5.3 Fundamentos da semântica cognitiva: pressupostos teóricos
5.3.2 Frames semânticos e sua aplicabilidade nos estudos lexicais
5.3.2.1 A semântica de frames
Dentre os principais pilares teóricos da semântica cognitiva, se encontra o princípio de que o significado é perspectivo (ver seção 5.3). A semântica de frames consiste em um modelo alicerçado sobre esta ideia de perspectivação [perspectivization], uma vez que busca explicar o modo como a língua pode ser usada para gerar perspectivas sobre o conhecimento do mundo (GEERAERTS 2010, p.225). Conforme esclarece Geeraerts (2010, p.225), a teoria vai além do entendimento de que enxergamos o mundo através de modelos cognitivos e estabelece que podemos verbalizar tais modelos cognitivos de diferentes maneiras. A cada diferente verbalização de um modelo conceitual emerge o que Geeraerts (2010) chama de uma nova “camada” de significado. Assim, embora os modelos cognitivos sejam repletos de significado por natureza, adicionamos nossa perspectiva ao evocá-los e falarmos sobre eles. Nas palavras de Fillmore e Baker (2010, p.317),
a semântica de frames é o estudo de como as formas linguísticas evocam ou ativam o conhecimento do frame, e de como os frames ativados podem estar integrados a um entendimento das passagens que contém estas formas”47.
Conforme sugerem Atkins e Rundell (2008, p.145), são conceitos centrais para este modelo teórico:
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Para estes conceitos, ver Ungerer e Schmid (2006, p.141-144, 176-202, 212-218). 47
[Thus Frame Semantics is the study of how linguistic forms evoke or activate frame knowledge, and how the frames thus activated can be integrated into an understanding of the passages that contain these forms.]
1) Frames semânticos: representação esquemática de uma situação conjuntamente com os participantes, objetos e conceitos alusivos a esta situação, também chamados de papéis semânticos ou elementos do frame;
2) Contexto: na análise semântica com base em frames, o contexto diz respeito ao sintagma, oração ou sentença na qual a palavra aparece nos dados do corpus.
Estudar a linguagem a partir da noção de frames semânticos implica uma série de desdobramentos que muito se encaixam na agenda de estudos da semântica cognitiva. Lee (2001, p.10) relaciona algumas características dos frames semânticos que se refletem no estudo da linguagem e que podem ser usadas na análise de tópicos de interesse da linguística. Uma delas é que o mesmo fenômeno pode ser referenciado por palavras diferentes quando evocado por frames distintos. No português brasileiro, por exemplo, as palavras frango e galinha aludem a uma mesma entidade, porém se diferenciam pelo uso culinário do primeiro termo, que geralmente faz referência ao animal morto e pronto para consumo, enquanto o segundo termo remete a usos mais diversos, geralmente aludindo ao animal vivo. Outra situação descrita por Lee (2001) é quando o mesmo termo assume significados diferentes ao ser evocado por frames diferentes. O autor utiliza como exemplo a palavra faca, que embora seja comumente associada à função de alimentação, pode evocar um frame bastante distinto ao ser utilizada em meio à notícia de que alguém foi assassinado com uma faca, por exemplo. O terceiro caso citado por Lee (2001) diz respeito à mudança de significado de uma palavra em razão do surgimento de novos frames. A este respeito, podemos citar as diversas terminologias que surgiram e foram emprestadas de outras áreas para transmitir conceitos da informática. Hoje em dia, fala-se em baixar e subir arquivos da internet, ainda que a concepção espacial destes termos seja totalmente metafórica. Fala-se também sobre vírus que infectam computadores, ainda que as características destes vírus e destas infecções sejam bastante distintas dos vírus e das infecções biológicas que deram origem aos termos. Para Lee (2001), estes e outros exemplos remetem a fenômenos estudados pela linguística que encontram espaço para discussão dentro da semântica de frames.
No que diz respeito ao procedimento metodológico, a semântica de frames descreve o significado de palavras e sintagmas levando em conta o frame que eles evocam e os contextos nos quais podem ser encontrados (ATKINS; RUNDELL 2008,
p.145). A análise mais difundida no âmbito deste modelo teórico consiste no exemplo do frame de transação comercial proposto por Fillmore (1976) e exaustivamente explorada nas discussões sobre frames semânticos (cf. EVANS; GREEN 2006, UNGERER; SCHMID 2006, ATKINS; RUNDELL 2008, GEERAERTS 2010). Para propósitos de exemplificação da teoria, recorreremos ao exemplo exposto por Fillmore e Atkins (1992) sobre o frame RISK48.
Como passo inicial da análise, Fillmore e Atkins (1992) discriminam os seguintes elementos do frame RISK, também concebidos como categorias pelos autores:
Chance (a incerteza sobre o futuro)
Harm (um possível desenvolvimento mal sucedido)
Victim (o indivíduo que vai sofrer as consequências caso o Harm ocorra) Valued Object (uma posse de valor que corre perigo)
(Risky) Situation (a circunstância que gera o risco) Deed (o ato que gera uma circunstância de risco) Actor (a pessoa que profere o Deed)
(Intended) Gain (o objetivo do Actor ao correr um risco) Purpose (o que o Actor busca realizar ao proferir o Deed) Beneficiary (a pessoa que recebe um benefício)
Motivation (a fonte psicológica do comportamento do Actor)
Conforme pode ser observado nos exemplos abaixo fornecidos por Fillmore e Atkins (1992), o verbo risk ocorre em diversas construções sintáticas distintas extraídas de um corpus do inglês americano. Nenhuma destas construções, no entanto, compreende todos os elementos do frame RISK, e nem mesmo a maior parte deles:
He was been asked to risk {his good name}Valued Object {on the battlefield of politics}situation [Foi solicitado que ele arriscasse seu bom nome na batalha política]
We are prepared to risk {a substantial increase in unemployment}Harm {in order to bring inflation to an end}Purpose [Estamos preparados para arriscar um aumento substancial do desemprego com o intuito de acabar com a inflação]
Paul decided to risk {a reconnaissance in town}Deed [Paul decidiu arriscar uma ronda na cidade]
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Respeitando as convenções da literatura, indicaremos em caixa alta as palavras que remetem a frames e em iniciais maiúsculas as palavras referentes aos elementos do frame.
Conforme sugerem Croft e Cruse (2001, p.12), nesta análise baseada em frames, nenhum dos usos do risk evocam o frame RISK por completo, pois apenas uma parte deste frame é focalizada pelas construções. É importante também mencionar que neste tipo de análise os papéis semânticos do frame estão ligados às formas gramaticais da expressão. Além disso, conforme demonstra Geeraerts (2010), um elemento do frame pode ser expresso por diferentes formas gramaticais. No exemplo do frame RISK, o possível resultado negativo pode ser mencionado através de um gerúndio, como em we risked being killed, mas também através de um sintagma nominal, como em we risked death to help you (GEERAERTS 2010, p.227).
Nos dias atuais, uma das principais aplicações da semântica de frames na pesquisa linguística ocorre através do desenvolvimento do projeto FrameNet, um banco de dados da língua inglesa que vem sendo construído desde 1997 no International Computer Science Institute, na Universidade de Berkeley. Devido a sua estreita relação com a semântica de frames e o seu potencial de aplicação à prática lexicográfica, este projeto receberá especial atenção na seção seguinte.