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4.3 A relação do CMBH com o universo do ensino secundário

4.3.2 Público civil, custos e movimentos estudantis

Além desses pontos, Arruda Câmara anexou um memorial escrito por Ivo Arzua Pereira, prefeito de Curitiba e presidente da Associação de Pais de Alunos do colégio militar da cidade (BRASIL, 18 maio 1963, p. 2478-2479). O prefeito parece ter exercido um papel de liderança na mobilização contra a transferência dos colégios militares, o que pode ser exemplificado pela visita que recebeu do presidente da Associação de Pais do CMBH, Vinícius Ramos, quando foi organizado um movimento nacional de protesto contra o projeto (COLÉGIOS Militares, 29 maio 1963, p. 2).

Apesar de não se encontrar uma referência explícita, por parte do governo, à revogação do decreto, este parece não ter sido efetivamente posto em ação, e o assunto não voltou à tona nos materiais pesquisados a partir de então. A análise das fontes indica que a derrota do projeto de transferência de unidades dos colégios militares para o MEC foi fruto de uma bem-sucedida articulação entre os pais dos estudantes e as autoridades públicas com capacidade de influência e interesse no tema, além do emprego da cobertura jornalística como veículo de amplificação das ideias. É interessante notar que essa resistência partiu muito mais desses grupos do que das elites militares nacionais, especialmente daquelas ligadas ao Ministério da Guerra (onde, inclusive, parece ter havido simpatias à transferência), o que evidencia que a existência dos colégios militares ainda não era um projeto plenamente consolidado no planejamento da alta cúpula militar e muito menos gozava de unanimidade. O peso financeiro e a baixa adesão à carreira militar parecem ter tensionado a legitimidade do projeto de expansão da rede de colégios militares.

Pode-se, ainda, especular sobre eventuais resistências políticas às medidas do governo de João Goulart no universo militar, mas as fontes encontradas não permitem afirmar isso com clareza. Como Rodrigo Motta (2002, p. 256) salienta, o contexto que antecedeu o golpe militar de 1964 foi marcado, no ambiente político da direita, por constantes acusações de que haveria uma infiltração comunista no MEC, evidenciada pela adoção da metodologia de alfabetização proposta por Paulo Freire (1921-1997) ou pela mobilização da UNE, em geral, favorável ao governo de João Goulart.

2011, p. 99). No quadro de crescente competição por vagas no ensino secundário, a presença de uma instituição federal de ensino naturalmente atraía as camadas médias urbanas. Mais do que a “distinção militar” ou o “despertar de vocações”, o público que desejava ingressar no CMBH parece ter se orientado por uma perspectiva mais pragmática de obter uma vaga no ensino secundário.

Esse movimento parece ter constituído uma tradição de longa data no Brasil, como é possível inferir das observações de Claudia Alves acerca do ensino secundário militar disponibilizado pela Escola Preparatória da Escola Militar da Corte, ainda no período imperial.

Os Relatórios dos Ministros da Guerra relativos aos anos posteriores a esse regulamento continuaram denotando a grande procura por matrícula na Escola Preparatória da Escola Militar da Corte. O número informado de matriculados, a cada ano, era sempre superior a duzentos alunos. [...] Apesar do caráter semiprofissional, e talvez até por causa disso, a Escola Preparatória do exército tendeu a absorver um público que não encontrava alternativas, em parte por não possuir meios, de inserção no ensino secundário oferecido nos poucos estabelecimentos estatais ou nas instituições privadas e aulas particulares existentes na Corte e nas províncias. Ainda não foi possível comprovar com segurança a afluência de alunos que se deslocavam das províncias para a Corte em busca desse ensino, cruzando as informações constantes nos relatórios dos Ministros da Guerra no período com outro tipo de documentação. Apesar disso, é possível inferir que o interesse por esse ensino era bastante expressivo e atingia regiões, às vezes, bastante distantes da capital do Império. (ALVES, 2008, p. 33).

A afluência de filhos de famílias civis no ensino secundário militar, no caso do CMBH, foi observada logo na formação de sua primeira turma, em 1956, quando foram aprovados 174 filhos de civis e apenas cinco filhos de militares (FIGUEIREDO; FONTES, 1958, p. 162-167). Nos anos seguintes, essa tendência parece ter se mantido, o que pode ser observado pelos registros do número de concluintes das três primeiras turmas do curso colegial da instituição.

Tabela 8 – Concluintes do curso colegial do CMBH Ano Alunos filhos de militares Alunos filhos de civis

1962 6 23

1963 5 23

1964 6 17

TOTAL 17 63

Fonte: Colégio Militar de Belo Horizonte, 1965, p. 55-57.

Apesar da tendência geral de entrada maciça de filhos de civis, a regra de preferência pela matrícula para filhos de militares podia produzir uma inversão desse fenômeno. Por exemplo, em 1959, o CMRJ teve 393 estudantes aprovados no exame de admissão, sendo 92 filhos de militares e 301, de civis – entretanto, naquele ano foram disponibilizadas apenas 96 vagas, de forma que apenas quatro alunos filhos de civis puderam ingressar na instituição

(BRASIL, 15 jan. 1959, p. 264). Essa inversão, porém, não parece ter sido observada no CMBH, o que poderia ser explicado pelo contingente significativamente inferior de militares presentes em Belo Horizonte, em comparação com o Rio de Janeiro.

Outro fator que pode ter exercido a atração de famílias civis para os colégios militares eram os custos envolvidos com a frequência na instituição, em um panorama com pouquíssimas opções de matrícula gratuita. Por exemplo, em 1959, o deputado Benjamin Farah elogiava os colégios militares por terem uma mensalidade bem menor do que as “absurdas” praticadas pelos colégios particulares (BRASIL, 15 jan. 1959, p. 264).

De forma a averiguar se essa percepção se aplicava ao CMBH, Wesley Silva (2001, p. 114) analisou os custos dos estudantes filhos de civis no colégio65, que se constituíam em matrícula, mensalidade, joia, uniforme, enxoval e materiais escolares. Em seguida, comparou os gastos com os valores de uma tabela de preço de diversos gêneros alimentícios na capital mineira, concluindo que os custos no CMBH realmente aparentavam ser relativamente baixos (p. 120). Uma lacuna importante na análise de Silva é a comparação direta com os custos de outras escolas secundárias de Belo Horizonte, além de despesas como o corte de cabelo e o transporte para a escola não estarem incluídas.

O CMBH contava ainda com a “Obra do Estudante Pobre” que era um fundo de amparo financeiro constituído por contribuições da comunidade escolar. O fundo era destinado principalmente para o pagamento do fardamento e do enxoval dos estudantes, que constituíam a parte mais cara de seus gastos (SILVA, 2001, p. 121-122).

Ainda pautado por tradição de seletividade, civismo e distinção no ensino secundário, o CMBH estimulou formas de atuação e protagonismo da juventude em seu meio, sempre sob as balizas da disciplina e da hierarquia. Essa disposição envolvia uma compreensão de que a estrutura educacional precisava se adequar às necessidades individuais dos estudantes, como é descrito no Anuário da instituição.

No Colégio Militar o aluno não é apenas um número, ou o integrante despersonalizado de uma coletividade impermeável às diferenciações.

Dia a dia, sua personalidade se vai delineando e seus contornos individuais se vão firmando. Neste desponta um problema de ajustamento disciplinar, aquele revela a necessidade de uma assistência mais detida por parte do orientador educacional, aquele outro requer a atenção especial do serviço médico. Para o atendimento a cada uma destas necessidades individuais existe um serviço especializado. No posto competente, alguém está atento, cheio de solicitude e de dedicação. (COLÉGIO MILITAR DE BELO HORIZONTE, 1965, p. 51).

65 Conforme previsto no regulamento, os filhos órfãos de militares estudavam com gratuidade total e os filhos com pais vivos tinham descontos nos custos (SILVA, 2001, p. 114).

Um discurso voltado para o reconhecimento das individualidades parece demonstrar que o CMBH tentava abrandar o caráter coletivo que envolvia o ensino militar e incorporar a atenção aos aspectos psicológicos e de saúde. Janowitz (1967) constatou que as organizações militares buscavam, nos anos 1950, trazer conhecimentos e procedimentos da área civil para sua operação, além de estimular as habilidades individuais, evitando que estas fossem abafadas por abordagens generalistas tradicionais.

Figura 13 – Atendimento de um estudante pelo orientador educacional

Fonte: Colégio Militar de Belo Horizonte, 1965, p. 52.

A presença dessa estrutura, evidenciada na figura 13, parece indicar também que, se o CMBH buscava se inserir no rol de instituições de ensino secundário de prestígio em Belo Horizonte, o colégio precisava dispor de serviços e equipamentos que não fossem limitados ao universo militar propriamente dito. O fato de lidar com crianças e adolescentes vindos, em sua maioria, de famílias civis, exigia do colégio uma estrutura capaz de gerenciar um público que via a instituição talvez menos como um quartel formador de soldados e mais como uma escola que os capacitasse para o mercado de trabalho.

A mobilização estudantil no CMBH acontecia principalmente através da Sociedade Literária, que organizava as comemorações de datas cívicas, e do Grêmio Estudantil Wanderley Vereza, que se dedicava à recreação com exibições de filmes, audições musicais, jogos de salão, horas dançantes, campeonatos diversos, etc.

Figura 14 – Membros da Sociedade Literária e do Grêmio Estudantil do CMBH em 1965

Fonte: Colégio Militar de Belo Horizonte, 1965, p. 65.

Não há nenhuma menção à participação dos estudantes nas mobilizações estudantis em curso no país nas décadas de 1950 e 1960. O CMBH e os demais colégios militares controlavam diretamente os movimentos estudantis nas unidades, direcionando-os ao ideal da “juventude ordeira” e de uma atuação intramuros e a atividades de cunho apolítico e cívico.

Não por acaso, a presença de agitações políticas nos colégios militares é um tema praticamente ausente nas fontes analisadas, como se poderia supor em uma instituição de cunho fortemente hierárquico e conservador. As menções a isso ocorrem apenas de forma muito indireta: por exemplo, em sua biografia, Clóvis Salgado cita, no período em que estudou no CMRJ, a disputa entre professores positivistas e marxistas e enaltece os conhecimentos do professor de História Isnard Dantas Barreto, que era marxista e crítico aos positivistas, definindo-os como “antolhos, que só olhavam numa direção” (MONTEIRO, 2007, p. 18-21).

Em discurso de 23 de setembro de 1957, o então senador Assis Chateaubriand relatava em uma sessão legislativa que um general lhe contara “que ouvira pirralhos do Colégio Militar, invectivando como ‘entreguistas’ estadistas dos mais respeitáveis dos tempos passados e da era presente da sociedade brasileira” (BRASIL, 1958a, p. 223).