A ADEQUAÇÃO DAS PENSÕES DO SISTEMA PREVIDENCIAL
6.5. Outros estudos prospetivos
6.6.2. Os resultados principais
Os resultados para a média do setor de serviços estão resumidos nos Quadros 6.VII e 6.VIII, relativos às taxas brutas e taxas líquidas de substituição respetiva- mente, nos anos de 2017 e 2055. Os Gráficos 6.4-A, 6.4-B e 6.4-C representam a evolução das taxas na atualidade e em cada um dos anos da projeção: 2025,
2035, 2045 e 2055, respetivamente para os níveis de salário mínimo, salário médio e salário alto.
Os valores da TTS bruta estimados para o presente refletem o impacto de três fatores decisivos para a determinação do montante da pensão: a escolha do momento da reforma, a duração da carreira contributiva e o nível das remunera- ções auferidas.
O sistema penaliza fortemente os pensionistas caso eles decidam antecipar o momento da reforma, e premeia-os no caso contrário. O adiamento por 2 anos da idade da reforma induz um aumento da taxa de substituição entre 9 e 14 pontos percentuais, por via das bonificações previstas. Em contrapartida, a antecipação por 2 anos por motivo de flexibilidade faz perder entre 17 e 23 pontos percen- tuais, em relação à situação que se teria em caso de reforma na idade normal, em virtude da dupla penalização por aplicação do fator de sustentabilidade e da redução percentual específica96. Este esquema de incentivo/desincentivo é
necessário a fim de condicionar o comportamento do beneficiário num sentido favorável à sustentabilidade do sistema, e é também uma exigência de justiça pois assegura uma melhor correspondência entre o valor da pensão e a duração da carreira.
A antecipação por motivo de desemprego de longa duração também é penali- zada em relação à reforma por inteiro nas gamas alta e média de remunerações (perda de 20 pontos percentuais) mas pouco afeta o valor da pensão na gama baixa (apenas menos 3 pontos percentuais). Note-se ainda que nesta modalidade a passagem à reforma ocorre aos 62 anos, ao passo que no caso de flexibilidade, ela ocorre aos 64 anos e 3 meses.
A interrupção da carreira contributiva por motivo de desemprego deixa o valor da pensão praticamente inalterado em relação ao valor que teria em caso de carreira ininterrupta, já que a perda se limita a 2 pontos percentuais. Este resul- tado demonstra a eficácia protetora do esquema de créditos de equivalência em vigor, desde que cada período de desemprego não exceda o máximo de duração do subsídio, a qual varia conforme a idade e a carreira contributiva do desempregado.
96. As estimativas apresentadas não levam em conta os ajustamentos introduzidos em 2017, que retiram as penalizações por reforma antecipada aos trabalhadores com carreiras longas e que começaram a trabalhar aos 14 anos ou antes.
QUADRO 6.VII – Taxas teóricas de substituição brutas das pensões, setor de serviços, 2017- 2055
2017 2055 D 17-55
Situação-tipo – Carreira de 40 anos + reforma com INR
Rend. altos 80,4% 53,9% -26,6
Rend. médios 80,1% 62,4% -17,7
Rend. baixos 71,9% 63,5% -8,5
Variante 1 – Reforma adiada
Rend. altos 94,1% * 59,5% -34,5
Rend. médios 94,1% * 62,5% -31,5 Rend. baixos 81,2% * 69,4% -11,7 Variante 2 – Reforma antecipada por flexibilidade
Rend. altos 57,2% 30,6% -26,6
Rend. médios 57,6% 32,7% -24,9
Rend. baixos 54,9% 34,9% -20,0
Variante 3 – Reforma antecipada por desemprego de longa duração
Rend. altos 60,2% * 36,4% -23,9
Rend. médios 61,2% * 37,6% -23,6 Rend. baixos 68,7% * 43,6% -25,1 Variante 4 – Carreira interrompida por desemprego
Rend. altos 78,4% 51,4% -27,0
Rend. médios 78,2% 53,2% -25,1
Rend. baixos 70,4% 62,2% -8,2
Variante 5 – Carreira curta
Rend. altos 53,1% 34,6% -18,5
Rend. médios 53,0% 33,5% -19,5
Rend. baixos 54,9% 40,2% -14,7
Variante 6 – Reforma por invalidez
Rend. altos 36,5% Rend. médios 35,0% Rend. baixos 68,7% * Valores de 2045, por não ser possível calcular os valores de 2055 com base no simulador.
Uma carreira de 26 anos, classificada como curta, mas que de fato corresponde à média da duração das carreiras contributivas dos pensionistas portugueses, causa uma queda muito significativa do rendimento da pensão, que varia entre 17 pontos percentuais (no caso de uma remuneração ao nível da RMMG) e 27 pontos percentuais no caso de uma remuneração média ou alta.
No caso da carreira curta com salário ao nível da RMMG, a pensão de reforma cairia ligeiramente abaixo do patamar da pensão mínima, pelo que haveria lugar ao pagamento de um suplemento para perfazer o montante de 305,96 €. Foram ainda calculadas as taxas de substituição para uma situação teórica de invalidez absoluta provocando uma reforma antecipada aos 43 anos de idade depois de 18 anos de carreira. Neste caso, a taxa de substituição seria de 69% para o escalão baixo de rendimentos, e de cerca de 35% para os restantes esca- lões. Isto significa que a proteção às pensões em situação de invalidez é efetiva apenas para os salários mais baixos pois deixa-as a um nível superior ao das pensões dos reformados com antecipação e com carreira curta.
90,0% 80,0% 70,0% 60,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% 2017 2025 2035 2045 2055 0 1 2 3 4 5 2017 2025 2035 2045 2055 100,0% 90,0% 80,0% 70,0% 60,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% 0 1 2 3 4 5
GRÁFICOS 6.4 – Taxas brutas de substituição, setor de Serviços, 2017-2055
GRÁFICO 6.4-A – Salário mínimo
GRÁFICO 6.4-B – Salário médio
Variantes: 0 – Carreira completa 1 – Reforma adiada
2 – Reforma antecipada p/ flexibilidade
3 – Reforma antecipada p/ desemprego 4 – Carreira interrompida p/ desemprego 5 – Carreira curta
O atual sistema de cálculo da pensão estatutária é suposto favorecer os esca- lões inferiores de rendimentos devido à escala regressiva de formação de direitos (a taxa anual de formação diminui com a remuneração). Porém nas simulações realizadas para o setor de serviços, os resultados referentes a 2017 não permitem confirmar a hipótese de progressividade na distribuição dos valores relativos das pensões.
Existe pouca diferença entre as taxas de substituição dos escalões alto e médio e ambas são superiores na atualidade à taxa de substituição para salários baixos. Só nas variantes de reforma antecipada por motivo de desemprego de longa duração e de reforma por invalidez, as taxas de substituição do escalão baixo são significativamente mais elevadas do que as duas primeiras. A ausência de progressividade nas pensões atuais deve-se ao efeito do método de contagem baseado nos melhores 10 dos últimos 15 anos, que favorece relativamente mais os detentores de salários mais elevados.
Segundo as projeções realizadas para 2055 as taxas de substituição das pensões diminuem para todas as situações e níveis de rendimentos. Na situação-tipo, são
2017 2025 2035 2045 2055 100,0% 90,0% 80,0% 70,0% 60,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% 0 1 2 3 4 5
os pensionistas com rendimentos mais altos os que mais ficam a perder, por força da supressão do método de contagem dos 10 melhores anos e da aplicação da taxa regressiva de formação de direitos: a respetiva taxa de substituição cai 26,6 pontos percentuais. Seguem-se os detentores de rendimentos médios, com uma queda de 17,7 pp., sendo a queda observada para baixos rendimentos relativa- mente pequena (8,5 pp.).
Na variante 1, correspondente à reforma adiada por 2 anos, a queda é relativa- mente mais severa e excede os 30 pontos percentuais nos escalões alto e médio de rendimentos, devido à aplicação da idade máxima de 70 anos para a reforma, o que faz diminuir o valor das bonificações à medida que aumenta a INR no tempo. Nas variantes de reforma antecipada, a taxa de substituição reduz-se em mais de 20 pontos percentuais. Na variante de carreira interrompida, a queda de níveis de adequação é severa para os detentores de altos e médios rendimentos (entre 25 e 27 pp.) e mais moderada para o escalão de baixos rendimentos. Finalmente, no caso de carreira curta, serão também os escalões mais altos a sofrer o maior impacto, próximo dos 20 pp.
É de salientar que a pensão inicial cairá em 2055, segundo as projeções, para valores inferiores a metade do valor do último salário, em todas as situações de reforma antecipada e de carreira curta, e para valores inferiores a um terço nas situações de reforma antecipada por flexibilidade nos escalões alto e médio de rendimentos.
As taxas líquidas de substituição foram obtidas por dedução da quotização para a Segurança Social e do valor correspondente à retenção na fonte do IRS ao valor das remunerações e das pensões, considerando o caso de um indivíduo isolado. Naturalmente que se tratam de hipóteses simplificadoras que fazem com que as estimativas de taxas líquidas se tenham de interpretar com alguma reserva. Os aspetos que se devem salientar no Quadro 6.VII são em primeiro lugar a forte diferença positiva em relação aos valores constantes do Quadro anterior. Este resultado deve-se ao fato de o regime fiscal favorecer duplamente os pen- sionistas ao isentá-los da quotização para a Segurança Social e tributá-los a uma taxa reduzida em sede de IRS. Haverá mesmo situações em que o rendimento líquido obtido com a pensão é superior ao obtido com o último salário, como acontece com os detentores de rendimentos altos e médios que decidam adiar a reforma. Dado que os detentores de remunerações baixas ficam abaixo do limiar do IRS, este escalão apresenta taxas de substituição líquidas inferiores aos res- tantes na maioria das situações.
QUADRO 6.VIII – Taxas teóricas de substituição líquidas das pensões, setor de serviços, 2017 e 2055
2017 2055 D 17-55
Situação-tipo – Carreira de 40 anos + reforma com INR
Rend. altos 99,5% 73,3% -26,2
Rend. médios 97,6% 76,0% -21,6
Rend. baixos 80,8% 71,3% -9,5
Variante 1 – Reforma adiada
Rend. altos 114,3% 81,0% -33,3
Rend. médios 113,2% 85,1% -28,1
Rend. baixos 91,2% 78,0% -13,2
Variante 2 – Reforma antecipada por flexibilidade
Rend. altos 75,0% 41,6% -33,4
Rend. médios 74,8% 44,5% -30,3
Rend. baixos 61,7% 39,2% -22,5
Variante 3 – Reforma antecipada por desemprego de longa duração
Rend. altos 74,5% 49,5% -25,0
Rend. médios 79,5% 51,2% -28,3
Rend. baixos 77,2% 48,9% -28,2
Variante 4 – Carreira interrompida por desemprego
Rend. altos 96,9% 69,9% -27,0
Rend. médios 96,3% 72,4% -24,0
Rend. baixos 79,1% 69,9% -9,2
Variante 5 – Carreira curta
Rend. altos 70,4% 47,1% -23,3
Rend. médios 71,4% 45,6% -25,8
Rend. baixos 61,7% 45,2% -16,5
Variante 6 – Reforma por invalidez
Rend. altos 52,9% Rend. médios 47,6% Rend. baixos 77,2% * Valores de 2045, por não ser possível calcular os valores de 2055 com base no simulador.
Tal como nas estimativas de taxas brutas, são de prever taxas líquidas em 2055 significativamente inferiores aos valores atuais, com destaque para os detentores de altos rendimentos que verão as respetivas taxas cair mais de 25 pontos per- centuais em quase todas as situações. Contribuem para este efeito a escala pro- gressiva das taxas de IRS, além da escala regressiva da taxa de formação de direitos. As reduções serão menos sensíveis para os detentores de baixos ren- dimentos, cujas taxas de substituição sofrem uma queda entre 9,5 e 16,5 pontos percentuais, exceto nas variantes de reforma antecipada. Os pensionistas com reformas antecipadas e os de carreira curta terão reformas inferiores a metade do último salário, em termos líquidos.