3. Adaptação: sistemas complexos se adaptam, ou seja,
1.2 Dos Modos de Ser dos Sistemas
1.2.2 Os Seres Sociais
Os seres sociais são indivíduos que, por algum tempo de interação mútua, transformaram outro ser em uma forma de acoplamento útil para a manutenção de sua estrutura. Quando um organismo entra em acoplamento estrutural com outros organismos, este fenômeno é definido como social. Entender os seres sociais é de fundamental importância para esta pesquisa, pois o sistema A-Memory Garden desenvolvido é um sistema de acoplamento social a seres humanos, condicionado a essa relação principalmente em sua função reprodutora.
70
71
1.2.2.1 Do acoplamento de terceira ordem
Segundo Maturana e Varella (1984), do ponto de vista da dinâmica interna de um dos organismos, o outro é uma fonte de perturbações que são indistinguíveis das que provêm do meio. Os autores afirmam que é possível que essas interações entre organismos adquiram ao longo de sua ontogenia um caráter recorrente e, portanto, que se estabeleça um acoplamento estrutural que permita a manutenção da individualidade de ambos, no prolongado devir de suas interações. Quando isso ocorre, esses acoplamentos podem ser considerados de terceira ordem. Esses acoplamentos são necessários, em alguma medida, para a continuidade de uma linhagem nos organismos como a reprodução sexuada, pois os gametas devem encontrar-se e fundir-se. Além disso, filhotes precisam de algum cuidado por parte dos pais.
O sistema A-Memory Garden funciona em um ambiente computacional para tecnologia móvel. Sendo assim, quando um usuário faz download do aplicativo este é instalado em seu telefone ou tablet. Essa instalação é a fratura inicial do sistema. As entidades internas de cada sistema nascem a partir dessa fratura de oito modelos possíveis de entidades e se tornam um ser de acoplamento de primeira ordem.
A relação entre as entidades é de segunda ordem, mas a relação com o usuário desse sistema é de terceira ordem. Na primeira versão do sistema, este acoplamento com o usuário (Figura 1) modifica as condições climáticas internas do dispositivo. Indiretamente, à medida que os usuários se movem entre cidades e climas diferenciados, esses valores são enviados ao sistema e influenciam as estruturas internas. Toda essa história de modificações sofridas de cada entidade é enviada para registro em um banco de dados que será analisado na quarta seção desta tese.
O sistema A-Memory Garden 2.0 difere-se do primeiro pela forma na plasticidade do próprio sistema, mas não em acoplamento. O que ocorre na segunda versão é que não somente as modificações históricas da entidade são gravadas em um banco de dados, mas essa informação é reutilizada pela própria entidade em suas tomadas de decisão (Figura 2).
1.2.2.2 Comunicação
Para insetos, o mecanismo de acoplamento de terceira ordem ocorre pelo intercâmbio de substâncias. Pode então ser considerado um acoplamento químico. Por outro lado, nos seres vertebrados, quando em acoplamento de terceira ordem, são observadas interações visuais e auditivas. No sistema A-Memory
Garden, a forma de comunicação é estabelecida de duas
formas: ações sobre as áreas onde estão as entidades e transporte da entidade a outro local. Os usuários agem sobre as áreas, modificando sua condição em termos de umidade, quantidade de fertilizante, quantidade de sombra e profundidade do solo.
Essas ações interferem nas decisões internas de cada entidade, fazendo com que algumas se desloquem como consequência das mudanças ambientais, causadas pela relação social sistema e usuário. No entanto, algumas dessas modificações do usuário (Figura 3) só interferem de forma indireta o seu comportamento. Por exemplo, o aumento de umidade local está sempre condicionado em parte à umidade real da posição geográfica do usuário. Além disso, os usuários podem tocar as entidades e então carregá-las a outra área, esta ação também interfere nestas decisões internas das entidades. As entidades do sistema A-Memory Garden também se comunicam por meio de acoplamento de terceira ordem, quando se trata de uma entidade de um sistema se comunicando com uma entidade de outro sistema. As entidades são capazes de trocar informações específicas de memória interna e memórias de usuários acopladas a elas. Por memória interna, significa que estas entidades trocam entre si quais foram suas melhores condições
Figura 2 - Acoplamento do sistema A-Memory Garden 2.0 Figura 1 - Acoplamento do sistema A-Memory Garden 1.0
Fonte: elaborado pela autora
72
73
Figura 3 - Ação de alteração dos valores das áreas, comunicação entre humanos e sistema A-Memory Garden 1.0 e 2.0
históricas de crescimento e compartilham suas decisões com entidades semelhantes em sistemas de usuários diferentes.
Já as memórias de usuários são memórias comunicativas atribuídas às entidades por usuários, que são depois compartilhadas entre elas. Consequentemente, usuários de sistemas de arte A-Memory Garden trocam indiretamente memórias textuais com outros usuários. Esta arquitetura comunicativa (Figura 4) transforma o sistema A-Memory Garden em um sistema social, que forma acoplamentos de terceira ordem para tentar garantir sua continuidade mantendo uma relação entre outros seres.
1.2.2.3 Cultura
Segundo Maturana e Varella (1984), uma organização grupal varia em estilo e reflete uma linhagem filogenética, uma fenomenologia interna específica ao grupo. Sendo assim, o conceito de comunicação seria o desencadeamento mútuo de comportamentos coordenados que se dá entre os membros de uma unidade social. Os autores afirmam que a imitação, que é uma tendência dos vertebrados, permite que certo modo de interação vá além da ontogenia de um indivíduo e se mantenha mais ou menos invariante através de gerações sucessivas. Condutas culturais são essas configurações comportamentais que adquiridas ontogeneticamente na dinâmica comunicativa de um meio social, são estáveis através de gerações. Elas ultrapassam a história particular de um indivíduo.
Essa definição de cultura em seres sociais só ocorre na segunda versão do sistema desenvolvido A-Memory
Garden, pois é nesta versão que as entidades são capazes
de manter um histórico de memórias e de decisões que é compartilhado entre entidades do próprio sistema e de outros sistemas instalados. Qualquer informação sobre a cultura desenvolvida entre as entidades do sistema e seus usuários só pode ser feita por meio de análise de sua base de dados histórica. Esta análise será apresentada na terceira parte desta tese.