2. Dimensão Reflexiva – Parte I
2.3. Atuação
2.3.11. Outros aspetos importantes em contexto Creche
Dar valor aos pequenos progressos, respeitando o tempo das crianças
Ao iniciar a prática pedagógica em creche, um dos receios que senti prendia-se com o facto de como proporcionar aprendizagens a crianças tão pequenas: Que momentos escolher para proporcionar aprendizagens? Que aprendizagens proporcionar? Que atividades promover para desenvolver determinadas competências?
Em primeiro lugar, não existe um momento único de proporcionar experiências educativas. Se olharmos para as rotinas em creche, podemos constatar que estas se caracterizam por propiciar o desenvolvimento de competências e aprendizagens durante a sua execução. É nestes momentos que as crianças realizam as aprendizagens que por vezes lhes são mais significativas. Um exemplo claro foi o de uma criança que num destes momentos conseguiu autonomizar-se relativamente ao adulto na tarefa de calçar- se. O que poderia ser um episódio comum, calçar os sapatos, para aquela criança assinalou a ultrapassagem de um obstáculo que a impedia de ser um pouco mais autónoma. Naquele momento a criança realizou uma aprendizagem que lhe foi importante. Com crianças tão pequenas, estas aprendizagens que realizam são fundamentais, não só para a sua autonomia, como referido anteriormente, mas também para a sua autoconfiança, devendo o educador valorizá-las.
Em segundo lugar, todas as atividades promovidas devem ser pensadas a longo prazo, ou seja, não se deve pensar que tendo uma intencionalidade educativa, as crianças desenvolvem as competências subjacentes a essa mesma intencionalidade instantaneamente.
Um exemplo representativo desta ideia é a compreensão de histórias. Ao logo desta prática uma intencionalidade proposta foi a compreensão de histórias lidas, que seria
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avaliada através de questões de interpretação (nível literal). Na primeira semana em que esta atividade foi posta em prática as crianças não conseguiam responder às questões de forma autónoma, necessitando do auxílio da estagiária para encontrar a solução. Não desistindo da intencionalidade inicialmente estipulada, diversas atividades de leitura de histórias foram desenvolvidas nas seguintes semanas de intervenção. No final desse período de intervenção na prática pedagógica de creche, foi possível observar a facilidade com que estas crianças apresentavam as respostas às questões colocadas, sendo possível avançar para questões mais pessoais, ou seja, gostos, interesses, entre outros. Para além da capacidade de compreensão das histórias, as crianças ainda aumentaram o seu tempo concentração e compreensão do que estavam a escutar.
Ao longo destas atividades as crianças foram realizando pequenos progressos, que como disse anteriormente devem ser valorizados, e que não se desenvolveram num período curto de tempo, mas sim no tempo devido para tal. As aprendizagens das crianças, ainda que pequenas, e o tempo que levam a ser alcançadas, devem ser aspetos que um educador deve respeitar e dar valor.
Brincar
Segundo Queiroz, Maciel & Branco (2006, p. 169), “(…) a infância é marcada pelo brincar, que faz parte de práticas culturais típicas (…)”. Como tal, esta prática deve ser tida em conta pelo educador, pois representa um elo de ligação entre a escola e o lar. Para além disso, as crianças em idade de creche, desenvolvem através do brincar muitas competências cognitivas, afetivas ou mesmo sociais.
Ao longo da prática foi possível observar uma evolução positiva nas crianças de 2 anos no brincar, na forma como estas comunicam com as outras crianças, no desenvolvimento de competências observado nestes momentos, e no aumento da sua autoconfiança. Apesar do egocentrismo, característico destas idades (Tavares, Pereira, Gomes, Monteiro & Gomes, 2007), as crianças começaram a demonstrar competências sociais, ao conviver e colaborar com os seus pares nesta tarefa (brincar), como relatado no subtópico Trabalhar em grande/pequeno grupo – Creche, página 25).
Como educadora, o interagir com as crianças nestes momentos, é essencial. Em primeiro lugar, o adulto ao se relacionar com as crianças nestas “brincadeiras”
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proporciona a construção de uma confiança entre ambos, que permite à criança passar e ultrapassar “(…) frustrações e desafios necessários para o crescimento e desenvolvimento (…)” (Post & Hohmann, 2000, p.63), uma vez que quanto maior a confiança no adulto, maior a autoconfiança em si e nas suas capacidades (Papalia, Olds & Feldman, 2001). Para além disso, o educador pode aproveitar estes momentos para proporcionar desafios individuais. Neste ponto o educador já tem de ter informações a todos os níveis sobre as crianças com quem está a trabalhar, de forma a diferenciar as interações, pois nem todas as crianças são iguais. Assim, o educador ao brincar com a criança pode orientá-la de modo a desenvolver competências num domínio específico, em que apresente maiores dificuldades. Um exemplo do que estou a referir, foi uma atividade de brincadeira livre realizada num salão da creche, em que por observação, sabia que esta criança ainda não tinha completamente desenvolvida a capacidade de lançamento da bola. Tendo esta intencionalidade em vista, comecei a brincar com a criança com a bola. Após algumas tentativas e com algumas instruções, a criança começou a conseguir lançar com maior facilidade, e a atividade que por esta criança não era realizada, na medida em que se caracterizava por constituir um obstáculo até então intransponível para a mesma, passou a ser encarada como algo positivo, em que a criança ganhou uma maior confiança nas suas capacidades.
Em creche, brincar torna-se, não só um refúgio em que as crianças se sentem bem, mas onde se pode proporcionar desafios que as levem a desenvolver-se, podendo e devendo o educador partir do brincar para permitir o desenvolvimento de competências por parte das crianças, proporcionando também aprendizagens comuns a todo o grupo ou específicas de cada criança, de forma a que estas se sintam confiantes, uma vez que estão num mundo seu conhecido.
Exploração de diferentes materiais
A exploração de materiais com crianças tão pequenas é fundamental. É através dessa exploração que as crianças vão conhecendo o espaço que as rodeia:
À medida que os bebés são capazes de se movimentar por si próprios, demonstram curiosidade acerca do mundo. Não mais limitados à exploração oral, eles agora apertam, batem, esfregam, abanam e atiram os objetos (Papalia, Olds & Feldman, 2001, p. 208).
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Um estudo realizado por Tamis-LeMonda & Bornstein (1993, citado por Papalia, Olds & Feldman, 2001), refere que as crianças, a quem foram dadas mais oportunidades de explorar o meio quando bebés, apresentam em idades avançadas uma maior competência exploratória do que outras que não tiveram as mesmas oportunidades. Nesta perspetiva, o educador deve promover explorações diversificadas de materiais, jogos, entre outros, como forma de equilibrar possíveis desigualdades de experiências exploratórias entre as diversas crianças. Veja-se outro exemplo observado na prática pedagógica em contexto creche. Numa das atividades propostas, pretendia-se que as crianças explorassem diferentes materiais. Alguns desses materiais eram, em princípio, mais comuns (areia) e outros mais distantes do universo de conhecimento das crianças (bolas que absorvem água, inchando). Durante esta exploração, primeiramente livre e depois orientada (através de questões ou sugestões de exploração), foi possível observar diferenças entre as crianças. Enquanto algumas mostraram conhecer areia, outras, pela sua surpresa, questionamento, e sabendo eu, por outros intervenientes, que essas crianças nunca tinham ido à praia, a areia era algo desconhecido pelas mesmas, evidenciando assim a importância do papel do educador em proporcionar vivências diversificadas a todas as crianças, proporcionando-lhes conhecimento do mundo que as rodeia.