Como contraponto às inclinações políticas que se manifestam em alguns expoentes do modelo de desenvolvimento de código aberto, evidenciare- mos a disputa simbólica e política de seu discurso com o de defensores da perspectiva do software livre, ou free software. Essa proposta, que antecede o movimento open source em mais de uma década, foi promovida a partir da criação da Free Software Foundation (FSF), organização fundada e presidida pelo progra- mador e ativista estadunidense Richard Stallman em 1985, antes do advento comercial da internet e da World Wide Web.
O objetivo inicial da FSF era arrecadar doações para o projeto GNU39,
também idealizado por Stallman como reação específica às práticas mercadológi- cas de controle legal e técnico de empresas sobre os softwares por elas comercia- lizados no modelo proprietário e fechado. O projeto GNU tinha como objetivo inicial a criação de um sistema operacional compatível com os padrões estabele- cidos pelo sistema Unix, o mais usado à época, mas que permitisse aos seus usuários as liberdades de execução, estudo, modificação e compartilhamento, compondo a sua definição de software livre. A motivação de Stallman para criar o projeto GNU e a FSF foi sua percepção da assimetria nas relações de poder entre produtores e usuários, pois na distribuição de softwares sob o modelo proprietá-
39 GNU é um acrônimo recursivo que significa “GNU is Not Unix”, para reforçar que o novo sistema operacional não se basearia nas práticas do Unix, comercializado pela Bell Labs
rio os usuários são impedidos de executar, estudar, modificar e compartilhar esses programas por artifícios legais (a partir das restrições impostas pelas licenças de uso) e técnicos (a partir da indisponibilidade dos códigos originais). Além disso, a noção de software livre também se relaciona aos ideais de transpa- rência, privacidade e inclusão digital.
O objetivo inicial do projeto GNU não foi plenamente executado, pois o núcleo do sistema operacional GNU, intitulado Hurd, não foi concluído até a escrita deste texto. Entretanto, a produção de maior alcance da FSF e do projeto GNU foi a licença GPL40 (GNU Public License) para a distribuição de softwares livres
que, em trocadilho com o termo copyright, seriam regidos pela lógica do copyleft. Pela perspectiva copyleft, a licença GPL garante que os softwares por ela distribuí- dos ofereçam as liberdades de execução, estudo, modificação e distribuição mas impõe uma restrição: seus efeitos são irrevogáveis e transmissíveis, ou seja, todo código sob uma licença copyleft é impedido de ter suas modificações distribuídas sob uma licença proprietária. A GPL foi a licença usada por Linus Torvalds para distribuir o núcleo Linux e, por isso, sua irrevogabilidade e transmissibilidade obriga empresas como a Google e Red Hat a liberar o código-fonte de suas versões modificadas do software mesmo que sejam comercializadas em formato binário, como é o caso dos sistemas Android e Red Hat Entreprise.
Ainda que a licença GPL não imponha limites à comercialização de softwares em suas definições, a defesa veemente da prática do copyleft pela FSF
originou a dissidência política que deu origem ao movimento ligado ao código aberto e à fundação da Open Source Initiative em 1998. Embora os critérios para definir uma licença como livre, na perspectiva da FSF, ou de código aberto na da OSI englobem basicamente o mesmo conjunto de licenças, a diferença fundamen- tal entre as perspectivas das duas entidades é que somente a FSF se posiciona de forma enfática em favor das licenças que adotam a prática do copyleft. A postura combativa da FSF, que se confunde com a figura pública de seu fundador Richard Stallman, é vista por uma parcela de atores do mercado como contestadora de práticas capitalistas ligadas à propriedade intelectual, uma vez que o copyleft faz uso dos artifícios legais do copyright para anular seus efeitos. Além disso, embora o termo em inglês free seja usado com o sentido de liberdade, possui o caráter ambíguo de também ser compreendido como gratuidade.
Para a dissidência ligada ao movimento de desenvolvimento de código aberto, a restrição do copyleft representa um paradoxo que reduz a liberdade de quem criou o código. Trata-se de uma sutileza de pontos de vista e terminologias que, ao serem analisadas, revelam posicionamentos políticos bastante distintos. Enquanto a escolha terminológica da OSI opõe os modelos de produção de código aberto e fechado, a FSF usa o dualismo livre/proprietário para se referir aos usos dos softwares: desta forma, as escolhas da OSI enfatizam as metodologias de produção do software, enquanto as da FSF fazem referência à propriedade e controle sobre os usos dos códigos computacionais. A postura política da FSF na defesa do copyleft, portanto, diverge do laissez faire absoluto caro à OSI, que
considera a proposta de Stallman uma indesejável interferência regulatória sobre a atuação de seu “bazaar” ideal.
Além disso, as perspectivas se opõem em relação ao seu público: enquanto a fundamentação de Eric Raymond sobre os benefícios do modelo aberto de desenvolvimento é claramente direcionada a quem ocupa a posição relativa, ou habitus de classe, de produtora de software; as proposições de Stallman são explicitamente direcionadas às “liberdades essenciais dos usuários” (2016, tradução nossa), ou seja, a quem atua no papel de consumo de software. Ambas perspectivas consideram a possibilidade de um papel duplo de produção e consumo de softwares em seus discursos, mas a ordenação de cada uma eviden- cia a predominância de valores opostos. Para a OSI a liberdade de produção é mais importante que a de consumo ao passo que a lógica do copyleft busca intervir sobre uma assimetria de poder entre produtores e consumidores de software.
As diferenças entre as perspectivas da FSF e da OSI também podem ser avaliadas de acordo com suas compreensões sobre a ideia de liberdade. Afinal, como suas noções são construídas a partir das posições distintas de quem produz e de quem consome, essa divergência reflete oposições históricas da economia política sobre o apoio ou crítica ao livre mercado, remetendo ao que Zygmunt Bauman (2012) descreveu como a oposição entre a liberdade negativa – ser livre de algo – e a positiva – ser livre para fazer algo. Embora tanto as licenças de código aberto como as de software livre permitam enquadrá-las como positivas, já que relacionam as liberdades de ação de quem elabora e usa os softwares, a
inclusão do copyleft pela FSF acrescenta o caráter negativo à sua visão sobre a liberdade. Ao priorizar o ponto de vista de quem usa o software, a concepção da FSF sobre a liberdade não apenas considera suas características positivas como também defende que o uso do software deve ser livre dos abusos motivados por assimetrias de capital econômico. O copyleft, portanto, possui um caráter ambiva- lente que remete às paradoxais noções de liberdade negativa e da visão de Derrida sobre o suplemento em sua différance, uma vez que se trata de uma visão sobre a liberdade que também aponta para aquilo que ela não é.
Sob a visão que fundamenta o copyleft, quem ocupa uma situação privilegiada na distribuição assimétrica de poder, ou seja, quem produz o softwa- re, não deve ser livre para agir de modo a ampliar ainda mais essa assimetria. Portanto, a prática do copyleft busca intervir para que a liberdade negativa de quem ocupa uma posição fragilizada nas relações de força tenha primazia sobre a liberdade positiva de quem se beneficia dessas desigualdades: quem consome software deve ser livre de eventuais abusos de quem o produz. Assim, aproxi- mando-se da visão de Stiegler, o copyleft possui um caráter técnico e político de intervenção sobre a escrita da realidade sociotécnica com o objetivo de reduzir assimetrias de poder. Deste modo, as práticas e discursos de outras ações políti- cas que envolvem o meio digital com objetivo de mitigar esses desequilíbrios, com temas que podem incluir discussões sobre privacidade, inclusão, representativida- de, partilha de conteúdos, transparência e outras questões ligadas à escrita digital tendem a demonstrar afinidade com as ideias de copyleft e de software livre.
Dada a sutil diferença nas abordagens entre as noções de software livre e de código aberto sob as definições da FSF e OSI, respectivamente, é comum que os termos sejam usados como sinônimos no âmbito dessas outras ações políticas. Nas ocasiões em que não são considerados equivalentes, também é frequente o uso das siglas FOSS (Free and Open Source Software) ou FLOSS (Free/Libre and Open Source Software) para se referir ao conjunto de licenças e práticas de software que favorecem essas diferentes ações. Desta forma, uma vez que essas ações de caráter tecnopolítico buscam intervir sobre a distribuição de forças sociais, é possível associá-las ao caráter de liberdade negativa do copyleft uma vez que recusam o laissez-faire como opção para reduzir desigualdades.