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3.2 Um olhar sobre os motetos à luz de elementos musicais

3.2.2 Os Sete Motetos e a expressão texto-musical

Nesta e na próxima subseção, usaremos o termo “expressão texto-musical” para demonstrar a relação intrínseca dos textos dos motetos com os seus elementos retórico- musicais específicos.

O texto do moteto número I - Pater mi, traz literalmente as palavras de Jesus descritas pelo evangelista Mateus, no capítulo vinte e seis, versículo trinta e nove (parte b). Episódio do Getsêmani, esta passagem representa a angústia de Jesus ao orar, quando antevia sua crucificação.

De estrutura geral homofônica, chamamos a atenção para dois elementos musicais nesta peça que colaboram com o texto. As pausas de mínimas (compassos 2, 4 e 7) em série de suspiratio 90 indicam a respiração de Cristo entrecortada pelo “ato de inspirar” de sua “ofegante” oração.

O acorde, em posição fechada, de quinta diminuta sobre o sétimo grau do âmbito de Sol, na sílaba tônica da palavra possibile (compasso 6), induz o ouvinte à angústia expressada por Cristo diante da sua iminente morte: “[...] Se é possível, que passe de mim este cálice [...]” (fig. 21).

90 Segundo Buelow, suspiratio é usualmente a quebra de uma melodia por pausas para ilustrar o texto. (In:

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Figura 21: Os retângulos encerram o suspiratio figurado pelas pausas de mínimas. O acorde circulado de quinta diminuta é conotativo da “angústia” de Cristo.

Outro elemento que ressaltamos neste moteto são os “melismas” nas vozes dos sopranos e das flautas (compasso 13) que reforçam a “ideia da súplica” de livramento do sofrimento pelo qual Jesus iria passar, representado na partícula calix iste. Ou seja, “este cálice” era a própria cruz que Jesus, na sua angústia, pedia ao Pai para livrá-lo (fig. 22).

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O moteto número II - Attendite, de carácter textual reflexivo, não foi extraído dos escritos dos evangelistas, porém das Lamentações de Jeremias no capítulo um, versículo doze. “Escritos do profeta Jeremias, e de outros do Antigo Testamento, são amplamente usados na liturgia cristã. No caso deste, há uma alusão implícita aos sofrimentos de Cristo” (NEVES, 2012, p. 1124). 91

No dramático trecho entre os compassos 20 e 23, a sequência de acordes de sétimas diminutas e dominantes, em posições fechadas, por meio de suas naturais dissonâncias reforça a ideia das dores divinas contidas nas palavras dolorem meum. Ao tempo em que o inesperado abruptio, 92 representado pela pausa de mínima, finaliza o trecho e cria a necessária expectativa para a figura retóricaseguinte (fig. 23).

Figura 23: O retângulo encerra o abruptio figurado pela mínima.

91 A Música do Recife Colonial: 7 Mottetos de Luiz Álvares Pinto no Acervo de Diniz no Instituto Brennand,

artigo (2012).

92 Segundo César Marino Villavicencio no artigo A Retórica do Silêncio (2011, p. 102), o abruptio é “uma

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Após a pausa abrupta, o compositor reapresenta a fração do texto dolorem meum em uma sequencia de catabasis. 93 O sentido “descendente” das figuras escritas neste trecho é uma alusão clara ao “lamento” pelo sofrimento do Salvador 94 (fig. 24). A harmonia densa e dissonante complementa o sentido do texto.

Figura 24: “Dores divinas” figuradas por catabasis.

Ainda neste segundo moteto a palavra universi aparece duas vezes em “uníssono” (compassos 5, 6 e 42), no contexto do trecho attendite universi populi, trazendo o sentido do chamamento do conjunto dos povos (humanidade) à contemplação das dores de Jesus (fig. 25).

93 Figura retórico-musical da larga classe figurativa das hypotyposis que, muitas sem nomes específicos,

servem para ilustrar palavras e ideias poéticas e frequentemente representar a natureza pictórica das palavras (BUELOW. In: GROVE, 2001, vol. 21, p. 267).

94 Ressaltamos que os atributos – como Salvador, entre outros – aqui referidos diretamente ao personagem

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Figura 25: O uníssono representa o “conjunto da humanidade”.

O texto do moteto III - Jerusalem surge, fundamenta-se também nas Lamentações de Jeremias. O grupo de notas demarcado nas vozes das flautas (compassos 14 e 15) representa um passaggio 95 figurativo da “urgência” (fig. 26) de Jerusalém (o povo) “levantar-se” (surge) diante da morte do seu Salvador. O sentido textual é complementado pela figura posterior (fig. 27).

95 Segundo Buelow in Grove (2001) do grupo das hypotyposis, é uma passagem de embelezamento vocal,

enfatizando o texto, que pode incluir formas de ornamentação, entre outras, como accento, tremolo, groppo e

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Figura 26: Conotação de “urgência” representada pelos grupos de semicolcheias.

A anabasis 96 no compasso 17, das vozes em uníssono, representa com perfeição o sentido vocativo do texto surge Jerusalem, exue te vestibus jucunditatis – “levanta-te Jerusalém, tira tuas roupas de prazer...” (fig. 27).

96 Ocorre quando a parte vocal ou a passagem musical reflete uma conotação textual “ascendente”

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Figura 27: O movimento ascendente das colcheias representa o sentido do texto.

Por conseguinte, entre os compassos 34 e 37 deste terceiro moteto, os grupos de colcheias nas vozes das flautas parecem “prantear”, auxiliados pelos acordes dissonantes de quinta diminuta (fig. 28), de modo correspondente ao texto vocal induere cinere et cilicio – “...veste saco e cinzas”, em complemento do trecho anteriormente citado.

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Figura 28: A sugestão das colcheias em intervalos de terças em “articulação dupla” traz a ideia de “pranto”.

O texto do moteto IV - Bajulans é indubitavelmente literal, em quase sua totalidade, ao relato histórico dos últimos “passos” de Cristo segundo o evangelista João. Numa das cenas 97 mais expressivas da Paixão, Pilatos tomou Jesus e mandou flagela-lo, logo em seguida o fez sentar-se no tribunal diante da turba que gritava pedindo a sua morte. Pilatos então o entregou para ser crucificado. “E ele saiu, carregando sua cruz, e chegou ao chamado “Lugar da Caveira” – em hebraico chamado Gólgota” (Jo 19, 17. Bíblia de Jerusalém). Nesta peça, chamamos a atenção para o caráter predominantemente “melismático” que traz uma conotação de “pesar ou tristeza” pelo fato de um inocente ser flagelado e ainda estar obrigado a carregar a própria cruz na qual seria morto (fig. 29).

97 Esta passagem está relacionada à cena da prisão de Jesus pelo exército romano e representada atualmente

no “segundo passo” da Procissão dos Passos do Recife intitulado: “Jesus é aprisionado”, encenado na porta principal da Igreja da Conceição dos Militares.

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Figura 29: O movimento melismático das vozes representa o “pesar” pelos flagelos de Cristo.

Observemos também o movimento descendente – catabasis – nas palavras crucem (compasso 3) e Calvarie (compassos 24 e 25) que reforça o triste significado de “cruz e calvário” (fig. 30).

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O moteto número V - Adoramus te Christe traz o conceito da “cruz”, símbolo maior do sacrifício de Jesus em favor da humanidade. Apesar do caráter de “adoração” deste belo hino, este não é expresso da forma comumente “festiva”, porém, vem repleto de simbolismo de “contrição e introspecção” através do uso de acordes dissonantes de quinta diminuta em determinados trechos, como nas palavras Crucem Sanctam (compassos 14 e 15, fig. 31).

Figura 31: Dissonâncias reforçam o sentido doloroso da “Cruz”.

Num dos trechos musicalmente mais dramáticos destes motetos, a harmonia densa e dissonante composta por acordes de trítonos, nonas e quintas diminutas que acompanha o canto da palavra redimisti – retratada três vezes por figuras rítmicas longas escritas em míninas pontuadas e semibreves que, por si, demonstra o caráter piedoso do verbo – expressa eloquentemente as dores de Cristo pela “redenção” da humanidade: quia per

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Figura 32: Densa harmonia acompanha o “grave canto” que expressa a redenção da humanidade por Cristo.

O moteto VI - Popule meus está fundamentado nas palavras que teriam sido proferidas pelo próprio Deus a respeito da turba inquieta e ansiosa pela crucificação de seu filho: Populi meus quid feci tibi, et in quo contristavi te, responde mihi, quia eduxit te de

terra Egypti, parasti Crucem Salvatori tue, 98 narradas pelo profeta Miquéias em seu livro. Esta peça, composta em estilo totalmente homofônico, remete a um forte sentimento de “gravidade” pelo questionamento divino ao povo (Judeus) que, mesmo tendo sido libertado pelo seu próprio Deus, no passado, da escravidão no Egito, “preparou uma cruz para o seu Salvador”. As notas “destacadas” do verbo responde, no modo imperativo, sugerem esta indignação (fig. 33).

98 Notemos que o trecho parasti crucem Salvatori tue difere do final da passagem bíblica que o fundamenta,

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Figura 33: O retângulo destaca o “indignado questionamento divino”.

O VII - O Vos omnes faz uma recapitulação da mensagem do segundo moteto: O

vos omnes, qui transitis per viam, attendite et videte, si est dolor similis sicut dolor meus.

Embora, desta vez, em uso literal do texto das Lamentações do profeta Jeremias no capítulo um, versículo doze: “Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede; se há dor

semelhante à dor que me atormenta...” Interessante notar que neste moteto o canto se inicia pela voz do “baixo”, o que sugere o “discurso direto” do próprio Cristo; e o caráter geral semitonal-modulatório, no decorrer da peça, a tristeza dos flagelos por ele sofridos (fig. 34).

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Figura 34: O “baixo” representa a fala do próprio Jesus e seu lamento.

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