• Nenhum resultado encontrado

2. Revisão da Literatura

2.6 Consequências do Assédio Moral

2.6.3 Outros Efeitos

2.6.3.1 Efeitos além da Vítima

A maior parte dos estudos centra-se nas consequências do assédio moral nas vítimas (Boudrias et al., 2021), pelo que são menos conhecidas as consequências entre as pessoas indiretamente afetadas pelo fenómeno (observadores; cônjuges). Segundo as autoras, o bem-estar de pessoas próximas da vítima também é afetado. Há estudos que revelam que decorrente da exposição diária da vítima ao assédio, os cônjuges das mesmas reportam mais conflitos em casa, devido a um maior distanciamento psicológico entre o casal.

Considerando os observadores, um grande número de pessoas reporta ter assistido a casos de assédio moral, uma vez que uma das estratégias mais frequentemente utilizada pelas vítimas prende-se com a partilha da experiência com os colegas, o que sugere que um largo número de pessoas é indiretamente afetada pelo assédio (Hoel & Cooper, 2001). Dada a necessidade do alvo em procurar apoio nos demais colegas, é difícil um colega não se envolver ou manter-se neutro no conflito (Gupta et al., 2020). Assim, pode haver um efeito em cascata, dado que as testemunhas reportam níveis mais elevados de stress generalizado do que as pessoas que não observaram situações de assédio (Hoel et al., 2003; Hoel et al., 2010).

Os observadores, cientes da sua própria vulnerabilidade e com medo de se tornarem alvos, podem optar por ignorar a situação em vez de intervirem em nome das vítimas ou, em algumas circunstâncias, até participarem no assédio (Einarsen et al., 1994). Alternativamente, as testemunhas podem sofrer em silêncio, com stress e problemas de saúde mental, reduzida satisfação no trabalho e aumento da intenção de saída, como possíveis consequências.

Noutros casos, colegas não expostos podem estar sujeitos a stress se convocados como

52 testemunhas quando o caso estiver sob investigação pela liderança sénior (Hoel et al., 2010).

Estudos mostram que três em cada quatro vítimas ou observadores de assédio simplesmente saem ou são convidados a sair, para além dos danos causados nos colegas e nas famílias (Rhodes et al., 2010).

Investigações recentes, embora ainda escassas, têm tentado compreender as consequências do assédio moral nos perpetradores (Nielsen & Einarsen, 2018). Glambek et al. (2016) referem que se poderia esperar que os perpetradores poderiam também arriscar-se à expulsão do trabalho, tal como sucede com as vítimas, que apresentam um elevado risco de expulsão da vida profissional, quer do emprego atual, quer do mercado laboral (Leymann, 1990). Dado o assédio moral ser proibido, do ponto de vista legal, em muitos países, será que os perpetradores sobrevivem nos seus cargos, enquanto as vítimas saem? O estudo de Glambek et al. (2016) com um espaçamento temporal de cinco anos, revelou que os perpetradores não correm o mesmo risco de exclusão da vida laboral que as vítimas de assédio moral, quer porque os perpetradores formam uma aliança com a gestão de topo, quer porque essa mesma gestão pode não ter conhecimento da situação, dadas as baixas médicas ou as saídas voluntárias das vítimas. Assim, segundo os autores, ser perpetrador de assédio não aumenta a probabilidade de dias ausente por doença, nem aumenta a probabilidade de mudar de empregador ou de ficar desempregado no longo prazo.

2.6.3.2 Efeitos além do Local de Trabalho

A maior parte dos investigadores dedicaram a sua atenção às consequências ocupacionais e à saúde das vítimas de assédio moral (Nielsen & Einarsen, 2012), pelo que pouco é sabido acerca das consequências do assédio moral fora do domínio do trabalho.

Dados os elevados níveis de stress criado pela vivência do processo de assédio, é possível presumir-se que este stress possa ter repercussões na família e na vida pessoal da vítima. Na análise sistemática realizada por Boudrias et al. (2021), as autoras referem que as vítimas de assédio moral experienciam tensão familiar, podendo existir transferência de reações emocionais do local de trabalho para o domínio familiar e, assim, criar conflitos em casa. Os trabalhadores expostos a situações de assédio moral gastam muito dos seus recursos a lidar com a situação stressante no trabalho e depois têm menos recursos disponíveis para as

53 exigências familiares. Contudo, são ainda escassos os estudos destas consequências fora do domínio do trabalho.

2.6.2.3 Efeitos Positivos?

Uma pletora de estudos ressaltou o lado mais obscuro do assédio moral por repetidamente avaliar as consequências individuais e organizacionais (Nielsen & Einarsen, 2012; Verkuil et al., 2015). É evidente a partir de pesquisas mais recentes que o fenómeno do assédio moral no local de trabalho está para ficar e não será facilmente eliminado (Nielsen et al., 2019). Esta assunção levanta, então, a questão de como as vítimas de assédio moral no local de trabalho poderão converter as consequências desfavoráveis em resultados positivos e usar esse assédio moral a seu favor no local de trabalho. Os efeitos negativos do assédio podem ser reduzidos e convertidos em efeitos positivos se as vítimas perceberem o assédio como um desafio e não como um fator de stress.

Num estudo realizado por Majeed and Naseer (2021) com uma amostra com trabalhadores do sector da banca, telecomunicações e institutos educativos, os autores procuraram expandir os conhecimentos do assédio moral acerca de quando e como o assédio pode produzir resultados positivos. Apesar de compreenderem que o assédio é ilegal e nefasto, consideram que se as vítimas o percecionarem como um desafio, podem tomar este fenómeno negativo em seu proveito, defendendo que cabe à vítima a forma como ela percebe a experiência do assédio. Os autores ressaltam que o stress positivo motiva os funcionários a utilizarem os seus recursos como a positividade, o capital psicológico e a resiliência, o que resulta em comportamentos positivos. O estudo corroborou que as vítimas de assédio moral no trabalho podem obter resultados positivos quanto ao sucesso na carreira, ao desempenho no trabalho e à criatividade, se estas percecionarem o assédio como um fator de stress desafiante, possuindo capital psicológico para tal. Esta relativamente inexplorada e nova perspetiva abre um novo caminho na literatura. Ressalva-se, contudo, o contexto cultural onde foi realizado o estudo, marcado pela elevada masculinidade, distância ao poder, aversão à incerteza e orientação cultural coletivista, que torna o assédio mais expectável e tolerável.

Uma questão final é perceber-se se pode existir algum efeito positivo declarando-se a si próprio como vítima. Será que o assédio moral está sobre ou sub-representado? Há alguma evidência de que as vítimas de assédio hesitam em rotular-se a si próprias como

54 vítimas, especialmente se o assédio for subtil, de baixa intensidade e de forma indireta na agressão. Dado que o ser vítima pode significar não ser aceite por colegas e superiores e significar que se é incapaz de resolver os problemas da sua própria vida, assume-se que o assédio moral tenderá a estar sub-representado. Leymann (1996) refere mesmo que as vítimas tendem a esconder o seu problema o mais que conseguem. MacMahon et al. (2021) ressalta que apesar da duração significativa do assédio moral, os estudos apontam uma forte relutância dos trabalhadores em reportarem essas situações, mesmo em sectores onde existe forte adesão ao movimento sindical.

Contudo, pode pensar-se que o ser vítima também pode trazer implicações positivas.

Na maior parte dos países europeus, é de entendimento geral que o ser-se vítima de assédio acontece quando um trabalhador inocente é assediado por um perpetrador injusto ou organização injusta. Poder-se-á utilizar esta vitimização para se obter objetivos pessoais como, por exemplo, receber uma pensão mais precocemente ou para se ganhar um caso de despedimento em tribunal. A vítima não inicia nem escala um conflito, é justa e inocente, sofre com a situação e, com isso, ganha empatia. Está numa posição sem poder e não pode fazer nada contra a força superior do seu opressor, pelo que não será da sua responsabilidade solucionar o problema, cabendo a responsabilidade à gestão, protegendo, assim, igualmente, a sua autoestima.

Há, assim, o problema epidemiológico de que algumas vítimas tendem a esconder o seu estatuto de vítima. Contudo, também existe o problema prático de que alguns indivíduos veem no assédio moral uma forma de conseguirem alcançar os seus objetivos, o que significa que algumas pessoas que dizem ser vítimas podem na realidade não o ser.

55