5 CONTRASTES À PERSPECTIVA UNITÁRIA APRESENTADA POR
5.1 Raça, classe e capital a partir de David Roediger
5.1.1 Os salários da branquitude: notas sobre a construção da classe
A partir de uma perspectiva que unia a teoria crítica da branquitude110 e a historiografia marxista do trabalho nos EUA, Roediger (2007 [1991]) buscou desvendar as maneiras específicas pelas quais a crença na superioridade racial forma a consciência dos trabalhadores brancos e é por eles defendida, retomando a formulação de W.E.B. Du Bois (1971 [1935]). Para Du Bois, a branquitude confere a estes trabalhadores uma compensação por relações de classe pautadas na exploração e na alienação. Assim, ao invés de se concentrar apenas nos benefícios materiais do privilégio da “pele branca”, o autor examina a ação da classe trabalhadora na construção do significado da branquitude e em sua manutenção histórica.
Roediger (2007 [1991]) critica a tradição hegemônica no interior da teoria marxista estadunidense que tanto naturalizava a branquitude em suas análises quanto simplificava a questão racial, reproduzindo paradigmas liberais que limitavam o avanço teórico e prático do campo socialista no país. O autor destaca que este paradigma remonta a uma apropriação reducionista de contribuições marxistas centrais ao estudo da questão racial nos EUA, como Fields (1982). Em resumo, a autora argumenta que a raça não pode ser vista como um fato biológico ou físico (uma “coisa”), mas deve ser vista como “uma noção que é profundamente e em sua essência ideológica” (FIELDS, 1982 apud ROEDIGER, 2007 [1991], p.7). Isto porque a noção de raça é construída de forma diferente ao longo do tempo por pessoas da mesma classe social e, concomitantemente, por pessoas pertencentes à diferentes posições de classe. Segundo
110 Longa tradição entre os intelectuais e ativistas afro-americanos que, reunindo autores como Du Bois, James Baldwin, Morrison, Hazel Carby, bell hooks e Coco Fusco, questiona a branquitude, isto é, o “ser branco”
enquanto paradigma hegemônico de humanidade. No Brasil, uma importante referência nos estudos da
branquitude hoje é Maria Aparecida Bento. Neste sentido, para mais sobre teorias da branquitude e sua recepção no Brasil, cf. Bento, 2002; Schucman, 2012.
Fields, raça e classe seriam, assim, categorias de dimensões diferentes: enquanto a raça seria uma construção inteiramente ideológica e histórica, a classe conteria uma dimensão objetiva própria.
Roediger (2007 [1991], p. 6-8) destaca como esta perspectiva – que serviu de ponto de partida para seu próprio trabalho de investigação histórica das particularidades do caso estadunidense – rapidamente ganhou contornos negativos no interior da tradição marxista.
Recorrentemente, passou-se a resumir o argumento de Fields (1982) à noção de que classe (ou a esfera ‘econômica’) seria mais real, e, portanto, mais fundamental do que raça, tanto em termos políticos quanto em termos de análise histórica. Contra esta tendência – que, cabe ressaltar, reproduzia uma separação estrita entre base econômica e superestrutura ideológica111 –, Roediger argumenta que a formação da classe trabalhadora e o desenvolvimento sistemático de um sentido de branquitude se deram de forma imbrincada nos EUA. Neste sentido, separá-los traria apenas consequências negativas tanto para a práxis quanto para a teoria: no sentido da práxis, impossibilitaria o reconhecimento dos movimentos de libertação negra como lutas potencialmente revolucionárias; no âmbito da teoria, “a raça desaparecia ‘na realidade’ da classe”, ou seja, os estudos sobre classe ocultariam a realidade decorrente das divisões raciais em uma dada sociedade (ROEDIGER, 2007 [1991], p. 7-11)112. Tal redução da raça à classe, no âmbito teórico, reproduz o idealismo inerente às análises liberais e neoliberais. Nas palavras do autor:
Um grande problema com a abordagem marxista tradicional é que o que ela toma como sua tarefa central - apontar a dimensão econômica do racismo - já é feito por aqueles que participam do mainstream político. De uma maneira completamente sem sentido, o 'problema da raça' é consistentemente reduzido a um de classe. Por exemplo, quando o racista assumido e ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke, ganhou um assento na legislatura da Louisiana no início de 1989, um comentarista após o outro apareceu nos noticiários matinais para anunciar que o desemprego era alto no distrito quase inteiramente branco de Duke e, portanto, a eleição se transformou sobre queixas econômicas, em vez de racismo. Os telespectadores foram tratados assim com a noção exótica de que, quando trabalhadores brancos reagem ao desemprego elegendo um proeminente supremacista branco que promete
111 Ressalto aqui que tal separação é similar àquela adotada por Vogel e apresentada no capítulo 3 desta dissertação.
112 Em linguagem metafórica, o autor explica que o racismo é um “ramo grande e baixo de uma árvore que está enraizada nas relações de classe. Devemos nos lembrar constantemente que o ramo não é o mesmo que as raízes, que as pessoas podem esbarrar com mais frequência no galho do que nas raízes, e que a melhor maneira de sacudir as raízes pode ser, às vezes, agarrar o galho”. (ROEDIGER, 2007 [1991], p. 8, tradução minha). No original: “(…) [racism] is a large, low-hanging branch of a tree that is rooted in class relations, we must constantly remind ourselves that the branch is not the same as the roots, that people may more often bump into the branch than the roots, and that the best way to shake the roots may at times be by grabbing the branch.”.
destruir programas de bem-estar social, eles agem em termos de classe, e não como racistas da classe trabalhadora. Tal argumento é esperado se vindo do programa televisivo "Today", mas uma esquerda viável deve encontrar uma maneira de se diferenciar fortemente de tal análise. Da mesma forma, vale notar que tanto o neoliberalismo quanto o neoconservadorismo argumentam que a raça não é (ou não deveria ser) "a questão", mas o crescimento econômico que - nitidamente separável da raça - resolverá os conflitos que apenas parecem girar em torno da raça113 (ROEDIGER, 2007 [1991], p. 8-9, tradução e grifos meus).
Roediger destaca ainda que um segundo problema com a análise marxista tradicional da raça é que, ao tentar mostrar a dimensão de classe do racismo, esta tradição tendeu a se concentrar no papel da classe dominante em perpetuar a opressão racial. Tal perspectiva faz com que a teoria perca de vista o aspecto central de como os trabalhadores, enquanto sujeitos históricos, fazem escolhas (ainda que restritas) e criam suas próprias formas culturais, desempenhando um papel central na criação e manutenção de práticas racistas. Seguindo a tradição conhecida como “nova história do trabalho” inaugurada por Thompson (1987 [1963]), Roediger (2007 [1991]) questiona qualquer teoria que sustente que o racismo simplesmente decorre de uma espécie de comando hierárquico da estrutura de classes no qual seria criado.
Este aspecto é crucial para a elaboração teórica de Roediger, que compartilha a conclusão de Du Bois (1965 [1947], p. 18-21 apud ROEDIGER, 2007 [1991], p. XX) sobre o efeito desastroso da supremacia branca:
as consequências do pensamento [racista] eram ruins o suficiente para pessoas de cor em todo o mundo, mas eram ainda piores quando se considera o que essa atitude fez com o trabalhador [branco] (...). Ele começou a querer, não o conforto para todos os homens, mas o poder sobre os outros homens. (...) Ele não amava a humanidade e ele odiava os niggers114.
113 No original: “One major problem with the traditional Marxist approach is that what it takes as its central task - pointing out the economic dimension of racism - is already done by those in the political mainstream. In a quite meaningless way, the 'race problem' is consistently reduced to one of class. For example, when the outspoken racist and former Ku Klux Klan leader David Duke won a seat in the Louisiana legislature in early 1 989, one expert commentator after another came on the morning news shows to announce that unemployment was high in Duke's nearly all-white district and therefore the election turned on economic grievances rather than racism.
Viewers were thus treated to the exotic notion that, when white workers react to unemployment by electing a prominent white supremacist who promises to gut welfare programs, they are acting on class terms, rather than as working class racists. Such an argument is to be expected from the 'Today' show, but a viable left must find a way to differentiate itself strongly from such analysis. Similarly, it is worth noting that both neoliberalism and neoconservatism argue that race is not (or ought not to be) 'the issue' but that economic growth – neatly
separable from race - will solve conflicts that only seem to revolve round race”. (ROEDIGER, 2007 [1991], p. 8-9)
114 No original: “the consequences of [racist] thought were bad enough for colored people the world over' but 'they were even worse when one considers what this attitude did to the [white] worker ... He began to want, not comfort for all men but power over other men ... He did not love humanity and he hated niggers.” (DU BOIS, 1965 [1947], p. 18-21 apud ROEDIGER, 2007 [1991], p. XX)
Segundo Roediger, nenhum autor marxista compreendeu melhor a dialética entre raça e classe do que Du Bois, que ao analisar a classe trabalhadora estadunidense e o movimento operário, demonstrou que o trabalhador branco até pode resistir às ideias racistas, mas, em muitas situações, as tem abraçado e adotado. O problema não é, portanto, a classe trabalhadora branca ser manipulada por ideias racistas propagadas pelas classes dominantes, mas sua própria autorrepresentação como branca, enquanto fator de manutenção de seus interesses (ROEDIGER, 2007 [1991], p. 12). Isso se deve ao fato de que adotar a brancura pode oferecer vantagens de curto prazo não ligadas somente ao status diferenciado entre trabalhadores brancos e não-brancos, mas a ganhos sociais reais, privilégios que às vezes se traduzem em compensação monetária, diferenças salariais e uma espécie de salário público e psicológico que lhes permitia acesso a serviços, posições superiores e prerrogativas na sociedade.
O autor demonstra ainda como o sentimento de raça e as vantagens conferidas pela branquitude através da ideia de supremacia branca fizeram os trabalhadores brancos do Sul esquecerem seus “interesses praticamente idênticos” aos dos trabalhadores negros e aceitarem condições de vida baixíssimas para si e para os mais oprimidos do que eles, o que prejudicava não apenas a unidade da classe trabalhadora, mas a própria visão de mundo – portanto, a consciência de classe – dos trabalhadores brancos. Du Bois demonstrou a relação entre o racismo dos trabalhadores brancos com um desdém pelo próprio trabalho, uma busca por satisfação fora da esfera do trabalho e um desejo crescente de fugir ao invés de confrontar a exploração (ROEDIGER, 2007 [1991], p. 13). A partir destas referências, e de um estudo de caso que privilegiava a historiografia sobre a escravidão nos EUA e analisava a apropriação da branquitude por parte dos imigrantes irlandeses na transição ao capitalismo, Roediger descreveu a fluidez da ficção social da raça. Destacou ainda como a adoção de defesa de tal ficção por parte da classe trabalhadora possibilitou que ela persistisse ao longo da história do capitalismo, sendo constitutiva e constantemente produzida por este sistema.