5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
5.2 Outras conclusões e contribuições da pesquisa
Sob o ponto de vista acadêmico, este trabalho contribuiu por mostrar uma forma de operacionalizar categorias e variáveis trazidos pelas teorias que tratam de campos de ação estratégica, sobretudo com respeito ao estado de emergência de um campo. Mesmo os principais autores dessa teoria tendo trazido orientações metodológicas para apoiar o trabalho do pesquisador (FLIGSTEIN, McADAM, 2012), há lacunas no que diz respeito à operacionalização das fases que compõe o estado de emergência do campo. Nesse sentido, entende-se como uma contribuição à construção de teoria ao redor da emergência de um campo de ação estratégica o desenho do modelo operacional apresentado na seção de metodologia, utilizado tanto para as pesquisas bibliográficas como para as de campo.
Este modelo incorpora elementos não explicitados por Fligstein e McAdam (2012). A primeira é a opção de tratar os processos de mobilização e de formação de acordo como duas fases analiticamente separáveis da emergência de um campo. Ao ser feita essa opção de operacionalização e análise, permitiu-se elaborar recortes temporais que mostraram as lógicas de envolvimento dos atores e dos capitais.
Nesse sentido, foi observado que atores pioneiros, alguns deles internacionais, mobilizaram outros atores, principalmente os que atuam do Estado brasileiro, em torno da produção e consumo de dados abertos. Num segundo momento, outros agentes se juntaram ao campo emergente quando a ideia já estava mais disseminada e já se começava a perceber a necessidade de estabelecer uma rotina. Observou-se que mesmo após o início da fase de estabelecimento de acordo ainda persistiam práticas que foram observadas no momento de mobilização, principalmente as associadas à evangelização com o intuito de trazer mais atores ao campo, sobretudo atores que possuem capitais relevantes para sua consolidação. Assim, o processo de emergência do campo não pode ser visto como sendo rigidamente linear. O refinamento do delineamento do processo de emergência de campo em duas fases analiticamente distinguíveis permitiu a constatação de que a emergência de aspectos distintos da fase de mobilização, mesmo após o início da fase de configuração do campo é desigual, ou
seja procede em ritmos distintos: enquanto já se procura estabelecimento de acordo ao redor de determinadas questões, continua a ocorrência de ações de mobilização ao redor de outras.
Entende-se que essa situação pode estar associada ao grande número de pontos de acordo relacionados ao campo. Na pesquisa foram levantados mais de quarenta pontos de agenda para acordos de estabilização do campo. Parece lógico que alguns pontos adquiram maturidade para acordos enquanto outros pontos vão conviver durante algum tempo com práticas ligadas à atração de atores ao campo. É possível mesmo que vários pontos nem mesmo cheguem a acordos. Nesse sentido, este trabalho propõe que a segunda fase da emergência de um campo seja denominada a de negociação de acordos, no plural, de forma a comportar a complexidade e diferença de maturidade em torno dos pontos de agenda que surgem na busca da estabilidade do campo.
A segunda contribuição para a teoria de campos de ação estratégica é a evidência de que a academia tem papel importante na emergência de um campo de ação estratégica, pelo menos de um campo de base tecnológica. Esse papel não havia sido identificado por Fligstein e McAdam (2012), muito embora a academia seja reconhecida como um campo por si só (BOURDIEU, 1975). Os dados empíricos levantados nesta tese deixam claro que pesquisas e desenvolvimento de produtos e serviços realizados por universidades no Brasil e no mundo vêm contribuindo para divulgação do conceito de dados abertos e para a proposição de alternativas de sustentabilidade do campo. Algumas iniciativas, que são identificadas na pesquisa bibliográfica, podem ser associadas ao interesse da estruturação da chamada tríplice hélice que articula empresas, universidades e Estado em prol da inovação tecnológica. Não é improvável que este envolvimento da academia aconteça também em outros campos de ação emergentes, especialmente os que formam ao redor de políticas públicas, sendo algo a ser observado em futuras pesquisas sobre campos de ação estratégica emergentes.
Cabe ainda destacar uma contribuição importantes que já foi de alguma maneira sinalizada quando se tratou do alcance dos objetivos da pesquisa. Trata-se da participação das UIGs na emergência do campo. Fligstein e McAdam (2012) indicam a presença dessas organizações na emergência do campo, mas não mostram como elas são engajadas nesta fase. A pesquisa evidencia que para o campo focado esse engajamento inicialmente tomou a forma de expansão das ações de UIGs já pré-existentes que atuam em campos afins, como é o caso do Banco Mundial, W3C e CGU, principalmente para a fase de mobilização. Já na fase de estabelecimento de acordo, observou-se o surgimento de UIG criada especificamente para a rotinização de aspectos próprios ao campo, no caso a formação da INDA, que resultou, em parte, de ações das UIGs originárias de campos afins. Além de novamente demonstrar a
utilidade de distinguir analiticamente as fases do estado de emergência de um campo, em desvendar a dinâmica envolvida na atuação e surgimento de UIGs durante esta fase do campo em estudo, contribui para o desenvolvimento de teoria.
Finalmente, entende-se que o arcabouço teórico elaborado para a tese foi útil para a compreensão da mobilização de forças favoráveis à elaboração de políticas públicas sobre a abertura de dados governamentais e das estratégias utilizadas pelos interessados nessas políticas públicas. Dessa forma, acredita-se que este trabalho contribui por reforçar o entendimento de uma política pública como um campo de ação estratégica e que a teoria escolhida é uma forma válida de se estudar fenômenos associados à formulação e implementação de políticas públicas, trazendo um olhar diferenciado que complementa modelos já existentes sobre este processo.
Com respeito ao campo de ação estratégico emergente de dados governamentais abertos, entende-se que o alcance dos objetivos a que se propôs esta tese permite compreender os movimentos para mobilizar e estabelecer acordo sobre a produção e consumo de dados abertos. Esse estudo mostrou quais são os atores envolvidos nesta tentativa tanto no Brasil como no mundo, o impacto das novas tecnologias, os caminhos já percorridos, os diversos capitais (recursos) relevantes para o campo e as possíveis influências que podem ter sobre a consolidação ou não do campo e na sua eventual conformação. Mostra também como a produção e consumo de dados abertos se relacionam com o que foram chamadas neste trabalho de “as funções da transparência”.
O trabalho contribui ainda com o levantamento — a partir de narrativas que tendem a dominar as pautas dos acordos que influenciarão a estabilização do campo — de uma extensa agenda para negociação e ação. Essa agenda pode ser do interesse das partes interessadas principalmente por oferecer uma visão abrangente baseada nas funções da transparência, no uso de capitais e nas possibilidades de atuação dos diversos atores envolvidos.