PARTE I – Termos, noções e conceitos 11!
IV. 2.3! Princípios Gestálticos de Agrupamento 47!
Os estudos da percepção realizados durante as décadas de 30 e 40 do século XX, deram origem à Escola da Psicologia Gestáltica. Esta escola centra-se na abordagem holística. Holismo é uma palavra grega que significa todo, inteiro ou total. É a ideia de que todas as propriedades de um determinado sistema, quer seja físico, químico, biológico, social, económico, psíquico, linguístico, musical, etc., não podem ser explicadas através dos seus elementos isolados. Em vez disso, o sistema como um todo determina como as partes se comportam. O todo é diferente da soma das suas partes (Palmer 2002, p. 179).
De acordo, com os fundadores da Psicologia Gestáltica, os psicólogos alemães Max Wertheimer (1880-1943), Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886- 1940), os princípios gestálticos de agrupamento são usados especialmente pelo nosso cérebro quando a informação contida nos objectos é incompleta ou insuficiente. Estes princípios baseiam-se no conceito de inferência inconsciente de Helmoltz.
Nos nossos dias, os princípios gestálticos de agrupamento são muito usados em profissões como Design e Arquitectura. Tendem a descrever como é que as pessoas percebem os padrões organizados ou os conjuntos diferenciados dos elementos visuais, em vez dos elementos isolados, que constituem o todo, ou os próprios objectos.
Gestalt é uma palavra alemã que significa "configuração" ou “padrão." No âmbito da percepção visual, os psicólogos gestálticos postularam que agrupamos os elementos em padrões, de acordo com as seguintes regras (Shepard 1999, p. 32):
• Proximidade. Elementos que se encontram localizados próximos uns dos outros são agrupados como se fizessem parte do mesmo objecto (Figura 21).
Figura 21. Princípio gestáltico de proximidade. Adap. de Palmer et al. (2003, p. 312).
• Similaridade. Elementos que se encontram igualmente espaçados entre si tendem a agrupar-se com aqueles que aparentam ser seus similares. Ou seja, elementos que partilham características visuais como a forma, cor, textura, são percepcionados como se pertencessem todas ao mesmo objecto (Figura 22).
Figura 22. Princípio gestáltico de similaridade. Adap. de Palmer et al. (2003, p. 312).
• Simetria. Apesar da distância, os elementos simétricos tendem a ser agrupados (Figura 23).
Figura 23. Princípio gestáltico de simetria. Adap. de Wagemans et al. (2012, p. 1180).
• Boa continuação. Elementos que aparentam seguir uma determinada direcção são percepcionados como estando agrupados (Figura 24).
Figura 24. Princípio gestáltico de boa continuação. Adap. de Deutsch (1999, p. 300); Shepard (1999, p. 32).
Percepcionamos a imagem que se encontra mais à direita na Figura 24, como duas linhas continuas que se cruzam, em vez de quatro linhas que se encontram no centro.
• Destino comum. Elementos que variam da mesma maneira ou que se movimentam à mesma velocidade e na mesma direcção tendem a ser agrupados (Figura 25).
Figura 25. Princípio gestáltico de destino comum. Adap. de Palmer (2002, p. 212).
No que concerne ao sistema auditivo, os princípios gestálticos de agrupamento foram utilizados por Bregman (1990) para demonstrar o seu conceito de Auditory Scene Analysis (ASA). ASA, é o processo que o sistema auditivo utiliza para analisar e organizar os elementos dos sons provenientes de um determinado ambiente acústico, de maneira a atribuir-lhes significados perceptivos (Bregman 1993, p. 11). O sistema auditivo agrupa os elementos dos sons por proximidade temporal e por proximidade de frequência (Bregman 1990, p. 76). Para demonstrar estes princípios, Bregman criou uma sequência de seis sons puros tocados alternadamente (1996, exemplo 1 - stream segregation in a cycle of six tones). Três dos sons são de alta frequência (A1, A2 e A3) e
Em que direcção estão os triângulos à apontar?
os outros três de baixa frequência (B1, B2 e B3). Ao tocar a sequência num tempo lento, os sons são percepcionados alternadamente (A1-B1, A2-B2, A3-B3). Pelo contrário, quanto tocada num tempo rápido (proximidade temporal) os sons deixam de ser percepcionados de forma alternada, passando a escutar-se simultaneamente, dois grupos de sons contínuos com registos de altura distintos (segregação sonora). Um grupo constituído somente, por sons de alta frequência (A1-A2-A3) e outro, por sons de baixa frequência (B1-B2-B3) (proximidade de frequência). Esta experiência sugere, que numa sequência temporal rápida, as componentes sinusoidais dos sons que se encontram próximas em frequência tendem a ser agrupadas (Deutsch 1999, p. 313; Shepard 1999, p. 117; Bregman 1993, p. 21; Bregman 1990, p. 52).
Deutsch, através da sua ilusão sonora designada por Octave Illusion (1999, 1981, 1974) demonstrou que o sistema auditivo também agrupa os elementos dos sons, quer por similaridade de percepção de altura sonora, quer por proximidade de localização espacial. Para o efeito, criou dois sons puros com frequências separadas por um intervalo de oitava. Os sons, escutados através de auscultadores, foram apresentados simultaneamente e distribuídos de forma alternada por cada ouvido. Ao mesmo tempo que o ouvido direito recebe o som de alta frequência (a oitava superior) o ouvido esquerdo recebe o som de baixa frequência (a oitava inferior) e vice-versa. Em termos de percepção, a maior parte dos ouvintes ouve um único som que alterna entre as duas oitavas em sincronia com a mudança de localização entre os dois ouvidos. Ou seja, ouve um som agudo num ouvido alternando com um som grave no outro ouvido (Deutsch 1999, p. 332; Deutsch 1981, p. 100; Deutsch 1974, p. 307). Esta experiência sugere que sons puros, similares em termos de percepção de altura sonora e sons que aparentam ter a mesma localização espacial tendem a ser agrupados (Scharine e Letowski 2009, p. 581; Deustch 1999, p. 334; Shepard 1999, p. 117; Bregman 1993, p. 26).
A Octave Illusion, em relação à experiência auditiva de Bregman, anteriormente mencionada, constitui um desafio auditivo maior, no sentido, de nela interagirem simultaneamente várias pistas auditivas. Para além do tempo, da frequência, temos também de lidar com a questão da localização espacial. Segundo Bregman (1990, p. 306) o principal resultado perceptivo alcançado revela o processo através do qual alguns ouvintes resolveram o “conflito” existente entre as várias pistas auditivas que se encontram presentes na ilusão. Ou seja: (1) a relação harmónica entre os dois sons puros (relação de oitava) sugere a presença de um único som, (2) a aparência de que o mesmo som alterna entre os dois ouvidos sugere que faz parte do mesmo evento sonoro e por
último (3) as localizações independentes dos sons puros sugerem a existência de dois sons separados.
Nesta ilusão, o princípio gestáltico de similaridade por percepção de altura sonora aparenta ser predominante sobre o princípio gestáltico de proximidade por localização espacial. De acordo com Bregman (1990, p. 306), se se eliminar a relação harmónica entre as duas frequências o efeito da ilusão desaparece.
Outro princípio gestáltico, designado por boa continuação, pode ser encontrado numa experiência auditiva elaborada por Warren (2008), designada por Homophonic Continuity. Neste caso concreto, estamos perante o princípio de boa continuação por percepção de intensidade sonora. Aliás, o termo homophonic, refere-se a sons que diferem unicamente em termos de intensidade sonora (Warren 2008, p. 152). Em termos gerais, a experiência consiste no seguinte: suponhamos que nos apresentam durante alguns segundos um som contínuo com uma determinada intensidade fixa. Repentinamente, o som torna-se mais intenso (durante um curto período de tempo) regressando rapidamente à sua intensidade inicial e continuando a ouvir-se por mais uns segundos antes de se extinguir. O som inicial é ouvido como contínuo, com a mesma percepção de intensidade sonora e por detrás de um som novo, que surge e desaparece subitamente (Bregman 1993, p. 15). O efeito aparente de continuação do som menos intenso mantém-se (Warren 2008, p. 151). Pelo contrário, se o aumento da intensidade for suave e progressivo a percepção da existência de dois sons não se concretiza (Bregman 1993, pp. 15-16). Esta última situação, exemplifica outro dos princípios gestálticos conhecido por destino comum. Por exemplo, se num som complexo, os parciais se movimentarem paralelamente, à mesma proporção e ao mesmo tempo, tendem a ser agrupados (Scharine e Letowski 2009, p. 581; Deustch 1999, p. 300; Bregman 1993, p. 30; Nakajima et al., 1988, pp. 1-5). Bregman (1996) demonstrou este princípio através do seu exemplo número 19, designado por “Fusion based on common frequency modulation: illustration 1”. O exemplo, baseia-se no seguinte: se as frequências das componentes de um som complexo permanecerem constantes ouviremos um único som. Se mantivermos as frequências de um determinado número de componentes constantes, enquanto aplicamos uma modulação de frequência às restantes componentes passaremos a ouvir dois sons distintos e separados (segregação sonora). Ouviremos, por um lado, um som estável e por outro lado, um som modulado. Por último, quando deixarmos de aplicar a modulação de frequência, as componentes moduladas regressam à sua posição inicial e passaremos a ouvir novamente, o som inicial.
Movimentos paralelos nas componentes dos sons promovem a sua fusão, enquanto que movimentos independentes provocam a sua segregação (Bregman 1993, p. 31).
Os princípios gestálticos, para além de desempenharem um papel importante no conceito de Auditory Scene Analysis, permitem-nos também, conhecer melhor os mecanismos de funcionamento do nosso sistema auditivo, quando confrontados, simultaneamente, com várias pistas auditivas ou efeitos sonoros provenientes, quer de ambientes acústicos naturais, quer de ambientes acústicos produzidos em situação de laboratório.