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2 A NOVA ERA DO SETOR SERVIÇOS: OS FIOS QUE TECEM A

2.1 O Setor de Serviços dentro da Reorganização Produtiva do Capital

2.1.1 Os Serviços: as polêmicas do campo conceitual

O debate teórico que envolve a expansão e a consolidação dos serviços na estrutura produtiva tem suscitado controvertidas teses para explicar sua tendência dentro desta nova ordem do capital. É um debate polêmico e controvertido que incorporamos a este estudo, mas resguardadas a capacidade e alcance de um debate que não se esgota aqui. Na verdade, apenas trazemos mais elementos para fomentar as polêmicas já em voga e ampliar o escopo de nossas reflexões.

Numa aproximação com as formulações teóricas que dissertam sobre as particularidades dos serviços na produção capitalista, identificamos que existem diferentes linhas de argumentação. São produções teóricas que transitam da crítica da economia política clássica a enfoques de cunho mais sociológicos. Algumas produções enfocam a análise dos serviços como setor estratégico da economia indicando sua dinâmica, estruturação e potencialidades de produtividade no contexto econômico20. Dentro desse enfoque aparecem alguns estudos a exemplo das produções do IPEA (1998), Kon (2004) e Meirelles (2006).

Em um outro espectro, temos as produções que indicam a expansão dos serviços, a conformação que estes assumem no desenvolvimento da produção capitalista e as reflexões que envolvem o caráter não produtivo de suas atividades. A partir deste enfoque contamos como as contribuições de Bravermam (1987), Napoleoni (1981), Mandel (1982), bem como algumas contribuições de Marx (1988; 2004) e teóricos marxistas que atualizam o debate como Oliveira (1989; 2005), Teixeira (2008), Antunes (2000), Singer (1989) e Salerno (2001). Outras contribuições também emergem da escola francesa pelos estudos de Chesnais (1996), Zarifian (2001) e Gradey (2001) que vêm atualizando o debate da expansão e conformação dos serviços como uma expressão das novas formas de acumulação capitalista requeridas pela reestruturação produtiva do capital. Não podíamos desconsiderar as produções de Offe (1991), Lojikne (1995), que também vêm subsidiando os estudos no campo dos serviços e que durante um bom tempo representaram as poucas referências que se tinha acesso sobre o tema, embora estas tenham suscitado polêmicas no campo das análises marxistas.

A rigor, não vamos enveredar por um debate dicotômico, mas vamos apresentar algumas distinções fundamentais que emergem no conjunto dessas produções e que funcionem como parâmetros para iluminar as análises das novas conformações que integram o trabalho em saúde.

Em que pese as diferenças entre os autores, os contextos de suas obras, as aproximações e divergências entre seus marcos teóricos, todos apresentam os serviços como um indicador de uma nova conformação da produção capitalista e, é sobre esta orientação que centramos nossas reflexões.

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Essas contribuições não serão debatidas neste nosso estudo em virtude do enfoque de análise que privilegiamos para a abordagem das particularidades dos serviços públicos de saúde.

Destarte, voltemos a uma observação pertinente feita por Harvey (1996) no início deste capítulo quando ele refere-se aos serviços e argumenta: “a exata interpretação (ou, na verdade, definições básicas sobre o que significa um serviço) a ser dada a isso é objeto de considerável controvérsia” (HARVEY, 1996, p. 149). Esse depoimento é um traço evidente de que a temática dos serviços revela uma gama de incompreensões e indefinições sobre seus fundamentos.

A produção literária sobre o tema acabou por reforçar essas indefinições ao atribuir ao setor serviços tudo que não comporta aos outros setores da produção econômica, “tudo que não ganha o caráter corpóreo da mercadoria é jogado no terciário” (OLIVEIRA, 1988, p. 141)21. Ao nos defrontarmos com essas imprecisões algumas questões estão em evidência: o que caracteriza uma atividade de serviços, ou como é tratada usualmente, uma atividade do setor serviços? De que forma podemos situar os serviços sobre a gerência dos novos moldes da acumulação capitalista? E que particularidades assumem a força de trabalho inserida nessa atividade?

São questões relevantes que aqui nos propomos a problematiza-lás sem, entretanto, formular sínteses conclusivas, mas sim, fomentar um debate. Assumindo este desafio iniciamos recuperando as conceituações dos serviços que têm orientado as diferentes argumentações, mas respeitando os objetivos dessa tese e o referencial crítico que ela assume, vamos privilegiar as controvérsias que se operam no campo marxista.

Do ponto de vista da crítica da economia política, o pressuposto inicial que podemos apresentar é a conceituação de Marx (2004, p.118): “Serviço não é em geral mais do que uma expressão para o valor de uso particular do trabalho, na medida em que este não é útil como coisa, mas como atividade [...]”. Para Marx o serviço expressa nada mais que o efeito útil de um valor de uso, seja ele mercadoria ou trabalho (MARX, 1988, p. 217).

As elaborações de Marx que fazem referência aos serviços situam-se no âmago da discussão das categorias trabalho produtivo e trabalho improdutivo, como

21Na avaliação de Chesnais (1996) a falta de um quadro teórico global impede que se aprecie o lugar ocupado hoje pelos serviços no movimento do capitalismo contemporâneo e de seu modo de acumulação e acrescenta: “A corrente teórica dominante em economia, que se formou, desde do século XIX [...] por sucessivas contribuições, mas também exclusões [...] delimitou o campo dos serviços pelo mais pobre dos métodos: de forma residual. As atividades de serviços, quaisquer que sejam suas características ou lugar que ocupam em relação à produção ou ao consumo domestico, são [...] classificadas como pertencentes ao setor “terciário’, cujas fronteiras são simplesmente definidas por exclusão.” (CHESNAIS, 1996, p. 187)

veremos mais adiante. Ele retoma os serviços para indicar as distinções entre o caráter produtivo ou não do trabalho. Circunscreve os serviços a esfera do consumo, particularmente àqueles serviços relacionados à reprodução da força de trabalho, de consumo individual e/ou coletivo, como saúde e educação, mas preserva o seu caráter de uma atividade que se materializa num valor de uso.

As argumentações de Mandel (1982) localizam os serviços num processo de divisão crescente do trabalho objetivando-se pela ampliação das funções intermediárias. Ele afirma que

[...] uma divisão crescente de trabalho só pode combinar-se com uma socialização crescente e objetiva do trabalho por meio das funções

intermediárias: daí a expansão sem precedentes dos setores de comércio,

transporte e serviços em geral. (MANDEL, 1982, p. 269).

Analisa ainda, que essas funções intermediárias, também são capturadas pelo capital e as atividades de serviços convertem-se “cada vez mais em um serviço capitalista, ao mesmo tempo que se torna objetivamente socializado. O alfaiate particular é substituído pela indústria de roupa feita; [...]” (MANDEL, 1982, p. 270).

Na visão de Oliveira (1989) os serviços correspondem a uma classe de trabalho ou de divisão social do trabalho em que os seus produtos ou o resultado da aplicação da força de trabalho resultem em produtos imateriais, “são serviços, uma forma muito especial da produção social” (OLIVEIRA, 1989, p. 139). Os serviços integram o conjunto das atividades que estão na esfera da circulação, da distribuição e do consumo, mas estes estabelecem e guardam relações com os setores da produção, como a indústria e a agricultura. É com esta interconexão entre os setores da atividade econômica que fica assegurada a acumulação capitalista 22.

Notamos que são apropriações dos serviços localizadas em diferentes contextos, mas que respondem ao um mesmo eixo de análise, as relações de produção na sociedade capitalista resguardas no seu tempo histórico.

Divergindo desse enfoque Offe (1994, p. 15) apresenta uma definição funcional dos serviços:

[...] o setor de serviços abrange a totalidade daquelas funções no processo da reprodução social, voltadas para a reprodução das estruturas formais, das formas de circulação e das condições culturais paramétricas, dentro das quais se realiza a reprodução material da sociedade.

22 Oliveira (1989) traz outras contribuições para este debate e optamos por apresentá-las no momento das análises das atuais funções dos serviços na produção capitalista.

E acrescenta,

A identidade ideológica de todas as atividades de prestação de serviços consiste em que todas elas tem a ver com a segurança, conservação, defesa, vigilância, certificação das formas históricas de circulação e das condições funcionais de uma sociedade [...]. Sua característica distintiva é a “manutenção de algo” (OFFE, 1994, p. 18).

Estas interpretações têm como referência a “limitação do paradigma centrado no trabalho”23, como afirma Offe (1994). Ele projeta os serviços como um corpo estranho dentro do universo do trabalho, indicando que é impossível avaliar o desempenho produtivo dos serviços. Para Offe, “a racionalidade que governa a atividade produtiva nesse setor não obedece aos mesmos parâmetros do trabalho realizado na indústria”. Teixeira (2008) considera que hoje a maioria dos assalariados exerce atividades relacionadas ao setor serviços, e como neste setor não é possível medir a produtividade do trabalho, o trabalho assalariado, sendo trabalho abstrato, perde sua centralidade

Na acepção de Lojkine (1995) está indicada uma “revolução informacional” que se expressa por uma crescente interpenetração entre informação e produção. Nesta perspectiva, efetiva-se uma interpenetração entre as funções produtivas e funções ditas improdutivas. São estabelecidos novos laços entre produção material e serviços, entre saberes e habilidades, que respondem às exigências de interconexão dos mercados e que vinculam o trabalho na indústria, serviços numa rede em que se articulam o produtivo e o improdutivo (SOUZA, 1996). Dentro dessa argumentação, Lojkine insere os serviços, como uma categoria econômica extremamente ampla que reúne “tanto os serviços mercantis, cujo objetivo específico é o lucro, quanto os serviços públicos [...], fundados teoricamente na solidariedade social (seguridade social, cooperação mutualista etc., na saúde ou na educação” (LOJKINE, 1995, p. 187).

Podemos observar que as concepções de Offe (1991) e Lojkine (1995) assumem um outro eixo de interpretação. Elas passam a considerar uma superação

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Offe (1994) tem como ponto de partida de sua análise que a complexidade e heterogeneidade das relações sociais e de produção colocam em dúvida a centralidade do trabalho assalariado e afirma: “Sintomas de heterogeneidade crescente colocam em dúvida se o trabalho assalariado dependente

enquanto tal pode ainda ter um significado preciso e compartilhado pela população trabalhadora e

seus interesses e atitudes sociais e políticos. Esses sintomas levantam a possibilidade de o trabalho, em certo sentido, ter-se tornado ‘abstrato’, de tal forma que pode ser considerado apenas uma categoria analítica para explicar as estruturas sociais, os conflitos e a ação” (OFFE, 1994, p. 176)

da relação antagônica entre capital e trabalho, indicando os serviços como a evidência de que o trabalho abstrato perdeu a centralidade no mundo contemporâneo. Para Offe, pela impossibilidade dos serviços incorporarem a racionalidade do setor produtivo. O outro argumento é conferido ao potencial que se atribui aos serviços de estabelecer uma interconexão entre produção e serviços, destacado por Lojkine, consagrando a superação de uma divisão do trabalho que considera dicotômica entre trabalho produtivo e improdutivo.

As conceituações apresentadas podem demonstrar por vezes imprecisões, incompreensões, equívocos teóricos sobre o significado dos serviços, mas também apresentam parâmetros de análise possíveis de serem problematizadas e atualizadas para orientar uma análise dos serviços na contemporaneidade. Certamente que são evidentes também as divergências entre algumas conceituações apresentadas, que impossibilitam correlações e articulações, pois a tentativa de agrupá-las incorrerá num equivoco teórico-metodológico.