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8 A REDE SE CONSTITUI E TRANSBORDA

4.1 OS TRÊS PROJETOS BASE

“Guerra anunciada”, esse foi o título de uma reportagem em setembro de 2006 (POS- SEBON, 2006) da revista Tela Viva. Na ocasião, a ABTA e as empresas de telefonia disputa- vam a exploração do mercado de TV por assinatura. Liderada por representantes da Sky e Net, a ABTA solicitou à Anatel o veto às operadoras de telefonia fixa no DTH, bem como a compra da operadora a cabo, Way TV, em Minas Gerais, pela Telemar. O argumento utilizado era de que as teles tendiam a concentrar o mercado e cometer infrações à Lei do Cabo. No mês de Abril de 2007, a mesma revista retornava ao tema, desta vez, com as decisões da Ana- tel de permitir a entrada da Telefônica no DTH, e de vetar a operação da Telemar no cabo (POSSEBON, 2007). A discussão em torno da tecnologia estava vinculada ao movimento dos grupos empresariais:

“a tecnologia sempre foi menos determinante para o negócio do que para a regulamentação. O serviço era a mesma coisa. As pessoas não tinham muita clareza. Tinham vantagens competiti- vas. mas do ponto de vista do mercado, é irrelevante. (POSSEBON, 2014, informação oral)73

No meio da disputa, o deputado federal Paulo Bornhausen (DEM-SC)74 atendeu de- mandas da Associação Brasileira de Concessionários de Serviço Telefônico Comutado (Abra- fix) e apresentou o Projeto de Lei 29/2007, conhecido como PL 29, na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI), no dia 5 de fevereiro de 2007. A proposta era revisar regras no conteúdo a ser distribuído por meio dos serviços de telecomunicações, e, dessa forma, ampliar as licenças para prestação do serviço de televisão a cabo para as opera- doras de telefonia fixa, e flexibilizar a exploração da distribuição por empresas estrangeiras.75 Por fim, o projeto regulamentava a entrada das teles na radiodifusão e internet.

O PL 29 respondia atuação da Globo expressa desde seminário na PUC-SP em 2004 de impedir a entrada das distribuidoras e empresas internacionais no conteúdo. No Congresso Nacional, tais objetivos da Globo foram capitaneados por Nelson Marquezelli (PTB-SP) no extinto PL 4.209/2004. No dia 5 de fevereiro, o mesmo Marquezelli retomou os anseios no PL 70/2007, prontamente apensado ao PL 29 pelo relator Jorge Bittar (PT-RJ). Nas justificativas, o parlamentar paulista apresentou os seguintes argumentos:

Na realidade, a produção e a transmissão de bens culturais assumiu o papel de instrumento hegemônico de economias centrais, ocupando o quinto lugar em termos de importância econômica no mundo. Além de seu valor econô- mico direto, essa indústria é parte de uma estratégia de dominação cultural dos mercados emergentes, em apoio à dominação econômica e política, dis- seminando valores, criando demanda e abrindo mercados desvinculados da realidade e dos interesses nacionais. (PL 70/2007)

Durante um mês Jorge Bittar se articulou com os companheiros de partido Walter Pi- nheiro (PT-BA) e Paulo Teixeira (PT-SP) para apensar um terceiro projeto para entrar no de- bate, o PL 332/2007, apresentado no dia 7 de março do mesmo ano. O ponto de partida da proposta era dispor sobre uma sistematização da cadeia produtiva em: produção, programa-

73 POSSEBON, Samuel. Entrevista I. [jul.2014]. Entrevistador: Pedro Andrade Caribé. Brasília, 2014. 2 arquivos .mp4 (65 min)

74 Paulo Bornhausen é filho de um homem conhecido há décadas na política brasileira, o ex-senador e concessionário de uma rádio FM em Criciúma, Jorge Bornhausen (DEM-SC). Foi um dos relatores da LGT, e, no ano de 2007, foi apontado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) como um dos cem deputados mais influentes na Câmara.

75 A primeira proposta de Paulo Bornhausen também visava regulamentar o provimento do serviço de internet no país. A proposta foi endossada por outros parlamentares, mas não avançou. Ainda assim, o objetivo de Bornhausen e dos demais interessados não era regulamentar a programação do conteúdo na internet, Consequentemente, o resultado final da Lei 12.485/2011 deixa um vácuo no acompanhamento dos serviços over-the-top (OTT), ou mesmo, o apoio à produção nacional e independente que circula em plataformas gratuitas como Youtube e Vimeo.

ção, provimento, empacotamento e distribuição. Conforme relata Dantas (2014, informação oral76), esse modelo surgiu nas reuniões realizadas no Rio de Janeiro articuladas pelo mandato de Bittar:

Bittar recebeu a relatoria, e o assessor do mandato, Marcelo Miranda, mon- tou um grupo para subsidiar. O grupo começou a discutir o projeto semanal- mente e entrevistar executivos e consultores do mercado. No espaço nasceu um conjunto de ideias que se tornariam eixo da lei. Quanto à cadeia, utilizei referências da Televisão Sem Fronteiras, e Alex Patêz apresentou uma noção sobre a cadeia produtiva do setor a partir de sua dissertação sobre a econo- mia da TV por assinatura. E começamos a elaborar as primeiras versões de projeto maior.

4.1.1 “O Tratado de Tordesilhas”

Estruturada a cadeia, o segundo passo chave na formulação apresentada por Teixeira e Pinheiro foi diferenciar conteúdos transmitidos por radiodifusão, e o conceito regulatório in- troduzido foi o da comunicação social eletrônica de acesso condicionado: “a transmissão de conteúdo eletrônico, o qual admite interação, cuja recepção é condicionada à contratação pré- via” (PL 332/2007). Impedia-se, dessa forma, nova interdição do processo, com o argumento de ferir a Constituição na proposição, pois há uma distinção explícita entre as regras para o novo conceito e as regras da radiodifusão, que, por sua vez, deveriam ser submetidas estrita- mente ao Capitulo V da Constituição.

No acesso condicionado e quaisquer outras atividades relacionadas a conteúdo oriun- do de serviços de telecomunicações (inicialmente, até mesmo aquelas distribuídas por proto- colos IP eram consideradas), os parlamentares petistas defenderam a entrada irrestrita das te- les, e, assim, coadunavam com os anseios externados no PL 29 de Paulo Bornhausen.

No começo, a Globo estava teoricamente isolada, pois parlamentares do partido da Presidência da República e um parlamentar do partido mais inciso na oposição se juntaram no caminho, a priori, insatisfatório para a família Marinho. Mas, o resultado final da primeira ro- dada de negociação para o andamento do projeto teve como contrapartida exatamente o que a Globo queria: retirar as operadoras de telecomunicações de qualquer atividade direta no con- teúdo:

Fiz muitas audiências públicas e diálogos. Tinha uma resistência grande da Globo. Ela utilizava o argumento que a concorrência com as teles era desi-

76 DANTAS, Marcos. Entrevista II. [ago.2014]. Entrevistador: Pedro Andrade Caribé. Videoconferência. 2 arquivos .mp4 (53 min).

gual. Houve uma situação favorável à entrada das teles no mercado [de tv por assinatura]. Até a Globo entrar para conversar. Ela já tinha inserção nos canais Globosat, e começou com a ideia que as teles não poderiam controlar grandes eventos como campeonato brasileiro e grandes talentos. Aí começou a se desenhar um acordo dessa natureza. As teles alegavam que era bobagem da Globo porque não queriam entrar no conteúdo. Eles [Globo] já vinham num processo de saída na distribuição. Queriam vender as ações da Net à Telmex. Enquanto as teles eram mais representadas pela Telefônica e Oi, e a GVT menos. (BITTAR, 2014, informação oral)77

Dessa forma, foi firmado acordo base para o desenvolvimento do projeto entre Globo e teles, denominado “Tratado de Tordesilhas”. Nota-se, no depoimento de Bittar, a não priori- dade das teles em entrar no mercado do conteúdo, o que incluía as outorgas de radiodifusão. E isso se confirmou ao longo dos materiais coletados nesta dissertação, representados na cres- cente distinção entre a atuação executiva dos programadores e distribuidores. A meta chave defendida entre as teles era aproveitar o aumento da capacidade de consumo da população com o fortalecimento do conteúdo na TV por assinatura para angariar mais assinantes.

Ainda assim, restava um ator para concluir o “Tratado”: o grupo Bandeirantes. Des- de o começo da tramitação, o executivo Johnny Saad atuou para impedir as restrições da radi- odifusão na distribuição, porque detinha o controle da operadora de TV por assinatura a cabo, a Sim TV, originária da TV Cidade. A tentativa de impedir o “Tratado” ao longo da aprovação da Lei, e até a posteriori, foi em vão. Além de perder nesse ponto, ele tinha que disputar espa- ço nos segmentos da cadeia mais discutidos na Lei: a programação e o empacotamento.

4.1.2 A reserva na programação

Ao acertar que as teles ficariam restritas à distribuição e que as regra da TV por assi- natura seriam unificadas no serviço de acesso condicionado, mais um ator se insurgiu: a Sky/DirecTV, responsável por 90% das operações em DTH no país em 2007. O DTH era regi- do apenas por uma portaria da LGT, estava livre para atuação das empresas estrangeiras e te- lefônicas, e não seguia as obrigações concessionárias do cabo. Na época, a entrada das telefô- nicas no DTH fora confirmada pela Anatel, e o objetivo do executivo da Sky, Luiz Fernando Baptista, o “Bap”, era impedir as tentativas de acoplar medidas obrigatórias ao conteúdo bra- sileiro na operação. Conforme Bittar relatou em entrevista a esta dissertação:

A Sky começou a ficar contra, porque saía de portaria frouxa para uma lei cheia de restrições. E, aí, foi um adversário desleal. Ele foi para dentro da

77 BITTAR, Jorge. Entrevista VII . [nov. 2014]. Entrevistador: Pedro Andrade Caribé. Brasília, 2014. 1 arquivo .mp4 (60 min).

ABTA e convenceu os caras a fazer a campanha com esportistas contra a lei. (BITTAR, 2014, informação oral)78

A atuação da Sky encontrou, inicialmente, mais dois aliados contrários às medidas de apoio ao conteúdo brasileiro: a Globo e as programadoras estrangeiras. Isso, porque o PL dos petistas buscava implementar uma novidade na TV por assinatura: reservar percentual para veiculação de conteúdo produzido por empresas brasileiras, com o dever de adquirir conteú- dos de terceiros, preferencialmente de produtores de diferentes regiões do País.

Até então, a Globo buscava, na tramitação, afastar as empresas estrangeiras nos con- tratos de exploração da distribuição dos serviços, sem interesse de incluir qualquer medida de reserva ao conteúdo brasileiro diretamente na grade de programação dos canais:

A Globo vinha do discurso que não tinha de ter regulamentação no serviço, o mercado é que deveria moldar. Ela fazia o discurso que só propriedade deve- ria ser regulada. A discussão nacional da Globo vai até determinado ponto. Quando entram os pequenos, vira problema do ‘mercado’. (NAZARENO, 2014, informação oral)79

“Os pequenos” mencionados por Claudio Nazareno, Consultor Legislativo da Câma- ra dos Deputados, são os membros do audiovisual nacional e independente. Durante o proces- so, o acompanhamento majoritário das demandas do grupo ficou a cargo da ABPI-TV. Seja no grupo de trabalho montado por Bittar ou nas audiências públicas, a Associação estruturou um modelo de atuação considerado mais profissional, estruturado em parâmetros de legislações internacionais e informações do mercado. Conforme Alex Patêz relatou: “Cheguei a comentar com o Manoel Rangel: mesmo que nada aconteça, o pessoal do audiovisual foi para dentro do Congresso. Isso muda para sempre o panorama” (PATÊZ, 2014, informação oral).80

Nesse momento, a participação do conteúdo produzido por esse grupo ainda é reduzi- da na maioria das programadoras nacionais e estrangeiras da TV por assinatura. Porém, as leis de incentivo, em especial, a junção entre o Art. 3º da Lei do Audiovisual e Condecine-Remes- sas, normatizado na Medida Provisória que criou a Ancine, desenvolveram uma expertise na coprodução entre os independentes e os programadores internacionais. E, dessa vez, o apro- fundamento dessa expertise com regras mais sólidas correspondia ao principio da “Exceção Cultural”:

78 BITTAR, Jorge. Entrevista VII . [nov. 2014]. Entrevistador: Pedro Andrade Caribé. Brasília, 2014. 1 arquivo .mp4 (60 min).

79 NAZARENO, Claudio. Entrevista VI. [set. 2014]. Entrevistador: Pedro Andrade Caribé. Brasília, 1 arquivo .mp4 (49 min).

80 PATÊZ, Alexander. Entrevista IX. [dezembro.2014] Entrevistador: Pedro Andrade Caribé. Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo .mp4 (72 min).

Os estrangeiros não vão trazer a produção deles para fazer conteúdo brasilei- ro. Também não é mais o modelo brasileiro de tv que a casa faz tudo. A Glo- bo começou a abrir. Ela não pode com tanto canal de tv por assinatura se de- dicar a produzir todas essas coisas. Foi então que Ancine, via governo brasi- leiro, colocou na parede: "Vocês vão conseguir fazer tudo isso?. Foi a partir da EBC que desenhamos isso. Foi aí que colocamos que metade tem que ser feito fora, e metade regional. É outra visão. (SENNA, 2014, informação oral)81