A vontade de verdade em discursos que descrevem padrões de escrita “universal” como o ASCII oferece os elementos para evidenciar relações de violên-
cia simbólica nos modos de escrita do meio digital, além de permitir estabelecer relações com a visão sobre a linguagem de Deleuze, Derrida e Stiegler. Desde sua especificação inicial em 1963 até o início da década de 1990, o padrão dominante para representação digital de caracteres era o ASCII, derivado dos códigos telegráficos e capaz de representar 256 símbolos: número suficiente para traduzir letras maiúsculas, minúsculas, numerais e pontuações comuns na língua inglesa, mas insuficiente até para a representação de acentos de línguas latinas.
Com um intuito totalizante, expresso em sua própria nomenclatura, um padrão mais amplo foi desenvolvido entre 1988 e 1991 para abrigar mais de um milhão de caracteres: o Unicode, contração para Universal Code. Na proposta que originou o desenvolvimento desse padrão, Joseph Becker argumenta que o padrão ASCII é insuficiente como padrão universal, e que as pessoas ao redor do planeta precisam ter a possibilidade de se comunicar em suas línguas nativas, ainda que “exóticas” (BECKER, 1988, p. 1) como os símbolos presentes nas escritas de povos asiáticos Como justificativa para o desenvolvimento do padrão “universal”, Becker (idem, p. 2) apresenta uma tabela com o percentual relativo ao PIB global de cada sistema de escrita, como os alfabetos latino, cirílico e árabe, sem mencionar quantitativos populacionais: apenas sua inserção econômica no cenário global.
Ainda que seja possível identificar a emergência do padrão Unicode a partir dos limites do protocolo ASCII, e considerando que as tensões resultantes da expansão da tecnologia digital para povos de diversas línguas e culturas atuaram como propulsoras para a produção de padrões mais abrangentes, fica evidente no discurso de Becker uma posição relativa de classe. Não se trata, aqui,
de apontar intenções maliciosas por trás de uma proposta que almeja um acesso global à tecnologia digital. Afinal, como aponta Bourdieu (2007), o habitus se expressa, muito além dos pensamentos e ações conscientes de seus agentes, em suas atitudes inconscientes, incorporadas, normalizadas. Entretanto, ao situar o proponente do padrão Unicode como funcionário da Xerox Corporation nos EUA e confrontar sua posição relativa na sociedade com o discurso de sua proposta, fica evidente uma visão da alteridade que a caracteriza como “exótica”, fora de uma normalidade, mas detentora de um potencial para oportunidades econômicas. Assim, a violência simbólica presente na especificação ASCII ofereceu os elemen- tos para um rearranjo de disposições que produziram o formato Unicode que, por sua vez, é dotado de outros elementos de tensão social, tal como a visão de Stiegler sobre os distúrbios decorrentes do caráter protético e farmacológico da técnica.
Desde sua criação, o padrão Unicode passou a ser gradativamente mais adotado em páginas da internet, tornando-se dominante na década de 2010 a partir do declínio do padrão ASCII que era o mais usado até o início dos anos 2000, segundo levantamento da empresa Google disponível na Figura 1. Segundo Mark Davis (2012), arquiteto de software da empresa, o número crescente de páginas com o padrão Unicode é fundamental para o objetivo da Google de liderar o mercado global de catalogação de informações:
Sem ele, nosso índice unificado seria praticamente impossível – seria um pouco como não conseguir converter entre as centenas de moedas do mundo; o comércio seria difícil. Graças ao Unicode, o Google pode auxiliar as pessoas a encontrar informações em quase qualquer língua. (DAVIS, 2012, tradução nossa)
Figura 1: Evolução da codificação de linguagens em páginas de internet a partir da análise do buscador Google. Fonte: Official Google Blog <https://googleblog.blogspot.com/2012/02/unicode-over-60-percent-of-web.html>
Assim como no discurso de Joseph Becker, é possível identificar elementos que denotam uma posição relativa de classe no argumento de Mark Davis em favor do padrão Unicode. Assim como Becker, Davis produziu seu discur- so na posição de funcionário de uma grande empresa comercial de tecnologia dos EUA e o pensamento de bases econômicas também transparece no enaltecimento do Unicode, cuja função seria a de conversão de valores equivalente em um “comércio” de informações. Também pode ser relevante destacar, considerando o habitus de classe de Davis, que a moeda de referência para as conversões cambiais internacionais é o dólar estadunidense, assim como o padrão centrado na língua inglesa ASCII foi a referência para o desenvolvimento do padrão Unicode.
Também torna-se questionável o apelo à “universalidade” do padrão Unicode, quando o que ocorre é uma ênfase em línguas com determinados padrões gráficos e distribuição alfabética. Esse foco é antagônico à proposta que almeja ser universalizante, uma vez que ignora uma compreensão mais ampla sobre linguagens que podem fazer uso de outros modos de expressão, como idiomas de populações nativas do continente americano. Com uma visão que possui semelhanças às noções de Derrida e Stiegler sobre a escrita, Lynn Mario de Souza descreve o caráter múltiplo das escritas indígenas brasileiras ao afirmar que a
escrita pode ser concebida como uma forma não apenas alfabética para representar ideias, valores ou eventos. Entendido assim, a escrita sempre esteve presente nas culturas indígenas no Brasil na forma de grafismos
feitos em cerâmica, tecidos, utensílios de madeira, cestaria e tatuagens. (DE SOUZA, 2006)
Deste modo, a oralidade e outros gestos que produzem gramas, na concepção de Derrida, ficariam excluídos do protocolo para codificação de lingua- gens pretensamente universal que não prevê outros modos de registro. Ao se limitar a uma referência indiciária de caracteres, o padrão Unicode depende de outras camadas de software para a representação visual das formas tipográficas. Deste modo, emergem oportunidades para o rearranjo e a subversão de protoco- los, como a proposta do designer mexicano Manuel López Rocha.
Figura 2: Caracteres da família tipográfica Phonos, criada por Manuel López Rocha para representar grafica- mente os fonemas de povos originais do México. Fonte: <https://www.behance.net/gallery/69615103/Phonos-
Ao criar uma apresentação tipográfica com ênfase na representação fonética da língua da população Mixe, López Rocha produziu a fonte digital intitu- lada Ayuujk, com o objetivo, segundo a Secretaria de Cultura do governo mexicano (GOBIERNO de México – Secretaría de Cultura, 2016, tradução nossa), de “fortalecer a língua e evitar, em certa medida, seu desaparecimento”, que representaria uma ameaça à cultura e forma de pensamento daquele povo. Com objetivos semelhan- tes, o designer também produziu30 duas outras famílias tipográficas que represen-
tam fonemas dos povos originais do México: Phonos (2016) e Xallitic (2011). Deste modo, ao subverter os espaços normatizados e destinados a caracteres sob uma sistematização particular, substituindo-os por representações fonéticas da oralidade das línguas dos habitantes originais do México, López Rocha promove sua visibilidade no meio digital a partir da valorização de espaços outros, hetero- tópicos, numa visão foucaultiana.
Em relação às representações tipográficas de línguas outras, a ação de López Rocha representa um movimento claramente minoritário. Entretanto, mesmo ao se considerar línguas de povos cuja população seja numericamente superior às de origem latina e anglo-saxônica, suas representações tipográficas são bastante reduzidas. Como evidência, um levantamento em sites ocidentais de distribuição – comercial ou gratuita – de fontes digitais, como Google Fonts31,
30 Informações disponíveis em <https://www.behance.net/ManuelLopezR>. Acesso em 13 de se- tembro de 2018.
MyFonts32 e Dafont33 apresentam grandes assimetrias numéricas em relação a
fontes com caracteres de línguas de origem europeia e as de outros povos.
O Google Fonts é o que possui maior representatividade em relação às línguas de diferentes povos, de modo coerente com a vontade universalizante de sua estratégia empresarial. Em sua lista de línguas disponíveis para escolha tipográfica são oferecidas 24 opções que, além do alfabeto latino, incluem caracteres das línguas de povos de diferentes regiões do planeta. Entretanto, ao se verificar as quantidades disponíveis para cada tipo de escrita, do total de 899 famílias tipográficas oferecidas em meados de setembro de 2018, 874 (97,2%) incluem formas tipográficas do alfabeto latino. Outras línguas apresentam quanti- dades reduzidas, como 19 opções para formas tipográficas árabes, 8 para o japonês e 1 para a língua malaiala, originária de uma região da Índia. A soma dos quantitativos excede 899 porque muitas famílias tipográficas atendem mais de uma língua: o alfabeto latino (ou, no mínimo, os 256 caracteres do padrão ASCII) e uma língua “outra”.
Já os sites MyFonts, que comercializa famílias tipográficas, e o Dafont, que as distribui gratuitamente, não possuem tanta diversidade em suas famílias tipográficas. O DaFont possui várias categorias, dentre as quais “foreign look”, que abriga fontes de caracteres ocidentais com desenhos que remetem a representa- ções estereotipadas de outras culturas. Ali, a categorização e representação dos espaços outros ocorre a partir de uma visão de quem se percebe como o padrão,
32 Disponível em <https://www.myfonts.com/>. Acesso em 13 de setembro de 2018. 33 Disponível em <https://www.dafont.com/>. Acesso em 13 de setembro de 2018.
ou “normal”. O site não oferece uma categoria específica para famílias tipográficas compatíveis com outras línguas, como o Google Fonts. O MyFonts oferece apenas 59 famílias tipográficas que incluem símbolos comuns a povos árabes, chineses ou japoneses, de um total de 130.000 fontes disponíveis.
Como contraponto, buscamos averiguar as desigualdades em um portal destinado ao público chinês: Chinaz.com34. Com auxílio – e limitações – da
tradução embutida no navegador de internet, foi possível identificar que o site oferece duas categorias tipográficas principais: fontes “chinesas” e “inglesas”, em que a seção “inglesas” representa a totalidade das línguas “não-chinesas”. Como resultado da análise, mesmo em um local com língua e acervo dedicados a um público específico, as fontes marcadas como “chinesas” totalizam 3.300, enquanto as fontes “inglesas” somam 14.984. É possível deduzir, a partir da classificação binária presente no site chinês, um reconhecimento tácito da língua inglesa como um padrão de facto para comunicações via internet, uma disposição estruturada nos habitus individuais e de classe de quem construiu o site e inscrita na materia- lidade do código daquela página, como reforço de um discurso. Além disso, os acúmulos indicados pela desproporcionalidade de caracteres “ingleses” em um portal voltado ao público chinês reforçam que o anglocentrismo que caracteriza o discurso perene às tecnologias digitais não se resume às suas manifestações ocidentais.
A análise quantitativa de famílias tipográficas permite inferir as tensões, acúmulos e tendências relacionadas aos modos de escrita no e do meio digital. Ainda que as disposições incorporadas em agentes humanos e técnicos ofereçam caminhos tanto para sua conservação como para sua subversão, as tensões que se manifestam em padrões enviesados e os acúmulos que favorecem alguns modos de expressão em desfavor de outros indicam as tendências dos jogos de forças que o constituem. A emergência de ações produtivas como a de Manuel López Rocha pode ocorrer a partir do desvelamento dessas diferenças, em que os acúmulos e tendências em uma direção evidenciem as oportunidades de rearran- jos e fortalecimento de espaços outros, heterotópicos.