tibagi Baixo Tibagi Alto Tibagi Alto Tibagi

nome Henrique Luvison Gomes da

Silva

Ricardo Johansen Jose Roberto Hoffmann Paulo Henrique Rathunde Fabio Leal Oliveira

idade 35 63 64 52 36

Formação, profissão, escolaridade

mestrado em Engenheiro Ambiental

Engenheiro agrônomo, Engenheiro civil, pos graduação

Mestrado Engenharia Civil, Bacharel em Economia Experiência em Comitê. 3º. mandato 2º. mandato 1º. mandato 3º. mandato atuou no Alto

Iguaçu

1º..mandato, atuou no Paraná 3 por 2 mandatos

PODER PÚBLICO

Segmento Federal Estadual Estadual Municipal Municipal

Entidade FUNAI SEAB Aguasparana Prefeitura Ponta Grossa Prefeitura de Carambeí

Localização Baixo Tibagi Baixo Tibagi Baixo Tibagi Alto Tibagi Alto Tibagi

Nome Marcos Cezar da Silva

Cavalheiro

Antônio Carlos Barreto Angela Maria Ricci Andreia Aparecida de Oliveira

Jean Cesar Andrusco

Idade 49 60 53 45 36

Formação, profissão, escolaridade

Bacharel Contabilidade Engenheiro Agrônomo Bacharel em Direito Bacharel/ licenciatura em Geografia

Geografia,, tec. meio ambiente Graduando em engenharia ambiental

Experiência em Comitê. 2º mandato 2º mandato 1º. mandato atuou no norte pioneiro 2º mandato 1º mandato SOCIEDADE CIVIL Segmento ONG SC ONG1 ONG SC ONG2 Ensino pesquisa SC ES1 Ensino pesquisa SC ES2 Técnico profissional SC TP1 Técnico profissional SC TP2 Técnico profissional SC TP3 Técnico profissional SC TP4 Técnico profissional SC TP5 Entidade MAE Meio ambiente equilibrado Associação Klimionte

UEL UTFPR COPATI AREAPG

Engenharia e arquitetura AGEPAR Associação dos geógrafos SENGE Sindicato dos engenheiros/PR Conselho indigenista

Localizaçao Baixo Tibagi Alto Tibagi Baixo Tibagi Baixo Tibagi Baixo Tibagi Alto Tibagi Baixo Tibagi Baixo Tibagi Baixo Tibagi

nome Marcelo Arasaki, Robson Carlos Klimionte Andre Celligori Ricardo Naganini Constanzi Galdino Andrade Filho

oão Kovalechyn José Paulo Pitinini Pinese Wilson Sachetin Marçal Jucélio Aparecido da Silva idade 33 36 59 47 55 63 61 58 48 Formação, profissão, escolaridade Graduação Biologia Graduação Medicina veterinária Doutorado Geologia Doutorado Engenharia Civil Doutorado Biologia Graduação Engenharem civil Doutorado Geologia Graduação engenharem eletrica Magistério indígena, graduando Pedagogia Experiência em Comitê.

1º.mandato 1º.mandato 1º.mandato 2º.mandato 3. mandato Atua no Paranapanema 5º..mandato atua no Paranapanema 1º. mandato - Atua no paranapanema 1º.mandato Fonte: A autora.

Para o Usuário de drenagem urbana, a tecnicidade da legislação pode ser ambígua quando destacada a discordância com uma percepção técnica pessoal, fazendo do discurso esta relação de forças entre duas “tecnicidades”, como se pode ver: “Nem sempre a legislação, eu pelo menos já encontrei algumas questões que

não são muito adequadas, mas lei é lei, e a gente não discute, cumpre.”

No segmento dos Usuários essa percepção da tecnicidade é evidenciada quando no fragmento dos aquicultores se reconhece o efeito de sentido tecnicista jurídico burocrático ao declarar que [...] não saberia te dizer lei pois não sou advogado, sou mais da área técnica.( UAq)

Essa tecnicidade especializada interpela os sujeitos criando o efeito de evidência e permite que haja a identificação ou a contraidentificação. (PECHEUX, 1997b), deflagrando um sujeito à contradição e da contradição, já que é um sujeito interpelado pela ideologia e pelo inconsciente.

Como sujeito da contradição, o representante técnico profissional da Sociedade Civil traz no discurso a contraidentificação ao modelo reproduzido, que mesmo o reconhecendo como a base do seu dizer, indica uma outra possibilidade que não a tecnicidade para participação no Comitê.

SCTP2. [...] para participar do Comitê você não precisa ser especialista, mas tem que ter boa vontade, se não acho difícil arrumar só especialistas, ficaria também um Comitê meio, muito em uma linha só de ver a situação, e o meio ambiente é uma coisa que você tem que ter tudo que é tipo de participação e não apenas especialista.

Disso temos que o único não graduado que possui formação nos interesses das causas que milita, tenha a formação de nível médio em magistério indígena (MEC, 2019) e tenha uma particular discursividade de desintedificação, ou seja, enquanto conceito, não encontra uma posição de fala correspondente.

SCTP5 Ah, eu não tenho o que falar muito sobre isso porque eu não tenho acompanhado muito esse jeito, essa gestão, então não tenho muito o que falar

As atas demonstram essa desidentificação do grupo com a forma do Comitê. Em poucas passagens está presente a menção de fala do representante indígena e o seu comparecimento.

O Decreto 2313/2000, obriga que exista essa representação. Na ata de setembro de 2004, em que se discutia a reformulação da composição co Comitê, se pretendeu deixar de fora essa representação, oque não se conseguiu.

Na questão 14, ao se referir a questão de divergências, o representante descreve esse distanciamento e a divergência que possui sobre o funcionamento do Comitê quando indica que:

SCTP5 “ Eu acho que deveria ser mais estudada mais pensada e ter mais envolvimento com nosso povo, porque isso queira ou não queira está na Constituição, o artigo 210 mesmo fala que tudo que for fazer tem que ter, tem que ver com as pessoas interessadas, tem que ter compromisso ali junto com eles.

Segue abordando uma correlação da não participação devido a falta financeira do segmento para participar e o não incentivo dos órgãos organizadores. Afirma que:

SCTP5 “Não é só simplesmente fazendo uma gestão, Comitê, simplesmente colocando as pessoas ali dentro, e as pessoas não participam[...]”, [...] eu não participo, não porque eu não queira, que queria estar presente em todos, mas [...] a gente não tem, a gente não tem fundos para isso, a gente trabalha voluntário, as vezes tem que estar colocando dinheiro do bolso e tal para fazer essa correria.

Em reunião que se estava aprovando o ‘termo de referência’ para construção do plano da bacia, foi aprovado que [...] no subitem 4,2 e- Geração de energia

sejam consultados tanto a FUNAI como as comunidades indígenas; [...] .

Porém, a proposta não se limitava à questão da energia, já que foi aprovado que fosse acrescentado novo sub. item 4.2.h referente a usos indígenas na Bacia

do Tibagi. [...] sendo que todas [as proposições] foram aprovadas por unanimidade.

(8ª. ATA, 2006).

Especificamente no relatório Produto 7, do trabalho da consultoria COBRAPE (Companhia Brasileira de Projetos e Empreendimentos), junto com a Aguasparana, se delimitava as ações propositivas para a Consulta Pública a serem realizadas no Plano de bacia, é dado ao órgão público FUNAI o destaque como gesto da categoria por “Tem como função a melhor qualidade de vida das populações indígenas, promovendo a conservação dos seus recursos naturais por meio da demarcação

participativa das terras indígenas”. O Conselho indigenista é apenas citado no

quadro dos principais atoresmas sem nenhuma referência distintiva a sua importância participativa.( PLANO, 2019,p.10). Se a FUNAI como um gestor da

categoria tem por função a melhor qualidade de vida das populações indígenas, um silenciamento nas atas da fala do representante indígena e de seu comparecimento se apresenta como algo praticamente constante e como tal, significa um Comitê participativo lacunar.

No entanto, uma participação significativa foi a presença do representante do Conselho Indigenista na reunião de outubro de 2006 e nas duas que se seguiram, em que a pauta versava sobre o Comitê e seus membros, para que pudessem ter suas prerrogativas de participação e proposições garantidas frente a proposta de agenda de Energia Elétrica, no sentido de que a implantação da UEH Mauá fosse retirada do leilão de energia. (DELIBERAÇÃO 4, 2006).

Na reunião seguinte, foi aprovada a deliberação em que se indicava representantes da Câmara técnica para acompanhamento dos estudos da Usina Hidrelétrica Mauá, tendo como coordenação e relatoria o representante da SEMA/ SUDERHSA, e como membros, Prefeitura de Ortigueira, COPEL, FAEP, uma ONG e UEL, sem nenhuma menção que as colaborações da FUNAI ou ao Conselho indigenista trariam como integrantes. Existem aproximadamente 10.375 representantes indígenas dos grupos Kaigangs, Guarani e Xetá, que ocupam área de 1460 ha em 5 reservas indígenas, situadas, duas em Ortigueira, duas em São Jerônimo da Serra e uma em Tamarana, (FUNAI, 2006, PARANÁ, 2006) que merecem representatividade no Comitê.

Desse silenciamento do lugar de fala da comunidade local, se segue a uma desidentificação com as pautas do Comitê visto que só se tem registro de nova participação quando da apresentação pela SUDERHSA, em 2009, sobre o I modulo do plano de Tibagi – Diagnóstico. (PARANA, 2009). O conselho indigenista, mesmo com a obrigatoriedade, não consegue estabelecer a representatividade diante da comunidade.

Esse efeito de sentido de (não) participação ou silenciamento pode ser analisado desde a fundação do Comitê, a partir dos documentos fundantes para o reconhecimento da predominância de determinadas FDs no complexo das formações ideológicas (re)produzidas pelo/no interdiscurso.

3.2 EFEITOS DE SENTIDO SOBRE PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NO