6.2 A forma da paráfrase II: pattern sintático
6.2.3 Os subpatterns
A análise de instrumentos lexicográficos pedagógicos para o ensino da língua inglesa, conhecidos mundialmente pela sua excelência como material didático e longa tradição em pesquisa, nos permitiu inferir que os dicionários voltados a consulentes em fase de aprendizagem de um idioma (seja a língua materna, seja uma língua estrangeira) devem dispensar especial atenção a algumas peculiaridades do pattern sintático de suas paráfrases explanatórias. No caso de um dicionário intermediário do tipo proposto, evidenciamos a extensão do enunciado das paráfrases e o uso de um vocabulário
controlado como variáveis extras a serem consideradas na elaboração do pattern sintático. A estas variáveis, demos o nome de subpatterns.
6.2.3.1 O tamanho da paráfrase
No capítulo dois, ao apresentarmos a proposta do PNLD Dicionários, discorremos sobre o caráter promitente de um programa que reconhece a necessidade de elaboração de obras lexicográficas distintas a níveis de escolarização distintos. Trata-se, sem dúvidas, de uma política de dicionários promissora, sendo, inclusive, reconhecida internacionalmente por estudiosos da lexicografia (cf. TARP; GOWS 2012).
O PNLD Dicionários, no entanto, ainda carece de uma série de aprimoramentos, seja na elaboração de seus editais, seja na compilação das obras tipo 1, 2, 3 e 4. Conforme demonstrado na seção 2.3.2, a análise de livros didáticos parece ser um bom ponto de partida para o estabelecimento de algumas características básicas dos atuais dicionários escolares brasileiros, uma vez que é esperado que estas obras acompanhem as diferentes etapas da vida escolar de seus consulentes, tal qual fazem os livros didáticos (cf. COSTA 2006, FREITAS; RODRIGUES 2008, BRANGEL 2013c). Um dos desdobramentos desta correlação textual entre livros didáticos e dicionários escolares repousaria na adaptação da extensão das paráfrases ao grau de escolaridade dos consulentes. Em outras palavras, assim como os livros didáticos apresentam textos com frases mais simplificadas e mais curtas a alunos em séries iniciais, os dicionários também deveriam ser monitorados para apresentarem paráfrases mais curtas a este mesmo público alvo.
As análises conduzidas na seção 2.3.2, relatadas em Brangel (2013c), apontaram para uma diferença notória na extensão das sentenças de cinco livros didáticos de uma mesma coleção (CARPANEDA; BRAGANÇA 2007a, 2007b, 2008, 2011a, 2011b), sendo que estas sentenças aumentam progressivamente conforme a progressão curricular do aluno. Na referida análise, foi possível estabelecer que a média de palavras em uma sentença de livro didático voltada a alunos do segundo ciclo do ensino fundamental (público alvo do dicionário intermediário) gira em torno de quatorze palavras.
Tomando como base as referidas constatações, é possível fixar o primeiro subpattern de nossa metodologia, e estipular que as paráfrases explanatórias de um dicionário intermediário tenham uma extensão máxima de quatorze palavras. Sabemos
que, na elaboração de paráfrases do tipo whole-sentence definitions, o estabelecimento de um limite de quatorze palavras pode representar um desafio (e talvez até um empecilho) ao lexicógrafo, em vista da natureza longa deste tipo de paráfrase. Nestes casos, aconselhamos que se separe a intensão da extensão, iniciando uma nova oração voltada apenas para indicar os elementos prototípicos ou enciclopédicos.
panela: panela é um recipiente redondo que possui um cabo e uma tampa. Utilizamos a panela para cozinhar alimentos no fogão.
galocha: galocha é uma bota feita de plástico que não deixa a água entrar. As pessoas
costumam usar galochas em dias de chuva.
doação: doação é o ato no qual transferimos algo para alguém sem cobrar nada por
isso. Uma doação pode ser feita em dinheiro, comida, roupas etc.
alegria: alegria é o que sentimos quando estamos felizes. A alegria geralmente nos faz
sorrir.
Antes de encerrar esta seção, é interessante observar que, ao tratar da “separação” entre as propriedades linguísticas e as propriedades enciclopédicas de um item lexical, fica bastante evidente o quanto estes dois tipos de informação podem se amalgamar. Conforme sustenta a semântica cognitiva, a linha que separa um enciclopedismo de uma propriedade intrínseca ao significado de um item lexical é gradual, e não demarcada. Desta forma, conhecimento do mundo e conhecimento linguístico podem se mesclar, de modo a ser quase imperceptível, em alguns casos, a diferença entre informações linguísticas e informações enciclopédicas (cf. EVANS; GREEN 2006, p.206-221, RIEMER 2010, p.100-105). Neste caso, como podemos ver, a prática lexicográfica parece corroborar tal premissa.
6.2.3.2 O vocabulário controlado
A utilização de vocabulário controlado na redação de definições voltadas para aprendizes de língua estrangeira é um tópico bastante discutido e difundido no âmbito da lexicografia pedagógica (cf. MOON 2007, ATKINS; RUNDELL 2008). Trata-se de uma técnica implementada com grande êxito por LDCE (1978) e posteriormente adotada por outros dicionários voltados para o ensino de inglês como língua estrangeira. Na referida técnica, busca-se estipular uma lista de palavras essenciais para o domínio
de uma língua estrangeira e, a partir das palavras arroladas nesta lista, elaborar definições lexicográficas em dicionários pedagógicos.
OAL (2005) é um bom exemplo do uso promissor de um vocabulário controlado. Segundo os editores da obra, o dicionário está redigido com base na Oxford 3000, uma lista de palavras compilada a partir do British National Corpus e do Oxford Corpus Collection. Conforme especificado nas paginas introdutórias de OAL (2005), a Oxford 3000 representa as três mil palavras mais importantes no aprendizado do inglês como língua estrangeira em função de sua alta frequência, abrangência de uso e familiaridade aos falantes nativos da língua inglesa. Além de OAL (2005), é possível citar uma série de obras lexicográficas de excelência que se apoiam em vocabulários controlados na formulação de suas definições, como CcED (1995), CcLD (1996), BeD (2002) e CcAL (2014).
Embora a discussão sobre o uso de vocabulário controlado se encontre substancialmente relacionada aos learner’s dictionaries, ela também parece apresentar um alto grau de aplicabilidade nos dicionários escolares, tal qual o dicionário intermediário ora proposto. OPD (2011), dicionário escolar voltado a falantes nativos de inglês que cursam o ensino primário, é um exemplo da aplicação que almejamos ao dicionário intermediário. Na referida obra, o controle do vocabulário é feito por intermédio do Oxford Children’s Corpus, uma base de dados linguística formada por mais de 30 milhões de palavras extraídas de textos escritos para crianças. Em uma análise de OPD (2011), Brangel (2015) demonstra os efeitos positivos da utilização da pesquisa em corpora para a elaboração de um dicionário voltado a consulentes em fase escolar, sendo as paráfrases explanatórias um dos segmentos informativos que mais parecem lucrar com este recurso.
Destarte, no cenário brasileiro, evidenciamos a necessidade de intensificação das pesquisas em corpora que voltem sua atenção para a elaboração de materiais didáticos voltados para crianças. No âmbito da lexicografia pedagógica, trata-se de um movimento essencial para a compilação de obras de excelência, mas que, infelizmente, ainda não pode ser concretizado em razão da falta de suporte para estudos desta natureza em nosso país.