• Nenhum resultado encontrado

Os ventos cruzados: um confronto de perspectivas

No documento Elizabeth Thomaz Pereira.pdf (páginas 154-160)

AS CARTAS NÁUTICAS

3.3. Os ventos cruzados: um confronto de perspectivas

Os ventos que entram pelos dois bordos impulsionam o barco. Saber aproveitá-los é um dos trabalhos que mais exige habilidade de um bom velejador. Correndo com o mar e contra o tempo, só me resta aproveitar os ventos, confrontando-os, o que me impulsionará cada vez mais longe, preparando meu corpo e mente para velejar ainda mais nessa viagem.

Passo agora a fazer o confronto das interpretações sobre o aprender na terceira idade, na perspectiva de alunos e professores adultos maduros e idosos. Para fazer uma síntese das interpretações sobre o aprender na terceira idade foram feitos dois quadros. Retomando-os, passo a fazer o confronto das interpretações dos alunos e dos professores sobre o aprender na terceira idade:

Aprender na terceira idade é...

para alunos ocorrências Número de Aprender na terceira idade é... para professores ocorrências Número de

... conviver 10 ... conviver 10

... adquirir novos conhecimentos 8 ... buscar conhecimentos 9

... bom 7 ... assimilar só o que dá prazer 6

... aumentar conhecimento 7 ... querer 6

... atualizar 7 ... se interessar 6

... interessante 5 ... gostar 5

... gostar 5 ... sempre um deslumbramento 5

... dar continuidade a vida 5 ... atenção 4

... estar sempre aprendendo 5 ... buscar ocupar o tempo 4

... recordar 4 ... sair de casa 4

... reciclar 4 ... se arrumar 4

... ocupar um espaço 4 ... atualizar 3

... muito importante 4 ... descobrir 3

... saber mais 4 ... ter coragem de freqüentar um ambiente de

aprendizagem 3

... querer investigar 3 ... vai depender da pessoa 3

... ocupar o tempo 3 ... crescer 3

... inserido em grupo de

relacionamentos 3

... admitir que não sabe

tudo 2

... obter conhecimentos sem

obrigação por resultados 2 ... se capacitar 2

... não ficar em casa 2 ... muito bom 2

... respeito 2 ... saber mais 2

... aprender a lidar com os outros 2 ... ter seu próprio referencial teórico 2

... recomeçar tudo de novo 2 ... vitalidade 2

... contribuir com ensinamentos 1 ... ainda poder dar coisas 1

... aprofundar 1 ... bem viver 1

... entender todos 1 ... buscar a preparação da velhice 1

... viver em união 1 ... devagar para certas coisas 1

Aprender na terceira idade é... para alunos

Número de ocorrências

Aprender na terceira idade é... para professores

Número de ocorrências

... renovar 1 ... difícil, no que diz respeito ao corpo 1

... procurar aprender com o outro 1 ... exercitar a memória 1

... por mais que a memória falhe,

acaba aprendendo 1 ... importante 1

... passar o aprendizado adiante 1 ... inserção 1

... ocupar a mente 1 ... maturidade 1

... não ter capacidade de lembrar as

coisas 1 ... participar das aulas, das discussões 1

... diminuir a frustração 1 ... qualidade de vida 1

... aperfeiçoar 1 ... reciclar 1

... a melhor fase da vida 1 ... recordar 1

... ter uma preocupação a mais 1 ... um novo caminho para os idosos 1 Quadro 5. Um confronto de perspectivas – alunos e professores

Ao contrastar as interpretações de alunos e professores adultos maduros e idosos de duas universidades abertas da terceira idade, pude observar que ambos os grupos de participantes dão importância a vários aspectos iguais ou semelhantes, como por exemplo, a questão da convivência que aparece marcada pelo número de dez ocorrências para cada grupo.

Para os alunos: conviver, estar inserido em um grupo de relacionamentos, aprender a lidar com os outros, entender todos e viver em união faz parte de um mesmo aspecto observado em dezessete ocorrências. Os professores, também, destacam esse mesmo aspecto, por meio de interpretações como: conviver e inserção, o que aparece em onze ocorrências.

Numa sociedade complexa, fragmentada e em constantes mudanças como a que vivemos, espaços como os das universidades abertas passaram a ser valorizados. Neles, os contingentes de adultos maduros e idosos encontram a minimização dos problemas de solidão e a intensificação dos contatos sociais, fazendo deste convívio um facilitador que permite aos participantes se sentirem inseridos num mundo, que até então os discriminava e excluía. Para os alunos pesquisados, dar continuidade a vida aparece em cinco ocorrências, o que demonstra que esses espaços criam oportunidades para que os alunos tenham a sua qualidade de vida aumentada, vencendo o desafio da exclusão social nessa fase do curso de vida.

Com relação à aquisição de novos conhecimentos, os alunos interpretam esse aspecto como: aumentar conhecimento, estar sempre aprendendo, recordar, reciclar, saber mais, querer investigar, aprofundar, renovar e aperfeiçoar. Essas interpretações perfazem um total de trinta e oito ocorrências. Os professores pesquisados, também, citam a busca de conhecimento, como algo bastante relevante na terceira idade na universidade aberta. Para eles, buscar conhecimentos é atualizar, descobrir, crescer, admitir que não sabe tudo, se capacitar, saber mais, buscar a preparação para a velhice, participar das aulas e das discussões, reciclar e recordar. Esse aspecto aparece num total de vinte e oito ocorrências para esses docentes. Confrontando as ocorrências, podemos perceber que para os alunos a interpretação do aprender é mais significativa, quando se trata de aquisição de conhecimento.

Contudo, tanto para os alunos como para os professores entrevistados, a aprendizagem não está só restrita à infância ou à adolescência, mas se prolonga por toda a vida. Para os alunos estar sempre aprendendo aparece em cinco ocorrências, ao passo que para os professores procurar conhecimento aparece em nove ocorrências.

A idéia de que por meio de um processo de educação permanente, os idosos possam assumir uma nova posição frente às situações do seu cotidiano, desenvolvendo suas potencialidades, muitas vezes adormecidas, e acionar sua criatividade, é compartilhada por professores e alunos. Nas universidades abertas, aprender a participar é se apoderar de idéias e habilidades para se ter um novo padrão de comportamento, conforme as cinco ocorrências relacionadas ao estar sempre aprendendo identificadas pelos alunos e as nove ocorrências relacionadas a buscar conhecimentos identificadas pelos professores.

Para os alunos, são sete as ocorrências que sinalizam o aprender na terceira idade como sendo bom. Para os professores, duas ocorrências apontam para o aprender na terceira idade como algo muito bom. Um aspecto a ser destacado foi poder observar que em dez ocorrências tanto alunos

quanto professores interpretam o aprender na terceira idade na universidade aberta como gostar.

Em cinco ocorrências, aprender na terceira idade é interessante, para os alunos. Para os professores, o número de ocorrências para esse mesmo aspecto é de seis, o que denota bastante semelhança entre os grupos.

Um aspecto apresentado pelos alunos, em duas ocorrências, e pelos professores em quatro é a importância dada a não ficar em casa. Isso me leva a crer que alunos e professores interpretam a ida para a universidade aberta da terceira idade como um bom motivo para sair de casa, o que, também, contribui para que os alunos queiram se arrumar, conforme as quatro ocorrências identificadas pelos professores.

O aprender na terceira idade na universidade aberta é também interpretado como uma forma de ocupar o tempo, tanto para alunos quanto para professores. Para os alunos, esse aspecto aparece mencionado em três ocorrências. Para professores, o mesmo aspecto é mencionado em quatro ocorrências, o que caracteriza uma grande semelhança entre ambos.

Outro aspecto que precisa ser levado em consideração são as ocorrências relativas ao aprender na terceira idade como uma maneira de dar continuidade a vida, diminuir as frustrações e o fato de estar aprendendo ser a melhor fase da vida, aparecendo em quatro ocorrências, nas interpretações dos alunos. Por outro lado, para os professores, o aprender na terceira idade pode ser interpretado como: assimilar só o que dá prazer, querer, sempre um deslumbramento, bem viver, importante, qualidade de vida e um novo caminho para os idosos. O número de ocorrências, vinte e uma, demonstra que esses professores têm uma visão idealizada dessa fase da vida. A fim de promover uma mudança nessa visão, é importante que se forme profissionais mais afinados com as necessidades desse segmento etário.

Aprender como ocupação da mente é pouco enfatizado por alunos e professores. Para os alunos, esse aspecto é mencionado uma única vez. Para os professores, o aprender na terceira idade na universidade aberta significa exercitar a memória, aparecendo também, uma única vez.

Aspectos negativos relacionados ao aprender na terceira idade na universidade aberta aparecem nas interpretações de alunos e professores. Para os alunos, a falha de memória e não ter capacidade de lembrar as coisas aparecem em duas ocorrências. Para os professores, as dificuldades para aprender são mais relacionadas a questões físicas, aparecendo em três ocorrências.

As interpretações de alunos e professores adultos maduros e idosos, das duas universidades abertas pesquisadas, me fazem retomar Cachioni (2003:224), quando destaca que o programa da universidade da terceira idade tem saldo positivo, uma vez que os idosos freqüentadores de suas salas de aula vão rompendo preconceitos e aprendendo a exercer a cidadania. Muitos deles se sentem felizes por estar realizando o velho sonho de estudar, ainda mais em se tratando de estudar numa universidade, fato que carrega uma grande simbologia implícita, pois a maioria desses idosos não teve a oportunidade de freqüentar os bancos escolares na juventude.

Pelas interpretações aqui identificadas, podemos considerar que alunos e professores mostram que a convivência e a aquisição de conhecimentos são as mais significativas interpretações do aprender na terceira idade na universidade aberta.

No próximo capítulo, passo a apresentar os temas, subtemas e sub- subtemas que constituem o fenômeno investigado: o aprender na terceira idade na universidade aberta. Também, traçarei o percurso que fiz para descrevê-lo e interpretá-lo.

Depois de escolhidas as cartas náuticas, a embarcação e de ter aproveitado os ventos é chegado o momento de lidar com as várias faces de um iceberg. Enquanto pensava na exuberância da vida e do movimento com que me habituara e que ia deixando para trás, ao longo do doutorado, não parava de pensar no mar, com sua imensidão que, em vez de me assustar, me levou a pesquisar.

CAPÍTULO 4

No documento Elizabeth Thomaz Pereira.pdf (páginas 154-160)