5.2 O Método Utilizado
5.2.1 Os Testes Operatórios Coletivos
Esse instrumento fez o papel dos pré-testes utilizados por Inhelder e seus colegas. Seu uso tinha por objetivo determinar o nível cognitivo dos sujeitos de pesquisa e, a partir disso, estabelecer um parâmetro de comparação sobre o uso das operações formais antes e depois do experimento.
Para escolhermos quais testes utilizar, recorremos a revisão bibliográfica feita por Andrade (1984) sobre os testes de desenvolvimento cognitivo baseados na obra de Jean Piaget. O pesquisador identificou 27 tipos de testes, dentre os quais buscamos por aqueles que envolviam a avaliação dos estágios operatórios (concreto e formal), que pudessem ser aplicados de forma coletiva e adaptados para o formato eletrônico.
Optamos, então, pelos Testes Operatórios Coletivos de François Longeot, levando, também, em consideração a avaliação feita por Andrade (1984): “alguns apresentam mais informações psicométricas favoráveis e por isso têm sido mais amplamente utilizados em pesquisas; é o caso, por exemplo, ... de Longeot (1969)” (p. 20). De fato, os testes de Longeot aparecem como instrumento de avaliação do nível de desenvolvimento cognitivo em diversas pesquisas, tais como as desenvolvidas por Cantelli, Borges e Assis (2005); Lis e Magro (1993); Pandey, S.B.Bhattacharya e Rai (1993); Camargo (1990); Sheehan (1970); Souza e Macedo (1986); Lemos e Queiroz, (2015), entre outros.
François Longeot (1979) em sua pesquisa sobre o desenvolvimento de uma Escala do Desenvolvimento do Pensamento Lógico (L'Échelle de Développement de la Pensée Logique - EDPL), elaborou um conjunto de provas operatórias adaptadas das situações utilizadas por Piaget e seus colaboradores para estudar o desenvolvimento cognitivo. “Duas das provas pertencem ao campo da física (conservações e pêndulo), duas pertencem ao domínio lógico-matemático (combinatória e quantificação de probabilidades) e uma ao domínio da representação do espaço (curvas mecânicas).” (tradução nossa) (HUTEAU; LAUTREY, 2003 p.170)
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Entretanto, Longeot desejava poder verificar o nível de desenvolvimento cognitivo de uma grande quantidade de sujeito utilizando, para isso, um material leve e fácil de transportar e manipular. Assim “Longeot foi levado, na pesquisa mencionada acima, também a desenvolver testes de papel e lápis de 'operações formais'“(tradução nossa) (HUTEAU; LAUTREY, 2003 p.173)
Esses testes, chamados de Testes Operatórios Coletivos (Tests Operatoires Collectifs (TOC)), deveriam, ainda, ser complementares e não paralelos, onde cada um deles possuísse várias questões que possibilitassem raciocínios próprios aos diferentes estágios. Depois de avaliados pelo experimentador, os testes situariam o sujeito em um dos níveis da EDPL, as quais são: concreto A, concreto B, pré-formal, formal A e formal B. Os TOCs são três:
• Teste das operações formais em relação a lógica proposicional
(TOFLP): sabe-se que as operações proposicionais só surgem a partir do estágio operatório formal, mas já no operatório concreto é possível encontrar indícios de uma lógica nas operações sobre conjuntos. Assim, as questões relativas ao nível operatório formal foram elaboradas sobre problemas envolvendo implicação, união, disjunção, negação, equivalência, etc. Já as questões relativas ao operatório concreto avaliam a capacidade do sujeito de realizar operações de transitividade, reversibilidade e recíproca. Esse protocolo inclui 6 problemas relacionadas com raciocínios do nível operatório concreto e 7 problemas de nível operatório formal Os resultados são expressos em valores numéricos, que correspondem aos níveis de desenvolvimento: até 5 pontos, operatório concreto; de 6 a 8 pontos, operatório formal A; acima de 9 pontos, operatório formal B. O protocolo de aplicação é apresentado no Apêndice A
• Teste das operações formais combinatórias (TOFC): as questões de
nível concreto verificam, basicamente, a capacidade dos sujeitos de realizarem multiplicação lógica de classes e a criação de duplas com permutação dos elementos. As questões de nível operatório formal são focadas nas combinações e permutações. Esse protocolo inclui 3 problemas relacionados com raciocínios do nível operatório concreto e 5 problemas de nível operatório formal. Os resultados são expressos em valores numéricos, que correspondem aos níveis de desenvolvimento:
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até 3 pontos, operatório concreto; de 4 a 5 pontos, operatório formal A; acima de 6 pontos, operatório formal B. O protocolo de aplicação é apresentado no Apêndice B.
• Teste das operações formais em relação a lógica das probabilidades ou
proporções (TOFP): a partir do momento em que o sujeito, ao observar a frequência relativa de eventos do mesmo tipo numa série de eventos semelhantes, consegue estabelecer a relação do tipo X vezes em N, ele torna-se capaz de determinar um grau de segurança em relação ao resultado de um evento. Sendo assim, as questões relativas ao nível operatório concreto tem por objetivo verificar se os sujeitos conseguem raciocinar sobre casos favoráveis ou desfavoráveis de uma situação. As questões do nível pré-formal verificam se o sujeito consegue estabelecer comparações entre proporções e as do nível operatório formal verificam se o sujeito consegue comparar proporções com numeradores e denominadores diferentes, e se consegue estabelecer relações sobre relações (operações de 2ª potência). Esse protocolo inclui 4 problemas relacionadas com raciocínios do nível operatório concreto, 2 problemas de nível pré-formal e 5 problemas de nível operatório formal. Os resultados são expressos em valores numéricos, que correspondem aos níveis de desenvolvimento: até 3 pontos, operatório concreto; de 4 a 5 pontos, pré-formal; acima de 6 pontos, operatório formal. O protocolo de aplicação é apresentado no Apêndice C.
Para fins desta pesquisa, utilizou-se os testes traduzidos para o espanhol, de Chadwick e Orellana (2016). Os testes foram inicialmente experimentados com um grupo de alunos do ensino médio, quando verificou-se a necessidade de ajustes na redação de certas questões a fim de resolver problemas de interpretação, tais como o observado em:
• Quarto raciocínio do TOFLP que dizia em seu enunciado: “Em um jardim se plantam flores. Neste jardim existem 30 rosas e 5 cravos”. Vários alunos questionaram se cravo era flor, e por isso alterou-se o enunciado para “Em um jardim se plantam flores. Neste jardim existem 30 rosas e 5 margaridas”.
• Problema 1 do TOFC que perguntava ”Quais são os pares possíveis de serem formados nesta festa improvisada?”. Sobre isso foi levantada a
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questão sobre os pares serem constituídos por sujeitos de sexos diferentes ou também do mesmo sexo. Por isso, a pergunta foi ajustada para “Quais são os pares (homem-mulher) possíveis de serem formados nesta festa improvisada?”
Os testes, adaptados para o formato eletrônico, foram desenvolvidos utilizando a ferramenta Google Forms e estão disponíveis nos seguintes endereços eletrônicos:
• TOFP - https://goo.gl/forms/OQ5Xm6vZp69eWJU73 • TOFLP - https://goo.gl/forms/Ygp9peBoPv4nIWb53 • TOFC - https://goo.gl/forms/VpYrTkYmD5wkjDK13
Depois de corrigidos, os resultados eram transferidos para uma planilha eletrônica contendo a fórmula correspondente às regras que determinavam o nível na EDPL. Esses testes, junto com os portfólios de projeto criados por cada um dos sujeitos que participaram nas atividades experimentais, constituíram importantes fontes de informação para essa pesquisa de doutorado.