Natália Ramos da Silva (1); Sandra Alves da Silva (2); Jedeane Costa Rodrigues (3) (1) Universidade Federal de Pernambuco e Ministério Público de Pernambuco.
E-mail: [email protected].
(2) Ministério Público de Pernambuco. E-mail: [email protected]. (3) Universidade Federal de Pernambuco e Ministério Público de Pernambuco.
E-mail: [email protected].
Introdução
O presente trabalho é resultado da experiência profissional em assessoria prestado pelo Serviço Social às decisões das Promotoras de Justiça da Infância e Juventude da cidade de Recife em matéria de direitos individuais, difusos e coletivos. A função de tais promotorias é garantir os direitos de crianças e adolescentes da respectiva comarca, atuando diante de denúncias de violação de direitos e/ou situações de risco. Dessa forma, a partir de janeiro de 2015 recebemos vários procedimentos de denúncias de crianças e adolescentes que foram localizadas em semáforos na cidade de Recife, mendigando, ou inseridas na exploração de trabalho infantil. Pela complexidade dos casos, as promotoras envolvidas nas ações solicitaram estudo social da equipe técnica, no final das intervenções o serviço social sentiu a necessidade de sistematizar as informações sobre essas famílias, no intuito de fomentar discussões futuras. Para sistematizar tais informações fez-se necessário a construção de um perfil que proporcionasse a compreensão das dinâmicas que envolviam esses sujeitos e como as políticas sociais eram acessadas por esse público, considerando a conjuntura atual de deslegitimação dos direitos sociais. E nesse sentido verificar se a rede de proteção estava atuando na perspectiva de proteger e restabelecer os direitos dessas crianças e adolescentes. Assim nosso objetivo neste trabalho é apresentar os resultados acerca do levantamento do perfil de famílias de crianças e adolescentes que vivem em situação de rua na cidade do Recife, ressaltando as principais vulnerabilidades e violações percebidas pelo serviço social nestes casos.
Metodologia
A metodologia utilizada para elaboração desse trabalho consistiu na pesquisa documental e na elaboração do perfil das famílias em situação de rua e mendicância atendidas pelo Serviço Social no período de janeiro a julho de 2015. Na pesquisa documental, foram analisados os documentos de domínio público e os relatórios sociais, com esses dados traçamos o perfil das famílias acompanhadas. No momento de sistematização das informações para a realização desse trabalho, analisamos a realidade sob a luz da literatura sobre políticas sociais e direitas sociais, além das legislações pertinentes ao caso. Buscamos direcionar a nossa analise de
forma qualitativa, uma vez que nossa pretensão não era apenas quantificar a ocorrência do fenômeno, e sim, compreender os elementos e dinâmicas que o caracterizavam.
Resultados e discussões
Para intervir sobre situação de rua, partimos da premissa que estas se encontravam em situação de vulnerabilidade social e trabalho infantil. Entendemos vulnerabilidade social de crianças e adolescentes “quando seu desenvolvimento não ocorrer de acordo com o esperado para a sua faixa etária, segundo os parâmetros de sua cultura” (KOLLER; ANTONI; CARPENA, 2012, p.157). Sobre trabalho infantil concordamos que é “toda forma de trabalho exercido por crianças e adolescentes, abaixo da idade mínima legal permitida para o trabalho (CUSTÓDIO, 2009, p. 50). Suas consequências foram estudadas por Paganini que destacou que “o trabalho infantil se insere como um meio de reprodução da pobreza, pois reduz as possibilidades de ascensão profissional futura de crianças e adolescentes e geralmente é associado a evasão escolar, representando a efetiva violação dos direitos fundamentais. (PAGANINI, 2011:08). Acompanhamos de janeiro a julho de 2015, 16 crianças e 05 adolescentes, distribuídas entre 09 famílias, que residem nas (Região Político-administrativa) RPAs 01 e 06. Todas foram identificadas pelo Serviço Especializado em Abordagem Social de Rua (SEAS). A estratégia utilizada foi a intervenção em rede que incluiu a equipe do SEAS, o CRAS15 e CREAS16, os
Conselhos Tutelares, os equipamentos de saúde (Distrito Sanitário, Estratégia de Saúde da Família, Núcleo de Apoio à Saúde da Família, etc.) e as 32ª e 33ª promotorias, que atuam em casos coletivos e a 2ª promotoria que atua em casos individuais e a equipe técnica destas promotorias. Nas famílias estudadas observamos que estas têm culturalmente levado suas crianças e adolescentes para a mendicância, por outro lado percebemos que as famílias apresentam várias fragilidades socioeconômicas e entendemos que a capacidade da família para desempenhar plenamente suas responsabilidades e funções é fortemente interligada ao seu acesso aos direitos universais de saúde, educação e demais direitos sociais (BRASIL, 2013, p. 27). Historicamente, nota-se a tendência da família a ser sobrecarregada diante da incapacidade do Estado de prover segurança social às pessoas. Goldani , ao analisar a família como fator de proteção social, mostra a absorção por essa de maiores responsabilidades diante da fragilidade das ações estatais, de políticas públicas insuficientes, jogando sobre estas o peso e a responsabilidade de suprir sozinha com os cuidados a seus filhos (2001). Já nos casos de situação de rua de crianças e adolescentes o que se destaca é o uso de substâncias psicoativas e conflitos os familiares que tem levado continuamente crianças e adolescentes para a rua. Nos encaminhamentos que foram realizados para a rede de proteção foi percebido precarização dos serviços prestados e sobrecarga de trabalho para os profissionais da área. Na educação faltava vagas nas creches para atender todas as crianças que precisávamos encaminhar, já na assistência social, não havia equipe suficiente para dar conta de toda a carga de trabalho e os casos ficavam em uma fila de espera. Ou seja, a garantia de direitos esbarra na debilidade das políticas públicas.
15 Centro de Referência em Assistência Social
Conclusões
Com o levantamento do perfil das famílias das crianças e adolescentes em situação de rua e mendicância verificamos que a rede de cuidados que presta assistência a estes é existente e atuante, no entanto, também foi percebido que há certos limites de atuação impostos pela própria estrutura da política pública, seletivista, focalizada e fragmentada, que acaba por fragilizar o êxito das ações. A saída de casa para a rua realizada por crianças e adolescentes é um fenômeno que se vincula ao uso de substancias psicoativas e a sistemas de relações domésticas conflituosas. Já a mendicância se particularizava pela pobreza e exclusão social, as famílias reproduzem, por várias gerações a busca dos meios para sobreviver utilizando as crianças da família para mendigar, e essa postura se perpetua pela falta de acesso a educação. E dessa forma, apontamos como alternativa para a quebra desse círculo vicioso o incentivo continuo para a educação, o acesso as políticas sociais, principalmente saúde e educação e o trabalho dos equipamentos de assistência. Os CRAS e CREAS são de suma importância no acompanhamento a essas famílias, se os serviços de base territorializados não funcionam, todas as outras intervenções, mesmo as judicializadas, são menos eficazes. O Estatuto da Criança e do Adolescente é um marco legal de extrema importância na luta pela garantia de direitos desses sujeitos, no entanto, para concretizar tais direitos, legalmente conquistados, é necessário que as políticas públicas de educação, saúde, habitação, lazer, cultura, esporte, etc. existam e funcionem de forma articulada.
Referências
BRASIL, Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990, Estatuto da Criança e do Adolescente. CEDCA/PE, 2013.
CORAL, Marinês; BEZERRA, Angélica L. Silva; SANTOS, Silmara Mendes C. Violência e Criminalização da Pobreza na América Latina. In: TORRES, Maria Adriana (Org). Trabalho, Direitos e Políticas Sociais na América Latina. EDUFAL. Maceió, 2013.
CUSTÓDIO, André Viana; VERONESE, Josiane Rose Petry. Crianças Esquecidas: o trabalho infantil doméstico no Brasil. Curitiba: Multidéia, 2009.
KOLLER Silvia H.; ANTONI Clarissa de; CARPENA, Maria Elisa Fontana. Famílias de Crianças em Situação de Vulnerabilidade Social. In: BAPTISTA, Makilim; TEODORO, Maycoln L. M. (Org.). Psicologia de Família: teoria, avaliação e intervenção. Artmed. Porto Alegre, 2012.
PAGANINI, Juliana. O trabalho infantil no Brasil: uma história de exploração e sofrimento. Amicus Curiae, v..5, n.5 (2008), 2011.
POLÍTICAS AFIRMATIVAS: UMA ANÁLISE A PARTIR DE NANCY FRASER