PARTE I – Termos, noções e conceitos 11!
I. 1.3! Ouvido Interno 18!
auditivo. O fluído e as células nervosas dos canais semicirculares não têm função na audição. Desempenham unicamente funções na detecção de movimentos e na manutenção do equilíbrio do corpo.
A cóclea tem a forma de caracol ou de um tubo enrolado em espiral. Quando esticada pode atingir aproximadamente três centímetros e meio de comprimento (Warren 2008, p. 9). Tem como função, converter a energia mecânica gerada pelos movimentos dos ossículos vestibulares em impulsos electroquímicos, que irão ser transmitidos pelo sistema nervoso central até aos centros auditivos do cérebro (Emanuel, Maroonroge e Letowski 2009, p. 317; Plack 2004, pp. 5-6; Mathews 1999, p. 1; Pierce 1999, p. 89). Encontra-se dividida, em toda a sua extensão por três secções preenchidas por líquido (Figura 4).
Figura 4. Corte longitudinal da cóclea. Adap. de Mathews (1999, p. 6).
A primeira secção denomina-se canal vestibular (scala vestibuli) e está ligada à janela oval. A última secção, chama-se scala tympani (canal timpânico) e encontra-se ligada à janela redonda. Estas duas secções, unem-se apenas no fim da cóclea através da helicotrema. Encontram-se ainda, separadas por uma terceira secção denominada de canal médio (scala media) ou ducto coclear (Warren 2008, p. 9).
A separação entre as três secções referidas é efectuada por duas membranas. A separar o canal vestibular do canal médio encontra-se a membrana de Reissner e entre o canal médio e o canal timpânico encontra-se a membrana basilar. A membrana basilar é muito importante, pois é ela que suporta o órgão de Corti (órgão receptor da audição) (Figura 5).
Figura 5. Representação do Órgão de Corti. Adap. de Maroonroge, Emanuel e Letowski (2009, p. 292).
O órgão de Corti situa-se no canal médio. É nele que se localizam as células ciliadas. Quando agitadas por vibrações mecânicas produzem os impulsos nervosos enviados para o cérebro. Existem dois tipos de células ciliadas: as células ciliadas exteriores e as células ciliadas interiores. Existem três filas com aproximadamente 12000 células ciliadas exteriores (Warren 2008, p. 10; Plack 2004, p. 8). Estas, possuem filamentos musculosos. Quando são estimulados, os filamentos contraem-se produzindo pequenos sons. Esta é a causa dos conhecidos zumbidos ou tinidos (tinnitus).
Segundo Mathews (1999, p. 9) as células ciliadas exteriores têm como função compensar possíveis perdas de energia mecânica, que possam acontecer ao longo da membrana basilar e por outro lado, controlar a intensidade sonora através da diminuição da vibração sobretudo, quando nos expomos a sons de elevada intensidade. Embora sejam em muito maior número do que as células ciliadas interiores recebem apenas 5% das enervações das fibras do nervo auditivo.
As células ciliadas interiores distribuem-se ao longo de uma fila com aproximadamente 3500 células (Warren 2008, p. 10; Plack 2004, p. 8). Estas células recebem 95% das enervações das fibras do nervo auditivo, sendo elas as principais responsáveis pela produção da sensação de audição. Quando danificadas provocam perdas auditivas acentuadas e irreversíveis.
As células ciliadas estão cobertas por uma membrana delicada, flexível e gelatinosa que se chama membrana tectorial. Os cílios (tufos parecidos com cabelo que se
estendem à superfície das células ciliadas) estão encaixados na membrana tectorial. Quando um estímulo sonoro provoca oscilações na membrana basilar, a membrana tectorial move-se estimulando os cílios.
Para compreendermos melhor o fenómeno da audição é importante saber como é que a membrana basilar responde às vibrações dos ossos vestibulares, que empurram a janela oval para dentro e para fora. Este aspecto mecânico, torna-se mais fácil de entender, se se desenrolar a cóclea de maneira a adoptar uma forma cónica (Figura 6).
Figura 6. Representação cónica da cóclea. Adap. de Warren (2008, p. 8).
A largura da membrana basilar aumenta desde a extremidade basal até à extremidade distal. No entanto, apesar de ser mais estreita, a extremidade basal apresenta maior rigidez do que a extremidade distal. Segundo Hall (1990, p. 93) as vibrações provocadas pelas altas frequências estimulam sobretudo, a região junto à janela oval, por ser mais estreita e mais rígida. Pelo contrário, as vibrações originadas pelas baixas frequências estimulam a região junto da helicotrema, por ser mais ampla e mais flexível. Ao estimular a membrana basilar com um som puro (i.e., uma onda sinusoidal) a janela oval é empurrada e a membrana basilar produz uma onda vibratória que se propaga desde a janela oval em direcção à helicotrema. A membrana basilar funciona como um filtro de frequências (Plack 2004, p. 7). A Figura 7, mostra a distribuição das frequências sonoras na cóclea ao longo da membrana basilar.
Figura 7. Distribuição das frequências sonoras ao longo da cóclea e da respectiva membrana basilar. As frequências sonoras distribuem-se de forma descendente (i.e.,
das altas para as baixas frequências), desde a extremidade basal até a extremidade distal da membrana basilar. Adap. de Warren (2008, p. 12).
Os receptores de altas frequências encontram-se na extremidade mais estreita (basal) junto da janela oval e os receptores de baixas frequências na extremidade mais larga (distal) (Plack 2004, p. 7).
A vibração produzida pelas ondas sonoras propaga-se até determinado limite. A onda produzida por um som puro não ultrapassa o seu limite de propagação. Este fenómeno de corte, que Mathews (1999, p. 7) designa de “cutoff point”, explica porque é que uma onda sonora de alta frequência não consegue “mascarar” ou ocultar uma onda sonora de baixa frequência, enquanto que uma onda de baixa frequência pode mascarar uma onda de alta frequência.
A título de resumo, realçamos as seguintes ideias (Mathews 1999, pp. 9-10):
• A membrana basilar realiza uma análise espectral aos sons.
• Diferentes frequências sonoras estimulam diferentes locais da membrana basilar. Dois estímulos auditivos que se encontram próximos em frequência, perturbam mais ou menos a mesma região, mas se se encontrarem significativamente afastados cada um deles estimula uma região diferente.
• Uma frequência sonora pode mascarar ou ocultar outra frequência que se encontre próxima, mas não consegue mascarar ou ocultar uma frequência que se encontre significativamente afastada dela.
• Sons de baixa frequência podem mascarar sons de alta frequência, mas sons de alta frequência não conseguem mascarar sons de baixa frequência (Pierce e Schubert 1987, p. 7).
• Sons puros separados por frequências muito afastadas são percepcionados como sons distintos e diferenciados.
• Sons próximos em frequência, ao invés de serem percepcionados como distintos, interagem resultando na percepção de apenas um som contendo batimentos, “rugosidade” ou “aspereza” sonoras, ou seja, a percepção de um efeito de modulação de amplitude (Scharine, Cave e Letowski 2009, p. 417; Warren 2008, p. 103; Bregman 1990, p. 236). O intervalo, no qual esta percepção de interferência ocorre denomina-se banda crítica (Warren 2008, p. 72; Mathews 1999, p. 9; Bregman 1990, p. 504).