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6 CONTRIBUIÇÕES CONTEMPORÂNEAS À TEORIA DA

6.1 Recentrar a classe e a opressão: a renovação da teoria da reprodução

6.1.1 Uma “nova” abordagem da totalidade social

No prefácio ao livro organizado por Bhattacharya (2017, p. XI), Vogel argumenta que atualmente dois desafios se impõem aos autores da reprodução social: em primeiro lugar, definir precisamente o que significa tal teoria; em segundo lugar, estabelecer uma abordagem unitária entre as várias dimensões da diferença (gênero, raça, sexualidade, etc.) e as relações de produção capitalistas. Ela adverte, no entanto, que para desempenhar tal tarefa, a longo prazo, dois pressupostos caros devem ser abandonados: a suposição de que as várias dimensões de diferença – por exemplo, raça, classe e gênero – são comparáveis e são iguais em peso causal (causal weight). Segundo a autora, estes pressupostos levam a um interesse em identificar paralelos e similitudes entre as categorias de diferença e um rebaixamento de suas particularidades. Abandonar tais pretensões, abriria a possibilidade de superar as questões que hoje impedem a construção de uma abordagem unitária. A tarefa teórica seria então focar nas especificidades de cada dimensão e a partir daí desenvolver uma compreensão de como isso

162 No original: “What kinds of processes enable the worker to arrive at the doors of her place of work every day so that she can produce the wealth of society? What role did breakfast play in her work-readiness? What about a good night’s sleep? We get into even murkier waters if we extend the questions to include processes lying outside this worker’s household. Does the education she received at school also not “produce” her, in that it makes her employable? What about the public transportation system that helped bring her to work, or the public parks and libraries that provide recreation so that she can be regenerated, again, to be able to come to work?”

(BHATTACHARYA, 2017, p. 2).

tudo se encaixa ou não. Deste processo, poderia advir uma lente, ou diversas lentes, com as quais se poderia analisar dados empíricos.

Em que pese o argumento de Vogel (2017) ser problemático no sentido de reproduzir a mesma perspectiva hiper-abstrata de teoria que defendeu há três décadas e sugerir a possibilidade de que as múltiplas categorias de diferença possam possuir um “peso causal”

diferente para o funcionamento do sistema capitalista (argumento cuja confirmação ou confrontação necessitaria de uma longa pesquisa empírica comparativa, até onde sabe-se ainda não produzida), ele traz um aspecto central para o debate. Com este argumento a autora ressalta a necessidade de não minimizar as particularidades existentes entre as diferentes categorias de diferença e de focar nas especificidades de cada dimensão a fim de desenvolver uma melhor compreensão do todo. O desafio é que isto seja feito, no entanto, sem isolar estas particularidades da totalidade social, e possibilitando uma prática política que agregue as especificidades – e formas de organização – de cada luta.

Neste sentido, a teoria contemporânea da reprodução social coloca uma questão ainda mais complexa a ser definida: ao considerar que para esta teoria a força de trabalho é a única mercadoria que é produzida fora do circuito da produção de mercadorias, mais questões do que respostas seriam levantadas. Se todas as mercadorias sob o capitalismo têm uma dupla manifestação – uma vez que, como vimos, o processo de circulação simples, por meio de um ato de “necromancia”, transforma o valor de uso em seu oposto – o que acontece com a força de trabalho para que ela se torne uma “mercadoria” (isto é, torna-se algo que não é simplesmente dotado de valor de uso) sem passar pelo mesmo processo de “necromancia” de outras mercadorias? Para a autora, esta questão levanta uma problemática sobre a própria ontologia da força de trabalho: “se a totalidade do sistema capitalista é atravessada por essa ‘mercadoria’

que não é produzida à maneira de outras mercadorias, então quais são os pontos de determinação e/ou contradições que devem ser necessariamente constitutivos do sistema, e também devem ser superados em seu interior?”163 (BHATTACHARYA, 2017, p. 7).

Uma das respostas possíveis para este problema seria uma compreensão espacial:

existiriam dois espaços separados, mas conjugados – “espaços de produção de valor (pontos de produção) e espaços de reprodução da força de trabalho” (ibidem). Porém, desde Vogel (2013 [1983]) já se demonstrou que a força de trabalho não é simplesmente reabastecida em casa, nem é sempre reproduzida de forma geracional. Como vimos ao longo desta dissertação, podem

163 No original: “If the totality of the capitalist system is shot through with this “commodity” that is not produced in the manner of other commodities, what then are the points of determination and/or contradictions that must necessarily be constitutive of the system, yet must be overcome within it?” (BHATTACHARYA, 2017, p. 7)

haver espaços públicos de reprodução, como orfanatos, internatos, e a reposição geracional pode se dar, por exemplo, através da escravidão ou da imigração. A teoria contemporânea da reprodução social argumenta, então, que algumas pesquisas sobre temas específicos como a relação entre o capital e a infância, ou o estudo das aposentadorias, revelam a natureza superficial de separações espaciais entre produção enquanto espaço público e reprodução como esfera privada. Embora os espaços de produção de valor e de reprodução da força de trabalho possam estar separados em um sentido espacial, eles estão unidos tanto teórica quanto operacionalmente. São formas particulares e históricas de aparência, nas quais o capitalismo se põe enquanto processo. Desta forma, o trabalho realizado nas duas esferas – econômica (normalmente relacionada ao “local de trabalho”) e social (identificada como o “lar”) – deve ser teorizado de maneira integrada (BHATTACRARYA, 2017, p.9).

Ao conceituar os espaços de produção e reprodução social como formas particulares e históricas de aparência, a teoria contemporânea da reprodução social reaproxima sua proposta inicial da noção marxiana de totalidade social, e se afasta, ainda que tacitamente, da concepção de teoria defendida trinta e cinco anos antes por Vogel (2013 [1983]). Todas as contribuições do volume editado por Bhattacharya (2017) refletem sobre a questão das esferas separadas enquanto formas históricas de aparência. Nas palavras de Bhattacharya:

Se, como nós propomos, a separação espacial entre produção (público) e reprodução (privado) é uma forma histórica de aparência, então o trabalho que é dispensado em ambas as esferas também deve ser teorizado de forma integrada. O exemplo marxista clássico que descreve a relação entre as duas formas de trabalho é a discussão de Marx sobre o dia de trabalho. A redução do dia de trabalho (tempo de produção), para Marx, é o primeiro passo para a humanidade desenvolver qualquer noção rudimentar de liberdade ou seu próprio potencial. No terceiro volume de O Capital, ele argumenta que “o reino da liberdade realmente só começa onde o trabalho é determinado pela necessidade e a conveniência externa termina. . . a redução do dia de trabalho é o pré-requisito básico”. Assim, Marx descreve os efeitos da alienação na esfera produtiva, como “o trabalhador. . . somente sente a si mesmo fora de seu trabalho, e no seu trabalho sente-se fora de si. Ele está em casa quando não está trabalhando e, quando está trabalhando, não está em casa.” Alguns estudiosos chegaram a afirmar que o trabalho concreto, em oposição ao trabalho abstrato, é trabalho não alienado, pois não é produzido para o lucro ou para a troca. Esse tipo de interpretação confunde a relação entre “trabalho” e “lazer” em termos de senso comum com trabalho abstrato e concreto em termos marxistas. Por exemplo, eu posso jardinar em meu próprio quintal durante o fim de semana (trabalho concreto) e trabalhar na Starbucks durante a semana (trabalho abstrato). Esta jardinagem é então não alienada? Uma leitura forte de Marx pode sugerir o contrário164. (BHATTACHARYA, 2017, p. 9-10, tradução minha)

164 No original: “If, as we propose, the spatial separation between production (public) and reproduction (private) is a historical form of appearance, then the labor that is dispensed in both spheres must also be theorized integratively.The classical Marxist example that outlines the relationship between the two forms of labor is

Para a autora, Marx propõe que a realização de trabalho concreto é também impregnada, sobredeterminada, por relações sociais alienadas dentro das quais este trabalho existe. No exemplo da citação acima, mesmo a jardinagem enquanto hobby não é realizada da forma e por um tempo inteiramente determinados por quem a realiza; ao contrário, tem que se encaixar nas necessidades temporais e objetivas de outras relações sociais (por exemplo, nos finais de semana ou nos dias de folga). Assim, no capitalismo, aonde predomina o trabalho assalariado, o tempo da reprodução deve necessariamente responder aos impulsos estruturantes do tempo da produção (BHATTACHARYA, 2017, p. 10).

Bhattacharya atenta ainda para o fato de que este impulso estruturante, no entanto, não é simples correspondência ente esfera produtiva e reprodutiva, pois, enquanto o capitalismo limita os horizontes de possibilidades em ambas as esferas, ele simultaneamente precisa abandonar o controle absoluto sobre o tempo da reprodução (uma vez que o trabalhador é

“livre” e a reprodução deve ocorrer fora do local de trabalho). Para a autora, Marx reconhece esse aspecto do capitalismo, mas, deixa-o subteorizado. O capitalismo gera um cenário no qual duas relações distintas são, no entanto, contraditoriamente unificadas: as relações particulares que aderem à produção e à reprodução (BHATTACHARYA, 2017, p.11). Destaca-se aqui, que a descrição do método de Marx, isto é a prática dialética marxiana, é útil para abordar essa unidade contraditória, na medida em que ela permite ver o todo na parte e assim liga todas as relações particulares como aspectos no desdobramento completo de qualquer uma delas.

Assim, apesar dos teóricos da reprodução social não representarem uma tradição política ou teórica unificada no interior do marxismo, estão unidos por sua preocupação com um aspecto particular da reprodução do ciclo de produção capitalista como um todo: a produção e reprodução da força de trabalho, subteorizada por Marx. Não se trata apenas de uma tentativa de explorar a relação entre as relações sociais estabelecidas pelo mercado e as relações sociais extramercantis; representa um esforço para desenvolver a teoria do valor-trabalho de Marx em uma direção específica: a teoria da reprodução social está preocupada principalmente em

Marx’s discussion of the working day. The reduction of the working day (time of production), for Marx, is the first step toward humanity developing any rudimentary notion of freedom or its own potential. In the third volume of Capital he argues that “the realm of freedom really begins only where labor determined by necessity and external expediency ends… the reduction of the working day is the basic prerequisite.”14 Thus Marx famously describes the effects of alienation in the productive sphere, as “the worker… only feels himself outside his work, and in his work feels outside himself. He is at home when he is not working, and when he is working he is not at home.” Some scholars have gone as far as to claim that concrete labor, as opposed to abstract labor, is nonalienated labor, as it is not producing for profit or exchange. This sort of interpretation conflates the relationship between “work” and “leisure” in commonsensical terms with abstract and concrete labor in Marxist terms. For example, I may garden in my own yard during the weekend (concrete labor) and work at Starbucks during the week (abstract labor). Is this gardening then nonalienated? A strong reading of Marx may suggest otherwise.” (BHATTACHARYA, 2017, p. 9-10)

entender como as categorias de opressão (como gênero, raça, capacidade, etc.) são coproduzidas de forma simultânea à produção de mais-valia. Nesse aspecto, “busca superar as representações reducionistas ou deterministas do marxismo e, ao mesmo tempo, expor criativamente a totalidade orgânica do capitalismo como sistema” (BHATTACHARYA, 2017, p. 14).

Logo, a concepção da teoria da reprodução social enquanto aquela que busca identificar a relação entre a esfera mercantil e não-mercantil traz à luz o problema da realidade, e, portanto, da relação entre aparência e essência. Bhattacharya expõe a questão da seguinte forma:

Por exemplo, a realidade que posso ver me diz que o trabalhador e seu chefe são fundamental e juridicamente iguais, e a diferença em seus salários ou situações de vida é consequência de escolhas pessoais. Da mesma forma, uma versão ligeiramente mais obscura da mesma realidade me diz que, como trabalhadores brancos no Norte Global normalmente ganham mais do que trabalhadores de cor, nunca pode haver pautas comuns de luta unindo-os, uma vez que a diferença real, material, empiricamente documentada entre eles sempre irá alimentar o racismo branco. O mesmo pode ser dito sobre as diferenças materiais reais entre homens e mulheres. O que é interessante sobre essas situações muito reais é que tentar desafiá-las dentro do contexto estabelecido pelo capitalismo - ou realidade capitalista - teria duas consequências: ou fracasso (por exemplo, como nas numerosas experiências históricas em que o sexismo e / ou racismo dominaram ou sufocaram o movimento dos trabalhadores) ou uma estratégia política que procura superar tais diferenças de raça/gênero entre trabalhadores por meio de apelos morais, pedindo às pessoas que

“façam a coisa certa”, mesmo que não seja de seu interesse imediato fazê-lo: embora o trabalhador masculino ganhe mais do que sua contraparte feminina, ele deve se juntar em uma luta em nome dela, porque é a coisa certa a fazer, mesmo que isso não favoreça seus próprios interesses. Em contraste com essa visão do mundo e da política, Marx argumenta que tentar agir sobre o nosso mundo com base em um conhecimento empírico ou factual da realidade, como é percebido, envolve um erro categórico. Em vez disso, ele nos apresenta uma ideia mais desconcertante: que a realidade que percebemos é apenas a verdade parcial, e que ela nos aparece em uma forma particular e historicamente específica. O Capital se preocupa em demonstrar essa “diferença entre a experiência cotidiana dos fenômenos superficiais determinados pelo modo de produção predominante e uma análise científica que vai abaixo dessa superfície para apreender uma essência”. Portanto, precisamos da “ciência” para compreender completamente os fenômenos que permanecem escondidos por trás dessa aparência do real165 (BHATTACHARYA, 2017, p. 14-15, tradução minha).

165 No original: “For instance, the reality I can see tells me that the worker and her boss are fundamentally and juridically equal, and the difference in their wages or life situations are the consequence of personal choices.

Similarly, a slightly darker version of the same reality tells me that, because white workers in the Global North typically earn more than workers of color, there can never be common grounds of struggle uniting them, as the very real, material, empirically documented difference between them will always fuel white racism. The same can be said about the real material differences between men and women. What is interesting about these very real situations is that to try to challenge them within the context set by capitalism – or capitalist reality – would have two consequences: either failure (for example, as in the numerous historical instances where sexism and/or racism overwhelm or choke the workers’ movement) or a political strategy that seeks to overcome such

differences of race/gender between workers by moral appeals, asking people to “do the right thing” even if it is not in their immediate interest to do so: Even though the male worker earns more than his female counterpart, he ought to join in a struggle on her behalf because it is the right thing to do, even if it does not further his own interests. In contrast to this vision of the world and politics, Marx argues that to try to act upon our world on the

Neste aspecto, a teoria contemporânea da reprodução social se aproxima ainda mais da noção marxiana da totalidade social. Sustenta que é possível apreender duas conclusões importantes desta discussão: primeiro, que a forma como a realidade aparece em toda a sua forma racializada e generificada não é nem acidental nem completa; e segundo, que nossas ferramentas para entender essa realidade não podem consistir de uma rejeição dos ditos fatos empíricos nem de uma simples agregação deles. Em vez disso, seguindo Marx, devemos pensar a realidade ou o “concreto” como “concreto porque é a concentração de muitas determinações, portanto, a unidade da diversidade” (ibidem, p. 15-16). Este ponto será retomado a seguir na discussão de McNally (2017) sobre a interseccionalidade (item 6.2.2).

Os autores contemporâneos da teoria da reprodução social destacam que a importância de se compreender a totalidade social como um todo orgânico e não uma mera soma de diferentes partes está em sua implicação no campo da práxis, da organização política. Há uma contradição insolúvel que se agrava continuamente entre o processo de produção capitalista – que é voltado para a valorização do valor e não para o desenvolvimento social do trabalho – e as necessidades reprodutivas dos trabalhadores. Portanto, uma compreensão integrada do capitalismo e das relações de opressão como um todo orgânico é central às lutas contra o capital e influencia diretamente as possibilidades de unidade da classe trabalhadora. Por exemplo, duas perguntas têm sido centrais para as mobilizações sociais hoje: “As lutas contra o racismo e o sexismo estão internamente ou externamente relacionadas? O trabalhador branco possui algum interesse material, não apenas moral, em combater o racismo?”166 (BHATTACHARYA, 2017, p.17).

basis of an empirical or factual knowledge of reality, as it is perceived, involves a category mistake. Instead, he presents us with a more disconcerting idea: that the reality we perceive is only the partial truth, and that it appears to us in a particular, historically specific form. Capital concerns itself with demonstrating this

“difference between everyday experience of the surface phenomena determined by the prevailing mode of production and a scientific analysis of which goes beneath this surface to grasp an essence.” We thus need

“science” to fully grasp the phenomena that remain hidden behind this appearance of the real.”

(BHATTACHARYA, 2017, p. 14-15)

166 No original: “Are struggles against racism and sexism internally or externally related? Does the white worker have a material, not moral, interest in challenging racism?” (BHATTACHARYA, 2017, p.17).