2. O Documentário de Cambridge e suas Universidades
2.5. Pós-MIT Film Section: Harvard e o departamento VES
Além do MIT, outro polo da produção dos documentários de Cambridge concentrou-se na universidade Harvard. Tanto os estudos quanto a produção cinematográfica em Harvard são atualmente representados pelo departamento Visual and Environmental Studies (VES). Diversos cineastas-autobiógrafos que passaram pelo MIT Film Section continuaram a carreira como docentes na universidade vizinha. Ed Pincus lecionou em Harvard de 1981 a 1983, após sua saída do departamento. Ross McElwee é docente desde 1986 na instituição, portando o título de “Professor de Prática cinematográfica”. Robb Moss também inicia o trabalho de docente em 1986 e atualmente detém o posto de decano do departamento. Alfred Guzzetti é outro cineasta que pode ser visto sob esta ótica e que leciona no VES, porém, diferentemente de Moss e McElwee, o cineasta começa a dar aulas da universidade ainda em 1968. A partir da produção cinematográfica e da docência de Pincus, McElwee, Moss e Guzzetti, a autobiografia continua sendo um elemento do horizonte artístico de Cambridge. Cineastas como Marco Williams, Jim Lane e Nina Davenport são exemplos de alunos do departamento VES que desenvolveram documentários autobiográficos a partir do contato com um ou mais dos professores que passaram pelo MIT Film Section.
As atividades do departamento VES também concetram trabalhos na área das artes visuais, instalações, fotografia still e cinema de animação. No caso do cinema live-action, é possível dizer que o departamento mantém uma relação estrita (porém não exclusiva) com a pesquisa e a produção – discente e docente – no campo do cinema de não-ficção, não apenas no que concerne o documentário autobiográfico. Um exemplo atual é o trabalho do Sensory Ethnography Lab (SEL), que é sediado no departamento VES e
28Esta informação está disponível na página de Moss no website do departamento VES-Harvard. Após The Same River Twice, Moss realizou documentários em conjunto com Peter Galison, cientista e professor
da universidade de Harvard. Secrecy (2008), tematiza a confidencialidade de assuntos internos do governo estadunidense, e Containment (2015) coloca em perspectiva questões acerca da produção de energia nuclear.
engaja tanto corpo docente quanto alunos em seus projetos. Liderado pelo professor/cineasta Lucien Castaing-Taylor (Leviathan [2012], Sweetgrass [2005]) o trabalho do Sensory Ethnography Lab é destaque da produção de não-ficção contemporânea, tendo obtido espaço tanto no circuito de mostras e festivais quanto em análises acadêmicas. Nos últimos anos, outros documentaristas que obtiveram certa projeção referiram-se publicamente à educação cinematográfica que tiveram no departamento VES. É o caso, por exemplo, de Joshua Oppenheimer, formado em 1997. Oppenheimer é diretor de The Act of Killing (2012) e, mais recentemente, de The Look of Silence (2015). The Act of Killing concorreu na categoria de Melhor Documentário da edição de 2013 do prêmio Oscar juntamente com outros dois filmes dirigidos por diretores advindos de Harvard: The Square, de Jehane Noujaim, sobre a crise política e social egípcia, e Dirty Wars, de Richard Rowley, sobre abusos cometidos pelas forças militares dos EUA durante a “Guerra ao Terror”, em países como Afeganistão e Iêmen. Os diretores referiram-se positivamente (SUTHERLAND, 2014) à educação cinematográfica não-ortodoxa recebida em Harvard como determinante para a visão artística dos filmes. Para além dos cineastas que compõem o corpo docente atual do departamento VES (Ross McElwee, Robb Moss, Alfred Guzzetti, Lucien Castaing- Taylor), outros realizadores significativos na história do cinema documentário passaram pelo departamento, seja por períodos mais prolongados ou como professores visitantes. É o caso de Robert Gardner, Chantal Akerman, David MacDougall, Ed Pincus, Dušan Makavejev, Raoul Ruiz e Jean Rouch.
A inclinação do departamento VES para o ensino do cinema documentário em sua teoria e prática também influenciou a obra de ex-alunos conhecidos pela realização de filmes ficcionais, como é o caso de Andrew Bujalski. Bujalski (Funny Ha Ha [2002], Mutual Appreciation [2005]) é um dos diretores relacionados ao gênero mumblecore (junto a cineastas como Joe Swanberg e os irmãos Mark e Jay Duplass), que foi desenvolvido a partir dos anos 2000, sobretudo nos EUA. O cineasta constata que a “educação em cinema documentário” que recebeu no VES moldou sua filosofia e sua metodologia como realizador (HODDER, 2005). Os filmes mumblecore são feitos a partir de uma ótica ultra-independente, orçamentos baixos, equipes mínimas e uma visão de “faça-você-mesmo” que se desdobra nas produções. As narrativas são marcadas por uma investida naturalista, por cenas que se alicerçam em longos diálogos com tons de improviso, pela filmagem em locações (tanto internas quanto externas, em um
engajamento com o mundo “real”) e por uma temática que frequentemente gira em torno de conflitos sociais, amorosos e existenciais de jovens adultos. Bujalski realizou seu filme de conclusão de curso no VES sob a orientação de Chantal Akerman no período em que a cineasta passou como professora visitante do departamento.
Ainda em 2005, Ross McElwee fala a respeito das produções de alunos e professores do departamento VES. O cineasta/docente relata que antes de um direcionamento específico em relação à exploração autobiográfica ou antropológica, o departamento “encoraja os estudantes a ver o que há de complexo e interessante sobre a vida cotidiana, e isto remonta ao legado do cinema-vérité” (HODDER, 2005). Sendo assim, é possível dizer que a produção atual do departamento VES relaciona-se com a tradição da região de Boston e Cambridge no que concerne sua aproximação com o cinema direto e seus desdobramentos como pano de fundo conceitual – algo que, como colocamos, se originou ainda com a produção de Drew e passou pela experiência do MIT Film Section. McElwee explica que os filmes dos alunos do departamento
...refletem uma paciência em observar o mundo, ao invés de tentar controla-lo e configurá-lo de maneira que ele transmita sua mensagem. (...) É cada vez mais difícil aderir a este desejo de apresentar o mundo mais ou menos calmamente e em sua complexidade, sem sensacionalizá-lo. Se há uma quase-filosofia operante vinda do departamento, é a de que existem outras maneiras de interagir com o mundo, e de que um tipo diferente de filme pode ser alcançado. [Graças ao legado de Gardner e o sucesso de Alfred Guzzetti em proteger e construir o programa de Cinema de Harvard], estas formas de fazer cinema foram mais do que estimuladas, elas prosperaram aqui, e nossos estudantes saíram e realmente constituíram marcos nestas áreas. (HODDER, 2005. O grifo é do autor. Tradução nossa.)
Diferente do viés predominantemente prático do MIT Film Section, entretanto, o cinema que foi desenvolvido em Harvard passou, historicamente, pelo diálogo mais amplo com o campo das humanidades e da arte, a partir de um viés teórico também enfatizado. Em entrevista de 2005, a autora Giuliana Bruno29, professora do departamento, ressalta o trabalho no Carpenter Center como o desenvolvimento de uma tradição de Harvard em pensar o cinema a partir da filosofia (HODDER, 2005). Como
29 O foco do trabalho de pesquisa de Giuliana Bruno concentra-se na intersecção entre cinema, artes
visuais e arquitetura. Uma de suas publicações mais conhecidas é “Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture, and Film” (BRUNO, 2002).
exemplo desta relação, é possível mencionar o caso de autores como o filósofo alemão Hugo Münsterberg, admitido como docente em Harvard em 1892 a convite de William James. Münsterberg é autor de “The Photoplay: A Psychological Study”, publicado em 1916, considerado um dos primeiros tratados de estudos de cinema. Outro caso é o de Rudolf Arnheim, teórico da arte e do cinema, que foi contratado como professor de Psicologia da Arte em 1968, e permaneceu no Carpenter Center até 1974. Já Scott MacDonald, como frisado, lança a hipótese de que o cinema da região poderia advir da noção de experiência do pragmatismo, escola filosófica desenvolvida por Charles S. Peirce e William James, que foi professor de Harvard e também criador do campo da psicologia experimental (MACDONALD, 2013. p. 7-8).
O fomento do debate crítico propiciado pelo ambiente universitário fez com que diversos dos cineastas da produção de Cambridge também dispusessem de ideias fortes sobre Cinema e as exprimissem em textos, como é o caso dos escritos de Robert Gardner e Ed Pincus. Além disso, é notável o fato de que existia, e existe, um intercâmbio entre teoria e prática que alimenta tanto os escritos de autores da região quanto seus cineastas. Pode-se dizer que a obra de maior impacto teórico sobre os cineastas da região de Cambridge que lidaram com desdobramentos do documentário moderno foi a de Stanley Cavell, filósofo estadunidense que se juntou ao corpo docente de Harvard em 1963, permanecendo na instituição até 1997. Ao longo das décadas, Cavell contribuiu de diversas maneiras para o desenvolvimento do campo dos estudos fílmicos da universidade, como na fundação do Harvard Film Archive (arquivo fílmico e cinemateca de Harvard) em 1979, em conjunto com Robert Gardner. Cavell especialmente a partir das ideias de “The World Viewed: Reflections on the Ontology of film”, é um nome ao qual cineastas e teóricos da região de Cambridge frequentemente se referenciam em seus textos como inspiração filosófica, desde a década de 1970 até períodos mais recentes30.
30Em “New possibilities for film and the university” (PINCUS, 1977), Ed Pincus evoca as ideias de Cavell
em sua exposição acerca do trabalho que estava sendo realizado no MIT Film Section, ressaltando as inovações técnicas desenvolvidas no departamento e apontando para a produção, principalmente no que diz respeito à recente experimentação com narrativas autobiográficas, como o “próximo passo” do cinema direto norte-americano. Nos dois principais textos em que Ross McElwee escreve a respeito de sua própria obra (McELWEE, 2005 e 1999), o diretor evoca trechos de The World Viewed, citando-o como inspiração motivacional para a visão artística de seus primeiros filmes. Segundo o autor Charles Warren (WARREN, 2014), McElwee assistiu às palestras de Stanley Cavell em Harvard na primeira metade dos anos 1980. No momento, McElwee ocupava-se do processo de montagem de Sherman’s March e iniciava sua carreira docente na Universidade, ainda na função de monitor de docência (Teaching Assistant).
William Rothman é outro caso de autor que apresenta uma relação estrita com a produção cinematográfica de Cambridge. Rothman doutorou-se em filosofia pela universidade Harvard, lecionou na instituição, dedicou parte de seus escritos à análise da obra de Stanley Cavell e The World Viewed (ROTHMAN e KEANE, 200031), e também contemplou diversos dos cineastas advindos do ambiente universitário de Cambridge em suas análises32. Segundo Jim Lane33, foi durante as sessões de um curso de cinema documentário lecionado por William Rothman em 1981 na universidade que ocorreu a primeira exibição pública de Diaries (1971 - 1976), de Ed Pincus. Lane, autor de “The Autobiographical Documentary in America” (LANE, 2002), também faz parte da história da produção cinematográfica – tanto teórica quanto prática – de Cambridge. O autor graduou-se pela universidade Harvard e trabalhou como teaching assistant de Jean Rouch entre 1981 e 1983, no mesmo período em que Ed Pincus lecionou na instituição, após deixar o MIT Film Section. Lane trabalhou na distribuição de Diaries (1971 - 1976), logo após seu lançamento, em 1981 e publicou em 1997 um dos primeiros artigos que busca enxergar a obra de Pincus em sua extensão (LANE, 1997).
31 Em “Reading Cavell's The World Viewed: A Philosophical Perspective on Film” (ROTHMAN e KEANE,
2000), os autores propõem uma leitura da obra de Stanley Cavell. The World Viewed é analisado em sua totalidade, capítulo por capítulo. Entendendo The World Viewed como uma obra subexplorada da teoria do cinema, Rothman e Keane buscam meditar mais demoradamente por frases e conceitos da obra de Cavell que julgam pouco explorados. É interessante mencionar, também, o trabalho de David N. Rodowick em relação à obra de Stanley Cavell. Rodowick lecionou no departamento VES na década de 2000. Em “The Virtual Life of Film” (RODOWICK, 2007), Rodowick realiza uma longa análise dos escritos de Cavell, com foco em The World Viewed. Frente ao processo de digitalização do aparato de feitura cinematográfica e dos novos questionamentos em relação à era pós-celulóide, Rodowick evoca as ideias de Cavell (bem como as de André Bazin, Noël Carroll e Roland Barthes) primeiro para uma análise da ontologia da imagem fotográfica e cinematográfica analógica, e, posteriormente, para uma meditação acerca do que permaneceu (e o que se transformou) da relação entre filme e mundo na virada para o digital.
32 É o caso da reflexão do autor acerca de Family Portrait Sittings, longa-metragem da primeira geração
de documentários autobiográficos de Cambridge, dirigido por Alfred Guzzetti e lançado em 1975 e que integra a obra “The I of the Camera” (ROTHMAN, 1988). Rothman também cita a produção autobiográfica de Cambridge na introdução de “Documentary Film Classics” (ROTHMAN, 1997). Posteriormente, Rothman organiza a publicação “Three Documentary Filmmakers: Errol Morris, Ross McElwee, Jean Rouch” (ROTHMAN, 2009), que reúne textos de autores como Charles Warren e Jim Lane sobre a obra dos três documentaristas.
2.6. Documentário moderno e antropologia em Harvard: de Robert Gardner ao