CAPÍTULO I QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA
1.6 REPRESENTAÇÃO E REPRESENTATIVIDADE NO ÂMBITO DO COMITÊ
A representação dentro do CBH de forma descentralizada se apresenta como um marco significativo no sistema de planejamento de políticas públicas de Estado. Jacobi (2010) ao reafirmar que o novo enlace da legislação das águas, estruturada a partir de três elementos: a gestão descentralizada por bacia hidrográfica, a gestão integrada e a gestão participativa, indica um modelo de gestão diferenciado do que estava sendo praticado e portanto permitiria a substituição de práticas arraigadas de planejamento do Estado tecnocrático e autoritário devolvendo o poder para as instituições de forma descentralizadas. (JACOBI, 2010). Porém essa prática demanda um processo de negociação não centralizador entre diversos agentes públicos, Usuários e Sociedade Civil organizada.
Cada CBH deve possuir composição e regras próprias para sua composição e funcionamento ligados ao regimento interno e respeitado a lei estadual seguindo a composição triparitária e tripartite. Estas devem estar ligadas a um sistema de participação em que as partes possam exercer as atribuições de gestoras ante os representados.
Neder (2002) ao descrever a experiência do Comitê de Bacia do Alto Tietê, aponta que uma das origens dos problemas de articulação dentro da Bacia e consequentemente no Comitê, está relacionada com a composição heterogênea e fragmentada da representação social da Sociedade Civil não econômica. Indica que o Comitê se apresenta como um espaço de lobbies e que “representantes da chamada Sociedade Civil nos Comitês tem forte aversão e mesmo antipatia contra os excessos de manobras e encaminhamentos nas decisões de dirigentes do(s) Comitê(s)”. (NEDER, 2002, p.200, grifo no original). O autor citado indica que há um constrangimento para a participação da Sociedade Civil que reside na falta de capacidade estratégica e a desorganização do setor.
Outra dificuldade é a carência citada de recursos materiais para as entidades populares em Comitês para que possam acompanhar as diferentes formas de negociações como em plenárias, encontros e outras formas de participação. Esse apontamento está ligado à participação da Sociedade Civil quanto às dificuldades de cumprir a agenda e desenvolver formas de coordenar a representação social que exercem a seus representados. NEDER (2002).
Como se pode ver, estas práticas destoam daquilo que se propõe como de fato participativo, pois há um silenciamento esperado pelo Estado por conta de uma falsa igualdade legal que não favorece a alteração nas condições de produção nem deste dizer e nem deste fazer. Os sujeitos membros da representação da Sociedade Civil permanecem enunciando sobre a gestão, de forma a reforçar sua inscrição na Formação Discursiva de uma ideologia dominante a partir da ideologia do Estado.
Malheiro, Prota e Perez (2013) relatam que muitas experiências e lições foram vivenciadas ao se instalar o primeiro o Comitê das Bacias no Estado de São Paulo, dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (CBH PCJ), no que se refere à composição dos integrantes e sua representação. Destacam que a participação da Sociedade Civil passou por alguns questionamentos de forma muito mais significativa, e:
Um dos temas polêmicos durante a formação da representação da Sociedade Civil foi o formato mais adequado para a participação dos Usuários das águas, em especial os empresários industriais e agrícolas [...] Também se questionou se as universidades deveriam fazer parte da representação da Sociedade Civil, uma vez que muitas delas são ligadas ao estado. (SÃO PAULO,1995, apud MALHEIRO,PROTA, PEREZ, 2013, p.102)
Neder (2005) indica que a definição de representação social é duplamente desafiadora, pois enquanto se pensa no sujeito da ação social, também se deve questionar a qualidade da relação da representação e do vínculo com a identidade coletiva a qual atribui a representação.
Em outras palavras, toda participação em conselhos, colegiados, Comitês e demais formas coletivas de negociação direta para formulação de políticas públicas, inclusive em experiências avançadas do tipo orçamento participativo, nos leva a questionar o efeito de sentido de representatividade individual ante a representatividade do segmento.
Neder (2005) aponta que a dimensão da representatividade que tem sido enunciada e individualizada é tacitamente aceita como correta, “pelo simples comparecimento do agente [...], pois a secretaria executiva do Comitê procede a um
cadastramento e seleção das entidades que integram cada segmento da Sociedade Civil.” (NEDER, 2002, p.201) e isso passa a se formatar como discurso de representação intra e extra-Comitê.
Ocorre que há uma falácia neste processo interpretativo de que a representatividade individual partiria de um reconhecimento coletivo por parte dos pares e geraria uma representatividade.
A participação da Sociedade Civil é uma obrigatoriedade jurídica na construção da política de gestão da água descentralizada no Brasil. Este é um ponto de extrema significação para que o sistema como um todo possa ser entendido como democrático. A participação de forma a não gerar representatividade, não tem receptividade na lei de águas, que se pretende um modelo sistêmico de gestão, não construindo a gestão da água participativa e descentralizada.
Nesta perspectiva Kemerich, Ritter e Dulac, (2014) reconhecem que a disparidades na composição dos Comitês também constituem um importante problema, não permitindo que o Comitê gerencie os recursos hídricos da bacia eficientemente sem considerar a participação de todos os agentes sociais que são “influenciados” pela disponibilidade de água.
Para analisar a participação da Sociedade Civil na gestão dos recursos hídricos nos enunciados que representem os pares a partir de formações discursivas e ideológicas que constituem os sujeitos, faz-se necessário um questionamento das condições de produção dos discursos em que a Sociedade Civil está inserida e o efeito de sentido diante das relações econômicas classistas, a força estatal capitalista hierarquizada e coercitiva diante de uma ideologia legalista liberal.
1.7 SOCIEDADE CIVIL ENQUANTO CATEGORIA REPRESENTATIVA NO COMITÊ