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Os Tipos de Alforrias nos Processos de Herança.

COR ALFORRIADOS PERCENTAGENS %

2.4 Os Tipos de Alforrias nos Processos de Herança.

Antes de apresentarmos os tipos de alforrias observadas nos processos de herança, cabe um parênteses sobre os critérios de sua classificação. Alguns estudos vêm destacando que as alforrias em testamento são “promessas”, uma vez que havia a possibilidade de os senhores revogarem a alforria nele prometida por meio de um codicilo ou mesmo através de escritura pública93. Para mim, essa afirmação não passa de um truísmo se lembrarmos que até a lei de 28 de setembro de 1871 a possibilidade de revogação das alforrias estava presente no horizonte de todos os senhores. Ou seja, se a possibilidade de revogação delas existia legalmente94, todas as alforrias, e não apenas as observadas em testamentos, devem ser consideradas como “promessas”. Diria mais. É bem provável que as alforrias em testamento sejam ainda “menos promessas” do que os outros tipos de liberdades, pois seria bem pouco provável que a vontade do testador, expressa em um documento de dimensões públicas e simbólicas, fosse contestada inadvertidamente mesmo entre os herdeiros menos inescrupulosos95. E mais ainda. A pouca freqüência da prática de revogação das alforrias que a historiografia vem encontrando no Brasil96, pode indicar que além de tal prática não ser recorrente entre os senhores, a interpretação da alforria como “promessa” não era socialmente aceita tanto entre os senhores quanto entre os escravos. Especificamente em

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PEDRO, Alessandra. Liberdade sob Condição, op. cit.. 94

A possibilidade de revogação das alforrias estava prevista no Livro IV, Título 63 das Ordenações Filipinas. ALMEIDA, Cândido Mendes (Org.). Código Filipino ou Ordenações e Leis do Reino de Portugal, op. cit., Livro IV, pp. 863-867.

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É claro que essa possibilidade não pode ser descartada, pois como veremos no capítulo seguinte, a liberdade em testamento de Caetano foi questionada pelos herdeiros do preto. Sidney Chalhoub também encontrou alguns casos de herdeiros que empreenderam verdadeiras batalhas jurídicas para preservarem o direito da propriedade privada na corte do Rio de Janeiro nas últimas décadas da escravidão. CHALHOUB, Sidney.

Visões da Liberdade, op. cit.; pp. 95-122.

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GONÇALVES, Andréa L. As margens da Liberdade, op. cit., p. 44; KIERNAN, James. The Manumission

of slaves in colonial Brazil: Paraty, 1789-1922. New York: New York University, 1976; KARASCH, Mary

C.. A vida dos escravos na cidade do Rio de Janeiro, op. cit., pp. 465-468; LARA, Sílvia Hunold. Campos da

violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, pp. 264-268;

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relação aos nossos dados, encontramos apenas um caso de revogação de alforria testamentária nos dois períodos enfocados. Trata-se da alforria do crioulo José que foi revogada em codicilo pelo testador Joaquim Cardoso de Gusmão em 184497.

Como destacamos no início deste capítulo, o critério principal utilizado para a quantificação das fontes foi à obediência à data do início do processo do inventário ou da abertura/morte do testamento/testador para os casos em que não o localizamos. Esse critério foi utilizado porque estamos preocupados com o momento da morte dos inventariados/testadores e conseqüentemente com o destino de seus bens. Diante disso, optamos por considerar toda a alforria que apresentava a seguinte condição “deixo liberto o meu escravo fulano após a minha morte” como alforrias incondicionais. Esclareço. Assim como é um truísmo dizer que toda alforria em testamento é uma “promessa”, a condição acima exposta é inerente a natureza da fonte. Em outras palavras, toda a alforria concedida em testamento é condicionada a morte do testador independente se ela vem carregada de outras condições restritivas ao seu exercício como, por exemplo, acompanhar um legatário por tempo determinado. Nos casos em que não há restrições ao gozo da liberdade após esta propriedade inerente ao documento, as alforrias se tornam, portanto, alforrias plenas, incondicionais. Assim, todas as alforrias condicionadas a morte do testador foram classificadas como incondicionais neste estudo. Conseguintemente, as alforrias condicionadas foram qualificadas a partir do estabelecimento de restrições ao gozo da liberdade, como, por exemplo, ficar liberto após a morte do cônjuge ou prestar serviços por um tempo determinado a herdeiros ou terceiros nomeados.

Esse último critério foi também utilizado para as alforrias verificadas no interior do processo do inventário. Para reforçá-lo, cito o exemplo do inventário de José Rodrigues de Oliveira iniciado em 1864. Dos 11 escravos que possuía, o inventariado libertou ainda em vida a viúva Maria por meio de carta de alforria sob a condição de servi-lo até a sua morte. A condição imposta à escrava cessou no momento em que José Rodrigues faleceu e,

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Inventário de Joaquim Cardoso de Gusmão, 1844. ACMU, TJC, 1º. Ofício, Cx 105, Processo nº 2454. Sobre a prática da reescravização no Brasil do século XIX, ver: GRINBERG, Keila. “Reescravização, direitos e justiças no Brasil do século XIX”. In: LARA, Sílvia Hunold & MENDONÇA, Joseli M. N. (orgs). Direitos

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portanto, Maria não tinha mais restrições ao gozo de sua liberdade98. Em casos iguais a este, consideramos as alforrias como incondicionais pois a condição imposta já não tinha mais validade no momento do início do inventário. Explicitados os critérios, passamos então a conhecer, por meio dos quadros abaixo, os tipos de alforrias mais freqüentes nos dois períodos por nós analisados na cidade de Campinas.

Quadro 30: Tipo de Alforrias nos Processos de Herança, 1836-1845

Quadro 31: Alforrias Condicionais nos Processos de Herança, 1836-1845

*Inclui também a categoria Paga e Condicional

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Inventário de José Rodrigues de Oliveira, 1844. ACMU, TJC, 1º. Ofício, Cx 171, Processo nº 3628.